Kalimera, bem-vindos de volta à normalidade?

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 21/08/2018)

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O vídeo de Mário Centeno sobre a Grécia (VER AQUI),  tem várias leituras possíveis, desde o seu conteúdo (que indica o que pensa o autor, admita-se) ao seu impacto (o desejado, mas também o imprevisto). Confesso que, depois de tudo o que foi dito, me interessa mais o impacto e o significado das respostas a Centeno, que definem alguns contornos interessantes da política portuguesa.

No entanto, o conteúdo merece ser escrito em pedra. Houve um processo do qual “todos aprendemos as lições”, começa por dizer o presidente do Eurogrupo, acrescentando que “isso agora é História”. Admita-se que possa haver alguma mensagem cabalística por revelar, pois não foi esclarecido o que seriam as tais saborosas “lições, mas se forem as referências seguintes às “más políticas do passado” na Grécia estamos em puro dijsselbloemês. No mesmo dicionário cabe o paternalismo da “responsabilidade” acrescida que agora incumbe aos gregos (ilustrado sub-repticiamente no vídeo com uma imagem de Tsipras). Mas o mais significativo é que, segundo Centeno, com as medidas de austeridade, “a economia foi reformada e modernizada”, mesmo sabendo-se que “estes benefícios ainda não são sentidos em todos os quadrantes da população”, mas “gradualmente serão”. “Nesse sentido, a Grécia regressou hoje à normalidade. Por isso, bem-vindos de volta”, um sorriso e está cumprida a função, assim tipo moralista, como agora se diz.

Sobre o fracasso da política europeia imposta à Grécia já escrevi a minha opinião aqui há poucas semanas. Notei então que Moscovici, um socialista francês, se tinha excedido no paternalismo bacoco (Ulisses volta à pátria, escrevia o homem) mas que Regling, do mecanismo europeu que vai gerir os dinheiros, se atrevia a mostrar a mão dura que vai garantir a agiotagem. Diga-se, de passagem, que as noções de “responsabilidade” e “controlo” soam mais realisticamente prussianas quando são evocadas pelo chefe dos credores. O facto é que a economia da Grécia foi destroçada, sobrevive com um surto de turismo barato e é um barco de papel lançado ao mar à espera de um milagre que se tornará um pesadelo na primeira oscilação dos mercados. O elogio do “regresso à normalidade” por Centeno é, por isso, uma forma de endossar uma política que o governo português repetiu até à exaustão que achava errada. “A Grécia salvou-se da troika”, festeja um editorialista em socorro de Centeno, e tudo soa a normalização do fracasso da austeridade.

Ora, é precisamente porque a mensagem é também para português ver que ganha tanta importância a forma como os partidos e os comentadores interpretaram Centeno. Creio que há três categorias de respostas essenciais.

A direita aferrou-se ao assunto. Argumento: o ministro é contraditório, apoia na Grécia o que diz rejeitar em Portugal. Tudo certo. Mas este argumento é um berbicacho para o CDS e o PSD. Primeiro, porque o que criticam a Centeno não é o que faz, mas é não dizer o que faz, porque no seu sucesso só estaria a completar o que a direita iniciou, essa austeridade que é o caminho da virtude. Ora, é coisa de meninos atacar um governo por fazer o que o próprio crítico entende estar certo. Na questão grega, outra vez a mesma efervescência: “duas caras”, diz Miguel Morgado, “duas caras”, protesta com originalidade João Almeida. Mas de que cara é que gostam e qual odeiam? A austeridade portuguesa foi ótima, a grega mais exagerada, dizem, mas Centeno é continuador de Vítor Gaspar e por isso é dos nossos, logo detestamo-lo. Que haja alguém nesta santíssima direita que ache que esta conversa move o eleitorado é um sinal fatal de perda de sentido da realidade. Morgado e Almeida, que fizeram o turno do comentário estival, não querem saber e aproveitam todas as oportunidades para lembrar ao milhão de eleitores que lhes fugiram em 2015 que estão contentíssimos com a política que levou Portugal a agravar a recessão. Tudo previsível, portanto.

Na esquerda, alguma surpresa. O PCP fez o comunicado do costume a desconversar, o problema é a União Europeia. E é, mas o problema é também quando não se discute o problema. O Bloco preferiu dizer que a tese implícita de Centeno, o sucesso do programa grego, é “ridícula”. Também poderá ser, se não for trágica. Mais, seria “insultuosa para os gregos e esclarecedora para os portugueses”. Será assim tanto? Em todo o caso, faltou a pedagogia e o debate claro. O discurso de Centeno mereceria outras perguntas: se este é o “regresso à normalidade”, se é assim que a “economia é reformada e modernizada”, então vale mesmo o corte nos salários e pensões? E a privatização dos portos e aeroportos? Porque essas são as questões que importam sempre que há uma crise e, isso sim, serve para Portugal, é uma “lição”.

Finalmente, a resposta mais importante de todas veio do PS, precisamente do seu anterior porta-voz, João Galamba, no mais duro dos comentários. Disse-se que foi voz única, mas o silêncio deve ser medido não tanto por não ter havido outras críticas escritas, mas muito mais por não ter havido nenhum apoio significativo que saísse à liça pelo presidente do Eurogrupo. Ninguém disse uma palavra a favor de Centeno. Silêncio sepulcral. Não sei se por terem os seus camaradas considerado que o vídeo seria um mero “pecadilho” de vaidade, e isso é comércio ligeiro, ou se por embaraço, afinal não foi nada disto que disseram na campanha eleitoral.

Mas há nestes debates uma revelação. Há pelos vistos quem tema o peso determinante da aliança Centeno-Santos Silva no governo, e que sinta que, deste modo, a política vai sendo conduzida por atoardas cínicas de um ministro anónimo nos jornais, mais uma austeridade que se sente irracional (atrasar os concursos de médicos especialistas para poupar uns tostões ou o ministro das Finanças ir ao parlamento responder na comissão de saúde, deixar degradar o material ferroviário, ou atrasar investimentos que vão ficar mais caros depois, por exemplo).

Ao elogiar a troika na Grécia, o ministro, que obviamente se prepara para voos internacionais – e por isso o seu vídeo é uma promoção de carreira – está também a dizer que, afinal, quando a economia aperta a receita tem que ser a de sempre. E é isso mesmo que se deve discutir com clareza até que a experiência e as ideias configurem uma alternativa sólida a essa austeridade, que é a máquina de destruição. Assim, Centeno fez um favor à esquerda portuguesa, apontando-lhe ainda não ter a preparação suficiente para uma economia competente.

Entretanto, o ministro faria bem em notar que Kalimera, a palavra com que inicia a sua alocução, tem um sentido diferente em grego e na sua transliteração em português.

O ministro clandestino que quer um não-acordo não-escrito

(Francisco Louçã, in Expresso, 11/08/2018)

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Um não-acordo é navegar à vista e chamar-lhe acordo é enganar. Um acordo sem acordo é a forma de o ministro clandestino se manifestar contra a ‘geringonça’


Já foram duas as vezes e prometem-se mais episódios da telenovela. Um tal ministro, não um qualquer, ele é do núcleo restrito da coordenação do Governo, penso que são só cinco nessa faina, tem vindo sorrateiramente a público comentar o presente e explicar o futuro. Encontrou um canal privilegiado, como se diz na gíria, e usa-o para chistes, apreciações e até anunciações do que o primeiro-ministro pensaria fazer. Foi dele a esplêndida conclusão de que António Costa, se vencedor das próximas eleições, fará um acordo com as esquerdas, mas nunca com papel assinado. O assunto merece atenção, teve mesmo direito a manchete do jornal do tal canal. Assim, um ministro anónimo anuncia ao país como vai o seu partido resolver as dificuldades, com bordoada neste e afagos naquele.

A VANTAGEM DO BIOMBO

Pode interrogar-se alguém que leia essas florentinas intrigas sobre a razão do anonimato. O ministro, o canal diz-nos solenemente que é um ministro, está clandestino por alma de quem? Recorre ao anonimato porque tem medo do primeiro, mas antecipa oficiosamente as suas palavras? Será tudo mentira? Existirá o ministro ou será simplesmente uma forma de o próprio canal se citar a si próprio e assim explicar urbi et orbi o que entende ser mais conveniente para o país? Disso não pode haver certeza. O recurso ao anonimato, que neste caso contraria as regras da deontologia jornalística por não ter qualquer justificação, é simplesmente uma forma de fazer política malandreca, atirando a pedra e escondendo a mão. Quem colabora nesta farsa de um debate político escondido atrás de um biombo sabe que está a envenenar a democracia e a estimular uma agressividade gratuita.

E é que o ministro clandestino usa e abusa dessa perfídia. Fá-lo tratando o PCP com uma condescendência viperina, como se fosse um partido facilmente manipulável, indicando mesmo um dos seus deputados como um parceiro de Governo que seria absorvível sem dificuldade. Para quem conhece o PCP, nada de pior lhe pode ser atirado do que estas palavras melosas sobre a adaptabilidade e cedência do partido. Ao Bloco, o ministro clandestino reserva fel e suponho que vai servir novas doses em breve. Mas nos dois casos a sua estratégia resume-se a isto: destruir a confiança, minar as conversações, impedir as comunicações, exibir estados de alma, garantir falsa fé. O ministro clandestino é um bombista.

Depois da falsa partida de Santos Silva, que veio exigir aos partidos de esquerda que se convertessem ao santossilvismo, o nosso ministro clandestino pode pensar como Santos Silva e até falar como Santos Silva, mas anónimo será sempre.

O NÃO-ACORDO NÃO ESCRITO

Resta ainda a fantasia do acordo-sem-acordo-escrito. Nisso aproveitando as palavras de Jerónimo de Sousa, repetidas com ingenuidade ou engenho por João Oliveira, o ministro clandestino atreve-se mesmo a afirmar — como o anonimato facilita a fanfarra! — que o primeiro-ministro-ele-próprio estaria disposto a essa modalidade curiosa. Só que as palavras nem sequer enganam e cada um fala de coisa diversa: o PCP refere-se a não haver acordo escrito, ou seja, a não haver acordo e ficar tudo em aberto; e o tal ministro a haver acordo não escrito, ou seja, a haver um acordo secreto. Porque, entendamo-nos: se não fica escrito ou não é acordo ou é um acordo secreto. E isso não convém nada à esquerda. Se secreto, é pífio; se nada, nada é e então fingir é o pior remédio.

Imagine por um instante quem lê estas linhas que não tinha havido acordo escrito em 2015. Acha mesmo que o Governo tinha concretizado 600 euros de salário mínimo, ou que tinha recuado no bónus patronal no caso da TSU? O acordo escrito foi o que garantiu os mínimos que foram cumpridos. Conversa fiada em vez do acordo seria desacordo sempre que fosse tempo de decisão.

Como toda a gente percebeu, este cenário só é falado porque um acordo em 2019 é muito mais difícil do que em 2015. Primeiro, a razão de afastar a direita já não vale, está afastada. Segundo e mais importante, o acordo depende de políticas estruturais nas contas públicas e por exemplo no SNS, mas o PS está a dar sinais de nem querer ouvir falar disso. Por isso, só haverá acordo se for escrito. Um não-acordo é navegar à vista e chamar-lhe acordo seria enganar toda a gente. Por isso, a proposta de um acordo sem acordo é a forma do ministro clandestino operacionalizar a sua oposição à ‘geringonça’, que vem de 2015 e sobretudo se preocupa com 2019.


N.B. São José Almeida despejou-me nutridos insultos no “Público” do sábado passado, no tom chocarreiro que faz o seu estilo. Confesso que já estava preocupado, havia meses que não me atacava (da última vez foi por causa do “compadrio mal disfarçado” com a corrupção, pela minha oposição ao golpe de Temer e Bolsonaro contra a presidente eleita do Brasil). Temia que me esquecesse ou, pior, que me ignorasse. Felizmente, não é o caso. Desejo-lhe por isso as melhores felicidades, visto que perseguir ódios de estimação é carreira em algum jornalismo.

Moralices

Um coro de personalidades de todos os quadrantes sentenciou: o defeito da esquerda é o “discurso moralista”. Sentença unânime e sem apelo nem agravo. Do jornal de referência ao pasquim, toda a gente à uma, a culpa é do moralismo. Até ficava mal a alguém opinar sobre o assunto sem lavrar a sua concordância solene com tal finalmente.

Pois peço autorização para me juntar, se não ao relambório, pelo menos à premissa da conclusão. De facto, tenho por certo e até por definitivo que nenhuma política se pode justificar por uma moral. A razão é suficientemente evidente para dispensar muita argumentação: se a política se fundamenta numa moral, então não permite aprendizagem pois é sempre definitiva, não tolera negociação pois é sempre conclusiva, nem aceita diferenças pois é por definição ultimatista. Um moral só se reconhece a si própria. Uma política que se pretende expressão da moral é por isso totalitária por construção. É a mais detestável das políticas. A política como moral é a Inquisição, é Khomeini, é Netanyahu, é Kim Jong-un, é Trump. Outra tentativa de estatuir a origem sagrada de uma política, como a “superioridade moral dos comunistas”, naufragou na abjeção estalinista e dela só restam as seitas.

Não, uma política democrática num mundo de diversidade e conflitos não pode ter por fundamento uma moral. Alexandra Lucas Coelho tem toda a razão a esse respeito num texto que escreveu recentemente. Esse é o argumento que defendo desde há mais de 30 anos, escrevi-o pela primeira vez n’“O Jornal”, suponho que em 1985, e repeti-o amiúde. Outra coisa é que cada pessoa, em particular quem exerce cargos públicos, se obrigue à sua própria ética e, se os seus atos só são julgados pela lei, a coerência dessa ética não deixa de ser parte do escrutínio social. No entanto, se essa ética te obriga, não te justifica; se também sugere o que deves fazer, não é por isso que exclui os outros. Aceitarão então os leitores que nisto encontre razões para recusar moralices de políticas e para só pedir clareza ética na política.

O meu problema é que aqui chegado tenho dificuldade em entender o tal consenso dos opinadores sobre o “discurso moralista”. É que não estão a discutir a pretensão moral de uma política, eles que tantas vezes são os mais moralistas dos fiéis, estão a condenar o “discurso”. E então qual discurso? Quais são as palavras proibidas? Atrevo-me a adivinhar que nem um destes sentenciadores sairá à liça para fazer listagem desses pecados discursivos. Seria difícil e provavelmente revelador: tal diria que o “discurso moralista” foi condenar os estratagemas do BES Caimão para esconder o dinheiro de Pinochet, outro diria que “discurso moralista” foi criticar o governante do CDS em cujo turno desapareceram dez mil milhões de euros da lista de transferências para offshores, outro ainda que esse “discurso moralista” é condenar a publicação seletiva de escutas telefónicas em processos judiciais. Não, estes não são bons exemplos? Então digam-me por favor quais são os que contam e qual é esse “discurso” que é preciso erradicar. Tenho alguma curiosidade sobre o assunto e a vaga suspeita de que nenhum dos moralizadores contra o “discurso moralista” se chegará à frente para dizer do que está a falar porque, na verdade, uma boa publicidade não chega a ser uma razoável razão.

Santana Lopes e Nuno Garoupa, os novos partidos da velha política

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 07/08/2018)

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Santana Lopes anuncia que vai finalmente concretizar o seu sonho de trinta anos e que fará um partido, mas nem uma brisa se levanta. Uma sondagem diz 1,9%, ou que o partido morre nas europeias. E, mesmo que um milagre duplicasse o resultado e levasse Santana a Bruxelas, a corrida obrigava-o a candidatar-se ao Parlamento três meses depois, saindo logo desse lugar, o que lembraria demasiado uma imagem de que ele nem quer que se fale. Mas, entretanto, não se conhece uma alma que se tenha juntado à aventura. A barca vai vazia e não sei se vai segura. Um partido de um homem só fracassa inevitavelmente, como houve prova provada na política portuguesa dos últimos anos.

Acresce que, se a motivação é exotérica, o projeto é mal engendroncado. Dele Santana Lopes confessa dois intuitos. O primeiro é reclamar Portugal menos europeu e recusar as pisadelas de Bruxelas. Nobre intenção, mas como é que a coisa se faz? Sair do euro, recusar os tratados, vetar as resoluções custosas, recusar o consenso? Mostrar a May como se manda, envergonhar os italianos, derreter os franceses, bater nos alemães? Ele não aparenta nem a mais pequena ideia. E, como as últimas décadas constituíram penosa mas eficazmente uma forma de ser e de pensar, que é a de uma elite subjugada ao subsídio europeu e que abomina a ideia de se lançar à vida sem o amparo desses cabedais, Santana Lopes não consegue nada à direita com este arremesso nacionalista. Só teria uma solução, atirar-se aos imigrantes, mas não é seguro nem que isso dê votos, nem que ele tenha estômago para dar uma de Legião Portuguesa. Em resumo, se fizer de Manuel Monteiro só está a concorrer com Nuno Melo, que anda tão aflito com a perspetiva que antecipou a sua campanha num ano, mas o país não parece reservar qualquer emoção para com essa evocação fantasmagórica.

O segundo pilar do novo partido é outra faceta de uma serôdia reclamação de portugalidade, desta vez uma ideia de um país tradicionalista, temente e obediente à sacristia. Nesse país as mulheres seriam presas se abortam, os casais gay teriam de viver às escondidas, os jovens piariam fininho, tudo seguiria o missal. Ora, essa política é muito velha, quase toda a direita foi-se vendo livre do pesadelo salazarento, duvido que queira voltar atrás. Em resumo, imitar Salvini e Trump pode parecer apetecível, mas duvido que seja eficaz para um novo partido. Um novo partido só para dizer o que o CDS pensa mas de que tem vergonha e para arrastar o PSD mais para a direita é um projeto sem chama. E, se o partido era para ser liberal, sair assim uma coisa penumbrenta e reacionária não lembra a ninguém. Nessa direita da direita não mora ninguém.

Apesar de tudo isto, novo partido teremos. No fundo, essa é a única explicação, a pulsão de fazer um partido que é meu. Se tudo corre mal, se o Presidente correu comigo quando o palácio de S. Bento me foi entregue por estranha conjugação astral, se tenho saudades do poder, quero um partido, que é o mais parecido que está disponível no mercado.

Fazer um novo partido, como nesta tentativa tão trôpega, tem no entanto muitos pergaminhos e não só nos encontros que Santana Lopes ia periodicamente organizando para testar a ideia. Na direita, outras tentativas têm sido mais circunspectas, mas não menos insistentes e, já agora, fracassadas. Nuno Garoupa, que vem da área do CDS e escreve regulamente na imprensa sobre os outros partidos e sobre o mapa e leis eleitorais, assunto tão do seu interesse, foi um dos protagonistas de uma experiência recente, a que prudentemente deixou de se referir: já vai para um ano, um grupo de personalidades juntou-se para arremeter com um novo partido, diziam-se “inquietos”. Não eram muitos nem queriam ser muitos, só vinte, o clube deve ser seleto. Jantaram, como convém, e em Coimbra, que é centro. A sobremesa era um novo partido liberal à direita, mas parece que algum pudim de abade de Priscos os satisfez e não se falou mais da aventura de descer à capital para partidar.

É assim à direita e à esquerda. Na esquerda, talvez ainda mais, florescem os grupos que resultam de cisões, assim sendo da negação e não da afirmação, uma divergência sobre isto ou aquilo e parte-se para um novo grupo para um novo partido. Todos têm dado com os burros na água. No caso da esquerda, é uma lepra ideológica. No caso da direita, parece ser antes um destino de personalidades perdidas nessa sua grandeza que a Pátria teima em não perceber.