A ÚLTIMA PRAGA DO EGITO

(In Blog O Jumento, 02/02/2018)
PRAGA
Em 2011 disseram-nos que tínhamos consumido demais, que gastámos o nosso dinheiro e o dos credores, um candidato a primeiro-ministro até nos deu o exemplo do finlandês que se queixou de teria de ser ele a pagar o almoço do então candidato a primeiro-ministro.
A tese do povo que gastou o que não tinha e merecia o devido castigo sob a forma de sacrifícios vingou  e ainda ontem os pensionistas com conta na CGD foram informados pelo Presidente da República que a bem do sucesso do Opus Macedo teriam que fazer mais um pequeno sacrifício pelo país. A tese chegou a ser convertida em teoria económica, com supostos economistas como o Vítor Bento a teoriza-la sob a forma de suposta explicação científica.
Na hora da pinochetada económica o então primeiro-ministro reproduzia no seu Facebook o lamento de uma admiradora que dizia já não ter dinheiro para poder tomar banho. A Ana Isabel Albergaria escreveu ao primeiro-ministro e este reproduziu a sua carta como modelo de grande exemplo nacional:
«Preciso muito da sua ajuda. É sobre o meu orçamento familiar. Até aqui o ordenado nunca chegava ao fim do mês. Era com os subsídios de natal e férias que eu conseguia equilibrar as finanças, pagar seguros, contribuições, irs, ou outra despesa extraordinária, como um par de óculos. Já cortei tudo… mas as despesas não essenciais. Tomo banho só uma vez por semana, só acendo uma lâmpada, dispensei a mulher a dias, só saio no carro em casos extremos. Não sei mais onde cortar e o dinheiro não chega. Por favor diga-me o que hei-de fazer para poder continuar a pagar as obrigações ao Estado.» [Facebook]
Como nem todos os portugueses tinham as qualidades da Ana Isabel Albergaria, alguns insistiam em tomar banho e, ao contrário do fazia Passos Coelho, a dar prendas de Natal aos filhos, o primeiro-ministro veio com uma nova tese. Os mesmos portugueses que eram esbanjadores, incluindo os pobres dos quais a Jonet dizia não saberem ter cuidado a gastar, era um povo de gente piegas, incapaz de enfrentar a miséria e ainda elogiar o governo, como fazia a Ana.
Agora que o país parecia estar livre de campanhas psicológicas e com o Passos a andar por aí e o Gaspar bem longe, eis que somos outra vez vítimas de uma fúria divina. Éramos esbanjadores, somos piegas e agora descobrimos que em cada porta há um corrupto. Parece que estamos a recuar ao tempo das sete pragas do Egipto e desta vez enfrentamos a última das pragas lançadas por Deus, a da morte dos primogénitos, a eliminação dos corruptos.
Parece que teremos de sacrificar um cordeiro ou um cabrito, de um ano, limpos, imaculados, sem mancha e aspergir o seu sangue nas ombreiras das portas, como sinal de que na nossa casa mora gente honesta e limpa do crime da corrupção, para que a fúria dos procuradores não se abata sobre a nossa família matando-nos o primogénito.
Depois de todas as pragas lançadas esta parece ser a última praga lançada por Deus para ajudar o povo português a chegar à sua terra prometida. Certo dia uma conhecida procuradora tranquilizava os honestos, assegurava que a troika e a austeridade “tiveram a vantagem de trazer a denúncia da corrupção”, identificava os que deveriam ser vítimas da fúria divina “Mas de repente ficámos a saber onde foram gastos os milhões dos nossos impostos. O ‘esbanjadouro’ político ficou exposto.” E avisava que “o justiceiro nunca é justo”. Agora percebo que estamos a enfrentar a nossa última praga do Egipto.

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PS: Graças a uma dica uma televisão obteve grandes vantagens comerciais graças ao exclusivo nacional da transmissão em directo da chegada dos procuradores e dos juízes do Supremo às casas de um juiz desembargador e do presidente de de um clube de futebol. Os muitos milhares de euros ganhos com esta operação, um valor infinitamente superior a dois bilhetes de futebol para uma bancada de convidados, são um claro indício de corrupção que não poderá ter escapado aos magistrados que têm por incumbência abrir processos a partir de jornais, revistas, televisões e conversas de café.

Portanto, aguardamos que na sequência deste eventual crime transmitido em directo seja desencadeada uma mega busca a todos os envolvidos no processo, responsáveis da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, magistrados do MP e do Supremo envolvidos no planeamento e execução das buscas. Aguardamos as buscas domiciliárias devidamente publicitadas e as consequentes apreensões de material informático e consequente leitura de todas as mensagens de e-mail ou SMS  feitas através de redes sociais por todos os indiciados no crime de corrupção de que há fortes indícios.

Ficamos a aguardar pelas notícias; não perdemos a esperança de ver um directo por uma TV à porta da Procuradora-geral Distrital de Lisboa ou do juiz Souto Moura.

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Um pensamento sobre “A ÚLTIMA PRAGA DO EGITO

  1. Leio este texto e interrogo-me. Como entender a queixa de Passos Coelho, em Julho de 2013 em Vila de Rei, que «a crise tem sido mais forte porque as pessoas gastaram menos do que previmos». E igualmente o que afirmava, em 2012, a então procuradora -geral adjunta Cândida Almeida que «o nosso país não é um país corrupto, os nossos políticos não são políticos corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos. Portugal não é um país corrupto».. Em que ficamos?:

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