O futuro e os seus inimigos

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 31/01/2025)

(A cambada lá conseguiu calar o Viriato. Andava a ser demasiado incómodo a abrir os olhos aos crentes. Eu que o diga, pois os textos dele, que aqui publicava, eram dos mais lidos e partilhados no Facebook e no X. Um dia destes calam também a Estátua e todos os que saiam da cartilha dominante. Acho que já faltou mais.

Estátua de Sal, 31/01/2025)


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O futuro já condiciona os nossos quotidianos. Da revelação mais definitiva do seu rosto depende a realização, ou o fracasso, das aventuras pessoais de todos nós, sobretudo aquelas dos mais novos, filhos ou netos, a sulcarem com os seus primeiros passos o solo agreste do presente. O principal inimigo do futuro reside no tenaz facto de a pequena minoria com poder de decisão – incrustada prioritariamente no sistema circulatório da economia mundial, e, instrumentalmente, na política -, se atarefar em negar as três sombras do futuro, ou em afirmar serem elas facilmente dissipáveis.

Não é verdade que exista qualquer solução, ou via nesse sentido, para a crise ambiental, incluindo as alterações climáticas. Temos uma montanha de palavras, impressas e ditas, apagadas por um mero sopro da realidade.

Não é sério afirmar que a tecnologia é a nossa fonte principal de esperança, quando foi o aumento do poderio tecnológico a trazer-nos a esta rota de colisão com a casa planetária. Pelo contrário, a segunda sombra do futuro reside no avanço vertiginoso e desregulado de um dos seus frutos mais recentes e poderosos: a Inteligência Artificial (IA). Os verdadeiros especialistas em IA, incluindo alguns dos que com ela mais enriquecem, são os primeiros a alertar para a sua essência não-instrumental. Através da IA, estamos a criar um agente (um concorrente!), e não um utensílio. Um Outro, com crescente autoconsciência, capaz de recorrer à mentira e ao engano para preservar a sua existência, dotado de uma capacidade de cálculo e maleabilidade estratégica para alcançar os seus objetivos, que nos apouca até à indigência. Dentro de poucos anos, todas as armas mais letais serão guiadas pela IA. Máquinas destinadas a matar, com decisão autónoma. Estaremos à espera da sua compaixão para connosco?

Não passa de perigosa ilusão, afirmar estar uma guerra nuclear fora de questão. O modo como nos últimos três anos, na Ucrânia, temos jogado uma dança de morte à beira da escalada atómica, revela que desprezar esse risco acaba por torná-lo mais provável.

Um futuro capaz de continuar a história da humanidade neste planeta implica várias condições: a lucidez, o respeito pela objetividade, a absoluta recusa da arrogância, a capacidade de colaboração entre inimigos, a prioridade da inclusão nos caminhos de futuro, além dos vivos, das gerações futuras.

PS – Termina com este texto a minha colaboração regular com o DN, iniciada em novembro de 2010. Foi um enorme privilégio, que agradeço, ter partilhado com os leitores, em mais de dois mil textos, durante 14 anos e três meses, a minha visão dos problemas nacionais e internacionais, que a todos nos afetam. Desejo as melhores felicidades aos jornalistas e funcionários do DN, bem como ao seu diretor, no imenso esforço em que se encontram empenhados na defesa deste jornal, para que o DN continue a ser um dos mais importantes espelhos onde se regista a odisseia coletiva da história portuguesa.

Professor universitário

As raizes da (in)decência

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 24/01/2025)

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Sem surpresa, na sua tomada de posse, Trump mostrou como o farol dos EUA mudou de tonalidade e função. Aboliu-se a pretendida luz exemplar da liberdade, disseminada com intensidade prosélita pelo mundo. A luz de Trump será o holofote de vigilância da fortaleza-América, hostil a tudo o que é estrangeiro, palavra usada, até, como sinónimo de criminoso. Na verdade, o mundo de Trump continua a ser o espelho da América. Um país há muito dominado pelo individualismo desenfreado. Um campo de batalha entre “vencedores e falhados” (winners and losers). É por isso que recuso o superficial consenso gerado nos círculos europeus, considerando Trump como o crepúsculo da “decência” representada por Biden, em cuja despedida muitos europeus choraram como órfãos.

Como aqui escrevi (DN, 17/01/25, ver aqui), o brutalismo de Trump é uma clarificação daquilo que tem sido a política geral dos EUA, com destaque para a externa, sobretudo a partir do momento em que as instituições da democracia representativa foram totalmente capturadas pelos grandes e até pequenos interesses. O Congresso americano é eleito pelo povo, mas é mantido e alimentado pelos grupos de pressão, que, como escreveu John Rawls em 1999, tratam o Capitólio como um mercado onde as leis são compradas e vendidas.

