Nunca sirvas quem serviu

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 31/10/2025)

O que mais me impressionou pelo ridículo foi a ideia, passada por toda a direita, de que adquirir a nacionalidade portuguesa é um privilégio raro, como se fôssemos um país de excelência e de referência.


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André Ventura é novo demais para ter conhecido na pele o que foi, no seu sufocante dia-a-dia, o Estado Novo, de Oliveira Salazar. Mas isso não é desculpa que sirva: eu também não vivi o nazismo mas não finjo não saber o que foi. André Ventura não ignora — apenas mente, omitindo os factos — que o regime anterior era corrupto até à medula, era corrupto por natureza e da forma mais amoral possível. A corrupção não se pagava habitualmente em dinheiro, pagava-se com empregos ou oportunidades de negócio, de um lado, e com lealdade política, do outro. A “cunha”, o “empenho”, a “palavrinha”, era aquilo que o corruptor de baixo buscava, dando em troca juras de fidelidade a Salazar. Era assim, por exemplo, que a PIDE recrutava muitos dos seus, que lhe chegavam pelo empenho do primo do ministro, do chefe local da Legião ou do partido único, ou mesmo do padre da aldeia. Vir para Lisboa trabalhar na PIDE era mais do que um emprego: era uma forma de promoção pessoal e social e um lugar de poder e intimidação. Em troca, os novos recrutas começavam o “estágio” por participarem “voluntariamente” nas sessões de espancamento dos presos políticos, subindo depois na escala da lealdade e das patifarias (e por isso é que em 25 de Abril de 74 não havia pides inocentes). Mas também havia a alta corrupção, aquela reservada exclusivamente aos fiéis do regime, não apenas aos lugares superiores da Administração Pública (onde só se acedia mediante uma jura de fidelidade), como igualmente aos grandes negócios, no continente e nas colónias, depois de demonstrada suficientemente a obediência inquestionável a Salazar. António Champalimaud atreveu-se a discordar e pagou isso com anos de exílio. Salazar, um homem intelectualmente cobarde, incapaz de enfrentar a discordância e mesmo o debate, foi o grande corruptor da nação, um corruptor de almas e de consciências, a pior das modalidades de corrupção (“O velho abutre é sábio e alisa as suas penas/a podridão lhe agrada e os seus discursos/têm o dom de tornar as almas mais pequenas.”)

Ventura não é ignorante, como finge para melhor cativar a legião de ignorantes que votam no Chega, nem é, menos ainda, estúpido, como outros que o rodeiam. Duvido muito que seja até saudoso do salazarismo ou de um regime como foi o do Estado Novo. O que ele é, sim, é um oportunista e um demagogo sem freio nem vergonha. Para corromper almas e conquistar votos entre a turbamulta dos alienados que o seguem, ele não tem escrúpulos em dizer-lhes tudo o que eles querem ouvir, seja o elogio de Salazar ou o de Estaline, se vier a propósito.

Sim, já oiço os “chegados”dizerem: este é um texto elitista de quem despreza o povo que vota no Chega e que se acha superior só porque leu uns livros e viu uns filmes (e não tem redes sociais). Pois bem, lamento desarmá-los logo: este é mesmo um texto elitista e, sim, eu tenho um profundo desprezo pelo povo do Chega. Mais, não acredito no futuro feliz de uma nação em que o “povo” — ou os políticos como Salazar ou Trump — se empenha numa batalha mortal pelo silenciamento das suas elites. São elas que fazem progredir os países, são elas que lançam as discussões que interessam para o futuro dos povos e para um mundo fundado na liberdade e na justiça. O povo, esse, está mais interessado e mobilizado em votar nas eleições no Benfica do que em votar para defender a democracia nas eleições políticas. E quando o povo ou os políticos obtêm êxito no silenciamento e afastamento das elites, triunfa a mediocridade, o oportunismo e a obediência de rebanho.

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De facto, eu não tenho grande admiração pelos portugueses, fui deixando de a ter à medida que eles próprios se foram achando cada vez melhores. Claro que conheci e conheço alguns portugueses notáveis, na sua profissão ou nos seus princípios, mas raramente vi serem-lhes reconhecidos e aproveitados os seus méritos. Ser pensionista, ser sindicalista da Função Pública ou ser influencer das redes sociais é mais reconhecido e mais gratificante. É por isso que eu jamais seria capaz de fazer política, de andar por aí, de aldeia em aldeia, a escutar respeitosamente o estimado povo, gritando que bons que eles são e que horrendos que são os políticos “corruptos” — o discurso de André Ventura. Não, definitivamente não enxergo a superioridade patriótica da ignorância militante ou a vantagem do saudosismo ditatorial.

