Os exemplos que vêm de cima

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 05/09/2025)

Indiferentes ao que se passa do outro lado do mundo, incapazes de entenderem que nada será igual ou previsível enquanto Trump estiver na Casa Branca, os dirigentes europeus prosseguiram nos seus monólogos de Guerra Fria e verdades tidas como inquestionáveis.


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Durante uma dúzia de anos, pelo menos, dez bancos a actuar em Portugal — ou seja, todo o sistema bancário nacio­nal, incluindo o banco público — trocaram entre si, e numa base habitual, informação classificada sobre spreads, taxas de juro e política de empréstimos a particulares e empresas. Aquilo que imaginaría­mos ser um segredo concorrencial fechado a sete chaves era afinal uma descarada concertação entre supostos concorrentes, tendo como objectivo final o prejuízo dos seus clientes, impossibilitados de poderem escolher livremente o banco que melhores condições lhes desse. Esta história deveria encher de vergonha todos os banqueiros que temos e que tanto gostam de nos olhar do alto: eis aqui um sector determinante para a economia de um país, que, quando atravessa dificuldades, já várias vezes teve de ser socorrido com o dinheiro dos contribuintes, mas que, quando prospera, não dispensa a batota e a supressão ilegal do risco. Apurados os factos, o “cartel da banca”, como justamente ficou conhecido, foi condenado em quase simbólicos 225 milhões de multa pelo Tribunal do Comércio de Santarém, decisão revertida pelo Tribunal da Relação de Lisboa e depois confirmada pelo Constitucional, com fundamento no habitual manto diáfano da prescrição, que entre nós se confunde com absolvição, assim como acusação se confunde com condenação.

O mesmo destino justiceiro parece estar reservado ao “cartel da distribuição”, também condenado em 1ª instância a 700 milhões de multa, por idênticas e nobres actividades de concertação contra os consumidores. E depois pregam as virtudes da iniciativa privada, da livre concorrência e da necessidade de deixar o Estado de fora da economia! Mas quando dois dos sectores mais destacados e louvados da economia privada perderam a vergonha de fazer o contrário do que apregoam, o que há a esperar dos outros, do país?

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2 Em Tianjin, Xi Jinping reuniu o Grupo de Xangai — China, Rússia, Índia, Turquia e mais 16 nações, quase metade da população mundial, para, dizem, esboçar o princípio de uma ordem alternativa, ou de uma qualquer ordem — no comércio, no direito internacional, nas relações entre Estados — face à desordem instalada no mundo pelo fora da lei Donald Trump. Porém, indiferentes ao que se passa do outro lado do mundo, incapazes de entenderem que nada será igual ou previsível enquanto Trump estiver na Casa Branca, os dirigentes europeus prosseguiram nos seus monólogos de Guerra Fria e verdades tidas como inquestionáveis. Se o avião em que viajava Von der Leyen, no seu périplo de inspecção pela linha da frente da anunciada guerra com a Rússia, perdeu o GPS, como tem sucedido com outros na zona do Mar Negro, a Comissão Europeia fala imedia­tamente em “ataque russo” e a sua presidente, miraculosamente salva, ganha o estatuto de heroína de guerra. O ataque aéreo russo — esse sim, verdadeiro — que atingiu lateralmente o edifício da UE em Kiev e que, em toda a cidade, causou 17 mortes, foi classificado por Kaja Kallas, a chefe da diplomacia europeia como “um crime de guerra”. Mas Kallas, representando um minúsculo país de 1,3 milhões de habitantes, a Estónia, e escolhida para o cargo por ter uma biografia pessoal e familiar de ódio à Rússia, jamais viu motivos para se indignar com aquilo que hoje é reconhecido oficialmente como o genocídio em curso em Gaza. Segundo ela, “a Europa quer a paz, a América quer a paz, a Ucrânia quer a paz; a única que não quer a paz é a Rússia”. Não sei onde é que ela terá descoberto que a Ucrânia quer a paz, pois ainda não ouvi Zelensky declarar-se pronto a qualquer concessão, antes pelo contrário — e dizer que se quer a paz traduzida na retirada total dos russos e nenhuma concessão do outro lado não é uma demonstração séria de vontade de paz. Já quanto à Europa, nunca lhe vi a menor preocupação, o menor gesto ou tentativa de ajudar a um acordo de paz, apenas e só a mesma política inalterável: mais armas para a Ucrânia compradas aos americanos, mais sanções para a Rússia, mais despesas dos europeus para a guerra iminente.

Os exemplos que vêm de cima
Ilustração Hugo Pinto

Entretanto, o mais próximo inimigo da Europa, Donald Trump, goza nos corredores de Bruxelas de uma condescendência, expressa num discurso unanimista do qual só destoam três ou quatro países. Até o nosso António Costa, outrora um socialista do sul da Europa e aparentemente capaz de pensar pela própria cabeça, não tardou nada a alinhar pelo discurso imperativo da maioria e da sua chefe. Se fosse repetida a cena de Istambul, desta vez não seria Costa que deixaria Von der Leyen de pé, mas esta a ele. E, quando tão a despropósito se fala de Munique a pretexto de não poder ceder nada a Putin, o mais parecido que eu vi com Munique foi a cena do clube de golfe de Trump, na Escócia, quando Von der Leyen ajoelhou e capitulou em toda a linha aos pés de Trump para, disseram-nos, “terminar com a imprevisibilidade” da guerra das tarifas. António Costa tinha dito, depois da cimeira da NATO, que obrigou os europeus a comprometerem-se com gastos em segurança e defesa equivalentes a 5% do PIB e na compra maciça de armas aos Estados Unidos, que eles seriam compensados depois quando se regulassem as tarifas entre ambos os lados. Sucedeu pior do que o oposto, o que não impediu António Costa agora de vir dizer que o “acordo” feito sob chantagem foi a “decisão mais inteligente e responsável” por parte da Europa.

Mas tudo isto faz sentido, à luz do que tem sido o desempenho da liderança europeia. Bruxelas assiste, absolutamente alheia e temerosa de desagradar a Trump, às tentativas — por parte de países asiáticos liderados pela China, mas também de desalinhados como o Brasil, o Canadá, a África do Sul — de criar uma alternativa capaz de enfrentar um Presidente americano que acha que pode dar ordens a qualquer nação estrangeira. Aliás, nas vésperas da humilhação escocesa, Von der Leyen e António Costa foram em via­gem oficial a Pequim. Procurar um esboço de parceira estratégica, pelo menos no comércio bilateral? Tentar sintonizar as respectivas economias para enfrentar os novos desafios, comprometerem-se mutuamente na continuidade do combate às alterações climáticas, à revelia de Trump? Não, nada disso, foram falar de alto a Xi, como não se atrevem a falar nem a Trump nem a Netanyahu, e como se representassem alguma coisa mais do que os serventuários voluntários desse “aliado fundamental”, como diz António Costa, referindo-se ao amigo americano.

3 A deputada do Chega Rita Matias (já habitual nestas coisas) acolheu, divulgou e ampliou um post de um militante do partido que sustentava que, enquanto que os imigrantes chegados a Portugal só por esse facto beneficiam logo de apoios do Estado, os bombeiros voluntários combatem os fogos sem nada receber em troca. Ambas as coisas são falsas: os imigrantes não beneficiam de quaisquer apoios por o serem e os bombeiros voluntários, apesar do nome, recebem 75 euros por dia de combate ao fogo (mesmo para “voluntários” é bem pouco, mas há países, porventura mais inteligentes, onde os bombeiros, voluntários ou profissionais, não recebem por cada dia a combater fogos, mas o contrário: por cada dia em que não houve fogos, sinal de que antes investiram na prevenção e na vigilância). Irá a senhora deputada repor a verdade ou dá mais jeito deixar correr a mentira?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Cinzas

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/08/2025)

Quando tudo deveria ser repensado e reprogramado, em defesa da sobrevivência do que resta da vida no interior do país, o Governo acha que sossega tudo com 45 medidas avulsas.


