Mitos e falácias sobre a Grécia

(João Cari, in Facebook, 25/06/2015)

zeus

O momento que a Europa atravessa e as negociações que ainda decorrem com o novo governo grego deviam permitir um debate sério e sereno sobre – precisamente – a Europa que queremos. Mas não: salvo uma ou outra exceção, o debate está inquinado por um conjunto de falácias, por algumas meias verdades e por algumas verdades factuais que são utilizadas de forma intelectualmente desonesta para sustentar pontos de vista doutrinários ou, muitas vezes, apenas opiniões desgarradas que mais não são do que a face visível de um posicionamento de tipo clubístico nesta questão: como se a Europa “vs” Grécia fosse um Futebol Clube do Porto – Benfica ou um Benfica – Sporting.

Comecemos primeiro pelas falácias. Os gregos têm um salário mínimo e pensões claramente superiores às nossas e aos de vários países bálticos que recentemente aderiram ao projeto europeu. Pois têm. Mas ficar por aqui, como os economistas adoram fazer (os de “e” pequeno porque também os há de “E” grande) é ignorar a geometria social do problema, bem mais complexa do que aritmética “nominal” que decorre do facto que 750 euros por mês de salário mínimo representarem 50% mais do que 500 euros. O economistas adoram esta aritmética nominal e os políticos – então – idolatram-na: se nós ajustámos, se os gregos ainda têm pensões e salários mínimos (e médios) superiores aos nossos, porque razão não podem os gregos ver baixados esses mesmos salários e pensões? Parece legítimo pensar assim. Mas o problema é bem mais profundo do que parece: mesmo dando como bom que 750 euros na Grécia compram o mesmo que 500 euros em Portugal, os 250 euros a mais de rendimento que um trabalhador que aufere um salário mínimo na Grécia têm de servir para financiar uma série de bens e serviços que cá –melhor ou pior -ainda são assegurados pelo Estado. O que não parece caber na racionalidade das folhas de excel nem nas cabeças bem pensantes de muitos dos nossos políticos e fazedores de opinião é a importância crucial que esse maior rendimento disponível nominal, providenciado por salários mínimos e pensões mais elevados, possui na manutenção da alguma (mas cada vez menor) coesão social, intergeracional, num país em que a taxa de desemprego entre os jovens é de 50% e a taxa de referente a toda a população ativa ultrapassa os 30%. Comparar a realidade grega com a nossa, a este nível, é assim, errado: nós não somos a Grécia mas esta frase, tantas vezes proferida por muitos, não pode servir apenas para sustentar os argumentos que lhe são convenientes. Tem, portanto, de servir para sustentar todos os argumentos, incluindo aqueles que, como o meu, pretende realçar a importância de se possuir um maior rendimento disponível num pais em que a capacidade de o Estado fornecer serviços a um preço comportável praticamente desapareceu: a esmagadora maioria dos medicamentos já não são comparticipados- quando os há – e quando não os há várias pessoas acabam por sucumbir a doenças crónicas, já para não falar da degradação dos restantes serviços públicos. Claro que não vale a pena, sequer, incluir na folha de excel os custos sociais desta realidade trágica: designemo-los por termos de perturbação em regressões estatísticas ou meros danos colaterais, que poderiam não existir caso os gregos fossem um povo decente, trabalhador e honrado.

