As raizes da (in)decência

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 24/01/2025)

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Sem surpresa, na sua tomada de posse, Trump mostrou como o farol dos EUA mudou de tonalidade e função. Aboliu-se a pretendida luz exemplar da liberdade, disseminada com intensidade prosélita pelo mundo. A luz de Trump será o holofote de vigilância da fortaleza-América, hostil a tudo o que é estrangeiro, palavra usada, até, como sinónimo de criminoso. Na verdade, o mundo de Trump continua a ser o espelho da América. Um país há muito dominado pelo individualismo desenfreado. Um campo de batalha entre “vencedores e falhados” (winners and losers). É por isso que recuso o superficial consenso gerado nos círculos europeus, considerando Trump como o crepúsculo da “decência” representada por Biden, em cuja despedida muitos europeus choraram como órfãos.

Como aqui escrevi (DN, 17/01/25, ver aqui), o brutalismo de Trump é uma clarificação daquilo que tem sido a política geral dos EUA, com destaque para a externa, sobretudo a partir do momento em que as instituições da democracia representativa foram totalmente capturadas pelos grandes e até pequenos interesses. O Congresso americano é eleito pelo povo, mas é mantido e alimentado pelos grupos de pressão, que, como escreveu John Rawls em 1999, tratam o Capitólio como um mercado onde as leis são compradas e vendidas.

Só por ingenuidade se pode dar crédito a Biden, quando de saída alertou para o risco de oligarquia com Trump. Na verdade, pelo menos desde Reagan, os EUA iniciaram o caminho sem recuo para se transformarem numa plutocracia, um governo ao serviço dos ricos. Basta olhar para as sucessivas reformas fiscais, aliviando o big money.

Que total contraste com os tempos de F.D. Roosevelt e J.F. Kennedy, sobretudo entre 1944 e 1963, quando o imposto sobre os rendimentos mais altos chegou a atingir 90%!

O “decente” Biden terminou o seu mandato indultando o próprio filho e exigindo a Kiev que empurrasse para a fornalha de uma guerra perdida jovens de 18 anos. Arriscou uma escalada bélica, lançando mísseis comandados por militares norte-americanos, contra alvos na Rússia. Antes disso, conseguiu atingir um vetusto objetivo estratégico dos EUA, reiterado em 2019 num relatório da Rand Corporation (Extending Russia): separar (energeticamente, e não só) a UE da Rússia, em particular a Alemanha. Congratulou-se, sem a assumir, com a maior sabotagem industrial da história. O “amigo” Biden, através do Inflation Reduction Act, obrigou à deslocalização de muitas empresas europeias. O cúmulo da (in)decência foi atingido quando a Administração Biden deu cobertura, em Gaza, ao maior genocídio cometido por um Estado contra um povo indefeso, desde o Camboja de Pol Pot.

É de recear que, caso Trump resolva aprender a falar de mansinho com quem por cá manda nos governos e nos media, ainda possamos acabar na Europa, só com a roupa que trazemos no corpo. E a dizer obrigado.

Professor universitário

7 pensamentos sobre “As raizes da (in)decência

  1. No caso de Mark Rutte não me surpreende. Os Países Baixos já há muito conseguiram reduzir as despesas de saúde graças a eutanásia, a prática assassina de acenar com uma misericordiosa injeção letal quando a doença já começou a dar muita despesa.
    Os Países Baixos foram o primeiro país do mundo a legalizar o assassinato puro e duro travestido de misericórdia.
    De doentes com cancro, a prática cruel rapidamente alastrou a portadores de doenças degenerativas, deficientes motores e até gente com depressões.
    Outros se lhe seguiram o último dos quais Portugal.
    Que felizmente tem a lei que foi aprovada com a benção de gente que se diz da solidaria esquerda como o PS e o Bloco de Esquerda ainda em águas de bacalhau e espero que assim continue pois que o grau de psicopatia de muitos dos nossos profissionais de saúde e elevado.
    Da primeira vez que essa miséria foi ao Parlamento, tenho sido chumbada graças ao voto do PCP quem defendia a vida foi chamado de tudo, até de fanático religioso.
    A mim dava me vontade de rir os discursos de ódio lançados entre os quais uma pérola que rezava o seguinte: “a ideia de cuidados paliativos tão bons que ninguém quer morrer fará sentido para mim quando dois utentes da Unidade de Cuidados Paliativos do Santa Maria tiverem um filho”.
    Está tudo dito se só tivermos direito a viver enquanto tivermos capacidade de fazer meninos.
    O problema é que isto faz sentido para muita gente.
    Um sujeito que conheço que viveu muitos anos por lá um dia saiu de com esta, como se fosse a coisa mais natural do mundo, “mais de metade dos que estão no lar, na Holanda já cá não estavam”. Não o mandei a merda por respeito a idade da criatura que tinha idade para ser meu pai, e um pai entradote.
    Mas a verdade e que a propaganda em torno da eutanásia como misericórdia e dos seus detractores como malandros religiosos que querem impor sofrimento aos outros foi tão forte como a das vacinas COVID eficazes e seguras.
    Com a eutanásia não e o sofrimento aque acaba. E a vida. Ponto!
    A mim dava me vontade de rir essa dos detractores da eutanásia como um bando de fanáticos religiosos pois que a minha crença se resume vagamente a um santo protector dos cachalotes.
    Por isso não me admira nada que um bandalho como Mark Rutte nos mande cortar na saúde para armar os nazis ucranianos e fazer a guerra eterna a Rússia. Eles já arranjaram maneira de cortar a fundo há muito tempo.
    O homem tem mesmo cara de carrasco nazi.
    Já no discurso da Kallas há aí muito de racismo porque também essa gente acredita mesmo ser descendente dos vikings tendo ainda atravessado o facto de os suecos os terem vendido aos “pretos da neve” há uns três séculos atrás.
    E toda esta parafernália de discurso anti russo radica no facto de que o verdadeiro inimigo desta canalha toda sempre foi a Rússia, inacessível e com muitos recursos que interessava pilhar, e não a Alemanha nazi.
    Tivesse Hitler sido mais moderado e teria atacado a União Soviética com o apoio daquela canalha toda desde o muito democrata Churchill, ao homem do New Deal. Alias, Churchill passou anos a sarrazinar os dirigentes americanos para que destruíssem a União Soviética com armas nucleares. O que só não foi feito foi porque já ninguém tinha a certeza se a União Soviética já não tinha a bomba.
    Tanto mais que naquele tempo are nos propunham formas alternativas de organizar a sociedade sendo uns perigosos comunistas que comiam crianças ao pequeno almoço.
    Toda esta gente sempre teve a noção que na Segunda Guerra Mundial combateu o inimigo errado e agora acredita que finalmente está a combater o inimigo certo.
    Que sacrifícios nos sejam infligidos para que consigam a vitória nesse combate não interessa nada.
    Mas como as populações também não acordam e acham muito normal que sejamos imolados na guerra contra a Rússia sob pena de sermos invadidos, como se a Rússia precisasse desta merda para alguma coisa, vamos mesmo todos continuar a levar com isto até que esta canalha queira.
    E se ao menos aquela baleia encalhada do outro lado do mar parasse de dizer asneiras isto era um pouco menos difícil de aguentar.

