Não lhes perdoeis, Senhor, pois eles sabem o que fizeram

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/10/2022)

Miguel Sousa Tavares

Esperámos tranquilamente um ano pelos resultados do trabalho da Comissão Independente para o Estudo de Abusos de Menores na Igreja e um ano depois, cumprindo o prazo fixado, a Comissão registou 424 testemunhos ao longo de muitos anos, dos quais apenas 17 foram encaminhados para o Ministério Público, por constituírem crimes não prescritos, cujos autores e vítimas estão vivos. Mas a Comissão não se deixou iludir e nós também não: os crimes foram incomparavelmente mais, reflectindo uma atitude “endémica” de abusos de menores dentro da Igreja Católica portuguesa e a sua ocultação a partir de cima ao longo de décadas.

Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, que se precipitou a saudar os números pouco “elevados” apurados pela Comissão — e, com isso, aliviar a responsabilidade da Igreja —, nós percebemos que isto é apenas a ponta do icebergue de uma estrutura sinistra e submersa, que durante décadas guardou dentro de si um segredo vergonhoso, ocultando-o dos fiéis, da sociedade e das autoridades. Protegendo os seus criminosos, como as máfias fazem.

Hoje sabemos que, dentro da hierarquia da Igreja, a nível intermédio e a nível superior, houve homens com responsabilidades que, sabendo de casos concretos, não se limitaram a olhar para o lado: ignoraram as queixas das vítimas, esconderam-nas dos olhares públicos ou, no melhor dos casos, encerraram o assunto com discretos “inquéritos verbais”, que se desvaneceram sem rastro nem consequências. Não têm perdão nem aos olhos dos homens, nem aos olhos de Deus. Mas, sobretudo, não têm perdão aos olhos das vítimas, dos que sofreram às mãos dos criminosos que eles protegeram e de que foram cúmplices no mais ignóbil dos crimes.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Pessoalmente, não consigo conceber nenhum crime que me cause mais repúdio — pela cobardia dos seus autores e pelas consequências para as vítimas — do que o abuso sexual de menores. Que ele, ainda por cima, seja cometido por sacerdotes, a quem a fé de muitos confere uma confiança acrescida para se ocuparem da educação e do acompanhamento espiritual de crianças, torna as coisas particularmente repugnantes. E não é indiferente, antes agravante, que as taras sexuais dos padres se exerçam sobretudo sobre os rapazes à sua guarda e que, no contexto socioeconómico histórico português, tenham sido obviamente as crianças mais pobres a sofrerem as sevícias destes tarados e os seus pais a serem os mais impotentes para enfrentar a cumplicidade da hierarquia católica. Não, não há perdão algum para isto: foram décadas em que milhares de crianças indefesas pagaram na pele e na alma, e para a vida inteira, o preço da absurda regra da castidade do sacerdócio.

Não foram todos os padres ou nem sequer a maioria? Claro que não. Mas duvido muito que, naquele mundo submerso e mais temente às aparências do que a Deus, houvesse quem ignorasse o que se passava ou não desconfiasse o suficiente para abrir a boca. Quando ouvimos o que diz o diletante bispo do Porto, Manuel Linda, percebemos bem o que se passou, como se passou e porque se passou. Quer estivesse a mentir sem pudor, quer revelasse uma indecente ignorância sobre o assunto, quando ele diz que o crime de abuso sexual de menores não é um crime público, o que ele no fundo quer dizer é que acha que não é uma coisa assim tão grave. Como as carícias a crianças do violador e assassino de menores padre Frederico, protegido pelo ex-bispo do Funchal, que “não foram assim tão íntimas”. Fosse ele um governante ou titular de um cargo público, Manuel Linda já teria sido corrido de funções por não dar garantias mínimas de poder desempenhar o cargo com respeito pelas regras de comportamento moral de uma sociedade civilizada. Mas, em vez disso, vai continuar aí, a benzer pontes e a celebrar missas, como se o Deus que invoca lhe tivesse perdoado e o quisesse como exemplo.

Pobre Papa, que tal gente tem!

