O mundo dos Marcos "Orelhas"

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(In Blog O Jumento, 03/04/2017)

canelas
Aquilo que se está a passar no mundo do futebol está a passar todos os limites do tolerável, horas a fio de provocações e apelos à intolerância em direto nas televisões e em horário de prime time. Clubes, dirigentes desportivos e comentadores sem escrúpulos disputam o bolo financeiro dos muitos milhões que o negócio da bola está gerando. Os clubes ganham a maior fatia, mas depois sobram fatias mais pequenas para empresários, intermediários de todo o tipo, havendo ainda migalhas para comentadores, jornalistas promovidos a diretores de informação e toda uma alcateia de gente que dá a alma em troco de um jantar grátis nos restaurantes dos estádios de futebol.
Diretores de informação de algumas televisões perderam todos os escrúpulos e entram no jogo da manipulação, estações como a TVI24 e a CMTV disputam os comentadores mais agressivos e provocadores, disputando audiências a todo o custo. É raro ver um debate sério sobre um jogo, nenhum jogo foi ganho por mérito dos jogadores, dos treinadores ou das equipas, há sempre três grandes penalidades que ficaram por marcar, vários amarelos e alguns vermelhos que ficaram por marcar. Já ninguém vai à bola para ver os jogadores, o grande protagonista é sempre o árbitro.
O Jorge Jesus não está a liderar o campeonato, como é hábito desde que é treinador, por causa de uma conspiração da arbitragem no jogo com o rival, o Rui Vitória foi impedido de ganhar ao Moreirense na Taça da Liga pelos árbitros e Pinto da Costa assegura que se fossem marcadas todas as grandes penalidades já tinha encomendado as faixas. Nenhum treinador falhou, nenhum presidente contratou os jogadores errados, nenhum treinador falho na estratégia, tudo foi decidido pelos árbitros.
Os jogos já só servem para serem analisados frame a frame com o objetivo de atiçar ódios pelos comentadores sem escrúpulos, gente falhada e sem grandes recursos que descobriram no ódio clubístico a forma de ganharem a vida e de se promoverem. Quanto mais ódio atiçam mais são bajulados pelos marginais das claques. Acima deles há jornalistas e outros pequenos goebelzinhos a gerir o ambiente, como se os jogos fossem ganhos com pressão, entendendo-se esta como o medo imposto aos adversários e aos árbitros.
O Marco “Orelhas” do Canelas, rapaz que treina nos ginásios e emborca proteínas e anabolizantes para ter figura de lutador de “vale tudo” não foi mais do que um descuidado, abusou da dose e partiu o nariz ao árbitro. Mas todos os dias os Pinas, os Venturas, os Guerras e outros partem os narizes a toda a gente, em total impunidade e protegidos por diretores de comunicação preocupados com as audiências. Toda esta gente são versões televisivas do Marco “Orelhas”.
O mundo da bola está a ficar perigosos, os presidentes usam claques como guardas pretorianas de marginais inchados pelos anabolizantes, os treinadores chegam a roçar a insanidade mental na tentativa de esconderem os fracassos, as televisões dedicam horas e horas a atiçar o ódio. O mundo da bola está cheio de Marcos “Orelhas”.