  2. É espantoso como dirigentes políticos europeus passam sem transição nem vergonha do elogio de Joe Biden, homem formatado pela guerra fria e protector dos oligarcas norte americanos, para a adopção subserviente dos pontos de vista de Donald Trump em matéria de emigração e gastos militares. Sobre este último aspecto são notáveis as declarações de Kaja Kallas e de Mark Rütte, apontando Trump como fonte inspiradora para a UE e para a NATO. Qualquer deles com um historial polémico, Kallas, ex primeira ministra da Estónia sempre a evidenciar hostilidade primária e imprudente em relação à Federação Russa 6e Rütte, que já foi considerado um dos chefes de governo mais bem vestidos do mundo enquanto criticava o apoio financeiro a países europeus atingidos pela crise financeira “sub prime” bem como a intervenção da UE no combate ao COVID.

  3. A Europa (UE) diz que tem dinheiro para tudo e mais alguma coisa e ao mesmo tempo que está todo contado e tem de haver rigor orçamental.
    Tem dinheiro para comprar lotes de vacinas Covid-19 e esgotar stocks inteiros a pagar centenas de milhões € – e que com esse investimento “vai ficar tudo bem”; tem centenas de milhões € para a “bazuca” da von der Leyen a que se somou agora o PRR; tem centenas de milhões € para apoiar a Ucrânia até ao último ucraniano/eslavo; tem centenas de milhões € para comprar gás liquefeito e hidrocarbonetos muito mais caro ao EUA, agora que se privou de (algum) do fornecimento directo da Rússia; tem centenas de milhões € para canalizar para o rearmamento e a militarização dos países membros, mas ainda quer mais por exigências de cumprimento com os “requisitos mínimos” ou “novos standards” da NATO; e agora ainda tem mais centenas de milhões € para cumprir as exigências comerciais de Donald Trump, para fins de maior equilíbrio na balança comercial (leia-se, abatimento de saldo negativo), pasme-se, favorável aos EUA!*

    Infelizmente, a Europa só não tem dinheiro para prover as suas populações com serviços de saúde, educação, apoio social, infra-estruturas, desenvolvimento integrado e sustentável, equilíbrio sócio-económico, reabilitação urbana e do património, protecção dos ecossistemas e habitats naturais, etc… E há que manter o rigor, para que a Dona Lagarde venha dar mais umas lições de Laissez Faire à Lagardère… a sua colega curiosamente usou uma metáfora em que o génio estava dentro da “garrafa”, com a cabeça e o torso enfiandos lá dentro, mas as perninhas e o cuzinho ainda estavam de fora, a espernear, e faltava então o resto entrar… e é isto o resumo do Fórum Mundial de Davos, para pategos.

    * Todas as vezes que a palavra “centenas” foi escrita, provavelmente deveria ter sido escrita a palavra “milhares”…

  4. A Europa não precisava de ser vassala de ninguém se aprendesse a negociar honestamente.
    Quanto a quem acreditava que aquela baleia encalhada nos ia livrar do atoleiro da Ucrânia está mais que visto que nos vai atolar ainda mais nele.
    Pelo menos podia ir ver se o mar da krill e parar de dizer asneiras.
    Já toda a gente com dois dedos de testa sabia que o bandalho iria afinal de contas tentar acabar o trabalho de destruição da Rússia que o seu antecessor quis começar.
    Não precisa de vir com baboseiras como acusar a Rússia de ter roubado o design dos seus mísseis hipersonicos e outras asneiras semelhantes.
    Para de pensar que somos todos tao burros como o americano médio. A maior parte ate somos mas não somos todos e não precisamos de ver uma baleia encalhada a insultar a nossa inteligência.
    Tenho cá a impressão que não vamos ficar com muita roupa no corpo depois de quatro anos de trumpalhadas. Mas talvez sobrem algumas cuecas camufladas made in Portugal.

  5. Excelente texto, a Europa não tem nos actuais políticos que tenham coragem de dar um murro na mesa e dizer que a vassalagem acabou seja para que potencia for, é mais que tempo de a Europa não prestar vassalagens e traçar um futuro para bem de todos nós europeus caso contrário receio que ainda venhamos a ficar muito pior.

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