O testamento do “presidente” Blinken

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 10/01/2025)

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Antony Blinken, secretário de Estado da Administração Biden, concedeu no dia 2 uma entrevista de 50 minutos à jornalista Lulu Garcia-Navarro, do jornal The New York Times. Blinken (n. 1962) iniciou-se no poderoso e blindado círculo dos demiurgos da política externa norte-americana em 1994, ao tempo de Clinton, voltando em força nas Administrações Obama. Atingiu com Biden o topo da sua carreira, sendo hoje reconhecido como o verdadeiro presidente em exercício, em virtude do crepúsculo intelectual de Biden, cruelmente exposto perante o auditório universal. As suas decisões, que já causaram morte e sofrimento em vários continentes, não parecem ter abalado este homem, de ar sereno e tímido, conhecido pela sua perícia como guitarrista.

A entrevista vale pelo que manifesta e pelo que esconde. Comecemos pelos três principais temas colocados pela jornalista: Afeganistão, Ucrânia e Israel. Em todos eles, o entrevistado insistiu num balanço positivo (“a América está mais forte”), furtando-se em alta velocidade às observações incómodas da jornalista.

Não foi a retirada do Afeganistão um desastre humilhante, deixando milhões de mulheres sem esperança nem futuro? Não. Blinken congratula-se com o acabar de uma guerra de 20 anos, sem se deter na (ir)racionalidade da intervenção americana…

Em relação à Ucrânia, fugiu da tese oficial da “invasão não-provocada”, afirmando que os EUA prepararam militarmente a Ucrânia para a guerra. Isso significa reconhecer que Moscovo, afinal, atacou preventivamente um país que se tornara um membro de facto da NATO.

Ficou em branco quando interrogado sobre a ausência de esforço diplomático americano. Na verdade, Washington e Londres pressionaram Kiev a não aceitar a paz de Istambul, sacrificando a sociedade ucraniana, não por uma vitória impossível, mas visando “sangrar” a Rússia.

Blinken emudeceu quando interrogado sobre a sua responsabilidade pessoal no apoio dos EUA ao genocídio em curso de Israel contra o povo palestiniano. As suas respostas mostram como Washington se enredou na armadilha, já denunciada por Nixon, do “sionismo americano”: sacrificar os interesses dos EUA como potência global no altar da agenda expansionista do Grande Israel.

A entrevista ignorou o facto de este ser o período mais turbulento de transição presidencial desde a eleição de Lincoln em 1860, na véspera da Guerra Civil. Blinken esqueceu a escalada dos ATACMS lançados contra a Rússia, a desestabilização da Geórgia, o cancelamento das Eleições Presidenciais na Roménia, o assalto de terroristas “reciclados” a Damasco, concertado com a Turquia, Israel e Arábia Saudita (que abre o caminho para um eventual ataque ao Irão), o golpe de Estado falhado do presidente sul-coreano.

Nenhuma destas ocorrências, caracterizadas pela coerção e violência, seria possível sem envolvimento direto dos EUA. Em 2025 só mudou o calendário. As hipóteses de pacificação geral oscilam entre o improvável e o quimérico.

Professor universitário

Na tempestade de fogo

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 03/01/2025)

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Na guerra da Ucrânia, os soldados dos dois lados, mortos e feridos, não têm direito à revelação completa dos nomes. A lista de baixas está transformada num segredo de Estado. A batalha que se trava nos jornais e nas televisões é de pólvora seca verbal.

Que sabemos, verdadeiramente, sobre a experiência desses soldados, homens e mulheres, ucranianos e russos, dilacerados nesse inferno de fogo e sangue lavrando há quase três anos? Para nos aproximarmos de uma resposta teremos de recuar à I Guerra Mundial (IGM).

As semelhanças esmagam. Duas guerras de dominância industrial e tecnológica. Novas e antigas armas encontram-se reunidas num concerto letal, colocando o mais treinado e valente dos guerreiros numa situação de impotência e acaso perante o fogo de artilharia, o ataque de drones e mísseis, as minas, a investida dos tanques, o tiro furtivo dos snipers, o fogo de armas ligeiras, os ataques aéreos a distâncias que inibem qualquer defesa por antecipação.