Neste recente debate parlamentar sobre a nova lei da nacionalidade — feito sob bullying do Chega e cagaço do PSD — o que mais me impressionou pelo ridículo foi a ideia passada por toda a direita de que adquirir a nacionalidade portuguesa é um privilégio raro, como se fôssemos um país de excelência e de referência onde toda a gente quer viver e de que toda a gente gostaria de ser nacional — não podendo, infelizmente para eles, sentirem “o mesmo sangue português a correr nas veias”, na imortal declaração da deputada Cristina Rodrigues, do Chega. Como país de excelência, convém recordar que, a despeito da imensa carga fiscal a que o Estado recorre todos os anos para sustentar o seu sempre maior desvario despesista e a clientela eleitoral dos Governos, nada do que é importante e que o Estado deveria assegurar funciona: a saúde, a educação, a habitação, o investimento público, a justiça, o combate aos incên­dios, as fronteiras dos aeroportos, o que quer que seja. Apostamos tudo na monoindústria do turismo de massas, mas nem sequer somos capazes de montar um sistema decente para que os turistas não precisem de horas para passar a fronteira. Não estamos particularmente motivados para fazer filhos ou trabalhar, preferindo antes depender de mão-de-obra importada e mal paga, mas ainda nos damos ao luxo de tratar os imigrantes como indesejáveis e de afixar cartazes a avisá-los de que “Isto não é o Bangladesh” (querendo sugerir o quê? Que se vão embora e deixem avançar para as suas tarefas o povo trabalhador do Chega?). Passaremos a exigir agora aos candidatos “à honra e responsabilidade” de se tornarem cidadãos portugueses (Luís Montenegro dixit), além de saberem falar a língua e estarem cá há 10 anos, conhecimentos da cultura portuguesa, da organização política e valores democráticos da sociedade portuguesa e uma declaração escrita de “adesão aos princípios da República” — coisas que raros votantes e poucos deputados do Chega seriam capazes de ultrapassar sem batota.

Na verdade, os portugueses não têm assim tantas razões de queixa: acreditam que os dinheiros europeus, que nos sustentam há 50 anos, nunca terão fim; acreditam que nunca terão de ser eles a lavar as ruas, tratar dos velhos, apanhar frutos vermelhos ao sol de Verão, andar a pôr tijolos nas casas de que os nossos filhos têm necessidade; acreditam que podem tratar do alto da burra quem veio para cá fazer tudo isso, porque eles, felizes por estarem a viver num país tão extraordinário como Portugal, tudo encaixarão sem se irem embora, e acreditam ainda que, apesar de se trabalhar cada vez menos e pior, a situação deles vai ter obrigatoriamente de melhorar — nem que para isso seja preciso recorrer ao fantasma de Oliveira Salazar ou ao espantalho de André Ventura. Tudo visto, só se arrisca a democracia, que não é assim tão importante. Mas numa coisa somos bons: a fazer ditados para as ocasiões. Como este: nunca sirvas quem serviu.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Voando sobre uma terra de cucos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/10/2025)

Tudo visto e apurado, o Governo limitou-se a dar seguimento a uma tradição imutável da nossa política externa — a subserviência perante os Estados Unidos, Israel e Angola, por esta ordem.


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Então, recapitulemos: é verdade que o primeiro-ministro garantiu que Portugal não aceitaria a passagem de armas para Israel, mas caças F-35 não são armas, esclareceu ele, são brinquedos, daqueles que um ex-embaixador americano em Lisboa dizia que os nossos chefes militares tanto gostam e com os quais nos preparamos para ir gastar — segurem-se — 5 mil milhões de euros. É verdade que, por denúncia unilateral dos Estados Unidos, as Lajes deixaram de estar concessionadas a uma base aérea americana permanente, mas isso não impede que possa ser livremente utilizada por eles, sem contrapartidas e sempre que lhes convier — como para ajudar o amigo israelita, tal como em 1967 ou em 1973. Também é verdade que, apenas por uma questão de manter as aparências sobre a nossa soberania, os americanos estão vinculados a pedir autorização de sobrevoo e aterragem previamente, mas, como se viu no caso, nem é necessário que recebam uma resposta formal: basta que não haja resposta breve e está concedida a autorização por “deferimento tácito”, como sucede com um banal acto administrativo. É ainda verdade que estes factos, revelados por um jornal espanhol, ocasionaram uma imensa trapalhada no Governo, com a Defesa e os Negócios Estrangeiros a empurrarem culpas um para o outro e o PM a desabafar que não percebia tanta histeria sobre o assunto. De facto, tudo visto e apurado, o Governo limitou-se a dar cumprimento a uma tradição imutável da nossa política externa — a subserviência perante os Estados Unidos, Israel e Angola, por esta ordem —, especialmente marcante quando está em funções um Governo de direita (lembrem-se da Cimeira das Lajes e de Durão Barroso a dizer que tinha visto provas indesmentíveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque).

