No labirinto do “governo invisível”

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 21/12/2024)

O turbilhão de acontecimentos que atinge a Europa é deliberadamente ilegível, tal a intensidade de narrativas fabricadas, encarniçadas contra a debilidade da verdade material. Querer substituir a dureza dos factos pelas opiniões convenientes, é receita certa para o desastre. Tentemos, pelo menos, entender o essencial.

Depois de quase três anos de guerra europeia, a sorte das armas favorece a Rússia. Biden, perdidas as eleições, sem autorização de Trump (segundo confissão do próprio), resolve envolver-se diretamente no conflito (com o apoio de Londres), através do uso de mísseis contra alvos na Rússia. É um gesto de temerária e violenta fraqueza, mas arriscando generalizar a guerra. A bandeira da democracia é desfraldada nos discursos dos seus dirigentes, enquanto a UE é cúmplice num golpe de mão contra a Roménia, usando como espada o seu Tribunal Constitucional: o candidato que iria ganhar folgadamente a segunda volta, Calin Georgescu, queria sair da guerra e travar a construção na Roménia da maior base da NATO. Os protestos foram abafados, incluindo com detenções…

A retórica humanista do Ocidente tem coabitado com a perseguição a cidadãos que nos EUA, Alemanha e Reino Unido protestam contra o genocídio e a violência extrema de Israel em todo o Médio Oriente (apoiado por esses países). Von der Leyen desobedeceu à exigência do Tribunal Europeu de Justiça, não-divulgando a sua correspondência privada com o CEO da Pfizer, em 2021, no caso que envolveu a compra bilionária pela UE de vacinas anticovid. Como “punição”, foi reinvestida na presidência da CE… O descontentamento popular com o empobrecimento europeu, muito forte em Paris e Berlim, bate no muro blindado de uma ordem, aparentemente, inamovível.

Como explicar o que paralisa os cidadãos, atrofiando a sua capacidade de pensar e protestar? 
Para perceber o que mudou na estrutura do poder nas democracias representativas, temos de recuar quase um século, até Edward L. Bernays (1891-1995). Eis a tese central do seu seminal livro Propaganda (1928): “A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder governante do nosso país [EUA].

O resto foi explicado por Hannah Arendt, num artigo de 1967, “Verdade e Política”: os interesses instalados criaram uma indústria de “mentira organizada”. As verdades empíricas, os factos, são apresentados como meras opiniões. É onde estamos, numa perigosa encruzilhada. Desprovidos da bússola existencial que separa a verdade da falsidade.

A última batalha pela paz de George F. Kennan

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 30/11/2024)

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A escalada para o abismo em que nos encontramos foi antecipada e combatida por George F. Kennan (1904-2005) há 30 anos. Ele foi o príncipe da diplomacia dos EUA. Culto e poliglota – dominava o alemão, o russo e o português, entre muitas outras línguas -, distinguiu-se por ter lançado as bases da política de Washington face à URSS, no pós-guerra.

O ponto de partida foi um “Longo Telegrama” (5363 palavras), enviado de Moscovo, em 22/02/1946, para James Byrnes, secretário de Estado. Nele se defendia uma doutrina de “contenção” da URSS, através de uma estratégia que pusesse o “soft power”, e não a força militar, na primeira linha.

Plano Marshall, que alargou a influência americana pela via económica e cultural, é o melhor exemplo de contenção. Kennan esteve colocado em Lisboa, entre 1942 e 1943, tendo desempenhado a função de encarregado de negócios dos EUA, após a morte súbita do embaixador. Foi Kennan o mediador entre Roosevelt e Salazar para a cedência de instalações aos navios e à aviação norte-americana, respetivamente, no Faial e na Terceira.

A implosão pacífica da URSS, foi saudada por Kennan como uma oportunidade única para uma fase de paz duradoura na História Mundial. Por isso, não hesitou em travar uma dura batalha de argumentos quando percebeu que o presidente Clinton não iria honrar a promessa de não-alargamento da NATO, feita pelos EUA a Gorbachev, através do secretário de Estado James Baker, numa reunião sobre a reunificação alemã, em 09/02/1990.