Na I GM não ameaçavam drones assassinos, mas imperavam os gases venenosos, banidos hoje dos teatros de operações. Na I GM, o combate desenrolou-se, a partir do final de 1914, numa linha contínua de fortificações, que, na frente ocidental, correspondia aos 750 km que vão do Mar do Norte até à fronteira franco-suíça.

Na Ucrânia, a frente fortificada estende-se por mais de 1200 km. Nos dois conflitos a maioria das baixas é causada pela arma de artilharia. As condições dos combatentes nas trincheiras são, em ambos os casos, de enorme dureza, e os tempos médios de sobrevivência (sem algum tipo de ferimento), podemos alvitrar, serão de escassos meses.

Para quem queira conhecer (e sentir) melhor a brutalidade do esforço que Kiev e Moscovo pedem aos seus soldados nesta guerra (nada comparável com as campanhas assimétricas travadas pelos EUA contra rivais muito inferiores) aconselho a leitura do melhor livro sobre a I GM: Tempestades de Aço (edição portuguesa de Guerra & Paz, 2023), da autoria do grande escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998), na altura um jovem oficial, miraculosamente sobrevivente a quatro anos de combate contínuo, pontuado por catorze ferimentos graves: “Cinco tiros de espingarda, dois estilhaços de granada, uma bala de granada, quatro granadas de mão e dois estilhaços de projétil de espingarda” (p. 278). Em setembro de 1918, Jünger receberia a mais alta condecoração militar prussiana, Pour le Mérite, normalmente apenas atribuída a generais e marechais.

O livro baseia-se nas anotações dos seus diários de guerra. Nele se pratica um hercúleo exercício de distanciamento e objetividade, tratando a guerra como se fosse um cataclismo natural, semelhante a um sismo ou um furacão. A narrativa está povoada pelos nomes de companheiros mortos, por gratidão com camaradas que por ele deram a vida, pela lembrança de soldados inimigos, mortos pelas suas armas, ou por ele poupados. Entre 1920 e 1978, o livro conheceu sete edições, revistas parcialmente. Na última edição, Jünger, a propósito de um jovem soldado inglês abatido pela sua espingarda, acrescenta o seguinte: “Mais tarde, pensei nele muitas vezes, cada vez mais, com o decorrer dos anos. O Estado, que nos isenta da responsabilidade, não nos pode libertar da dor; temos de ser nós a lidar com ela. Ele penetra até às profundezas dos nossos sonhos” (p. 235).

Na guerra, mesmo os sobreviventes prosseguem um cruel combate. Entre culpa e redenção, para resgatar uma réstia de bondade humana dos campos de batalha.

*Professor universitário

Interesse nacional e “soberania limitada”

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 28/12/2024)

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Na sua primeira visita oficial como presidente do Conselho Europeu, António Costa rumou a Kiev. Foi oferecer a Zelensky o apoio incondicional da UE. A seu lado seguiu a nova responsável da CE para a Política Externa, Kaja Kallas. Costa esteve reunido com duas personalidades que comungam da tese de que a NATO se deve envolver num confronto direto com a Rússia, como se isso não tivesse como resultado inevitável transformar o conflito da Ucrânia numa guerra nuclear de aniquilação.

Costa, infelizmente, não está só. O anterior PM português, com o apoio da maioria esmagadora do Parlamento e do Presidente da República, é o rosto do maior fracasso histórico em matéria de Segurança Nacional. Como diria Talleyrand, não se trata só de um potencial crime contra a segurança física de quase 11 milhões de pessoas vivendo em Portugal, mas de um erro trágico que assinala o plano inclinado em que a III República mergulhou.

O momento, aparentemente, mais alto da carreira política de Costa, coincide com o momento mais baixo e perigoso de toda a História portuguesa.

