Mitos e falácias sobre a Grécia

(João Cari, in Facebook, 25/06/2015)

zeus

O momento que a Europa atravessa e as negociações que ainda decorrem com o novo governo grego deviam permitir um debate sério e sereno sobre – precisamente – a Europa que queremos. Mas não: salvo uma ou outra exceção, o debate está inquinado por um conjunto de falácias, por algumas meias verdades e por algumas verdades factuais que são utilizadas de forma intelectualmente desonesta para sustentar pontos de vista doutrinários ou, muitas vezes, apenas opiniões desgarradas que mais não são do que a face visível de um posicionamento de tipo clubístico nesta questão: como se a Europa “vs” Grécia fosse um Futebol Clube do Porto – Benfica ou um Benfica – Sporting.

Comecemos primeiro pelas falácias. Os gregos têm um salário mínimo e pensões claramente superiores às nossas e aos de vários países bálticos que recentemente aderiram ao projeto europeu. Pois têm. Mas ficar por aqui, como os economistas adoram fazer (os de “e” pequeno porque também os há de “E” grande) é ignorar a geometria social do problema, bem mais complexa do que aritmética “nominal” que decorre do facto que 750 euros por mês de salário mínimo representarem 50% mais do que 500 euros. O economistas adoram esta aritmética nominal e os políticos – então – idolatram-na: se nós ajustámos, se os gregos ainda têm pensões e salários mínimos (e médios) superiores aos nossos, porque razão não podem os gregos ver baixados esses mesmos salários e pensões? Parece legítimo pensar assim. Mas o problema é bem mais profundo do que parece: mesmo dando como bom que 750 euros na Grécia compram o mesmo que 500 euros em Portugal, os 250 euros a mais de rendimento que um trabalhador que aufere um salário mínimo na Grécia têm de servir para financiar uma série de bens e serviços que cá –melhor ou pior -ainda são assegurados pelo Estado. O que não parece caber na racionalidade das folhas de excel nem nas cabeças bem pensantes de muitos dos nossos políticos e fazedores de opinião é a importância crucial que esse maior rendimento disponível nominal, providenciado por salários mínimos e pensões mais elevados, possui na manutenção da alguma (mas cada vez menor) coesão social, intergeracional, num país em que a taxa de desemprego entre os jovens é de 50% e a taxa de referente a toda a população ativa ultrapassa os 30%. Comparar a realidade grega com a nossa, a este nível, é assim, errado: nós não somos a Grécia mas esta frase, tantas vezes proferida por muitos, não pode servir apenas para sustentar os argumentos que lhe são convenientes. Tem, portanto, de servir para sustentar todos os argumentos, incluindo aqueles que, como o meu, pretende realçar a importância de se possuir um maior rendimento disponível num pais em que a capacidade de o Estado fornecer serviços a um preço comportável praticamente desapareceu: a esmagadora maioria dos medicamentos já não são comparticipados- quando os há – e quando não os há várias pessoas acabam por sucumbir a doenças crónicas, já para não falar da degradação dos restantes serviços públicos. Claro que não vale a pena, sequer, incluir na folha de excel os custos sociais desta realidade trágica: designemo-los por termos de perturbação em regressões estatísticas ou meros danos colaterais, que poderiam não existir caso os gregos fossem um povo decente, trabalhador e honrado.

As falácias continuam por aí fora, intoxicando o debate e adiando o inevitável: como vai a Europa sair do buraco que ela mesma cavou? Mas voltemos à Grécia, porque voltando à Grécia estamos a discutir a Europa. Como bons cristãos, todos achamos que um indivíduo deve honrar as suas dívidas. Pois deve. Eu honro as minhas e até “ajustei” para que o possa continuar a fazer. Então não se paga o que se deve? Claro que se deve pagar. No entanto, esta questão moral entronca numa outra, de caráter eminentemente prático – de confronto com a realidade (esse exercício de confronto com a realidade que o nosso presidente da república exulta os responsáveis políticos gregos a fazerem): como criar riqueza que permita ir pagando esse monstro que é a dívida grega? A falácia aqui é mais fácil de identificar: se não dás de comer à vaca, um dia a vaca deixa de dar leite. Esta metáfora é uma boa metáfora, mas esconde uma parte do problema. A Grécia, país que abraçou em definitivo (?) a democracia em 1974, como nós, foi governada nos últimos 40 anos por uma rapaziada composta pelos DDT lá do sítio, invariavelmente integrando o PASOK e a Nova Democracia, que punha e dispunha do país, designadamente tendo utilizado a máquina do Estado para dois efeitos: primeiro, para encher de “boys” essa mesma máquina criando empregos artificiais que apenas fizeram aumentar a despesa pública e, depois, para pouco ou nada fazer (leia-se, governar) no sentido que todos os gregos pagassem impostos porque, para eles, os DDT, todos os gregos não pagarem impostos era a melhor forma de assegurarem que eles próprios não pagavam impostos. Tão simples quanto isso. Claro que, mais recentemente, a culpa é do Syriza, que, à custa da estratégia negocial do Sr. Varoufakis, baseada em pura teoria dos jogos (alegam os mais entendidos) foi adiando as negociações, gastando 6 meses para nada, assim piorando o estado do país. Olha, finalmente um ministro das finanças utilizou uma área da ciência económica num processo negocial e uma parte da nossa opinião publica horroriza-se por isso mesmo. Curioso: deve ser a primeira vez que vejo alguém condenar o uso da ciência na defesa dos seus legítimos interesses. Atrasou o processo 6 meses, quando os seus antecessores atrasaram a Grécia durante 40 anos. Mas a culpa é dele, note-se.

