A caminho dos “territórios desconhecidos de destruição”

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 24/09/2022)

Miguel Sousa Tavares

Conheço uma casa no Alentejo que foi construída em frente a um lago que nunca seca, mesmo nos anos mais secos como este de 2022, pois que, além de recolher a água das chuvas, é alimentado por duas nascentes. Até há uns anos, aquele lago parecia uma Arca de Noé ou um filme ao vivo da “National Geo­graphic Magazine”: não havia quase animal algum autóctone que não vivesse ou não parasse por ali, em terra, no ar ou na água. Havia perdizes, lebres, raposas e uma tal abundância de coe­lhos que mais parecia uma invasão; no ar voavam constantemente bandos de patos-bravos e cordas de pombos-bravos, que, de tantos, às vezes até assustavam; mais carraceiras, rabilongos, águias em voos de rapina circulares, e ao longe ouvia-se o som do cuco e do pica-pau; nas margens do lago passeavam entre os tufos de erva toda a espécie de aves aquáticas, desde as galinhas-d’água até às garças, brancas e cinzentas, e mesmo, de quando em vez, flamingos; e na água viviam lagostins-de-água-doce e peixes — carpas, bogas, achigãs — que nasciam na Primavera e saltavam de alegria fora da água no Verão. Mas, acima de tudo, o que mais impressionava era o inacreditável concerto de rãs à beira do lago nos finais de tarde, que chegava a ser ensurdecedor, até o sol se pôr e ser então substituído pelo canto dos grilos e o piar das aves nocturnas, mochos e corujas, chamando-se uns aos outros através das sombras dos sobreiros e das azinheiras.

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Primeiro, desapareceram os coelhos, devastados por uma doença de que não se descobre nem a origem nem a cura. Depois, desapareceram todos os habitantes aquáticos do lago, a começar pelas rãs, ao que se conta dizimados pelas cegonhas, que, entretanto, surgiram do nada para se transformarem numa praga protegida. Mas, estranhamente também, desapareceram os mosquitos, que incomodavam as noites, e as vespas, que faziam o mesmo aos dias: aos poucos, foram desaparecendo todos os insectos. E todas as aves do ar e na margem do lago. Nunca mais se ouviu o pica-pau a furar a sua árvore, nunca mais se escutou o cuco ou o piar do mocho, nunca mais se avistou um pombo no céu ou um pato na água. Nem sequer as cegonhas, cumprida a sua missão. Agora, só javalis, aliás indiferentes à presença humana. Se eu não soubesse ainda que alguma coisa de estranho e grave se está a passar com o planeta onde vivemos, bastava-me ter voltado àquele lago agora para não me restarem dúvidas. E ali não se faz agricultura assassina e subsidiada pelo Governo, não se plantam espé­cies exóticas e bêbadas de água, como o abacate do México ou o amendoal intensivo expulso da Califórnia e acolhido de braços abertos no Alqueva, não se cultivam frutos vermelhos em estufas de escravos asiáticos, não se usam herbicidas nem insecticidas, há anos convencionalmente proibidos mas nunca banidos na prática. Ali era a natureza em estado puro e agora é a morte da natureza em estado visível. Eu ouvi e li. Mas, acima de tudo, vi. Ninguém me contou, eu fui vendo. Fui vendo ali e noutros lados, em Trás-os-Montes, na Beira, no Alentejo, no Algarve. Onde antes havia ribeiros, agora há riachos ou apenas ouedes, como no Norte de África se chama à memória das linhas de água; onde antes havia paisagens ainda verdes, agora há cinzas e árvores queimadas e sempre os horrendos eucaliptos a renasceram para alimentarem o próximo fogo; onde outrora havia rebanhos, caça, aves e sinais de vida, agora há um deserto silencioso e assustador, e onde antes ainda havia gente, aldeias, casais e hortas, agora há ruínas e silêncio e, de repente, como num filme de ficção científica, ilhas de um verde intenso, onde se produz intensamente olival, amendoal, laranjal, abacate, regado até à loucura com a água que hoje falta nas ribeiras e nas barragens e que amanhã faltará nas torneiras.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Este Verão, Portugal e a Europa bateram recordes de temperatura nunca antes atingidos. Todos os rios de referência da Europa — o Danúbio, o Ebro, o Tibre, o Loire, o Tamisa — e todas as grandes barragens esvaziaram-se até ao esqueleto, numa antevisão tenebrosa daquilo que nos espera no futuro próximo. Num relatório apresentado há dias pela Organização Metereológica Mundial, estima-se que num dos próximos cinco anos viveremos o ano mais quente de que há memória, com as temperaturas a subirem, em média, 1,5 graus — exactamente aquilo que se queria evitar que acontecesse antes de 2050 e que mais de 150 países se tinham comprometido em Paris a tudo fazer para o evitar.