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e um alto da serra do Açor, uma “área protegida”, a ministra do Ambiente contemplava o mar de cinzas a seus pés e comentava que felizmente tinha sobrevivido um pequeno oásis de carvalhos, árvores de combustão lenta e que mantêm a humidade no solo. Tudo à volta era um cemitério de eucaliptos queimados, chegando mesmo às primeiras casas da aldeia. É estranho este desperdício da memória e do saber ancestral dos habitantes destes povoados do Centro e Norte — nunca antes a floresta chegava às portas da aldeia, esta era, sim, rodeada por jardins, hortas, vinhas, pomares e, para sombrear as ruas, árvores frondosas, mas de crescimento e fogo lento: carvalhos, faias, castanheiros, tílias. Mas isso foi antes de Portugal se ter entregue — não sem vários avisos em contrário — à monocultura fatal dos eucaliptos e pinheiros-mansos, que tudo secam, tudo exterminam à volta e tudo incendeiam. Mas quando vi o ministro da Agricultura afirmar que só 4% da área ardida este Verão era de eucaliptal, fiquei na dúvida se ele veria televisão, no espanto de o saber já senhor de números que mais ninguém tem, mas na certeza de que nada de essencial irá mudar no futuro. Anos a ver o país a arder, umas vezes mais, outras menos, ensinaram-me que a seguir a grandes incêndios acontecem duas coisas garantidas: os bombeiros apressam-se a pedir melhores condições, mais material e mais dinheiro, e vêm à superfície, por dever de ofício, os defensores dos eucaliptos, tentando demonstrar “cientificamente” que somos cegos ou estúpidos. Devemos ser o único país do mundo onde se pretende confundir a cultura de eucaliptos com agricultura.

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2 Já tudo se disse sobre o Governo e os incêndios. Mas não é demais, a benefício futuro, recordar as três coisas mais preocupantes: a insensibilidade política, ou apenas humana, que um Governo viciado em propaganda e em verdades alternativas demonstrou; a perdição a que Luís Montenegro se entrega perante as poucas crises sérias que já foi chamado a enfrentar, e a incapacidade de extrair disto as devidas lições para o futuro e mudar o registo das políticas habituais — quando tudo deveria ser repensado e reprogramado em defesa da sobrevivência do que resta da vida no interior do país, o Governo acha que sossega tudo com 45 medidas avulsas, paridas num Conselho de Ministro extraordinário marcado para Viseu — como se as palavras “extraordinário” e “Viseu” tivessem o dom de tudo apagar e fazer esquecer. Nada de essencial vai mudar. Nada, nada.

Cinzas
Ilustração Hugo Pinto

3 Montenegro, coitado, só terá tido três dias de férias. Mas o seu estimado parceiro de vá­rias estratégias, parlamentares e governativas, o incansável André Ventura, esse emergiu de três, seguramente merecidas, semanas de férias para tentar ainda extrair dos salvados qualquer coisa de útil para si e a sua causa. Generosamente, José Luís Carneiro acusou-o apenas de 10 dias de desaparecimento, os 10 dias que abalaram o país, do Minho ao Mondego. Mas foram mais do que isso e foi uma estrondosa ausência para quem nos habituou a ocupar diariamente o palco desde que acorda até que já não haja mais ninguém acordado. Sem nunca antes ou durante os fogos se ter pronunciado sobre o assunto, Ventura tenta agora recuperar o tempo perdido jogando a artilharia habitual: CPI parlamentar, exigência da demissão da ministra da pasta, visita aos locais do inferno, elogio a tudo o que lhe cheira a autoridade. Mas nada de novo, nada de diferente, nada pensado sem ser para a ocasião. Se é com este parceiro que Montenegro espera governar o país nos próximos quatro anos, bem pode convocar o próximo Conselho de Ministros para Fátima.