As falácias continuam por aí fora, intoxicando o debate e adiando o inevitável: como vai a Europa sair do buraco que ela mesma cavou? Mas voltemos à Grécia, porque voltando à Grécia estamos a discutir a Europa. Como bons cristãos, todos achamos que um indivíduo deve honrar as suas dívidas. Pois deve. Eu honro as minhas e até “ajustei” para que o possa continuar a fazer. Então não se paga o que se deve? Claro que se deve pagar. No entanto, esta questão moral entronca numa outra, de caráter eminentemente prático – de confronto com a realidade (esse exercício de confronto com a realidade que o nosso presidente da república exulta os responsáveis políticos gregos a fazerem): como criar riqueza que permita ir pagando esse monstro que é a dívida grega? A falácia aqui é mais fácil de identificar: se não dás de comer à vaca, um dia a vaca deixa de dar leite. Esta metáfora é uma boa metáfora, mas esconde uma parte do problema. A Grécia, país que abraçou em definitivo (?) a democracia em 1974, como nós, foi governada nos últimos 40 anos por uma rapaziada composta pelos DDT lá do sítio, invariavelmente integrando o PASOK e a Nova Democracia, que punha e dispunha do país, designadamente tendo utilizado a máquina do Estado para dois efeitos: primeiro, para encher de “boys” essa mesma máquina criando empregos artificiais que apenas fizeram aumentar a despesa pública e, depois, para pouco ou nada fazer (leia-se, governar) no sentido que todos os gregos pagassem impostos porque, para eles, os DDT, todos os gregos não pagarem impostos era a melhor forma de assegurarem que eles próprios não pagavam impostos. Tão simples quanto isso. Claro que, mais recentemente, a culpa é do Syriza, que, à custa da estratégia negocial do Sr. Varoufakis, baseada em pura teoria dos jogos (alegam os mais entendidos) foi adiando as negociações, gastando 6 meses para nada, assim piorando o estado do país. Olha, finalmente um ministro das finanças utilizou uma área da ciência económica num processo negocial e uma parte da nossa opinião publica horroriza-se por isso mesmo. Curioso: deve ser a primeira vez que vejo alguém condenar o uso da ciência na defesa dos seus legítimos interesses. Atrasou o processo 6 meses, quando os seus antecessores atrasaram a Grécia durante 40 anos. Mas a culpa é dele, note-se.

Há mais falácias (como a que decorre de que, se o programa de ajustamento funcionou em Portugal e na Irlanda, então só não funcionou na Grécia por culpas dos gregos ou, ainda, que o novo governo grego afirmou que não pagava a dívida) mas fico-me por aqui, hoje. Não sem antes lembrar que os desequilíbrios provocados pela adoção de uma moeda única no espaço europeu já tinha sido objeto de enumeração por parte de um Economista (com “E” grande), de seu nome Robert Mundell, prémio Nobel em 1961. 1961: 39 anos antes da adoção da moeda única por parte do nosso país. Um tremendo erro económico, que esta a sair muito caro aos gregos, que nos sairá ainda mais caro do que já nos está a sair e, possivelmente, à Espanha e até à Itália.

Enquanto todos andámos a puxar pela nossa equipa: “Ei, O Porto jogou melhor ou o Benfica é que jogou melhor ou, ainda, a culpa foi do árbitro”, perdemos tempo precioso que devia ser usado a discutir que Europa queremos: se uma Europa em que os ricos mandam nos pobres, numa espiral de concessão de empréstimos para pagar outros empréstimos, enquanto se força um povo a comer cada vez menos e a morrer cada vez mais cedo (como estará a esperança de vida grega, agora, quando comparada com a de há 4 anos, alguém sabe? E a mortalidade infantil?), tornando progressivamente esse povo uma réplica “light” do retratado por Victor Hugo nos “Miseráveis”. Povo esse que se verá forçado a vender “nada” no mercado da sua cidade, como tão bem satirizou Mel Brooks na “Mais Louca História do Mundo”. Esse mesmo povo que, no romance de Victor Hugo, luta contra a tirania absolutista de uma classe privilegiada e sem qualquer tipo de sentido humanista porque já nada tem a perder. Todos nos lembramos como termina este romance: Jean Valjean, o comissário de polícia que dedicou parte da sua vida a tentar prender um homem por ter escapado da cadeia, condenado por um crime que efetivamente tinha cometido, acaba por conseguir detê-lo. Mas, decide libertá-lo, ao constatar que o seu futuro seria sombrio face à revolução que tinha então explodido. O fim dos seus privilégios, somado ao facto de, no seu interior, nunca ter esquecido de que aquele criminoso condenado o poderia ter morto e decidiu poupar-lhe a vida, fê-lo tomar a decisão de se atirar ao Sena, morrendo afogado.