Há mais falácias (como a que decorre de que, se o programa de ajustamento funcionou em Portugal e na Irlanda, então só não funcionou na Grécia por culpas dos gregos ou, ainda, que o novo governo grego afirmou que não pagava a dívida) mas fico-me por aqui, hoje. Não sem antes lembrar que os desequilíbrios provocados pela adoção de uma moeda única no espaço europeu já tinha sido objeto de enumeração por parte de um Economista (com “E” grande), de seu nome Robert Mundell, prémio Nobel em 1961. 1961: 39 anos antes da adoção da moeda única por parte do nosso país. Um tremendo erro económico, que esta a sair muito caro aos gregos, que nos sairá ainda mais caro do que já nos está a sair e, possivelmente, à Espanha e até à Itália.

Enquanto todos andámos a puxar pela nossa equipa: “Ei, O Porto jogou melhor ou o Benfica é que jogou melhor ou, ainda, a culpa foi do árbitro”, perdemos tempo precioso que devia ser usado a discutir que Europa queremos: se uma Europa em que os ricos mandam nos pobres, numa espiral de concessão de empréstimos para pagar outros empréstimos, enquanto se força um povo a comer cada vez menos e a morrer cada vez mais cedo (como estará a esperança de vida grega, agora, quando comparada com a de há 4 anos, alguém sabe? E a mortalidade infantil?), tornando progressivamente esse povo uma réplica “light” do retratado por Victor Hugo nos “Miseráveis”. Povo esse que se verá forçado a vender “nada” no mercado da sua cidade, como tão bem satirizou Mel Brooks na “Mais Louca História do Mundo”. Esse mesmo povo que, no romance de Victor Hugo, luta contra a tirania absolutista de uma classe privilegiada e sem qualquer tipo de sentido humanista porque já nada tem a perder. Todos nos lembramos como termina este romance: Jean Valjean, o comissário de polícia que dedicou parte da sua vida a tentar prender um homem por ter escapado da cadeia, condenado por um crime que efetivamente tinha cometido, acaba por conseguir detê-lo. Mas, decide libertá-lo, ao constatar que o seu futuro seria sombrio face à revolução que tinha então explodido. O fim dos seus privilégios, somado ao facto de, no seu interior, nunca ter esquecido de que aquele criminoso condenado o poderia ter morto e decidiu poupar-lhe a vida, fê-lo tomar a decisão de se atirar ao Sena, morrendo afogado.

O que nós devíamos estar agora a fazer era debater, portanto, se a Europa é o Jean Valjean, a Grécia o criminoso condenado ou, se pelo contrário, a Europa pode ser um espaço de liberdade, igualdade e fraternidade. Ideais estes que, na cabeça do Sr. Shauble, parecem não ser tão importantes como a perda de rendibilidade para os acionistas da Deutche Telecom, que controla a maior operadora de telecomunicações grega, perda essa que resultaria da aplicação de uma taxa de imposto mais elevada para empresas com lucros anuais acima dos 500.000 euros, proposto pelo governo grego mas rejeitado pelo Eurogupo que, sub-repticiamente, o Sr. Shauble domina.

Talvez a Europa tenha percebido que a saída da Grécia do euro seja um suicídio. Restam-nos uma certeza e uma dúvida: a certeza de que o Sr. Shauble nunca terá o sentido de honra de Jean Valjean e a dúvida sobre se a tirania absolutista que o inefável ministro das finanças alemão (esse economista de “e” pequeno) impõe à Europa pobre não será um início de um processo, dificilmente reversível, em que a Europa será um continente mais perigoso e mais vulnerável às ameaças externas. E, por consequência, o mundo um lugar ainda menos recomendável.

3 pensamentos sobre “Mitos e falácias sobre a Grécia

  1. Com garotadas destas até se torna dificel ver novos rumos para a UE.Aceitar meses depois o que se tinha proposto e rejeitado anteriormente é obra!!; continuar a achar que a C Lagarde e o Schaubel são uns cretinos por pedirem gente adulta a negociar é preciso muita fé ou oculos coloridos bem fortes.
    Até um aluno do primeiro ano de economia conseguia prever que era este o resultado(levantamentos em massa dos bancos, degradação economica e social, encurtar das hipoteses de pagar , por falta de dinheiro e de tempo)

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  2. Ou a Europa se transforma completamente e começa a funcionar para os povos com um liberalismo controlado, uma uniformidade salarial e fiscal, um verdadeiro salário mínimo igual por todo o lado e uma certa protecção contra importações irresponsáveis socialmente e ecologicamente, construindo um parlamento que decide tanto ou mais que as Comissões…
    … ou então a Grécia sairá do Euro e nós, países do sul, também sairemos a mais ou menos longo prazo.
    Assim, a União Europeia está coxa, manca, incapaz de andar normalmente e destinada a uma queda certeira!!

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