4 Muito a medo, mas vencido pelas saudades, resolvi um destes dias fazer uma excursão solitária ao território dos Verões da minha infância, adolescência e juventude prolongada: Lagos e a praia D. Ana. Comecei pela Ponta da Piedade, que no meu tempo era apenas uma estrada sobre a falésia conduzindo a um farol e, em baixo, as incríveis, deslumbrantes e depois célebres grutas que o terramoto de 1755 abriu entre os rochedos. Visitei centenas de vezes todas e cada uma das grutas, demoradamente e tomando banho lá dentro, entre farrapos de sol entrando através das paredes de rocha, com os seus raios pousando no fundo e, através da água, tão transparente que parecia vidro, desenhando sombras e desmascarando os linguados escondidos na areia. Caramba, eu vi com os meus olhos! Porém, há muito tempo que não vou às grutas da Ponta da Piedade e suponho que hoje seja preciso tirar senha com hora marcada de tal maneira o seu acesso está congestionado por dezenas de caiaques e pirogas em excursão, ou barcos, de profissionais e amadores: entre aquilo e a Rua Cor de Rosa, do Cais do Sodré, a única diferença é a água. Mas cá em cima, ao lado do farol, aconteceu outra catástrofe: primeiro, nasceram umas casinhas brancas, quase inofensivas, mas depois, como sempre, tudo foi alastrando como uma doença má. Vivendas umas em cima das outras, hotéis, edifícios de vários andares, arruamentos em todas as direcções, até quase não conseguirmos dizer para que lado fica o mar. E uns cartazes da Câmara Municipal de Lagos garantindo que está a “regenerar” a Ponta da Piedade (foi você que pediu?) e que, uma vez regenerada, a natureza regressa em força. Confesso que nem nos meus piores pesadelos alguma vez me passou pela cabeça que o promontório da Ponta da Piedade pudesse vir a ser a nova zona de expansão urbanística de Lagos. Porém, havia um problema: como não queriam parar o “progresso”, em forma de construção, e as centenas ou milhares de novos habitantes não se podiam atirar lá de cima da falésia directamente para o mar, havia que arranjar praias novas ou espaço nas praias existentes para os acolher, visto que era para isso que eles viriam. Ora, ali nas redondezas há duas ­praias e uma impossibilidade física de inventar outra: Porto de Mós, onde desde há muitos anos não há um lugar para estacionar nem um metro para estender a toalha, e a mítica D. Ana, em tempos declarada a praia mais bonita do mundo pela “Condé Nast Traveler”. E foi então que algum crânio camarário se lembrou da solução milagrosa: aumentar a D. Ana, injectar-lhe toneladas extra de areia, a expensas dos contribuintes, a benefício dos hoteleiros e com o aval do Ambiente, da CCDRA, dos portos, da capitania e de quem mais de direito. Hoje, a praia da minha infância e juventude é uma caricatura de si mesma: há duas tonalidades de areia, a antiga e a nova, um tapete de conchas que cortam os pés junto à água, as rochas que eu escalava para saltar para a água ficam agora em terra na maré vazia e, pior do que tudo, o fabuloso enquadramento da baía entre as falésias deixou de existir. É o poder local no seu pior: um poder fatal.

5 Sobre as cinzas e a destruição de Gaza, Netanyahu, um criminoso de guerra e de paz, quer agora expulsar da sua capital em ruínas o milhão de palestinianos que lá vive. Para lado nenhum — ou, como disse o seu sinistro ministro do Interior, podem ficar e escolher se querem morrer debaixo de bombardeamentos ou morrer de fome. Eu, que venho da geração que marchou contra Hiroshima, contra a Guerra do Vietname, contra as guerras de África, achei que, pelo menos, nunca mais teríamos de ver alguém defender, sem vergonha, coisas como o genocídio étnico que Israel leva a cabo em Gaza e em breve na Cisjordânia. Mas não: mesmo aqui, em Portugal, Israel tem mais defensores da sua política de extermínio e de fome, dos seus ataques a hospitais ou acampamentos civis, dos seus 250 jornalistas assassinados do que alguma vez achei que fosse possível.

Numa televisão perto de mim, por exemplo, uma senhora defende regularmente, entusiasmada e embalada, os feitos de Israel, jurando que tudo o que testemunham em contrário ou que vimos com os nossos olhos é propaganda do Hamas. Vai ser candidata às autárquicas em Lisboa pela lista de Carlos Moedas. O que será, dr. Moedas, que a recomenda?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

E se saíssemos da NATO?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 11/04/2025)

Nem Portugal nem a Europa têm vantagem em manter-se numa NATO ao serviço dos humores e interesses dos Estados Unidos.


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NATO foi a resposta ocidental ao desastre da Conferência de Ialta (na Crimeia russa…), estavam os Aliados encaminhados para derrotar o III Reich. Perante um Roosevelt em estado de saúde terminal e um Churchill mal preparado, Estaline viu reconhecido o direito de abocanhar todos os territórios que, na sua contra-ofensiva até Berlim, a URSS conquistasse à Alemanha nazi. Assim nasceu aquilo a que depois um despeitado Churchill chamaria a “Cortina de Ferro” — consumada com o bloqueio de Berlim pelos russos em 1948 e a tomada de poder comunista na Checoslováquia no ano seguinte. Para responder a essa ameaça soviética na Europa, a NATO nasceria, assim, em 4 de Abril de 1949, através do Tratado de Washington, uma aliança militar mútua de autodefesa tendo como princípio fundamental o do artigo 5º do Tratado, segundo o qual o ataque a um dos seus membros era um ataque a todos, obrigando à mobilização de todos. O seu raio de abrangência ficou definido a norte do Trópico de Câncer — Europa e América do Norte. Nas palavras do seu primeiro secretário-geral, lord Ismay, o grande objectivo da NATO era “manter a Rússia fora, os Estados Unidos dentro e a Alemanha sob controle”, mas quando a URSS viu recusada a sua entrada e viu a Alemanha Federal ser admitida, respondeu criando o Pacto de Varsóvia, em 1955, reunindo militarmente todos os países sob o seu domínio.