O que nós devíamos estar agora a fazer era debater, portanto, se a Europa é o Jean Valjean, a Grécia o criminoso condenado ou, se pelo contrário, a Europa pode ser um espaço de liberdade, igualdade e fraternidade. Ideais estes que, na cabeça do Sr. Shauble, parecem não ser tão importantes como a perda de rendibilidade para os acionistas da Deutche Telecom, que controla a maior operadora de telecomunicações grega, perda essa que resultaria da aplicação de uma taxa de imposto mais elevada para empresas com lucros anuais acima dos 500.000 euros, proposto pelo governo grego mas rejeitado pelo Eurogupo que, sub-repticiamente, o Sr. Shauble domina.

Talvez a Europa tenha percebido que a saída da Grécia do euro seja um suicídio. Restam-nos uma certeza e uma dúvida: a certeza de que o Sr. Shauble nunca terá o sentido de honra de Jean Valjean e a dúvida sobre se a tirania absolutista que o inefável ministro das finanças alemão (esse economista de “e” pequeno) impõe à Europa pobre não será um início de um processo, dificilmente reversível, em que a Europa será um continente mais perigoso e mais vulnerável às ameaças externas. E, por consequência, o mundo um lugar ainda menos recomendável.

ANTEVISÃO DA HOMILÍA DO PROFESSOR PARDAL DE SOUSA

marcelo

O Domingo está quente e acariciador. 7 de Junho do ano da graça de 2015, e são quase 9 horas da noite. Pardal de Sousa já está a postos, os apontamentos espalhados pela mesa redonda, os livros, por tantos serem, empilhados no chão, no lado direito da cadeira. José Aberto Galho dá o pontapé de saída:

– Boa noite, professor, hoje temos uma mão-cheia de casos notáveis para sujeitar à sua douta opinião mas, como é da praxe, vamos começar com as perguntas dos espectadores.

– Ó meu amigo José Aberto, diz bem, casos notáveis mesmo, mas antes de irmos às perguntas dos espectadores, queria dar-lhe este presente para que não me acusem de fazer discriminação de género – replica Pardal de Sousa. E continua, puxando de um saco de plástico de onde retira um bacalhau e uma cerveja de litro:

 – É que já me acusaram de só dar presentes à Tia Judite, e discriminar o meu amigo. Ora, sendo eu o comentador de todos os portugueses e de todas as portuguesas quero que fique claro que não faço qualquer discriminação de género, raça, idade, ou bolsa. E prosseguiu: – Aqui tem, para uma ceia com batatas da Beira e azeite alentejano, bem regada a cerveja fresca.

José Aberto pegou nas prendas com ar incrédulo e surpreso, agradeceu, tomou o peso ao bacalhau e foi balbuciando: – Mas ó professor, de onde lhe veio a ideia de me trazer tais petiscos?

Pardal de Sousa, sorriu e foi explicando com rapidez e decisão:

– Bem, eu não lhe ia dar uma prenda que não tivesse significado político, como deve calcular. Vamos por partes. O bacalhau tem duas faces, a direita e a esquerda. Ora olhe para a face direita.

José Aberto assim fez e foi dizendo: – Professor, há aqui um selo, que quer isto dizer?

– Meu caro José Aberto. É um selo de garantia. É o selo da coligação. Esse bacalhau é um bacalhau embrulhado a vácuo, com o selo de garantia de que Portugal não vai mais ter falta de dinheiro para o bacalhau porque os cofres da Ministra Luisinha Queque estão cheios e o País está longe da bancarrota. Foi-me dado pelo próprio Barítono Coelho para ver se me convence a não me candidatar às Presidenciais. Ora, como eu só decido depois das eleições legislativas e o bacalhau se podia estragar até lá, só me restava contemplar o meu amigo com esse excelente exemplar.

José Alberto ficou boquiaberto com a surpreendente explicação, pelo que foi dizendo: – Só me resta agradecer de novo, professor. Mas a cerveja? E a cerveja, a que se deve?

– A cerveja tem também um relevante significado político. Foi-me oferecida pelo Ministro Sério de Lima que já está a comemorar a privatização da TAP que, segundo ele, é irreversível e que vai ser muito bem vendida. O Efromovich paga com aviões em segunda mão e manda dinheiro suficiente para pagar os salários até ao fim do ano. Enfim, um grande negócio porque ninguém estava à espera que a TAP chegasse ao Natal. E agora vamos às perguntas que se faz tarde.

– Professor a primeira pergunta vem do nosso espectador Antoninho Vidrado de Portalegre que pergunta se o professor alguma vez brincou aos manifestantes e aos polícias. Pardal de Sousa, franziu as sobrancelhas e foi dizendo:

– Pergunta difícil, mas devo dizer que nunca fui de manifestações, nem mesmo no futebol. Prefiro ir sempre para o camarote, e de preferência, para o camarote presidencial. Quanto a polícia, também não tenho queda, a não ser que fosse para a polícia secreta, espionagem e contra-espionagem. Mas acho oportuno as crianças começarem a treinar desde o berço as tácticas de arremesso de pedregulhos e garrafas aos polícias, bem como as tácticas policiais de defesa, porque as manifestações sem uns petardos de parte a parte não tem piada nenhuma nem atraem as câmaras das televisões. E, se não vai lá a televisão, qual é o impacto da manifestação? Nenhum.

– Muito bem, professor. A pergunta seguinte vem da nossa espectadora, Dona Idosa de Sousa, da Marmeleira, que tem uma pensão de 1000€ que reparte com uma filha e dois netos e pergunta se o Governo lhe vai cortar a pensão como diz que ouviu dizer à ministra Luisinha Queque.

– Ora aí está uma pergunta pertinente que convém esclarecer. O Primeiro-Ministro já esclareceu  que os cortes nas pensões não são os cortes nas pensões. Quer dizer, falta dinheiro nas pensões mas pode-se pôr dinheiro nas pensões não tirando dinheiro das pensões. E sempre se pode dizer que, se se tirar dinheiro às pensões, não quer dizer que o reformado fique com menos dinheiro para ajudar os netos: como baixa a pensão, baixa o escalão do IRS e vai pagar menos impostos. Portanto, cortar nas pensões não significa cortar no rendimento dos pensionistas, pelo que a telespectadora pode estar descansada.

– Ficámos esclarecidos, professor, disse José Aberto. E prosseguiu: – A pergunta seguinte vem do nosso espectador Lampião da Silva da Brandoa que pergunta se o País ficou melhor ou pior pelo facto de Jorge Jesus ter ido para o Sporting.

Pardal de Sousa recostou-se violentamente na cadeira, como se lhe tivessem dado um murro no estômago. José Aberto sorria com ar de quem tinha feito uma maroteira. E tinha mesmo. Não tinha informado previamente, Pardal de Sousa, da existência de tão inusitada questão. Mas, Pardal de Sousa, não se intimidou:

– Uma verdadeira mente brilhante, o nosso espectador Lampião e Silva. Espero estar à altura de tão sagaz pergunta. Ora vejamos. Eu diria que o País está pior, ainda que possa estar melhor.

José Aberto não estava a perceber nada. Tinha cara de ponto de interrogação. Pardal de Sousa prosseguiu:

 – Está pior porque se Jesus não vai para o estrangeiro as exportações de treinadores não sobem e sem o aumento das exportações não há crescimento económico, como diz Barítono Coelho. Portanto, esta transferência de JJ para o Sporting, em vez de ir para o Qatar, favorece o Abrenúncio Costa e o PS e desfeiteia a coligação. Mas por outro lado, como não aumenta os números da emigração – em vez de 400000 que emigraram passavam a ser 400001 – contraria o cenário da oposição que diz que a emigração está a aumentar. Logo, menor emigração, melhor o País, mais difícil a tarefa do Abrenúncio e mais fácil a do Barítono e do Tropas.  Além disso, o País vai ficar melhor por outra razão. E daqui chamo a atenção da ministra Luisinha Queque. Como JJ vai ganhar 6 milhões, mais que no Benfica, e pagar muito mais impostos, a coligação, com o acréscimo de colecta, já pode colocar no programa eleitoral definitivo a descida dos impostos em 2016 e não só em 2019. Parece-me pois, que por aí o País vai ficar melhor. Do ponto de vista desportivo o País não ficará muito melhor. Só ficaria se JJ voltasse para o meu Braga de onde nunca deveria ter saído. Mas enfim, é a vida, como dizia o Tó Terres.