2 Como toda a gente percebeu, o CDS já não existe: estava morto e não sabia, como escreveu Cesare Pavese no “Ofício de Viver”. Aquilo que Luís Montenegro generosamente fez nem foi a impossível ressurreição de um cadáver, mas apenas dar uma oportunidade de emprego a Nuno Melo e a três amigos seus, depois de anos sem fim no bem-bom de Bruxelas. Mas, volta e meia, Nuno Melo empertiga-se, Paulo Núncio estrebucha na sua inconsciência gravatal e a gente do CDS que resta nas televisões lança umas atordoadas para cima da mesa, para ver se os distinguem do Chega. Ultimamente, o tema é quase sempre Israel, de cujos crimes o CDS e a nossa extrema-direita são acérrimos defensores, em nome, pasme-se, da civilização e dos valores cristãos. Com a história da flotilha para Gaza, Nuno Melo derreteu-se de prazer, esquecendo-se de que é membro menor de um Governo, que não lhe cabe a política externa desse Governo e que nele se representa apenas a si mesmo e não a um partido inexistente. Resultado: um chorrilho de disparates. Dizer que os integrantes da missão eram apoiantes dos terroristas do Hamas, como se os 2,2 milhões de palestinianos de Gaza fossem todos do Hamas, é típico do discurso propagandístico de Israel. E dizer que eles iam em direcção a um “território ocupado por terroristas” até está certo, embora seja o oposto do que quis dizer: Gaza é, de facto, um território ocupado, e ocupado por quem já matou 67 mil dos seus habitantes, ao serviço do Governo terrorista de Benjamin Netanyahu. Porque é que ele não se informa?

3 No ano passado, o SNS gastou 627 milhões de euros em cirurgias feitas em horas extraordinárias e pagas como tal. O esquema — porque é disso que se trata — permitiu a dermatologistas, ortopedistas e cirurgiões de outras especialidades (curiosamente, não urgentes) acumular súbitas fortunas não justificáveis e explica porque é que o SNS dobrou practicamente os seus custos em menos de cinco anos. Só não explica como é que os administradores hospitalares, os chefes de serviço, o Ministério assistem, conformados, a uma situação em que metade das cirurgias, em média, é feita fora do horário normal (no Porto, são só 20%). O que farão estes cirurgiões durante as horas de expediente?

4 São coisas destas que levam o Conselho das Finanças Públicas (CFP), na esteira de outros organismos, a prever que Portugal regressará já aos défices este ano, a menos que o Governo recorra a alguns truques de contabilidade bem conhecidos. Mas, a partir de 2026, não escaparemos nem com contabilidade criativa. A situação é tão transparente de ver que chega a ser irritante: o Governo da AD recebeu as contas públicas com um superavit de 1,2%, correspondente a 2,3 mil milhões de euros em caixa — a herança socialista. Dois anos e duas eleições depois, após ter satisfeito todas as reivindicações do funcionalismo público e de ter atirado sucessivos pacotes de dinheiro aos pensionistas, prepara-se para ver as contas públicas regressarem ao vermelho. Digam os ministros o que disserem, vai ser difícil justificar isto. Pelo que, segundo ainda o CFP, é de esperar que o Governo lance mão da arma mais a jeito: abandonar ou adiar até possível os investimentos a serem feitos com financiamento bonificado do BCE, mas que contam para o défice. Esgotamos, se o conseguirmos, os investimentos financiados a fundo perdido e, quando for necessário entrar com dinheiro para aproveitar juros baratos e uma oportunidade de apostar no desenvolvimento, passamos. Traduzindo: o Governo abdica de investir na economia para poder gastar dinheiro em despesa corrente e permanente. Para ganhar eleições.