A guerra, por ser um desafio existencial, revela a fibra dos indivíduos e a inteligência estratégica dos Estados e seus líderes. Durante mais de meio milénio, Portugal foi uma potência imperial, europeia e ultramarina. Até 1974, a soberania de Portugal confundia-se com a defesa desse império geograficamente disperso. Pombal, D. Carlos I, Afonso Costa ou Salazar, deram respostas diferentes aos desafios do seu tempo, mas o objetivo era comum: orientar-se pela bússola do interesse nacional.

Foi nessa ótica que Portugal precisou de aliados tendo em vista o serviço que eles prestassem a esse interesse, em troca de contrapartidas equilibradas. Em 1762, fomos empurrados para a Guerra dos Sete Anos pelo ultimato de Madrid e Paris, mas a Inglaterra acorreu em nosso auxílio, com sete mil homens e o nosso maior reformador militar de sempre, o conde de Lippe. O mesmo sucedeu em 1807, com as invasões napoleónicas, que tiveram a contrapartida da formação do Exército anglo-luso comandado por Wellington. Os EUA substituíram o papel de Londres nas últimas décadas do Estado Novo.

Há meio século que Portugal deixou de ser um império colonial. O seu interesse nacional mudou, embora a aliança militar com os EUA, no âmbito da NATO, tivesse prosseguido. Os fundadores da III República, e em especial Mário Soares, colocaram a integração europeia como o novo desígnio nacional. Uma união de Estados soberanos, visando um modelo de democracia tendencialmente federal. A nossa Constituição de 1976 aponta como alvo: “(…) a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.” (CRP, art. 7.º).

O que a guerra na Ucrânia revelou, contudo, foi o culminar de uma perigosa metamorfose do papel dos EUA na política mundial. Desde o final da Guerra Fria, os EUA têm perseguido uma hegemonia em que o soft power é sacrificado – perante inimigos e aliados – ao primado do poderio militar.

Em 2003, na invasão americana do Iraque, ainda houve resistência por parte de Paris e Berlim. O mesmo, em 2008, quando o eixo franco-alemão, para não hostilizar a Rússia, recusou a intenção americana de integrar a Ucrânia na NATO.

Contudo, hoje, a UE foi totalmente capturada por uma NATO de postura expansiva e ofensiva. O seu projeto de militarização da economia europeia, que com Trump acarretará um verdadeiro imposto pago à indústria bélica dos EUA (talvez de 4% do PIB agregado), significa que o sonho europeu de Portugal foi sequestrado por uma sinistra versão Ocidental da “soberania limitada”. Os EUA, recuperaram essa prepotência de Brejnev face aos países do antigo Pacto de Varsóvia, aplicando-a brutalmente na UE. Veja-se a humilhação continuada da Alemanha e o cancelamento recente das Eleições Presidenciais na Roménia.

A maior ameaça ao nosso interesse nacional não é externa. Só por estultícia se poderá temer uma invasão russa de Portugal. O risco existencial para a vida e a fazenda dos portugueses reside no imperdoável amadorismo estratégico-militar da nossa elite política.

Como já escrevi (DN, 11/02/ 2023), não seria preciso sair da NATO para evitar transformar o país num alvo direto em caso de guerra nuclear. Bastava cumprir as regras da NATO. O acolhimento de refugiados ucranianos e o apoio humanitário deveria ter sido acompanhado com o firme reconhecimento de que não temos qualquer obrigação de apoio militar a Kiev, pois o artigo 5.º da “defesa mútua” só se aplica a países-membros.

Tenho consciência de que a pressão de Washington seria enorme sobre Lisboa. Mas é para isso que servem a lucidez e coragem políticas.

Não encerrámos o nosso destino imperial, através de uma revolução democrática, para o sacrificar no altar da desmesura alheia. A promessa do 25 de Abril é de paz, prosperidade sustentável e cidadania plena. A Revolução dos Cravos não foi feita para acabarmos como metecos, ao serviço dos que trocaram o mundo real pela adoração do seu umbigo.

Fonte aqui