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2 Terminadas as férias e desaparecido o grosso dos turistas, o Sotavento Algarvio começou a enfrentar episódicos, mas sucessivos, cortes de água nas torneiras. Não se trata de avarias nem de obras em curso, mas de “cortes programados” e anunciados no Facebook, para quem é freguês da coisa. Trata-se de uma situação normal — o novo e futuro normal — quando a seca se prolonga e a barragem de Odeleite, responsável por metade do abastecimento de água ao Algarve, está a 20% da sua capacidade e a de Odelouca, a segunda mais importante, a 17%. O que não é normal é que o Conselho Nacional da Água, reunido pela primeira vez ao fim de três anos de seca, em lugar de se ocupar com projectos de dessalinização ou medidas para poupar água — como reparar as fugas nas canalizações agrícolas, impor a obrigatoriedade de utilização de águas residuais para regar golfes, jardins públicos, etc., ou suspender de imediato a contínua expansão de culturas agrícolas exóticas de alto consumo de água —, tenha optado exactamente pelo caminho oposto: como gastar mais água. Os chamados “produtivistas”, de braço dado com o Ministério da Agricultura, ao contrário de todas as previsões, confiam em que vêm aí grandes anos de chuva, para os quais é preciso estarmos preparados, construindo mais barragens e aumentando a capacidade das existentes. Até lá, querem avançar para a solução espanhola dos transvases de água do Norte para o Sul — com o pequeno contratempo de os espanhóis terem justamente acabado de suspender as descargas de água para o rio Douro.

Há um ponto até ao qual se podem discutir as políticas e, mesmo quando temos a certeza de estar certos ou errados, pode-se continuar a discutir. Mas se estamos a discutir a falta de água e se abrem as torneiras uma e outra e outra vez, e durante 24 ou 36 horas nada jorra, o que há para discutir?

3 Na última Revista do Expresso vinha uma surpreendente história de um casal lisboeta “muito bem”, muito família, muito católico, muito ansioso por “partilhar”, muito empenhado na “excelência do ensino, conjugando a grandeza de Portugal com a tradição cristã”, através dos alunos dos Colégios Planalto, Mira Rio e S. Tomás. Enfim, a fina flor da Opus Dei — uma opção legítima e um modelo para quem se revê nos valores da santíssima agremiação. Mas o que tinha a história de surpreendente? Isto: o casal tem um Van Dyck em casa, que lhe custou “uns milhões não revelados”, a par de uma “importante colecção de centenas de quadros de mestres antigos”. Os quadros estão em casa, mas, obviamente, não lhes pertencem, pertencem a uma fundação, que, essa sim, é deles: um clássico. Surpreendente é que o casal exponha assim as paredes da sua casa: normalmente, estas coisas não se revelam — há os ladrões e o Fisco, apesar da fundação. Então, qual é a ideia? Pois, aqui chegado, o leitor já deve ter percebido, tal como eu logo percebi: o casal não tem onde guardar as suas centenas de quadros dos mestres e espera que o Estado lhe resolva o problema — outro clássico. Lá fora, os verdadeiros mecenas, os verdadeiros coleccionadores, quando se vêem nesta situação, fazem uma de duas coisas: ou oferecem o que querem e lhes sobra a museus já existentes ou fazem um museu a expensas suas e metem lá os quadros. Mas aqui os nossos “mecenas” têm outra solução: eles acumulam e o Estado resolve-lhes o problema, arranjando-lhes instalações e pagando as respectivas despesas de funcionamento — Casa das Histórias Paula Rego, Colecção Berardo, Fundação Saramago, etc. É claro que, no caso concreto, a solução para o problema do casal está mesmo à vista: o Museu Nacional de Arte Antiga, se a colecção valer mesmo a pena. Mas essa, dizem eles, “não é a solução ideal, o grande desafio é mostrar a colecção ao público” (parece que o MNAA não mostra os quadros ao público).

Mais surpreendente ainda, a história terminava com o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, a declarar o “interesse por parte do Estado” em juntar-se a tão comovente história de “partilha”. Com o seu dinheiro, sr. Ministro?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Bolsonaro, a criatura de Lula

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/10/2022)

Miguel Sousa Tavares

Quando, no próximo dia 30, os brasileiros voltarem às urnas para a segunda volta das presidenciais, Lula da Silva terá já feito 77 anos e estará a cumprir a sua sexta candidatura presidencial. Para trás ficaram também os seus quase dois anos de prisão dos nove anos e seis meses a que Sérgio Moro e o tribunal de recurso o condenaram, numa sentença depois revertida em nada pelo Supremo Tribunal Federal.