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5 Quando não se esgota na exigência de aumentos dos salários e pensões ou na acusação ao PS de estar ao serviço da direita — um mantra que eu imagino que seja de cumprimento semanal obrigatório para um secretário-geral do PCP —, Paulo Raimundo gosta de produzir frases que imagina de efeito instantâneo, tipo quizz, e em estilo irónico-evidente, como se acabasse de descobrir a pólvora. A última destas foi a afirmação de que “o povo não come PIB”. Mas está enganado: come, sim. Eu explico: o PIB representa toda a riqueza produzida num país, seja na indústria, na agricultura, nas pescas, nas minas, nas exportações, e é o resultado do esforço de todos — trabalhadores, empresários, investidores, Estado. O PIB português foi de 290 mil milhões de euros no ano passado, mas se por azar vivêssemos num país africano mediano seria, talvez, de 29 mil milhões, 10 vezes menos. Haveria portugueses a passar fome a sério, muito mais deficiências na Saúde pública, nos transportes, na qualidade de vida em geral, porque quanto mais rico é um país melhor vivem os seus. Isto, que é do senso comum, ainda não entrou na cabeça dos comunistas portugueses, amarrados a mandamentos pré-históricos do marxismo-leninismo, para o qual quanto mais pobre e desigual for um país mais hipóteses de sucesso terá a revolução comunista. A História, porém, tem-se encarregado de mostrar que, quando podem escolher, os povos preferem o primeiro cenário, preferem o PIB. Porque é que Paulo Raimundo também não se informa melhor?

6 A procuradora-geral da República, que passou à História como aquela que conseguiu derrubar um Governo de maio­ria absoluta com um simples parágrafo em que lançava para o ar suspeitas sobre a idoneidade do primeiro-ministro, foi sucedida por um PGR que acha absolutamente normal que, dois anos volvidos, o Ministério Público (MP) a que preside continue a investigar se esse PM foi ou não corrompido. E que acaba agora de declarar que também acha absolutamente “regular” que o MP ande três anos a investigar, seguir e devassar a vida de um juiz de instrução de quem não gosta, abrindo-lhe quatro diferentes inquéritos, escudado numa denúncia de corrupção supostamente anónima e fundada em supostos factos facilmente desmentíveis. Naquela casa confundem autonomia com arrogância e roda livre, e nem o apelo a uma reflexão por parte do Presidente da República os faz pensar. Pior para eles: não querem reflectir a bem, talvez tenham de o fazer a mal, quando o Estado de Direito, que assim vão descredibilizando, conduzir ao poder os populistas que se alimentam desse descrédito. E a autonomia do MP for uma das primeiras coisas a ser sacrificada.



P.S. 1 — Brilhante, corajoso e inteligente o programa de Filomena Cautela sobre as redes sociais, na RTP1, esta semana. Devia passar em todas as aulas de cidadania, em todas as escolas do país.

P.S. 2 — Este artigo foi escrito antes de ser anunciado que estava fechado um acordo de paz para o Médio Oriente.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Endoideceram

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/09/2025)

O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas.


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Andamos todos entretidos nas nossas vidas, tratando do que temos de tratar e discutindo outras coisas, umas importantes, outras não tanto, e não queremos entender ou rendermo-nos à evidência de que, num mundo à parte, um escol de dirigentes políticos endoidecidos se prepara para nos servir uma guerra mundial ao virar da esquina. Uma guerra cujas razões ou inevitabilidade não enxergamos e cujas consequências nem sequer conseguimos imaginar em todo o seu horror.