Só por ingenuidade se pode dar crédito a Biden, quando de saída alertou para o risco de oligarquia com Trump. Na verdade, pelo menos desde Reagan, os EUA iniciaram o caminho sem recuo para se transformarem numa plutocracia, um governo ao serviço dos ricos. Basta olhar para as sucessivas reformas fiscais, aliviando o big money.

Que total contraste com os tempos de F.D. Roosevelt e J.F. Kennedy, sobretudo entre 1944 e 1963, quando o imposto sobre os rendimentos mais altos chegou a atingir 90%!

O “decente” Biden terminou o seu mandato indultando o próprio filho e exigindo a Kiev que empurrasse para a fornalha de uma guerra perdida jovens de 18 anos. Arriscou uma escalada bélica, lançando mísseis comandados por militares norte-americanos, contra alvos na Rússia. Antes disso, conseguiu atingir um vetusto objetivo estratégico dos EUA, reiterado em 2019 num relatório da Rand Corporation (Extending Russia): separar (energeticamente, e não só) a UE da Rússia, em particular a Alemanha. Congratulou-se, sem a assumir, com a maior sabotagem industrial da história. O “amigo” Biden, através do Inflation Reduction Act, obrigou à deslocalização de muitas empresas europeias. O cúmulo da (in)decência foi atingido quando a Administração Biden deu cobertura, em Gaza, ao maior genocídio cometido por um Estado contra um povo indefeso, desde o Camboja de Pol Pot.

É de recear que, caso Trump resolva aprender a falar de mansinho com quem por cá manda nos governos e nos media, ainda possamos acabar na Europa, só com a roupa que trazemos no corpo. E a dizer obrigado.

Professor universitário

Trump, o clarificador

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 17/01/2025)

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As palavras de Trump sobre uma eventual expansão dos EUA, por compra ou imposição, para o Canadá, Gronelândia e Panamá, causaram sobressalto na UE. A maioria dos analistas europeus de geopolítica assemelha-se àqueles estudantes de Medicina que não suportam a visão de sangue…

Não há impérios benignos. Trump não rompe com a vontade de hegemonia norte-americana, antes lhe pretende determinar um novo e não menos arriscado caminho.

 Assume o saldo desastroso de quase três décadas de deriva intervencionista de Washington, sob o mito de um “mundo regido por regras” (impostas pelos EUA, sem a elas se sujeitarem). Um caminho que colocou os EUA num distante segundo lugar como potência industrial, provocando um imenso caudal de guerras e sofrimentos que nos trouxeram à beira da III Guerra Mundial.

A clarificação de Trump, no seu estilo brutalista, retoma e prossegue as grandes linhas históricas da expansão dos EUA. Começando pelo Canadá, já na primeira Constituição dos EUA, “Os Artigos de Confederação” (vigente entre 1777 e 1788), o artigo XI convidava, expressamente, o Canadá a aderir diretamente aos EUA, sem necessitar de uma aprovação prévia de 9 Estados.

Em relação à compra da Gronelândia, além de ter havido uma proposta secreta do presidente Truman, em 1946, a verdade é que a aquisição territorial foi tão decisiva como a conquista, na delimitação da geografia política dos EUA. Em 1803, o presidente Jefferson acrescentou 2,12 milhões de Km2 aos EUA com a compra, a Napoleão, da Louisiana francesa, por 15 milhões de dólares.

Em 1867, seria a vez de o presidente Andrew Johnson, por apenas 7,2 milhões de dólares, adquirir ao czar Alexandre II, os 1, 5 milhões de Km2 do Alasca.

Quanto ao Panamá, Trump segue a bicentenária Doutrina Monroe (neste caso para travar a presença económica chinesa). A própria criação do Panamá, como país, não teria sido possível sem a intervenção militar americana em 1903. O território onde se encontra o canal pertencia originariamente à Colômbia, tendo esta apoiado a construção do mesmo, mas recusado a soberania americana sobre o canal. O Panamá só teria o controlo do canal no derradeiro dia de 1999, não sem que antes, em 1989, os EUA do presidente Bush (pai) tivessem voltado a invadir o país, para derrubar o governo de Noriega.

A clarificação de Trump não esconde que a lógica dos jogos de soma zero (“eu ganho o que tu perdes”) se aplica tanto a aliados como a adversários.

Com Trump, a prioridade dos interesses exclusivos dos EUA dispensa o manto diáfano de valores universais e abstratos, usado pelos neocons e democratas. A NATO vai acentuar a sua natureza rentista a favor de Washington.

Os 5% do PIB na Defesa, que Trump exige a quem queira ficar na NATO, é o imposto a pagar por uma UE que trocou a dignidade, inerente à soberania de um caminho comum, pela servidão voluntária.

Em 2014 publiquei um livro sobre Portugal na Queda da Europa (Temas & Debates). Tenho uma profunda tristeza por não me ter enganado.

Professor universitário