Hoje, porém, sabemos que tudo andou para trás, com a desculpa da guerra da Ucrânia: o regresso em força às energias fósseis (incluindo as centrais a carvão) fez com que as emissões de dióxido de carbono, responsáveis pelo aquecimento global, tenham já regressado a valores anteriores à pandemia, e sabemos que, mesmo que todos conseguissem imedia­tamente inverter o rumo e assegurar os compromissos estabelecidos para serem cumpridos até 2030, os danos são já irreversíveis — em 2050 já não será possível evitar que a temperatura do planeta se tenha fixado em pelo menos mais 1,5 graus do que hoje.

E daí para a frente entramos naquilo a que António Guterres chamou “territórios desconhecidos de destruição”, num processo de “sui­cídio colectivo” absolutamente irresponsável e demencial: aquecimento dos oceanos, degelo da calote polar, dos icebergues e dos Himalaias (com as inundações apocalípticas a que já estamos a assistir no Paquistão), secas extremas e prolongadas, começando pelos países sub-saarianos (onde o número de pessoas atingidas pela fome extrema duplicou nos últimos três anos), rios e barragens vazios ou reduzidos a caudais mínimos, culturas e animais em extinção, incêndios cada vez maiores e mais incontroláveis, água cada vez mais escassa para abastecer os humanos.

Nada disto, infelizmente, é uma visão catastrofista. Tudo é hoje matematicamente documentado e pacificamente aceite pela comunidade científica, excepção feita a alguns avatares que circulam à volta de Donald Trump ou Jair Bolsonaro. Já tenho, todavia, escutado algumas teses que, não podendo negar o caminho para a catástrofe, julgam descortinar alternativas. São essencialmente de dois tipos: o tipo optimista e o tipo conformista. O primeiro pretende que, in extremis, à 25ª hora, a ciência encontrará maneira de evitar o desastre, como já o fez tantas vezes antes, ou o próprio planeta se encarregará de se regenerar por si mesmo: não sei como é que isso possa ser feito e, sobretudo, não sei como possa ser feito a tempo. Já a tese conformista parece-me mais do domínio do possível, embora sinistra: dizem eles que o que estamos a viver é resultado da exaustão dos recursos naturais por excesso de exploração humana. E, assim sendo, vamos viver uma crise “regeneradora”: milhares de milhões de seres humanos vão morrer para que os outros possam sobreviver e, com a experiência adquirida e a ajuda da ciência, possam retomar a vida num planeta mais limpo e liberto da pressão sufocante de hoje. Um darwinismo planetário em que já se adivinha quem serão os milhares de milhões sacrificados à cabeça.

Seja como for, o que é evidente é que já não estamos a falar de um cenário para as próximas gerações, nem sequer para a próxima. Décadas de passividade perante os avisos que o planeta foi dando conduziram ao que de repente parece uma súbita aceleração dos indicadores do desastre, mas que é apenas a resposta da doença à falta de tratamento: a catástrofe é agora iminente. E se já pouco me espanta numa geração de líderes mundiais que prefere continuar irresponsavelmente a ocupar-se dos seus jogos de guerra, negócios de armas e de energia enquanto o mundo que habitamos se desintegra à vista de todos, espanta-me, sim, a indiferença com que a geração jovem assiste a isto, comodamente instalada no seu mundo virtual e hedonista à espera que a Greta Thunberg resolva o assunto por eles. Peguemos, por exemplo, no caso português, um dos países mais ameaçados pelas alterações climáticas e pela seca, onde a ministra da Agricultura declarava no ano passado, triunfante, que o Algarve tinha água garantida para os próximos dois anos e onde, portanto, se continua a aprovar cegamente todos os projectos agrícolas que nem nos países com chuvas abundantes são autorizados. No meu tempo de juventude, em que líamos jornais e livros e nos manifestávamos nas ruas contra a guerra de África, mas também contra a longínqua guerra do Vietname, tínhamos uma ideia romântica, e todavia necessária, de que, por pior que fosse o presente, o futuro teria de ser construído por nós. Aqui e agora, porém, vi que um milhão de jovens acorreu aos concertos de Verão e que 200 mil esgotaram em dois dias, fazendo velórios nocturnos, os quatro concerto dos Coldplay na Primavera que vem, em Coimbra. Li que as juventudes partidárias lá fizeram as suas habituais “Universidades de Verão”, onde ouviram os seniores dos partidos ensinar-lhes como se faz carreira na política. Mas nem aí nem em lado algum vi que se arranjasse sequer uma dezena de jovens para confrontar o primeiro-ministro, a ministra da Agricultura ou o do Ambiente com a catástrofe ambiental para que Portugal caminha à frente do pelotão europeu. Em tempos, o Vicente Jorge Silva chamou à geração jovem de então uma “geração rasca”. Se fosse vivo, não sei o que chamaria à de hoje. Mas talvez fosse simples: a última geração.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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A Rainha e os súbditos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 17/09/2022)

Miguel Sousa Tavares

A Rainha deu posse a Liz Truss como primeira-ministra na terça-feira da semana passada e dois dias depois morreu. Aparentemente, estava de perfeita saúde, apenas fraca, nessa terça-feira, mas, quando viu quem era a 14ª chefe de um Governo seu que lhe cabia nomear, ficou para morrer… e morreu mesmo. Essa era a fatalidade constitucional de Isabel II, a qual lhe coube arrastar em silêncio durante 70 longos anos: guardar para si os sinais evidentes de desconforto ou de desastre que a sua perspicácia lhe permitia ver mas obrigava a silenciar. Ao ponto de ir ao Parlamento ler um Discurso do Trono, integralmente escrito pelo primeiro-ministro Boris Johnson, em que prometia que “o meu Governo tudo fará para consumar rapidamente o ‘Brexit’” — a que ela, e outrora o próprio Boris Johnson (tal como Liz Truss), eram avessos.

Da edição semanal do Expresso para o formato podcast. A opinião de Miguel Sousa Tavares, de viva voz, todas as sextas-feiras. Com um tema extra, improvisado, para descobrir na parte final de cada episódio

Entre as várias coisas interessantes e as imensas banalidades e disparates que esta semana vi escritas ou ditas sobre Isabel II, li uma análise primária de uma nossa republicana facção histérica a proclamar que a Rainha fora uma privilegiada, que vivera uma vida inteira entre o luxo e a ociosidade. Como se o luxo fosse ter um séquito de empregados sempre em cima, ou ter 11 castelos ou palá­cios Tudor onde viver, ou ter de passar férias de Verão à chuva na Escócia. Ou como se a ociosidade, a falta de privacidade e a condenação pública ao silêncio para a vida fossem um privilégio. Há, seguramente, muitas razões válidas para se recusar a monarquia como sistema constitucional ou, simplesmente, para achar que não faz sentido considerá-la em países onde ela deixou há muito de estar institucionalizada, como é o caso de Portugal. Mas o argumento populista sobre os privilégios reais é o mais fraco de todos. É o argumento ditado pela inveja de rua, o mesmo que a rua aplica ao vencimento dos políticos, o argumento dos que defendem que toda a representação política deve ser exercida em estilo de sacerdócio — o caminho mais rápido para a corrupção e para a selecção de medíocres.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

No caso da família real inglesa — que é, de facto, riquíssima —, parte dessa riqueza é do Estado e parte é da própria família Windsor: Balmoral, por exemplo, onde a Rainha morreu, é propriedade deles. Mas se a lista de despesas da família real, autorizada e votada pelo Parlamento, e que já foi bem maior, é, ainda assim, enorme aos olhos de um inglês comum, é porque as instituições e o povo entendem que é esse o nível de representação adequado para a Casa Real. Todavia, e como é bem sabido, toda essa panache de símbolos, cerimónias e parafernália ligada à Casa Real inglesa traduz-se num volume incomparavelmente maior de receitas que ela proporciona, ligadas ao turismo, hotelaria, comércio, venda de jornais e revistas. A Rai­nha (e agora Carlos III), a respectiva família e o que eles fazem ou deixam de fazer são uma constante e inestimável contribuição para o PIB do Reino Unido. E não só: basta ter visto, entre nós, as doses maciças de cobertura televisiva dos intermináveis funerais da Rainha.

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Mas, sim: 14 dias de funeral, mesmo para uma Rainha de Inglaterra, mesmo para Isabel II, que reinou ao longo da vida de quase três gerações, é demasiado. Desde Tutankhamon que não se via nada assim. Dizem-nos que tal se ficou a dever ao respeito que ela inspirou no mundo inteiro, ao exemplo excepcional que foi de servidora pública, das convicções firmes que sempre manteve (todavia silenciosas ou apenas presumidas), do rigor e do sacrifício com que exerceu funções. Bem, a avaliar pela indigência dos discursos com que foi homenageada nos Comuns por Boris Johnson, Theresa May, Liz Truss ou o próprio filho Carlos, não custa acreditar que, ao pé deles, ela tenha sido excepcional. Mas quem, dos grandes do mundo da geração de Isabel II, não é hoje excepcional comparado com o que temos à vista? Comparado com estas marionetas escravas das opiniões públicas instantâneas, do politicamente correcto e das redes sociais? Reparem na nova primeira-ministra inglesa, esse cata-vento que muda de opinião mais depressa do que muda o vento no Canal da Mancha, que não foi capaz de dizer se a França é um amigo ou um inimigo de Inglaterra, mas que, logo após ter tomado posse perante a Rainha, correu a telefonar e prestar vassalagem a Zelensky para ficar bem-vista do lado de onde sopra o vento nos dias de hoje. Seria muito curioso saber o que terá pensado a Rainha, mesmo antes de morrer, se foi informada desse telefonema. Terá concordado com ele, tê-lo-á achado uma prioridade de um PM inglês acabado de ser empossado? Aliás, com toda a sua experiência do mundo e das guerras a que assistiu, ela, que começou a aprender política com o verdadeiro Churchill, o que pensaria da guerra da Ucrânia e da posição do seu Governo perante ela?

Quem, dos grandes do mundo da geração de Isabel II, não é hoje excepcional comparado com o que temos à vista?

Mas, para efeitos de política interna, Liz Truss fez bem em apressar-se a telefonar a Zelensky. Pouco depois, o “Churchill do Leste” começou manifestamente a ficar nervoso com o protagonismo que o interminável funeral da Rainha lhe estava a roubar e justamente no momento em que ele tinha triunfos sólidos no campo de batalha e motivos de escárnio dos soldados russos para anunciar ao mundo. Juntamente com novo pedido de mais armas do inesgotável armazém do Pentágono, prontamente acudido por Washington. Como a guerra é um vaivém, os russos dizem-se agora prontos para negociar, mas Zelensky não: quer a vitória total, com as armas americanas, o apoio da NATO e as sanções europeias, pagas com a respectiva crise económica. E a vitória total inclui já a Crimeia e, no ime­diato, a anunciada retoma da central nuclear da Zaporíjia — o que implica atacar a central, mesmo com o pessoal da ONU lá dentro (aquilo que os ucranianos acusavam os russos de fazer mas que estranhamente cessou assim que os observadores da Agência Internacional de Energia Atómica lá entraram).

Assim, a menos que Putin se disponha a sair da Ucrânia dando-se por vencido e humilhado — o que não é exactamente provável —, temos guerra para durar sem fim à vista. E com a dita “chantagem do gás” posta em prática por Putin, e que mais não é do que a resposta previsível e natural às sanções sobre a Rússia, avizinha-se um Inverno negro em toda a Europa e um futuro que poderá ser bastante pior do que apenas o fim do “tempo da abundância” de que falou Macron. Mas que trará consigo também novas franjas de pobreza e desespero, campo fértil para a radicalização e o populismo, que a extrema-direita saberá aproveitar, como já vimos na Suécia e em breve veremos em Itália. Na Primavera, passado um ano sobre o início de uma guerra que ninguém quis evitar, acordaremos para uma Europa em ruína económica, que terá retrocedido em todas as metas climáticas, que terá recuado na sua paisagem democrática e vacilado em alguns dos seus princípios essenciais e que, provavelmente, terá rompido a sua tão propalada solidariedade. E depois perguntaremos como foi possível, como é que ninguém viu o desastre a acontecer debaixo dos nossos olhos. Tarde demais.

Vivemos num tempo em que os Reis estão reduzidos ao silêncio por imperativo constitucional e os príncipes ou princesas de que o povo gosta chamam-se Diana ou Stéfanie e só abrem a boca para falar de si próprias e dizer baboseiras. E os outros, os príncipes de carácter, são corpos estranhos a abater. Se fosse vivo hoje, o velho Winston Churchill não teria lugar na política.

Um homem que tinha uma visão imperial de Inglaterra, que bebia demais e fumava charutos cubanos em público, que gostava de caçar animais selvagens em África, que acordava às duas da tarde e ditava discursos à secretária todo nu na banheira, enquanto tomava um pequeno-almoço pornográfico, não sobreviveria um mês exposto à opi­nião pública. É verdade que também tinha uma coragem absurda e que dizia rigorosamente o que pensava na cara de amigos e inimigos: mais uma razão para ser trucidado.

E talvez Isabel II também fosse trucidada se alguém se lembrasse de resgatar, a propósito da guerra da Ucrânia, uma sua frase de referência: “A busca da paz é talvez a mais difícil forma de liderança.”

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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200 anos de fado tropical

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/09/2022)

Miguel Sousa Tavares

A triste prova de que o Brasil é hoje um projecto falhado é que anteontem, no dia em que se celebraram os seus 200 anos de independência, o que ocupava as manchetes dos jornais brasileiros não era nem a história, nem a celebração, nem a exaltação do presente ou a outrora inabalável esperança no futuro, mas apenas o retrato a negro de um país tenso, dividido, onde se fala abertamente de golpe e se discute se a população deve ou não poder comprar ainda mais armas para enfrentar as decisivas eleições do próximo dia 2 de Outubro. De acordo com todas as previsões, Bolsonaro — cujo Governo passou um ano inteiro a desprezar ostensivamente o bicentenário da independência — aproveitou a data do 7 de Setembro para a transformar num misto de demonstração de força militar e intimidação política, transformando as cerimónias num indecoroso comício eleitoral, pondo soldados a desfilar ao lado de camionistas e tractoristas representativos da sua base de apoio rural e dos que desmatam uma área equivalente a 17 campos de futebol todos os dias na Amazónia — e com o nosso Presidente, como também era mais do que previsível, a prestar-se a caucionar aquela indecorosa fantochada. Ao mesmo tempo, Bolsonaro chamava “vagabundo” ao presidente do Supremo Tribunal Eleitoral e convidava para a tribuna de honra do desfile em Brasília, ao lado de Marcelo, oito empresários que, através de um grupo no Whats­App, tinham apelado a um golpe de Estado caso ele perca as eleições de 2 de Outubro. Ora, quando um Presidente da República em funções celebra assim 200 anos de independência do seu país, está quase tudo dito sobre o estado a que chegou esse país e o que ele fez com os seus dois séculos de independência.

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Quase, mas não tudo. É preciso acrescentar que o Brasil nasceu, por mandato divino, como um dos países mais ricos do mundo, no solo, no subsolo e na sua imensa extensão terrestre e marítima, a maior de qualquer país atlântico. Desde a sua descoberta pelos portugueses (sim, descoberta, desculpem lá), o Brasil viveu sucessivos ciclos de riqueza, ditados pela generosidade da sua terra ou das suas entranhas: o da madeira, o da cana-de-açúcar, o do algodão, o do ouro e dos diamantes, o do café, o da borracha, o do gado, o do aço e outros minerais. E agora o da destruição da Amazónia, que, a prazo, será uma tragédia para o Brasil e para o planeta. Acresce que ao longo da sua história, desde a chegada dos portugueses, o Brasil foi ainda beneficiado por uma mão-de-obra escrava, primeiro índia, depois negra: mais de cinco milhões de almas arrancadas de África pelo tráfico negreiro e que construíram o Brasil — uma infâmia só terminada com a abolição da escravatura em 1888, quase 70 anos depois da independência. Assim, já bem entrados no século XXI, podemos dizer que não existiu nenhuma razão — histórica, económica, social ou política — para que o Brasil não fosse hoje um dos países mais desenvolvidos e mais justos do mundo.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Todavia, desde que conheço o Brasil — já lá vão muitos anos e muitas, muitas visitas, desde a Amazónia até lá abaixo —, raras foram as vezes em que, falando da história do Brasil com brasileiros, não tive de escutar um rol interminável de explicações e lamentações com as culpas dos estrangeiros: portugueses, “castelhanos” ou americanos. Mas jamais culpas próprias. Como português, dói-me particularmente, claro, assistir ao amor não retribuído, antes maltratado, que o comum dos brasileiros tem por nós (hoje, é verdade, bastante mitigado pelos brasileiros que se deram ao trabalho de conhecer Portugal e aos 300 mil que aqui vivem). Os estereótipos históricos, culturais ou sociais, do roubo do ouro do Brasil, do azar de Pernambuco não ter ficado holandês ou o do Manel de bigode que só prestava para padeiro, por exemplo, são coisas que os meus olhos e os livros de História me ensinaram serem impiedosas mentiras. O “roubo do ouro do Brasil”, o célebre “quinto real”, era o imposto da coroa, correspondente, portanto, a 20% — tomáramos nós, portugueses e brasileiros, que o Estado nos cobrasse hoje apenas isso! Porém, talvez nem um quinto desse quinto tenha, de facto, chegado ao Terreiro das Naus e aos carrilhões de Mafra, perdido nos assaltos da “estrada do ouro” para Paraty ou desviado pelos cobradores locais; em contrapartida, fez a prosperidade de Minas Gerais e deu berço a São Paulo. E, acima e antes, a Amazónia, que hoje Bolsonaro vende aos chineses sob a forma de soja, deve-a, inteirinha e intacta, ao primeiro-ministro português Sebas­tião de Carvalho e Melo, conhecido por marquês de Pombal, que ali mandou construir sete fortes ao longo das suas imensas fronteiras, com pedras trazidas do reino e para a defender das investidas “castelhanas”, e que para lá mandou povoadores dos Açores, a quem o reino dava alfaias e dinheiro em troca do casamento, de altar e papel passado, com mulheres índias. A grande frustração dos holandeses terem sido desapossados de Pernambuco, ainda hoje alimentada por muitos e em nome da superior colonização flamenga e da “espantosa” embaixada cultural do seu governador Maurício de Nassau, basta ir lá e ver: mal chegaram, os holandeses destruíram e queimaram Olinda, que os portugueses depois reconstruíram e ainda lá está, na sua serena beleza. Mas dos 60 anos de Holanda não há um edifício, um monumento, uma obra de arte, uma igreja ou uma quinta agrícola, pois que eles não foram para cultivar, mas apenas para roubar o açúcar que os portugueses cultivavam. E lá estava também, quando se veio embora D. Pedro de coração inteiro, toda a mata atlântica, hoje praticamente desaparecida, a que os portugueses acrescentaram fortes, portos, praças, vilas e milhões de coqueiros trazidos da Índia, como antes trouxeram a cana-de-açúcar e depois o café ou a árvore da borracha. Mas, enfim, pensando no que foi a África do Sul dos boers ou a colonização holandesa da Indonésia, talvez fosse melhor para alguns que um exército formado por portugueses, índios e negros não tivesse derrotado os holandeses na decisiva batalha de Guararapes, em 1648… A cada um a sua sonhada pátria.