Não, em vida da minha geração o mundo nunca esteve tão perto da guerra. Não o mundo cuja forma habitual de vida é a guerra — em África, no Médio Oriente ou em disputas religiosas ou tribais por esses tristes trópicos. Mas sim o mundo inteiro, a Humanidade como a conhecemos. Em 1979, a União Soviética, de Brejnev, e o seu sinistro séquito de personagens resolveram instalar mísseis de longo alcance nos limites dos países da Cortina de Ferro, os SS-20, apontados às principais capitais europeias. A NATO convocou uma cimeira de urgência para o seu quartel-general em Bruxelas e eu estive lá a cobrir a reunião para a televisão portuguesa. Foi a célebre reunião em que milhares de manifestantes, vindos de vários pontos da Europa, gritavam “better red than death”, instando os dirigentes da ­Aliança a não responderem à ameaça soviética. Eu, porém, torcia intimamente para que respondessem, e foi o que fizeram: a instalação recíproca dos Cruises e Pershings II americanos apontados ao Leste não só fez re­cuar a ameaça iminente como, a prazo e em consequência, conduziria à implosão da URSS. Gosto de recordar este episódio porque há quem se esforce para nos convencer de que agora estamos exactamente na mesma situação. Mas é falso: primeiro, já não existe a União Soviética, mas sim a Rússia — que, mesmo que alimente veleidades imperiais, não se move por ideologia, mas por interesse nacional, o que é mais racional. Em segundo lugar, a NATO tem hoje 32 e não 12 membros e deixou há muito de ser uma organização militar estritamente defensiva para passar a ser o longo braço armado do cerco à Rússia. E, finalmente, em 1979 os russos tinham-nos na mira de novos mísseis nucleares de longo alcance, enquanto hoje o que leva o primeiro-ministro polaco a declarar que estamos à beira da Terceira Guerra Mundial foram 19 drones, de um total de 450, que, num ataque à zona ocidental da Ucrânia, ultrapassaram a fronteira e caíram no lado polaco, danificando um telhado de uma casa e um tejadilho de um carro. Um “teste”, uma “provocação” ou, melhor ainda, um “ataque”, como logo o classificaram todos os dirigentes nacionais da NATO, o seu secretário-geral e a imprensa que desde a invasão da Ucrânia os segue acriticamente, e que é quase toda. Obviamente, a explicação de um mero erro de cálculo não podia convencer quem se esforça para nos convencer todos os dias de que estamos à beira da guerra e que, se não nos endividarmos perante as empresas de armamento americanas, Putin passará o próximo Verão, não na Crimeia, como Tchékhov e tantos outros russos célebres, mas na Côte d’Azur ou na Comporta.

Assim lançados na sua velada de armas, os nossos dirigentes ocidentais mergulharam numa histeria de declarações, sanções, exclusões do espaço aéreo, convocação urgente do Conselho de Segurança da ONU e dos embaixadores russos nas suas capitais para “explicações”— que jamais seriam aceites. O nosso Paulo Rangel saltou logo na dianteira, convocando o embaixador russo em Lisboa para se ir explicar às Necessidades, no que eu imagino que tenha sido uma eloquente conversa: “Sr. embaixador, vocês quiseram atacar a Polónia para quê?”; “Bem, sr. ministro, nós não quisemos nem atacámos a Polónia”…; “Terá sido, sr. embaixador, a preparação para a invasão em grande escala da Europa?”.

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Na véspera, por infeliz coincidência, Israel tinha repetido uma operação inaudita em termos de lei internacional: tinha bombardeado a capital de um país terceiro para matar no seu solo inimigos internos que perseguia. Com a agravante de os alvos serem os mesmíssimos negociadores do Hamas com quem era suposto estar a tentar chegar a um acordo de paz para Gaza e de o país agredido ser o país anfitrião das negociações e a que Netanyahu passou a chamar um país que “alberga terroristas”. Todos os dias, aliás, numa televisão em frente de si, os poucos repórteres de imagem palestinianos que ainda não foram mortos — e os únicos que Israel não pode impedir de lá estarem — mostram aos nossos estimados dirigentes ocidentais torres de habitação a serem destruídas como no 11 de Setembro em Nova Iorque, hospitais e acampamentos a serem bombardeados, crianças esfaimadas a serem mortas a tiro quando querem arranjar comida. Mas, com excepção de Espanha e de Pedro Sánchez, eles não vêem nada, fazem-se de mortos. Pior: nos Estados Unidos da América expulsam-se estudantes, professores, funcionários públicos ou jornalistas de televisão que mostrem alguma espécie de solidariedade para com os palestinianos; em Inglaterra prendem-se centenas de manifestantes contra o genocídio de Gaza; na Alemanha cancelam-se todos os que ousem condenar o maior crime a que estamos a assistir neste século. Assim vão as democracias ocidentais de referência. Assim se comportam, como coniventes com a loucura assassina de Israel, os que nos querem antes arrastar para uma guerra terminal com a Rússia por causa de uns drones que falharam o alvo. Sim, Putin é um assassino, não há qualquer dúvida sobre isso, mas Netanyahu é bem pior, em quantidade e em ostensiva indiferença; sim, a invasão da Ucrânia é ilegítima e intolerável, mas tudo o que se passa na Palestina desde há décadas é bem mais grave e insuportável. E há — eu pelo menos acredito — outra diferença fundamental: querendo, a Europa poderia conseguir o fim da guerra da Ucrânia, mas o fim do genocídio em Gaza duvido. O problema é que nem a Europa nem a NATO querem o fim de qualquer das guerras, estão alinhadas de corpo e alma com o lobby israelita e com o lobby das armas. Mas, descuidando-se, arriscam-se a ver o início de uma guerra nuclear, não por causa da Rússia na Ucrânia, mas por causa de Israel com todos à sua volta.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia