SEMANADA

(In Blog O Jumento, 04/04/2018)
culto_marcelo
Esta foi a semana em que o soviete do MP se reuniu em congresso para adoptar as diretivas que vai dirigir ao governo em matéria de justiça. Como seria de esperar nestas iniciativas sindicalistas organizadas segundo o melhor estilo soviético, o grande acontecimento sindical foi antecedido por muito foguetório, o sassarico foi de tal forma grande que por pouco era tema de debate no parlamento europeu, depois do perigoso Mário ter sido apanhado há uma ano a ver um jogo do Benfica.
Quem não deve ter reparado em nada foi o Presidente da República, tão dado a fazer comentários sobre tudo o que se passa, pronunciando-se sobre os temas do dia de manhã, à tarde e à noite, nesta semana quase não reparou em nada, se não fosse a legionella da CUF dir-se-ia que meteu férias. Os portugueses estão a ficar dependentes dos seus comentários, pelo que o seu silêncio em casos como a parvoada justiceira e o negócio das crianças da IURD, estão a fazer com que muitos portugueses comecem a ter sintomas da síndrome da abstinência.
A líder do CDS também deve andar um pouco distraída, depois de todo o ruído que fez quando se registaram casos de legionella no Amadora-Sintra, esqueceu-se de fazer o competente aproveitamento político, agora que o azar bateu à porta do hospital dos Mellos. Faltou-lhe imaginação, poderia ter acusado o governo de não fiscalizar devidamente os hospitais privados.
Menos distraído andou Passos Coelho, que continua firme e hirto mais a sua bandeirinha, sentadinho ao lado de Hugo Soares, enquanto Rui Rio continua a gozar das suas férias prolongadas lá para os lados do Porto. Passos não se limita a servir de pau da bandeira na primeira fila do grupo parlamentar do PSD, também fez um pequeno comício em que questionou o governo sobre as crianças da IURD. Não deve ter reparado em quem deixou a IURD levar as crianças pela porta da frente da Justiça.

QUEM QUER SER PROCURADOR(A)-GERAL DA REPÚBLICA

(In Blog O Jumento, 03/02/2018)
ventinhas
Apesar do muito que se escreveu acerca das declarações da ministra da Justiça a propósito da eventual recondução do detentor do cargo de Procurador-Geral da República, declarações que foram mais um exercício académico do que uma avaliação da atual Procuradora-Geral, as declarações mais assassinas sobre a matéria e que quase foram ignoradas, foram a do Dr. Ventinhas, presidente desse sindicato absurdo dos magistrados do MP. Ficou óbvio que o sindicato não quer ou não gosta da Dra. Joana Marques Vidal ou em alguém, na manga para ocupar o lugar.
Este frenesim anti-corrupção que mais parece uma praga do Egito do que o regular funcionamento das instituições da Justiça, tem mais explicações do que o habitual argumento do “normal curso da justiça”. Agenda para cerca de cinco dias buscas ao gabinete do ministro das Finanças, formular a acusação contra dois ex-governantes, lançar uma mega operação contra gente mediática, tudo com o envolvimento de fugas programadas ao segredo de justiça é tudo menos normal ou coincidência.
Podem ser sugeridas várias explicações, a começar pela resposta à suposta ameaça governamental de não reconduzir a Procuradora-Geral. Seria uma explicação muito primária, só um suicida faria todo este espalhafato, não hesitando em difamar internacionalmente o presidente de uma dos maiores órgãos de poder financeiro á escala mundial. Seria grande ingenuidade sugerir que a mão atrás do arbusto é a da Procuradora-Geral ou que ela seria a beneficiária deste espectáculo triste e vergonhoso.
A tese do golpe de Estado e do desrespeito da separação de poderes por parte de magistrados que se querem substituir aos eleitores, porque estes idiotas andam a fazer escolhas menos inteligentes do que as que eles fariam, tem algum fundamento, o ataque a Centeno visava derrubá-lo e destruir a credibilidade do governo, uma manobra que só tem paralelo em acontecimentos dos anos 70. Mas é duvidoso que alguém arriscasses tanto e é muito provável que o ataque a Centeno seja uma manifestação de estupidez e incompetência por parte de alguém que terá mais olhos do que barriga.
Também se diz que esta sequência de acontecimento se segue a um momento em que a Procuradora-Geral estava sendo posta em causa no caso das crianças roubadas pelos bispos da IURD. É verdade que as declarações feitas pro alguns intervenientes nos processos põem em causa da Procuradora-Geral, mas é muito duvidoso que esta tivesse poderes para usar os recursos do MP ao seu serviço. Até porque o caso está a perder gás, há muitas formas de abafar situações em que as vítimas são pobres.
A explicação mais lógica terá que ver com a designação do ou da próxima Procuradora-Geral, sendo óbvias as ambições de algumas figuras mais mediática do Ministério Público. É também óbvia a ofensiva do Dr. Ventinhas, que depois de ter despachado a hipótese de recondução da detentora do cargo, promoveu um congresso na Madeira em que o tema central foi a escolha do próximo titular do cargo. Esta não foi uma semana brilhante para Joana Marques Vidal, que dificilmente será reconduzida, mas foi a primeira semana de campanha para o ou a candidata ao cargo.