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Semanada

(In Blog O Jumento, 02/04/2017)
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Esta semana é marcada pelo princípio do fim da saga da família Espírito Santo na banca portuguesa, ainda que não se possa dizer que o país se tenha livrado do buraco que cavou na economia portuguesa. Como era de esperar o PSD assobiou para o ar, Passos Coelho sabe muito bem que foi ele que conduziu todo o processo e que na hora de deixar o governo deixou um dos seus secretários de Estado a vender o banco. Já Assunção Cristas aproveitou para denunciar mais uma desgraça causada pelo diabo deste governo.
Poucos repararam na diferença de postura de Passos Coelho quando extinguiu o BES e de Costa no momento do anúncio da venda; um não deu a cara e deixou essa tarefa ao pobre do Carlos Costa, o outro assumiu a responsabilidade, poupando o governador e o ministro das finanças. Mas a SIC depressa viu nesta atitude de Costa um gesto oportunista, o primeiro-ministro chegou-se à frente para dar boas notícias. Enfim, não se percebe muito bem se esta agressividade da SIC com Costa é do foro da política, da economia ou da psicologia.
O país perdeu a noção do ridículo e não serão poucos os turistas que ao chegarem à Madeira darão uma gargalhada quando ouvirem o comandante dizer o nome do aeroporto. As gargalhadas serão ainda mais ruidosas quando virem o busto do Cristiano à saída do Aeroporto.
Quando chegarem ao centro do Funchal e virem a estátua de um Ronaldo sobre-dotado nas partes irão concluir que este país está doido. Imaginem o que diria o tal turista finlandês de que Passos Coelho tanto falou, ainda nos vai dizer que será ele a pagar tanto bronze dedicado ao mais ilustre filho deste pobre país.
Depois de um ano a rogar pragas ao défice orçamental, Teodora Cardoso deixou de dar palpites neste capítulo e até aceita que em 2017 tudo vai correr bem no capítulo orçamental. Mas a pobre senhora não atira a toalha ao tapete, agora aderiu à tese do PSD e em vez de fazer previsões orçamentais argumenta com a dívida. Este foi um ano horrível para a pobre senhora, viu a sua credibilidade ser transformada em anedota nacional e acabou por ter de engolir um défice com que nunca sonhou. Mas a senhora é teimosa, depois de tanta humilhação não pediu a demissão e até deu início a mais uma cruzada.

Dar a cara

(In Blog O Jumento, 01/04/2017)
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António Costa podia muito bem deixar a divulgação da venda do Novo Banco ao governador do Banco de Portugal; afinal a venda foi um processo conduzido pelo BdP e o proprietário do Banco é o Fundo de Resolução e não o governo, até poderia poupar a sua imagem e deixar eventuais comentários ao ministro das Finanças ou mesmo ao secretário de Estado do tesouro.
O governo poderia ter-se limitado a assinar de cruz ou a fazer de conta que o fazia dessa forma, mesmo depois de um ex-presidente do PSD de forma leviana e irresponsável ter tornado pública informação confidencial do Banco de Portugal. Até poderia ter deixado o assunto para as férias da Páscoa, encarregando Mário Centeno de telefonar aos outros ministros para assinarem o decreto por email, entre as garfadas do cabrito assado ou do ensopado de borrego.
Todos os males do negócio poderiam ter sido assacados à Comissão ou, a um ex-secretário de Estado de Passos Coelho e amigo de Maria Luís Albuquerque, que foi contratado pelo BdP para fazer a venda do banco. Com algum jeito o governo até poderia ter-se aproveitado dos receios pelas consequências do negócio para adoptar algumas medidas de austeridade, talvez o aumento do imposto de selo aplicável às transações bancárias ou mesmo um corte de vencimentos de algum grupo profissional que não merece a simpatia dos partidos do governo.
Nada disto seria estranho, tudo isto aconteceu, era assim que trabalhavam Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque; a própria Assunção Cristas assumiu que estava mais preocupada em meter as sandes no saco da praia do que em assinar o decreto no famoso Conselho de Ministros organizado por e-mail. António Costa não precisava de dar a cara, nem mesmo Mário Centeno tinha de aparecer em público. A conferência de imprensa de Carlos Costas podia ter sido agendada lá mais para o intervalo das telenovelas.
Mas não é só o emprego que está aumentando, o investimento que se anima e as exportações que continuam a crescer mesmo sem o brilhantismo de um tal Pires de Lima. Os tempos mudaram, a política é feita sem truques, os governantes não se escondem atrás dos credores, o primeiro-ministro não se esconde atrás do ministro das Finanças e este atrás do governador.
A forma como o Novo Banco morre foi mais digna do que a forma como nasceu.
Aos poucos o país retoma a normalidade e a política está deixando de ser a arte da mentira, da simulação e da canalhice. Respira-se melhor em Portugal.