Mas se é duvidoso que a condenação de Lula por corrupção não tenha sido assente nos métodos incriminatórios que o nosso Ministério Público também cultiva e acha suficientes em crimes que normalmente envolvem políticos — prova indirecta, suposições e deduções por demonstrar —, não restam dúvidas de que, quer no Mensalão, quer no Lava Jato, tanto o seu Governo como o seu partido estavam enterrados até ao pescoço: corromperam e foram corrompidos.

Atendendo a tudo isto, o melhor que Lula tinha a fazer — pela sua gente, pelas suas ideias e pelo seu próprio passado (ele, que saiu do Palácio do Planalto com a mais alta taxa de aprovação jamais alcançada por um Presidente brasileiro em final de mandato: 87%) — era sair de cena. Mas não o fez na eleição presidencial de 2018, quando, ainda na cadeia, obrigou o PT a centrar toda a campanha do candidato Fernando Haddad, não na pessoa deste, que era um bom candidato, mas na pessoa do próprio Lula e na sua reabilitação. Com o escândalo do Lava Jato ainda fresco na memória de todos, os brasileiros foram chamados a escolher entre alguém que estava preso por isso e que concorria por interposto candidato e alguém que prometia limpar tudo isso, embora fosse evidente que Jair Bolsonaro era tudo menos um mãos limpas. Com isso, Lula ajudou decisivamente a elevar Bolsonaro do estatuto de troglodita ao de Presidente do Brasil.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Quatro anos depois, saído da prisão e apenas reabilitado aos seus próprios olhos e aos dos seus próximos, Lula mostrou não ter aprendido nada. A sua ambição pessoal, mesmo aos 77 anos, e o seu desejo de vingança sobrepuseram-se a tudo o resto e, antes de mais, ao interesse do Brasil e ao interesse do mundo civilizado de se livrar de alguém tão desprezível como Jair Bolsonaro. Com uma taxa de rejeição perto de 50%, Lula sabia que a sua candidatura contra Bolsonaro iria dividir o país ao meio, iria arrastar para a extrema-direita gente que nem era bolsonarista, mas que não suportava ver Lula de regresso, e que, fosse qual fosse o destino final das urnas, iria, no dia seguinte, fazer acordar o Brasil para um país dramaticamente separado por um ódio irreconciliável no Congresso, nas ruas, nas famílias. E para quê, se agora, tentando desesperadamente evitar a derrota na segunda volta, ele está disposto a renegar tudo que fez de bom nos seus mandatos e a negociar com Deus e com o Diabo, com os fazendeiros que destroem a Amazónia, com os evangélicos que minam, passo a passo, a democracia brasileira, ou com o eterno “centrão”, esse jogo de interesses cruzados que é o cancro de toda a política brasileira e foi a razão de ser do Mensalão? Mesmo que ganhe, que fará ele com essa porcaria de vitória?

Mas, infelizmente, nem acredito que vá ganhar. Hoje, creio que, em toda a parte, se aplica à política a Lei de Murphy: se alguma coisa pode correr mal ou bem, corre mal. Creio que Bolsonaro vai ganhar. Vai usar armas sujas e feias, como é próprio do personagem. Vai utilizar em benefício próprio os instrumentos do Governo, o medo, a ignorância, o analfabetismo, a grosseria, as redes sociais, as madraças das igrejas evangélicas.

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Quem diria, Lula, que o Brasil — não você — teria de enfrentar, numa luta pela sobrevivência e pela decência, esse pigmeu político que você, por egoísmo e falta de humildade, ajudou a tornar-se num monstro?

2 A responsabilidade pela sabotagem dos gasodutos Nord Stream I e II foi imediatamente atribuída pelos aliados mais próximos da Ucrânia — a Inglaterra e os países Bálticos — a Vladimir Putin. A Ucrânia apressou-se a classificá-la como “um acto de terrorismo de Moscovo”, mas curiosamente os Estados Unidos foram os mais contidos, afirmando que iam investigar. Quanto ao próprio Putin, ele afirmou, preto no branco, que fora “um acto de sabotagem dos anglo-saxónicos”. Entre nós, diversos analistas, como Teresa de Sousa, também não tiveram dúvidas em culpar Moscovo, mesmo sem avançarem uma explicação plausível para tal. Paulo Portas, ex-ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros, ensaiou uma, a de que era uma forma de Putin avisar a Europa de que podia atingir as suas infra-estruturas vitais. Parece que a Europa não o sabia antes e não o saberia de outra maneira. Mas um ex-colega de Portas no Governo polaco, acompanhado por vários analistas na Alemanha, e não só, não teve dúvidas em atribuir a responsabilidade pela sabotagem aos Estados Unidos. Para esses, a suspeita da autoria americana tem fundamentos bem mais razoáveis: pôr os gasodutos fora de acção para impedir que o crescente descontentamento da população alemã com a vulnerabilidade da sua situação de abastecimento energético, e com o Inverno a aproximar-se, forçasse o Governo alemão a entender-se com Moscovo para retomar os fornecimentos do gás russo, com paz ou sem ela. (Recorde-se, aliás, que, antes mesmo de a guerra começar, Biden tinha dito a Scholz, na cara dele, que o Nord Stream II nunca iria funcionar: uma ordem.)

A verdade é que se é evidente que a Alemanha, a Europa e a Rússia saem a perder deste caso, é difícil imaginar uma só vantagem que Moscovo possa ter obtido com a sabotagem do canal utilizado para vender à Europa o seu gás. Se queria usar a arma da “chantagem do gás”, como não se cansaram de nos repetir, bastava-lhe fechar as torneiras na origem, não precisava de tentar danificar definitivamente os gasodutos.

E se sabemos quem sai a perder, também sabemos quem, independentemente da autoria da façanha, sai a ganhar: os Estados Unidos, o maior fornecedor alternativo de gás liquefeito à Europa — a 10 vezes o preço a que os russos vendiam e 20 vezes aquele que os americanos pagam. Putin pode ser louco, mas será assim tão estúpido?

3 Cerca de um milhão e duzentas mil pessoas já foram ao Google consultar a distância entre Lisboa e Santarém, motivadas pela notícia de que aí se poderá localizar o futuro aeroporto de Lisboa. O Google informa que a distância é de 83 km pela A1, uma distância a percorrer no tempo de 59 minutos (é claro que se demora menos em excesso de velocidade, mesmo moderado, mas a GNR jamais iria desperdiçar a oportunidade para ali instalar em permanência e abundância uma Operação Aeroporto Seguro, isto é, receita gorda garantida). Mas, mesmo em excesso de velocidade, acrescente-se a distância desde a entrada de Santarém até ao putativo aeroporto, e o tempo desde Lisboa nunca ficaria em menos de uma hora: um negócio de sonho para os taxistas e afins, uma impossibilidade para os particulares, um transtorno acrescido para os passageiros, um crime para o ambiente. Dizem os defensores desta estapafúrdia hipótese que há também o comboio, pois que lá passa a Linha do Norte. Das três, uma: ou esta encrava ali, com comboios constantemente parados para receberem e despejarem os milhares de passageiros do aeroporto, ou se constrói uma nova linha só para servir o aeroporto, com custos astronómicos, ou o comboio não é mais do que uma ficção.

Não é preciso ser especialista na matéria — daqueles que estão há 50 anos para chegar a uma conclusão, com estudos que já nos custaram 90 milhões de euros e vão continuar — para se perceber duas coisas: que o aeroporto de Lisboa só interessa, económica e socialmente, se for de Lisboa — não de Santarém, de Beja ou de Arruda dos Vinhos — e que os supostos investidores privados dispostos a financiar a sua construção em Santarém com mil milhões estão a ver se tomam os contribuintes por parvos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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E viva la muerte!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/09/2022)

Miguel Sousa Tavares

Entrevistada por uma televisão enquanto contemplava as ruínas do que fora a sua casa, uma mulher ucraniana exclamava: “Eu só queria que os Presidentes da Rússia e da Ucrânia se sentassem para dialogar e porem fim a esta guerra!” Desde que a guerra começou, já ouvi declarações iguais de vários civis ucranianos, aqueles que sofrem directamente nas suas vidas o impacto desta guerra: não em abstracto, mas diariamente. Mas sem sorte alguma: os ‘especialistas’, os teóricos da guerra, os seus defensores em ambos os lados, estão mais motivados do que nunca e mais empenhados do que nunca em continuar tudo até ao fim… seja ele qual for. Por todos, falou há dias, na Assembleia-Geral da ONU, Ursula von der Leyen: “Este não é o tempo do apaziguamento, mas de continuar a guerra até à vitória.” Falar de paz, opor-se à guerra, é visto como uma traição em Moscovo e como uma capitulação no Ocidente. Num ou noutro lado pode-se ser preso, ostracizado ou benevolamente insultado por defender negociações para pôr fim à guerra em lugar de uma catástrofe, por preferir a paz em vez da continuação das mortes e da destruição. Num texto destinado a desacreditar todos os que defendem o caminho de negociações, Nuno Severiano Teixeira escreveu que os ‘apaziguadores’ propõem a paz à custa do território alheio — antecipando logo, para melhor poder descartar — o que seria o resultado de uma negociação com Moscovo. Mas também se lhe poderia responder que ele e os demais ‘senhores da guerra’ propõem a continuação dela à custa do sangue alheio.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Aqui, no Ocidente, fala-se muito da propaganda de Moscovo — que, obviamente, existe — e da desinformação de que serão vítimas os cidadãos russos. Mas, paradoxalmente, vemos manifestações contra a guerra na Rússia, que são filmadas e as imagens exportadas, e todos os dias vemos imagens dos 70 mil russos em idade militar que já passaram as fronteiras para fugirem à mobilização sem serem impedidos e apenas com a ‘democrática’ Finlândia a cogitar fechar-lhes a fronteira. Mas, todavia, fala-se muito pouco da desinformação concertada que aqui nos é servida diariamente e que em nada se distingue de propaganda de guerra e é muito pouco própria de sociedades ditas ‘liberais’. Exemplos? O complexo químico de Azovstal, onde 2 mil civis ucranianos estariam encurralados e impedidos pelos russos de fugirem: era falso, estavam sim a servir de escudo aos combatentes do Batalhão Azov ucraniano. A prisão onde os russos mantinham 2 mil prisioneiros ucranianos e que teria sido bombardeada pelos próprios russos, morrendo 80 prisioneiros, para supostamente apagarem vestígios de tortura sobre eles? Era, obviamente falso, foi bombardeada pelos ucranianos. O mesmo em relação à central nuclear de Zaporijia, ocupada pelos russos e onde, segundo Zelensky, eles se entretinham a atacar-se a si próprios: os ataques cessaram assim que lá se instalou uma missão da agência nuclear da ONU. Os cereais ucranianos que os russos não deixavam sair dos portos do Mar Negro, condenando o Terceiro Mundo à fome (embora a Ucrânia só respondesse por 3% das exportações mundiais de cereais): era falso, tudo o que Moscovo queria era garantir que os navios que iam buscar os cereais não levavam armas para Kiev; negociado o acordo, com a intervenção da Turquia e da ONU, já saíram de lá centenas de navios… embora nem um com destino ao Terceiro Mundo. Ou o célebre relatório da Amnistia Internacional que tanto indignou Zelensky e não só, e que acusava o Exército ucraniano de utilizar instalações civis como zonas de combate, tornando inevitáveis a sua destruição e a morte de civis, que depois Zelensky e a comunicação social ocidental apresentavam como exemplo da barbárie russa. Porém, não obstante o extremismo dos discursos à luz do dia, na calada da noite, ambos os lados trocam prisioneiros, deixam passar ambulâncias e feridos do outro e negoceiam tréguas sectoriais e provisórias. Se deixassem os respectivos povos escolher livremente, eles escolheriam a paz. Mas interesses muito mais altos e muito mais ‘sábios’ escolhem por eles.

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De um lado, temos Zelensky, louco de ambição e de vaidade, alimentada pelos mortíferos novos brinquedos de guerra americanos, para quem já nem a Crimeia é o limite. Do outro lado, temos Putin, tresloucado pela humilhação militar e pelos sinais de desintegração interna, incapaz de ver outro caminho que não o da fuga em frente, agora consumada com o que é o mais perigoso passo dado desde a invasão: a anexação do Donbas, por meio das armas e de um ridículo referendo. Até Maio, houve diversas ocasiões onde pareceu que a paz podia estar próxima e, se formos rever as declarações de então, quer de Putin quer de Zelensky, nenhum deles afastava a abertura de negociações. Mas foi então que a visita do secretário da Defesa americano a Kiev tudo mudou: Lloyd Austin descreveu a Zelensky o resultado das análises da ‘inteligência’ americana sobre a capacidade militar da Rússia e explicou-lhe que os Estados Unidos estavam prontos a oferecer à Ucrânia um novo sistema de radares e um moderníssimo sistema de mísseis Himars de médio alcance, capaz de fazer inverter o curso da guerra.

Ao mesmo tempo, o próprio Austin encarregou-se de declarar qual era, a partir de então, o objectivo final da guerra: “enfraquecer a Rússia de tal maneira que não possa mais voltar a repetir o que fez na Ucrânia.” Ou seja, enfrentar e derrotar a Rússia por interposta Ucrânia. E esse passou a ser também o objectivo de Zelensky, o da NATO, o do Ocidente, o da Europa: a guerra até à derrota total da Rússia. Todos receberam a mensagem, e Putin também.

Mas isso tem um preço e esse preço vai ser pago, já está a sê-lo, sobretudo pelos europeus e pelos africanos. E pelos mais pobres desses países, quando vêem os seus salários e pensões serem roídos pela inflação, as suas poupanças serem devoradas, os juros das dívidas, públicas e privadas, subirem em flecha e os extremismos tomarem conta dos eleitores, enquanto parece que o importante não é isso mas que os extremistas da direita também alinhem pela guerra do lado da Ucrânia, como o faz a Polónia ou os novos governos da Suécia ou da Itália. E diz-se a esta gente, que não tem culpa alguma da guerra e que só anseia pelo seu fim, que não há uma saída boa — como o fez o Expresso, na infeliz sondagem que publicou a semana passada, em que colocava apenas duas alternativas: ser a favor da continuação da guerra “para resistir à Rússia” (54%), ou ser a favor do fim da guerra “mesmo que isso implique ceder às exigências da Rússia e as suas consequências” (32%). Isto é como alguém ir ao médico e ele dizer-lhe: “Olhe, você tem uma doença grave. Prefere morrer agora subitamente ou mais tarde lentamente?” E você pergunta. “Mas, não posso ser tratado?” E ele responde. “Pode, mas isso não está nas minhas mãos.”

É exactamente isto que nos propõem.


2 Se calhar terei sido dos últimos portugueses que teve a sorte de ver o Douro próximo do seu caudal máximo, na quinta-feira passada. As margens do rio estavam de uma secura assustadora mas o rio estava cheio e com uma corrente ininterrupta em direcção à foz, sinal de que Espanha estava a descarregar água a montante: provavelmente, a última descarga deste ano e, quem sabe, durante muito tempo mais. Na véspera, 3 mil agricultores espanhóis tinham-se concentrado na cidade de Leão, exigindo o fim das entregas de água a Portugal, previstas na Convenção de Albufeira. Num ano de seca terrível como este, a agricultura espanhola, que é um crime ambiental sem paralelo na Europa, não é sustentável nem sequer deixando passar para o lado de cá apenas os caudais mínimos previstos na Convenção. Na sequência dos protestos, o Governo espanhol começou por dizer que iria cumprir os acordos internacionais a que estava obrigado, mas três dias depois cedeu: segunda-feira fechou a água no Douro e veremos o que fará no Tejo e no Guadiana. “Não é a guerra da água, vamos pelo diálogo”, diz o nosso Governo — que nada mais pode dizer. Mas é altura de perceber que, com guerra ou sem guerra da água, alguma coisa de decisivo tem de mudar: não temos de arranjar água para a agricultura que fazemos, é a agricultura que fazemos que tem de se adaptar à água que temos. E o cúmulo da ironia é que depois de termos gasto o que gastámos em Alqueva, tenhamos acabado a vender lá terrenos a espanhóis para eles irem ali fazer, com água subsidiada por nós, as culturas predadoras que fazem em Espanha e que a nossa ministra da Agricultura tanto protege.

Não há água: qual destas três palavras é que ainda não perceberam?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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