De onde vem então este mal secreto que faz do Brasil um insuportável cemitério de esperanças?

Roubámos o Brasil? Sim, explorámos o Brasil, como qualquer colonizador explora uma colónia, e, no sentido literal, explorar é roubar. Todavia, eu olho para isso sem complexos nem sentimentos de culpa. Há, claro, a questão da escravatura, que mancha toda a história de forma incontornável. Mas ela também envolveu os brasileiros, antes e depois da independência, e a triste verdade é que sem a escravatura não existiria o Brasil de 1820.

Até lá, duvido de que o que roubámos ao Brasil não seja incomparavelmente menos do que o que lá deixámos, mesmo sem contar com dois trunfos inestimáveis: a unidade de um país imenso que não se fragmentou, ao contrário da América do Sul espanhola, e a língua que o une.

Duzentos anos depois, a desculpa da colonização portuguesa não colhe. Mais depressa a herança genética do fado de lamentação, que essa, sim, é uma maldição portuguesa. E, todavia, Deus também abençoou o Brasil com gerações de gente notável: construtores, arquitectos, escritores, artistas, músicos, cientistas, jornalistas e, às vezes, até políticos. De onde vem então esse mal secreto que faz do Brasil um insaciável cemitério de esperanças?

2 Eu faço parte dos portugueses que se sentiram gratos e quase resgatados na sua honra com o pedido formal e espontâneo de desculpa que António Costa fez em Maputo a propósito dos 50 anos do massacre de Wiriyamu. Não venham cá com argumentos de que só podemos pedir desculpa se os outros também pedirem ou de que, de desculpa em desculpa, nunca mais acaba a história. É preciso ter a noção da diferença entre o que é circunstancial e o que é intolerável e a noção da simples decência: um massacre é um massacre, não há mas nem todavias que o justifiquem. Em Wiriya­mu, uma tropa portuguesa, armada e fardada para defender o que então lhes disseram ser a pátria, abriu fogo sobre a população civil indefesa de uma aldeia moçambicana, deixando por terra 400 mortos, entre crianças, mulheres e velhos. Se hesitamos em entender isto como uma vergonha sem nome na nossa história, também não a podemos defender quando ela merece e precisa de ser defendida, como acima faço.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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