A ninfeta de Bruxelas, o Novo Banco e o défice

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 25/09/2015)

Nicolau Santos

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A Comissão Europeia liderada por Jean-Claude Juncker tem entre os seus porta-vozes algumas simpáticas e jovens meninas, que são muito despachadas a falar e matam os temas mais delicados rapidamente e com ares definitivos. Mas há assuntos que merecem bem mais que meia dúzia de palavras proferidas por simpáticas ninfetas.

A propósito da não venda do Novo Banco e do seu impacto sobre o défice de 2014, que sobe para 7,2%, a porta-voz da Comissão Europeia disse apenas que, no entender de Bruxelas, tal resultado não coloca em causa o processo de consolidação orçamental em Portugal. Fim de conversa. Mas não devia ter sido.

Em primeiro lugar, na União Europeia vigora a regra da contabilidade nacional (ótica de caixa) para os orçamentos dos Estados-membros, e não a ótica dos compromissos, como no caso da contabilidade pública. O que é que isto quer dizer? Que se a regra fosse aplicada, os 3900 milhões que o Estado colocou no fundo de resolução do BES deveriam ter sido imediatamente contabilizados no défice do ano passado, quando a operação ocorreu. No caso do processo de resolução de bancos (pela primeira vez experimentado pela Comissão no caso português), existe supostamente um período de dois anos para o resultado da operação ser inscrito no orçamento.

Foi, aliás, isso, que o Governo entendeu dizer em 2014: que o valor em causa entraria no orçamento nacional logo que fosse concluída a venda. E, para isso, o Banco de Portugal não só despediu Vítor Bento (que não concordava com a estratégia e queria dois anos para estabilizar o Novo Banco), como deu como missão a Stock da Cunha a venda da instituição no prazo mais rápido possível (porque, como doutamente explicou há uns meses o primeiro-ministro, quando mais tarde se vender, menor será o seu valor; a explicação mudou agora, mas isso não interessa nada).

Falhada no entanto a venda – e falhada porque há inúmeras incertezas quanto aos processos judiciais em curso e quanto aos resultados dos testes de stress que em Novembro o BCE fará ao Novo Banco, pelo que não é possível saber qual o aumento de capital que a instituição vai necessitar – aparece agora o INE a incluir os tais 3900 milhões no défice de 2014, com a ministra das Finanças a dizer logo que se trata de uma mera operação contabilística.

600 milhões das pensões são um problema. 3900 milhões aplicados no Novo Banco não. Esperemos que a ninfeta de Bruxelas nos explique isto, muito devagarinho, para nós percebermos bem.

Bom, mesmo que fosse – e não é, os 3900 milhões existem e foram emprestados pelos contribuintes – justificava-se seguramente uma explicação sobre esta mudança de atitude da Comissão, porque, como é óbvio, a leitura política que hoje é feita sobre a derrapagem do défice, seria completamente diferente se ela tivesse sido concretizada logo no ano passado.

Mais: se nos casos da resolução de bancos existe uma situação de transição de pelo menos dois anos que permite só registar a operação após a venda, então não se percebe porque é que os 3900 milhões são agora registados no défice de 2014, quando se deveria aguardar o resultado da venda para saber o resultado final da operação. Afinal, só passou um ano e dois meses sobre a resolução do BES.

Estamos, pois, perante uma situação que a Comissão Europeia deveria esclarecer cabalmente e seguramente e não através de uma das suas ninfetas. Torna seguramente a explicação mais agradável, mas eventualmente menos cabal. E qualquer porta-voz não tem autonomia para responder a algumas questões mais específicas e delicadas.

Uma última nota: o facto da ministra das Finanças insistir em que não haverá nenhum problema, nem com as metas do défice nos próximos anos, nem com a necessidade de novas medidas de austeridade, mesmo que seja necessário recapitalizar o Novo Banco e/ou o Fundo de Resolução, prova que há uma nova teoria económica em nascimento. Agora, 3900 milhões de euros de financiamento ao Fundo de Resolução garantidos pelo Estado, que podem ter de ser aumentados e no final do negócio não serão com grande probabilidade compensados não têm nenhum impacto do ponto de vista orçamental – quando verbas bem mais pequenas para outras rubricas são uma enorme dor de cabeça para Maria Luís Albuquerque. É o chamado orçamento vudu. 600 milhões das pensões são um problema. 3900 milhões aplicados no Novo Banco não. Esperemos que a ninfeta de Bruxelas nos explique isto, muito devagarinho, para nós percebermos bem.

O manto diáfano do emprego

(Nicolau Santos, in Expresso, 29/08/2015)

Nicolau Santos

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O país tem assistido com alívio à descida da taxa de desemprego, que se cifrou em 11,9% no segundo trimestre de 2015, quando há doze meses estava em 13,9% e em 2013 tinha batido nos 16,2%. A maioria tem assinalado com entusiasmo esta tendência, enquanto a oposição a tenta desvalorizar, sustentando que entre desencorajados, pessoas que emigraram e milhares de outras que estão a frequentar cursos de formação, a verdadeira taxa de desemprego é bem superior. Não foi, contudo, este Governo que definiu as regras como se mede o desemprego. Por isso, há que aceitá-las e olhá-las à lupa para compreender que tipo de emprego está a ser criado e qual o modelo que está a emergir em Portugal após quatro anos de austeridade.