Os dois blocos viveriam desde então 36 anos sem se confrontarem directamente, cumprindo o objectivo estratégico da NATO: dissuasão e distensão (détente). Até que, em 1991, Gorbatchov, vencido e convencido, poria fim à URSS e ao Pacto de Varsóvia. Com o fim de ambas as amea­ças ao Ocidente, discutiu-se na altura se faria sentido a manutenção da NATO ou, em alternativa, se não se deveria convidar a Rússia para a integrar. Ambas as hipóteses foram rejeitadas, mas, em contrapartida, o secretário de Estado americano James Baker prometeu aos russos que a NATO não cresceria “nem uma polegada para oriente”, visto que em Moscovo já não havia um inimigo, mas um parceiro estratégico. Sabe-se o que se seguiu: a NATO nunca mais parou de crescer para oriente, em direcção às fronteiras russas, arrolando no seu seio 14 ex-países membros do Pacto de Varsóvia, mais os historicamente neutrais Suécia e Finlândia, e louvando-se, neste caso, por ter acrescentado mais 1200 km de fronteira com a Rússia. Mas faltava-lhe a Ucrânia, no Sul da Rússia, e a Geórgia, nas suas costas.

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Conhecem a minha tese: Putin não quer restaurar o controle sobre o espaço da antiga URSS ou do Pacto de Varsóvia, ao contrário do que nos dizem e do que o PCP imagina e aspira, mas sim o da antiga Rússia Imperial, no que ele considera ser a “mãe Rússia” — a Rússia dos czares e não a dos sovietes. E a NATO quer cercar a Rússia por todos os lados, isolando-a e desgastando-a militar e economicamente. A guerra da Ucrânia resultou do confronto entre estas duas aventuras, quando o Ocidente incentivou a Geórgia e a Ucrânia a aderirem à NATO. A invasão da Ucrânia pela Rússia foi um acto ilegal e intolerável na sua violência, que trouxe a destruição e morte a um país soberano. Mas, podendo evitá-la, o Ocidente preferiu antes provocá-la, tirando vantagens estratégicas da invasão russa com objectivos bem definidos e também à custa dos ucrania­nos. Mas isto são histórias passadas e opiniões pessoais. O que agora me interessa é o papel de Portugal na NATO à luz dos últimos desenvolvimentos. Portugal foi um dos 12 países fundadores da NATO, que actualmente conta já com 32. E, voltando a lord Ismay, a Rússia (já não a URSS) continua de fora, os Estados Unidos dentro ou fora, conforme o seu interesse, e a Alemanha vai rearmar-se a sério com o apoio de todos os parceiros. É outra NATO e é a esta luz que eu levanto as minhas dúvidas sobre o interesse de Portugal em continuar a fazer parte dela. Pelas seguintes razões:

— Não é do interesse da Europa. Marco Rubio veio dizer aos parceiros europeus que há uma “histeria” sobre as intenções de Trump acerca da NATO: afinal ele não quererá abandonar a Europa. Mas um documento do Pentágono conhecido na semana passada diz que os EUA devem concentrar-se no plano único de acorrer a Taiwan em caso de invasão chinesa e, para tal, a defesa da Europa face à Rússia deve ser tarefa essencial dos europeus, para deixarem que os EUA se foquem na região do Indo-Pacífico. Se assim é, a Europa deve avançar para uma estrutura de defesa própria, que poderá ou não contar com os americanos, mas que deverá deixar de ter o comando militar americano e de estar politicamente sob a alçada da NATO. Os EUA só querem o rearmamento da Europa e a manutenção da NATO para que, integrada nesta, a Europa esteja pronta para os seguir na Ásia-Pacífico.

