Este Abril

(In Blog O Jumento, 25/04/2017)
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No outro Abril os jornalistas defendiam a democracia, neste Abril os jornalistas fazem de acusadores públicos em julgamentos fantoches. No outro Abril os jornalistas defendiam os valores da democracia, neste Abril há jornalistas a fazerem de vigilantes, perseguindo todos os que opinem em defesa de valores.
No outro Abril dizia-se que o regime promovia os três “f”, o fado, Fátima e o futebol. Nesta Abril Amália e Eusébio estão no Panteão, as televisões dedicam metade das suas emissões noturnas ao futebol e o Papa vem a Portugal canonizar os pastorinhos, promovidos de beatos a  santos por terem salvo uma criança que caiu de um sétimo andar.
No outro 25 de Abril o povo queria ter cuidados básicos de saúde, criou-se o SNS e pouco tempo depois foi introduzida a vacina tríplice contra o sarampo, a rubéola e a “papeira”. Neste 25 de Abril o país assistiu à morte de uma jovem que não tinha recebido a vacina, acordando para a realidade de um movimento que recusa o progresso e em nome de valores de tribos urbanas põe em causa a vida dos filhos.
Hoje há democracia, mas há novas formas de repressão, há medo de jornalistas sem escrúpulos, de juízes justiceiros, de magistrados que tiraram direito com passagens administrativas. Há um SNS moderno mas temos medo do sarampo, vamos voltar a ter medo das consequências da rubéola. Temos instalações hospitalares modernas e equipamentos sofisticados, mas nunca tivemos tantos endireitas, tantos falsos médicos e falsas medicinas.
Este Abril está longe de ser feliz, o fanatismo mata nas lutas entre claques desportivas, mas mata também em famílias que tiveram direito a melhores e escolas e universidades e agora ensinam a ignorância e o obscurantismo por oposição ao progresso científico. Os valores mais elementares da justiça são ignorados, a começar pelos magistrados. Este Abril está longe daquele que Abril prometeu.

Semanada – Relvas ressuscita

(In Blog O Jumento, 23/04/2017)
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Esta semana iniciou aquilo que pode ser considerada como a Quaresma de Passos Coelho, a apresentação feita por Relvas de Luís Montenegro como um homem do futuro, um dia antes de uma entrevista ao Expresso em que defendeu a realização de diretas para a escolha do PSD, dá-se início a um longo período de liturgias partidárias que terminarão com a crucificação de Passos Coelho.
O mesmo Relvas que na hora da despedida do governo reclamou a invenção da criatura, decide agora dar início ao seu enterro político.
Assunção Cristas prometeu que com ela Lisboa deixaria de ter sem-abrigo. Como é pouco provável que os leve para casa resta saber se os vai mandar para Oeiras, para o Barreiro, para o Montijo ou para Odivelas. Uma coisa é certa, é um pouco mais fácil dizer aos funcionários do Ministério da Agricultura para não usarem gravata e desligarem o ar condicionado do que desligar tanta gente que vive nas ruas da cidade. Mas se a devota conseguir esse milagre, pode ser que nos prometa um euromilhões a cada lisboeta ou, quem sabe, um desconto na Uber ou nas bombas de gasolina do papá.
Montenegro descobriu uma solução para que um dia que ganhe eleições possa ter maioria absoluta no parlamento, propôs que o partido mais votado levasse uma borla de cinquenta deputados. O mais divertido é que o até aqui braço-direito de Passos Coelho argumenta que desta forma aproxima eleitores de eleitos, isto é, a melhor forma de os eleitores se identificarem com os eleitos seria cinquenta deputados que ninguém escolheu acabarem por decidir quem governa. Mas o ridículo da proposta não se fica por aqui, talvez rendido à Grécia foi nesse país até aqui maldito que foi buscar a ideia. Estamos cheios de sorte, imaginem se tivesse ido buscar a solução da estabilidade política à Venezuela.
Vítor Gaspar decidiu alegrar-nos com o seu refinado sentido de humor, como o mundo pouco sabe de política orçamental decidiu mandar parar as escolas de economia para lhe ouvirem aqueles a que definiu como os cinco princípios básicos da política orçamental: ser contra-cíclica, amiga do crescimento, inclusiva, suportada pela real capacidade fiscal, e conduzida com prudência. Graças a esta grande sumidade intelectual, só superada pela Maria Luís Albuquerque, o mundo vai saber gerir as suas contas, basta fazer tudo ao contrário do que o próprio Gaspar fez quando era ministro das Finanças.

A asfixia de Passos Coelho

(In Blog O Jumento, 22/04/2017)

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“Está na hora do meu partido, que nunca foi um partido instalado nem com dirigentes dependentes da vida política para viver, encarar este debate sobre as primárias” [Miguel Relvas]


A última vez que Miguel Relvas teve uma intervenção em público foi quando se demitiu do governo, fez uma intervenção enigmática em que em vez de falar dele falou de Passos Coelho, mais do que um testamento Relvas fez uma certidão de nascimento do primeiro-ministro Passos Coelho, ficando óbvio que estava declarando a paternidade da criatura política. Agora volta a intervir para declarar abertas as cerimónias fúnebres do mesmo político, um morto-vivo da política que anda com a bandeirinha na lapela armado em alma penada.

Quando Miguel Relvas lança o debate em torno da escolha do líder do PSD através de diretas, numa entrevista publicada um dia depois de ter ressuscitado politicamente numa cerimónia de lançamento da candidatura de Montenegro à liderança do PSD, é óbvio que o progenitor da triste criatura que nos governou está dizendo que rejeita a paternidade de Passos para adotar o Montenegro. Quando se propõem diretas está-se questionando a capacidade do aparelho do PSD escolher o melhor líder. Acontece que no último congresso Passos teve mais votos do que o Kim da Coreia do Norte.

Mais do que o toca e foge de Rui Rio, um político pouco corajoso, incoerente e de parcos recursos, o discurso de Montenegro, apesar de ridículo e desastroso, foi uma candidatura à liderança do PSD. A verdade é que um dia depois o país esqueceu a sua proposta ridícula de eleger 50 deputados sem votos e o tema das notícias são as intervenções de Relvas e a sua proposta de diretas para a escolha do líder do PSD.

Isto significa que a oposição interna não só não vai esperar pelas eleições autárquicas para tirar o tapete a Passos Coelho. Os que se opõem à liderança de Passos Coelho não esperam pelos resultados nas eleições autárquicas, dizem aos eleitores que ao votarem nas listas do PSD estão votando num partido cuja liderança não merece a confiança do partido e que por não ter sido escolhida por diretas tem uma legitimidade questionável. Por outras palavras, a oposição interna do PSD deseja uma derrota expressiva de Passos nas autárquicas.

Não deixa de ter a sua graça ver um Montenegro que há poucas semanas se queixava de asfixia democrática, ser agora a cara de um movimento que pretende asfixiar Passos Coelho ainda antes das autárquicas, não hesitando em lançar um debate que apenas tem como consequência imediata uma derrota ainda mais expressiva do PSD nas eleições autárquicas.

Sendo Montenegro o líder parlamentar do PSD, escolhido por Passos Coelho de entre os que lhe mereciam mais confiança, é caso para dizer que a escolha do próximo líder do PSD não começa da forma mais digna.


Fonte aqui