José Alberto estava siderado com tão profundas, mas cristalinas explicações. Pardal de Sousa era mesmo genial. Mas, após um ligeiro entreacto, prosseguiu:

– Bem, professor, não temos mais perguntas, pelo que vamos aos livros. Pardal de Sousa não se fez rogado e foi dizendo:

– Bom. Como perdemos algum tempo com o bacalhau, vou só referir algumas das obras mais importantes ficando as restantes para a semana. Em primeiro lugar, a biografia de Barítono Coelho, “Como se faz um nó de gravata”. Excelente na explanação da técnica do nó que não deve ser cego para evitar o enforcamento do engravatado. A seguir, “Como aumentar a despesa sem aumentar a receita” de Brutus de Carvalho. Muito bom. Exemplar mesmo. À atenção de Abrenúncio Costa para que possa reduzir a austeridade e cumprir as promessas eleitorais respeitando, ao mesmo tempo, os compromissos do défice. Depois temos “Há mais marés que marinheiros”, obra póstuma, só agora editada, e encontrada no espólio desse grande navegador que foi o Almirante Thomaz. Desta vez, à atenção do Presidente Acabado Silva que quer voltar ao mar quando já não temos marinheiros porque os que tínhamos ou morreram ou emigraram. Enfim, obra essencial para o Presidente poder terminar o seu mandato em paz com as marés já que em terra os ventos não sopram de feição lá para os lados de Belém.

José Aberto não resistiu e disse: – Ó professor não está a ser um pouco injusto com essa recomendação de leitura para Acabado Silva?

– Ó José Aberto. Por que carga de água estaria a ser? Eu só aconselho bons livros e bons escritores. O Almirante, grande navegador, era visita lá de casa ainda eu andava de bibe. Até me deu um aquário com peixinhos e uma caravela com a cruz de cristo quando fiz quatro anos e entrei para a escola (sempre fui muito precoce, graças a Deus). Por isso, se Acabado Silva, em fim de mandato, se lembra finalmente que a vocação do País está no mar, depois de ter destruído toda a nossa frota pesqueira e mercante quando foi Primeiro-Ministro, só posso aconselhar-lhe esta obra fundamental para a redefinição da nossa arte de marinhar.

– Muito bem – rematou José Aberto. – Vamos então aos temas da semana. O primeiro é o nome da coligação e as linhas programáticas que apresentou. O que acha o Professor do nome e do programa?

– Eu diria que o nome é explosivo. Para a frente dá uma ideia de revolução. A coligação quer revolucionar o País. E todos os indicadores dizem que já está a revolucionar: as exportações de alfarroba e de Galos de Barcelos estão em alta, o crescimento está aí. Bem vê, andar para trás é andar para a bancarrota. Quanto às linhas programáticas estão perfeitas. São as que foram seguidas até aqui, só que certificadas com o selo de garantia. Ora, como sabe, os consumidores-eleitores não são parvos: só compram produtos com garantia. E por isso não vão deixar escapar esta oportunidade.

José Aberto estava meio convencido mas, e pagavam-lhe para isso, ainda assim tinha que contradizer para dar um ar mais convincente à peroração:

– Mas, professor, a oposição diz que é só “mais do mesmo”, e que a garantia é a garantia da austeridade, do desemprego e da fome e miséria para muitos. E que andar para a frente é um suicídio quando na frente está o abismo. Nesse caso tem é que se andar para trás.

Pardal de Sousa não se intimidou. A resposta estava mais que preparada:

– A oposição faz o seu papel. Mas quando há bancarrota nem sequer há oposição. Logo, para haver oposição, não pode haver bancarrota, logo não se pode andar para trás. Quanto ao desemprego, está alto sim, mas podia estar pior e já esteve muito pior. E não vejo porque havemos de lamentar os desempregados. Tem tempo livre à brava. Podem ir à ópera, à praia e ao futebol em qualquer altura e eu vejo-me aflito para não perder os grandes jogos. Olhe, vim hoje de Berlim depois de ver o Barça a ganhar a Champion  e aqui estou. Enfim, uma estafa a que os desempregados não estão sujeitos. E sobre a fome, é mais uma falácia do PCP e do BE, já que o Abrenúncio não se espraia muito nesse tema. Com o sucesso que tem os Bancos Alimentares contra a Fome da minha amiga Isabelinha Choné, acha que alguém passa fome neste País? Acredite, José Aberto, é só propaganda para assustar os eleitores.

– Muito bem, professor. Vamos ao último tema de hoje, a última grande novidade da semana. Parece que José Trocas vai sair da cadeia de Évora e vai para casa. Isso significa que está inocente? Ou significa que já não pode perturbar o inquérito? Será que o facto vai beneficiar o PS nas intenções de voto?

Pardal de Sousa. Sorriu com deleite. Esta era uma praia apetecida onde se ia deliciar fazendo um bodyboard de sonho. Assim foi:

– Essa é a pergunta dos três em um. Bem. Primeiro, ainda não saiu da cadeia. Pode não querer sair, ou o juiz pode não acatar a sugestão do procurador. Mas, se for para casa, é bom porque parecia mal estar tanto tempo preso sem acusação. Já começava a transformar-se em mártir e os portugueses têm grande tendência para se reverem e e idolatrarem os santos e os mártires. Por isso, tinha que sair para que a Justiça não tivesse que se defrontar com peregrinações em caso de vir a ser condenado. A seguir. Sobre a perturbação do inquérito. Sempre me pareceu excessiva essa justificação da Justiça para o manter preso. Mas suponhamos que sim, que estando preso não podia perturbar o inquérito.  A ser verdade, também não podia perturbar o PS. Não podia falar, o caso estava a sair da agenda mediática, já não se falava da governação socialista, nem da bancarrota, nem do despesismo. Sendo libertado, nas próximas semanas não se vai falar de outra coisa e a coligação vai poder voltar a dizer aos portugueses que o Governo de Trocas foi a causa de todas as desgraças. Logo, a libertação de José Trocas vai ser um bálsamo perfumado para a coligação.

José Aberto, agora, estava de boca aberta. Era lógica mas sagaz a análise de Pardal de Sousa. Como sempre. Mas ainda retorquiu:

– Não está a querer dizer que a Justiça liberta agora José Trocas para “ajudar” a coligação e poder “colar” mais facilmente o PS de Abrenúncio à governação de José Trocas?!

Pardal de Sousa, agora, conteve uma pequena gargalhada e ficou-se por um sorriso enigmático e complacente:

– Ó José Aberto, você deve ter jeito para escrever romances policiais. Eu não disse nada disso. A Justiça tem os seus tempos e as suas liturgias. Estão no castelo de Témis, a Deusa da Justiça, enclausurados, e nem sequer devem saber que vai haver eleições e que estamos a ter a campanha eleitoral mais longa da democracia. Por coincidência, a notícia de que Trocas poderá sair para casa ocorreu no dia em que o PS aprovou o seu programa eleitoral, e num sábado o que só prova que os magistrados são esforçados e empenhados e que merecem o aumento de regalias e vencimento que o Governo lhes vai já dar. É merecido e só espero que, caso Abrenúncio ganhe as eleições, não venha a retirar-lhes esse merecido prémio.

– Muito bem, professor. Só uma última pergunta: Já nos pode confirmar que se vai candidatar à Presidência da República? Já se decidiu?

Pardal de Sousa, desta vez, não gostou muito. Esta também não tinha sido combinada. José Aberto estava a abusar. Contudo, tinha que responder e sair-se bem. Só que, respondeu não olhando para o interlocutor, nem mesmo para a câmara:

– Ó José Aberto, você é mesmo um grande ficcionista. E como essa pergunta não estava no guião eu vou castiga-lo dizendo-lhe o seguinte: eu nunca falei em candidatar-me. Eu nunca disse isso. Eu estou como os magistrados. Eu estou enclausurado no castelo de Minerva, a Deusa da Sabedoria, e nem sequer sei se vai haver, ou quando vai haver, eleições Presidenciais.

Estátua de Sal. 07/05/2015

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O Programa Eleitoral do PS

António Costa

                        António Costa

Acho que o Programa eleitoral do PS só peca por defeito relativamente às medidas que seriam necessárias para o País mudar de rumo. E por uma razão: se fosse mais além o PS teria que pôr em causa o Tratado Orçamental e renegociar a dívida, e sobre estas questões, o PS assobia para o ar e nada diz, a não ser que vai cumprir tudo o que a UE determinar.

A Direita, não tem nada para apresentar, a não ser mais do mesmo. Mais cortes, mais austeridade, mais miséria, mais desigualdade social, mais privatizações ao desbarato para apaniguados e companheiros de estrada.

A Direita já que nada tem para dizer, não anda a discutir o Programa do PS, em termos da valia de cada medida tomada de per si. Ou seja, não diz que as medidas sejam más, a maioria delas. Aquilo que imediatamente pergunta, sobre cada medida, é quanto custa, e questiona se a União Europeia nos vai deixar implementar as mesmas. O PSD não tem programa, a não ser o programa que a troika lhe deixou e impõe.  Quando vê qualquer coisa de novo, mesmo que seja tímido, olha para a troika e pergunta: “Será que isto vai ser possível de implementar? Nunca tínhamos pensado nisto.”

Só que há um problema. É um problema de contas e de macroeconomia. O programa do PS é um exercício de macroeconomia, com objetivos, e restrições que assume e pretende cumprir, mormente as restrições do Euro, da dívida e dos Tratados. Ora, a maioria, que nunca teve programa político que fosse além do governar à vista, gerindo o País como se fosse uma mercearia com um livro de fiados, fica aterrada.

Não percebe, que toda a ação económica se desenrola no tempo, sendo a resultante final um saldo que advém das interações variadas de múltiplos agentes. E, decorrendo no tempo, e fazendo uma aposta sobre o futuro, existem sempre riscos de falha na antecipação de cenários futuros, e a necessidade de ajustamentos.
Mas estes riscos, são os que derivam de qualquer cenário de investimento. Se as empresas privadas que o Governo tanto elogia tiverem tanto receio dos riscos do futuro, como o Governo, já que propagandeia o pavor desses riscos para destruir a valia do Programa do PS, nunca mais o País sairá do estado miserável em que se encontra.

A questão toda, portanto, é esta. Ao PS exigem-se contas. Quando as apresenta, não as entendem, nem as percebem, por incompetência, má-fé ou enviesamento ideológico. O PSD não tem, nem programa, nem contas, porque quem lhe faz o programa é a troika e o FMI.

A tristeza final, ainda assim, é que o PS precisou de justificar a sua “austeridade amenizada” com um modelo macroeconómico que lhe pretende sustentar a plausibilidade. Ou seja, teve que justificar as suas opções políticas com o tecnicismo dos modelos. Não para convencer os cidadãos, mas para convencer as instâncias europeias, obtendo assim luz verde para as propor e levar à prática.

Quanto ao PSD/CDS não precisa de dizer nada e nada tem a dizer. Basta-lhe olhar para a troika e para o FMI e pedir instruções. Não tem que apresentar contas. O seu único programa é acenar com o medo e o pavor de dias piores, dias que, em verdade, vai querer continuar a impor se os portugueses se assustarem e lhes confiarem o seu voto.

A falha do PS, é que julga que a Europa está de boa fé e vai ser sensível aos seus argumentos técnicos, permitindo-lhe, caso ganhe as eleições, levar avante o seu programa, por muitas limitações que possa ter no sentido de corrigir o atual quadro económico.

Eu até queria estar enganado mas duvido. O programa do PS, volta o enfoque da economia e da governação para os rendimentos do trabalho e para a procura. O enfoque da União Europeia sempre foi inverso e continua ainda a ser. É um enfoque que privilegia os rendimentos do capital e a oferta, pelo que, e ainda que o PS não seja Syriza, o choque será inevitável.

Estátua de Sal, 21/05/2015