— A Europa não tem dinheiro. A presidente da Comissão Europeia, Von der Leyen, do nada propôs um plano de “rear­mamento” europeu no valor de €800 mil milhões para fazer face à invocada ameaça russa de invasão da Europa. Mas, com excepção do número de ogivas nuclea­res, a Europa, no seu conjunto e com o Reino Unido, já dispõe de superioridade sobre a Rússia em tudo: homens, aviões, tanques, artilharia. Por outro lado, a súbita febre bélica europeia fez esquecer à srª Von der Leyen que tem pendente o Plano Draghi, por si encomendado, e que prevê os mesmos €800 mil milhões para restabelecer a competitividade europeia naquilo que é essencial: reindustria­lização, descarbonização e digitalização da economia, desenvolvimento da investigação e ciência, combate ao empobrecimento demográfico e envelhecimento populacional e defesa do sistema social europeu. A duas despesas juntas não são sustentáveis, assim como os 5% do PIB em despesas com a defesa que os Estados Unidos exigem que os outros membros da NATO passem a gastar para os dispensarem da sua tarefa histórica de defenderem a Europa contra a Rússia. Investir na NATO nas condições determinadas pelos americanos é investir nos seus interesses, em prejuízo da construção de uma defesa europeia não dependente dos Estados Unidos.

— Será que a ameaça existe? Alguém lançou a ideia, outro e outros foram atrás, e tornou-se doutrina não contestável e, essa sim, uma histeria imparável nos areópagos europeus: a Rússia vai invadir-nos. Mas, por mais que nos assustem, até com o “kit de sobrevivência”, ainda não vi ninguém fornecer uma explicação com sentido sobre a vontade, as vantagens e a capacidade militar e económica da Rússia para invadir a Europa — ela que, segundo a inteligentsia ocidental, ao fim de três anos de guerra estará arruinada economicamente e terá já perdido 900 mil soldados em combate, sem conseguir tomar mais do que um quinto da Ucrânia. Os únicos que eu vi propor o upgrade da guerra da Ucrânia para uma guerra europeia foram Emmanuel Macron, ao defender o envio de soldados europeus para enfrentarem a Rússia na Ucrânia, depois secundado pelo cata-vento Keir Starmer.

— Portugal não tem interesse. Uma coisa era fazer parte da NATO quando existia uma ameaça real da URSS na fronteira alemã e em todos os mares, outra é integrá-la face a uma ameaça imaginada por parte da Rússia. Não nos cabe defender especificamente os vizinhos da Rússia, mas a Europa, como um todo, e na proporção da eventual ameaça que enfrentamos: se a Rússia viesse por aí adentro, quando cá chegasse ou a guerra já teria terminado ou já não existiria Europa. Não é, pois, exigível que todos os países europeus gastem a mesma percentagem do PIB em defesa, independentemente da suposta ou real ameaça a que estão expostos: se a ameaça viesse de Marrocos, nós estaríamos na linha da frente; vinda da Rússia, a linha da frente é a Finlândia, os países bálticos, a Polónia — se se sentem directamente ameaçados, cabe-lhes gastar mais. Além de que a posição portuguesa dentro de uma organização colectiva de defesa — europeia ou atlântica — tem de ser conciliável com o específico interesse nacio­nal. E este é pôr à disposição colectiva, como fizemos sempre, o porta-aviões natural dos Açores e defender a nossa parte do Atlântico e as nossas águas territoriais. Para isso precisamos de corvetas, lanchas rápidas, porta-drones, navios-patrulha ou aviões de reconhecimento, e não de mais submarinos, tanques ou os já cobiçados F35 — além do mais, armadilhados pela Lockeed Martin a mando do Pentágono.

— Portugal não tem dinheiro. E depois não temos, nem de longe, o dinheiro que nos exigem, seja para a NATO, seja para o rearmamento europeu, seja para ambos os destinos. Para chegarmos aos 3% do PIB em defesa, vamos precisar de gastar mais €8600 milhões todos os anos; para atingir os 3,5% que exigem já, seriam mais €10 mil milhões, e para chegar aos 5% exigidos por Washington, seriam mais €14,2 mil milhões — um PRR e quase o orçamento anual do SNS. Mas, mesmo que entrássemos nesta loucura despesista, haveria que a seguir resolver um problema: ou se transformava a carreira militar numa carreira de ricos ou não teríamos voluntários para tantas armas. E creio que, neste caso, não seria possível importá-los dos PALOP ou do Bangladexe.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia