A guerra que já estava perdida antes de começar

(Luís Rocha, in Facebook, 18/03/2026, Revisão da Estátua)

This is what the “America first” looks like 🙂

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Há guerras que começam com mísseis, outras com discursos patrióticos ou nacionalistas, e depois há aquelas que começam com um homem a olhar para o espelho e a ver um génio estratégico onde, na realidade, está apenas um vendedor de carros usados com acesso a um botão perigosamente nuclear. Esta pertence, sem margem para dúvida, à última categoria.

Durante anos, andaram a provocar o Irão como quem atira amendoins a um tigre enjaulado, convencidos de que a jaula era eterna, inquebrável e, sobretudo, americana. Sanções aqui, assassinatos ali, ameaças embrulhadas em conferências de imprensa com bandeirinhas atrás. Tudo muito civilizado, muito democrático, muito “ordem internacional baseada em regras”, regras essas que curiosamente mudam sempre que Washington muda de humor. Ou de parvo na Casa Branca.

E depois há o outro artista desta opereta. Benjamin Netanyahu, ou, para os amigos, Bibi, o homem que olha para o Médio Oriente e vê um tabuleiro de Risco onde todas as peças lhe pertencem por direito divino, histórico, bíblico e, já agora, também imobiliário. A sua visão é tão simples, que é quase básica. Expandir, esmagar, controlar, e chamar a isso segurança.

Uma espécie de colonização com drones, muito moderna, muito higiénica, muito televisionável.

E como qualquer bom espectáculo de variedades precisa de um ajudante, entra em cena Donald Trump, o equivalente geopolítico de um caniche obediente com acesso a um arsenal industrial militar. Um tipo que confunde diplomacia com chantagem de casino mafioso e estratégia com birra de reunião de condomínio.

E a relação entre ambos verifica-se apaixonante. Bibi aponta, Trump ladra. Bibi pressiona, Trump assina. Bibi acena com a ameaça iraniana, e Trump, de coleira bem ajustada, decide que a melhor forma de mostrar força é fazer exactamente o que lhe pedem. Uma demonstração impressionante de soberania de bordel. Alugada.

E assim se constrói uma guerra idiota.

Mas o mais fascinante, verdadeiramente fascinante, é a surpresa. Aquela expressão quase infantil de espanto quando o Irão responde. Como se fosse impensável que um país com décadas de resistência, com uma estrutura militar assimétrica sofisticada e com uma paciência quase civilizacional decidisse, finalmente, devolver o golpe.

“Mas como?!” perguntam eles.

Como? Talvez porque passaram anos a tratá-lo como um alvo e nunca como um actor de cultura milenar e com uma taxa de literacia de 94%. Mau regime, mas muita cultura e inteligência. Coisa pouca.

Entretanto, o Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa grande parte do sangue energético do planeta, transforma-se num aperto de garganta global. E aí, subitamente, a guerra deixa de ser um vídeo de propaganda e passa a ser um problema sério. Daqueles que fazem tremer bolsas, governos e certezas.

Mas há um detalhe ainda mais triste nesta tragédia. O império que se julgava omnisciente começa a revelar não fraqueza material, mas algo mais perigoso, uma espécie de alucinação patriótica.

Enquanto se entretém a bombardear desertos e a distribuir democracia com mísseis, os Estados Unidos MAGA vivem mergulhados numa narrativa quase mística onde continuam a ser o centro do mundo, o árbitro da história, o adulto na sala, mesmo quando ninguém lhes pediu para organizar a festa.

Uma nação ideológica convencida de que manda no mundo por decreto divino, enquanto o resto do planeta começa, discretamente, a ignorar as ordens.

Não por rebeldia ideológica, mas por simples e clara exaustão.

E aqui está o verdadeiro ponto que vai doer. Esta guerra não está a ser perdida no campo de batalha.

Está a ser perdida na incapacidade de compreender o adversário. Na arrogância de achar que superioridade tecnológica resolve tudo. Na ilusão de que poder militar substitui inteligência estratégica.

Donald Trump, no meio disto tudo, continua obviamente fiel a si próprio. Burro que nem uma maçaneta. A tomar decisões como quem escolhe ingredientes numa pizza, a reagir em vez de pensar, a confundir ruído com força. Um homem que transformou a política externa numa extensão do seu ego e que agora descobre, tarde demais, que o mundo real não assina acordos de guerras parvas.

Já o Bibi segue firme, consistente na sua visão colonizadora que avança, envolta na narrativa da segurança. Obstinado mas desaparecido das conferências de imprensa.

Fazendo prova de vida através de clipes gerados por IA.

Fazendo supor que possa realmente ter sido “escolhido” para estar junto do criador.

No fim, quando o pó assentar, se assentar tão cedo ou se alguma vez assentar, não será a vitória que ficará na memória.

Será a estupidez.

Aquela estupidez persistente, arrogante, quase artística, de acreditar que se pode incendiar uma região inteira e sair de lá com as mãos limpas e a reputação intacta.

E talvez, só talvez, alguém pergunte, com um ligeiro atraso histórico, se o verdadeiro problema seria realmente o Irão.

Ou se seria a convicção delirante de que o mundo inteiro existe para ser gerido por um homem superlativamente patético ao serviço de outro com inclinações genocidas e delírios de superioridade religiosa.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-24316661

https://www.reuters.com/world/middle-east

https://www.theguardian.com/world/iran

https://www.aljazeera.com/middle-east

https://www.cfr.org/backgrounder/what-strait-hormuz

https://www.brookings.edu/topic/middle-east

https://www.csis.org/regions/middle-east

O negócio que saiu caro

(In Contigo Venezuela, in Facebook, 16/03/2026, Trad. Estátua)


O amargo “presente” da Rússia que a Índia viu chegar, após seguir as ordens de Washington.


No grande tabuleiro do xadrez mundial, há jogadas que parecem de mestre e há outras que acabam por servir como lições extremamente caras. A Índia acaba de aprender uma das mais difíceis: na geopolítica, quem duvida paga.

O que aconteceu com o petróleo entre Nova Deli, Washington e Moscovo não é apenas uma transação comercial; é um manual de como se perde a vantagem estratégica num abrir e fechar de olhos.

A Índia desfrutou de uma posição invejável. Enquanto o mundo sofria com os altos preços do petróleo bruto, Modi conseguiu comprar petróleo russo com descontos históricos. Era o negócio do século. Índia, parceiro do BRICS, parecia ter o melhor dos dois mundos… até o telefone – uma chamada de Washington -, tocar.

Os EUA intervieram com instruções claras: “Parem de comprar petróleo à Rússia e procurem outros fornecedores (como a Venezuela)“. Num movimento que muitos críticos classificam como uma entrega da sua soberania, a Índia concordou. Reduziram as suas compras ao aliado do BRICS para agradar ao G7.

Após se ter desencadeado a atual crise energética global e o caos nos mercados, os EUA – os mesmos que proibiram as compra -, deram uma reviravolta de 180 graus: “Tudo bem, Índia, vocês podem comprar petróleo russo novamente, mas só por 30 dias“. Uma “autorização” que soa mais a uma piada do que a uma concessão.

E aqui é onde a intriga se torna numa chapada de realidade. Quando a Índia voltou a bater à porta da Rússia, a resposta foi gelada: “Venderemos, mas agora a preços de mercado e sem os descontos anteriores“. A Rússia não perdoa a falta de lealdade em momentos críticos. O “amigo” que saiu sob pressão agora volta como um cliente desesperado, e Moscovo sabe disso.

A Índia sacrificou a sua autonomia energética e os seus descontos privilegiados para seguir um roteiro ditado do exterior acabando, meses depois, por lhe ser dito que podia sempre comprar, mas já sem os benefícios de ser um “parceiro preferencial“.

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Sem Druzhba não há milhões – sem petróleo não há ilusões

(João Gomes, in Facebook, 16/03/2026)


Enquanto os ministros europeus discutem em Bruxelas sobre como salvar a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, Zelensky enfrenta o dilema de um oleoduto soviético chamado Druzhba pipeline. Um tubo de ferro que, ironicamente, define o futuro de milhões de europeus muito mais do que qualquer debate em comissões ou cimeiras.

Zelensky, entre um sorriso diplomático e uma declaração aos jornalistas, recorda a todos que “está a ser forçado a reativar o Druzhba”, como se estivesse a negociar não petróleo, mas princípios morais no menu do café. A Hungria de Orbán observa do lado eleitoral, e a Eslo­váquia acena com inspeções externas, como se a burocracia pudesse tapar um buraco no fornecimento de energia.

Do outro lado, a União Europeia mantém a pose: sanções contra Rússia até 2028 e uma convicção inabalável de que, se não ceder, será moralmente superior. O problema é que, sem o Druzhba, o moral europeu sobe, mas os preços da energia também. E se a teimosia de Zelensky e de Bruxelas se mantiver, a economia do continente poderá começar a tremer antes de os tanques russos sequer respirarem na frente ucraniana.

O resultado, já visível: os cidadãos olham para os termómetros, as contas da luz e os preços do combustível, percebendo que sem petróleo não há ilusões; há apenas faturas a chegar e fábricas a reduzir produção. Enquanto isso, o drama político transforma-se numa espécie de teatro de marionetas, onde cada ator finge ter um plano e todos sabem que ninguém quer ceder.

Ironia: Zelenskyy quer manter a moral e as sanções intactas, Orbán quer votos e segurança energética imediata, e a UE? Bem, a União Europeia continua a produzir cimeiras, relatórios e declarações diplomáticas. E, nesse meio tempo, os milhões que dependem do fornecimento russo aguardam pacientemente, pagando em euros ou em ilusões.

No fim, fica claro que sem Druzhba não há milhões – sem petróleo, não há ilusões. E talvez seja isso o único consenso que Bruxelas e Kiev conseguem alcançar: uma lição amarga de geopolítica aplicada à vida real.

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