O combate de Kennan – e muitos outros diplomatas, políticos, e intelectuais dos EUA -, não impediria o primeiro alargamento em 1999, a que se seguiram mais quatro, juntando no total 14 países, até ao início da guerra da Ucrânia.
Em 05/02/1997, Kennan escreveu num artigo no NYT: “Expandir a NATO seria o erro mais fatal da política americana na era pós-Guerra Fria. Tal decisão pode… impulsionar a política externa russa em direções que decididamente não são do nosso agrado.”

No mesmo jornal, mas em 02/05/1998, aos 94 anos, entrevistado por Thomas L. Fried- man, Kennan denunciaria o perigo fatal da russofobia: “As nossas diferenças na Guerra Fria eram com o regime comunista soviético. E agora estamos a virar as costas às mesmas pessoas que montaram a maior revolução sem derramamento de sangue da história para remover esse regime soviético. (…) É claro que haverá uma reação negativa por parte da Rússia, e então [os defensores da NATO] dirão que ‘sempre lhes dissemos que é assim que os russos são’ – mas isso é simplesmente errado.”

Estamos a viver no perigoso tempo, antecipado como alerta pela inteligência de Kennan. Que poderemos fazer?

O míssil Biden foi lançado sem regresso

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 22/11/2024)

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O redator dos discursos de Obama, Ben Rhodes, publicou em 2018 um livro de memórias sobre a sua experiência no gabinete presidencial (O Mundo Como Ele É, Random House). Uma longa crónica palaciana, povoada de observações sobre factos e pessoas. Na descrição de Joe Biden, então vice-presidente, Rhodes usa uma fórmula que hoje soa a profecia: em momentos críticos, na Situation Room, Biden poderia agir como um “míssil não-guiado” (unguided missile).

Foi isso mesmo que sucedeu com a sua decisão de autorizar o uso pela Ucrânia (com a assistência técnica inevitável de pessoal militar americano) dos mísseis balísticos ATACAMS contra alvos na Rússia. Para comemorar os 1000 dias de guerra, Kiev concretizou o primeiro ataque, e no dia seguinte, o fiel Keir Starmer autorizou os mísseis britânicos de cruzeiro, Storm Shadow para outro golpe em território de Moscovo.

Esta decisão coloca os EUA e a Grã-Bretanha, implicando por arrastamento a NATO, em estado efetivo de guerra com a Federação Russa, de acordo com a revisão da sua doutrina de uso de armas nucleares, apresentada em setembro e ratificada há dias por Putin. Para além do risco para as vidas de milhares de milhões de pessoas que esta mudança representa, ela atesta o grau de profunda degradação do sistema político norte-americano, transformado num perigo para a segurança global.

Em primeiro lugar, a decisão revela um total desrespeito pela promessa de “transição serena” prometida a Trump, numa recente reunião na Casa Branca. É conhecido que Trump não deverá alterar o apoio de Biden à política brutal e genocida de Israel, contudo, é manifesta a sua intenção de resolver a guerra da Ucrânia com o instrumento que a poderia ter evitado: seriedade diplomática.

Mesmo que a decisão tenha sido acicatada pelo secretário de Estado Blinken, não duvido que Biden parece ter saboreado a vingança de deixar a Trump um terreno ainda mais minado do que já estava. Com isso, terão sido também punidos os eleitores que nas urnas e nas sondagens repudiaram a continuação da guerra. Esta manobra de Biden foi efetuada, aparentemente, sem informar o Departamento de Defesa, que reiteradamente desaprovou esse passo.

O mais importante neste gesto, contudo, reside na alteração da postura estratégica nuclear de Washington. Na relação com a Rússia, como superpotência nuclear, acabou a doutrina da Destruição Mútua Assegurada (MAD), que implicava, a todo o custo, evitar a situação de pré-guerra frontal ocorrida na Crise dos Mísseis de Cuba de 1962.

É assustador pensar que nos dois meses que lhe restam, Biden mantém intacta a sua “autoridade exclusiva” (sole authority) sobre o armamento nuclear dos EUA.