A ÚLTIMA PRAGA DO EGITO

(In Blog O Jumento, 02/02/2018)
PRAGA
Em 2011 disseram-nos que tínhamos consumido demais, que gastámos o nosso dinheiro e o dos credores, um candidato a primeiro-ministro até nos deu o exemplo do finlandês que se queixou de teria de ser ele a pagar o almoço do então candidato a primeiro-ministro.
A tese do povo que gastou o que não tinha e merecia o devido castigo sob a forma de sacrifícios vingou  e ainda ontem os pensionistas com conta na CGD foram informados pelo Presidente da República que a bem do sucesso do Opus Macedo teriam que fazer mais um pequeno sacrifício pelo país. A tese chegou a ser convertida em teoria económica, com supostos economistas como o Vítor Bento a teoriza-la sob a forma de suposta explicação científica.
Na hora da pinochetada económica o então primeiro-ministro reproduzia no seu Facebook o lamento de uma admiradora que dizia já não ter dinheiro para poder tomar banho. A Ana Isabel Albergaria escreveu ao primeiro-ministro e este reproduziu a sua carta como modelo de grande exemplo nacional:
«Preciso muito da sua ajuda. É sobre o meu orçamento familiar. Até aqui o ordenado nunca chegava ao fim do mês. Era com os subsídios de natal e férias que eu conseguia equilibrar as finanças, pagar seguros, contribuições, irs, ou outra despesa extraordinária, como um par de óculos. Já cortei tudo… mas as despesas não essenciais. Tomo banho só uma vez por semana, só acendo uma lâmpada, dispensei a mulher a dias, só saio no carro em casos extremos. Não sei mais onde cortar e o dinheiro não chega. Por favor diga-me o que hei-de fazer para poder continuar a pagar as obrigações ao Estado.» [Facebook]
Como nem todos os portugueses tinham as qualidades da Ana Isabel Albergaria, alguns insistiam em tomar banho e, ao contrário do fazia Passos Coelho, a dar prendas de Natal aos filhos, o primeiro-ministro veio com uma nova tese. Os mesmos portugueses que eram esbanjadores, incluindo os pobres dos quais a Jonet dizia não saberem ter cuidado a gastar, era um povo de gente piegas, incapaz de enfrentar a miséria e ainda elogiar o governo, como fazia a Ana.
Agora que o país parecia estar livre de campanhas psicológicas e com o Passos a andar por aí e o Gaspar bem longe, eis que somos outra vez vítimas de uma fúria divina. Éramos esbanjadores, somos piegas e agora descobrimos que em cada porta há um corrupto. Parece que estamos a recuar ao tempo das sete pragas do Egipto e desta vez enfrentamos a última das pragas lançadas por Deus, a da morte dos primogénitos, a eliminação dos corruptos.
Parece que teremos de sacrificar um cordeiro ou um cabrito, de um ano, limpos, imaculados, sem mancha e aspergir o seu sangue nas ombreiras das portas, como sinal de que na nossa casa mora gente honesta e limpa do crime da corrupção, para que a fúria dos procuradores não se abata sobre a nossa família matando-nos o primogénito.
Depois de todas as pragas lançadas esta parece ser a última praga lançada por Deus para ajudar o povo português a chegar à sua terra prometida. Certo dia uma conhecida procuradora tranquilizava os honestos, assegurava que a troika e a austeridade “tiveram a vantagem de trazer a denúncia da corrupção”, identificava os que deveriam ser vítimas da fúria divina “Mas de repente ficámos a saber onde foram gastos os milhões dos nossos impostos. O ‘esbanjadouro’ político ficou exposto.” E avisava que “o justiceiro nunca é justo”. Agora percebo que estamos a enfrentar a nossa última praga do Egipto.

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PS: Graças a uma dica uma televisão obteve grandes vantagens comerciais graças ao exclusivo nacional da transmissão em directo da chegada dos procuradores e dos juízes do Supremo às casas de um juiz desembargador e do presidente de de um clube de futebol. Os muitos milhares de euros ganhos com esta operação, um valor infinitamente superior a dois bilhetes de futebol para uma bancada de convidados, são um claro indício de corrupção que não poderá ter escapado aos magistrados que têm por incumbência abrir processos a partir de jornais, revistas, televisões e conversas de café.

Portanto, aguardamos que na sequência deste eventual crime transmitido em directo seja desencadeada uma mega busca a todos os envolvidos no processo, responsáveis da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, magistrados do MP e do Supremo envolvidos no planeamento e execução das buscas. Aguardamos as buscas domiciliárias devidamente publicitadas e as consequentes apreensões de material informático e consequente leitura de todas as mensagens de e-mail ou SMS  feitas através de redes sociais por todos os indiciados no crime de corrupção de que há fortes indícios.

Ficamos a aguardar pelas notícias; não perdemos a esperança de ver um directo por uma TV à porta da Procuradora-geral Distrital de Lisboa ou do juiz Souto Moura.