Ora recorrendo à Pordata constata-se que desde o início do século a população empregada reduziu-se em quase 600 mil pessoas (591,8 mil). Com efeito, enquanto em 2000, havia mais de 5 milhões de pessoas empregadas (5.041,3 milhares), atualmente esse número caiu para 4.449,5 milhares. A diminuição fez-se sobretudo sentir nas pessoas empregadas a tempo inteiro (menos 576,7 mil, fixando-se agora em 3.910,8 milhares), ganhando peso as pessoas empregadas a tempo parcial (mais 34,9 mil, atingindo 588,7 mil).

Como se qualifica um modelo assente em baixos salários, precariedade e reduzida proteção ao desemprego?

Olhando depois para os trabalhadores abrangidos pela retribuição mínima mensal garantida (505 euros desde novembro de 2014), constata-se que quase 20% se encontram nesta situação, o que é verdadeiramente surpreendente pois em abril de 2014 esta percentagem era de 13,2% e pulou em seis meses para 19,6% (!), quando entre 2011 e 2013 oscilou entre 11,3% e 12% (boletim do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério de Economia).

Se olharmos entretanto para a remuneração média para o conjunto da população empregada constata-se que ela é atualmente inferior em 24,5 euros (971,5 euros em outubro de 2011, 947 euros em outubro de 2014). Outro dado interessante tem a ver com o facto de das 620,4 mil pessoas desempregadas no segundo trimestre de 2015, apenas 268.141 (43,2%) estarem a beneficiar do subsídio de desemprego ou de outro tipo de apoio social — o que quer dizer que mais de 352 mil pessoas (56,8%!) desempregadas não recebem qualquer apoio público.

Conclusão: a economia está a criar mais emprego. Mas esse emprego é mais precário e muito barato, enquanto diminuem os apoios públicos aos desempregados. Ora como se qualifica um modelo económico assente em baixos salários, precariedade e reduzida proteção ao desemprego? Vêm-me vários nomes à cabeça e nenhum deles cola com uma economia moderna, dinâmica e inovadora.

E não é por falta de formação: em 2013 houve 17.339 empresas que realizaram ações de formação com a duração média de 33 horas, envolvendo 854.394 trabalhadores (!) e com o custo por trabalhador de 354 euros. Pode não ter resultado. Mas foi um grande negócio.


A Portucel e a Renova

A Portucel é uma das melhores empresas mundiais produtoras pasta de papel, pellets e de papel para escritório. A Renova é uma das mais inovadoras empresas na produção de papel tissue (papel higiénico, lenços, guardanapos, papel de cozinha). São empresas industriais de relevo na fileira da pasta de papel em Portugal e que ainda se encontram em mãos nacionais. Até agora estas empresas eram complementares. Mas este ano a Portucel quebrou o statu quo, ao comprar a AMS — Star Paper, produtora de papel de tissue de Vila Velha de Ródão, e o seu presidente-executivo, Diogo da Silveira, diz que “a questão não é se vamos ultrapassar a Renova, é quando”. Sendo a Portucel privada, entra nos negócios que quer e define os objetivos que entende. Mas parece bastante redutor que a Portucel queira ser maior do que a Renova. Seria bem mais interessante que quisesse ser a maior empresa europeia ou mesmo mundial. Assim, o que uma ganhar perde a outra e o país não beneficia nada.


A lição do dr. Osório

Com regularidade, António Horta Osório desagua na pátria para nos dar conselhos. Desta vez, foi na universidade de verão do PSD, onde sublinhou que “já estamos a viver dentro das nossas posses”. Este é um tema muito caro ao presidente do Lloyds. Compreende-se. Para quem recebeu €15,6 milhões em 2014, mais 50% que no ano anterior, Horta Osório tem a maior autoridade para nos dizer que estávamos a viver acima das nossas posses. Falta-lhe é um bocadinho de bom senso. Ou de pudor.


Negócios que correm bem

Há negócios que correm bem. Um deles é o da Science4You, que produz brinquedos científicos e que acaba de investir um milhão de euros numa nova fábrica, que lhe permitirá duplicar a produção. Liderada por Miguel Pina Martins, que detém 30% da Science4You, a empresa tem também como acionista a Portugal Ventures, capital de risco do Estado, com 49%. A Portugal Ventures, sob a liderança de José Epifâneo da Franca, apoiou várias startups que estão a demonstrar ser histórias de sucesso. Como prémio e apesar de ter larga experiência empresarial, tendo sido o fundador da Chipidea e de mais de 200 personalidades terem subscrito uma carta a pedir que cumprisse mais um mandato, foi substituído no cargo por Marco Fernandes, da DNA Cascais, uma empresa daquela autarquia. Epifâneo da Franca é independente mas não é de esquerda. Como é que se estabelece o primado da meritocracia neste país se exemplos destes se sucedem com regularidade, qualquer que seja a cor dos governos?


aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

são borboletas canários verde mar

onde mergulho a medo o meu olhar

são promessas que sei sem cobertura

de uma viagem pelo interior natura

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

são às dezenas às centenas ao milhar

a desenharem nos passeios pombas brancas

nascem nos pés e vão até às ancas

por um caminho que é bom de passear

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

uma claras são outras morenas

umas marias outras manuelas

umas maiores outras mais pequenas

mas as tuas são melhores que todas elas

as tuas pernas aí a dar a dar

que já nem posso este poema terminar

(Manuel Alberto Valente, in ‘Chiado’, in “Poesia reunida — o pouco que sobrou de quase nada”, Quetzal 2015)

As legislativas é que contam mas as presidenciais é que mexem

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 28/08/2015)

Nicolau Santos

    Nicolau Santos

Decididamente, o mundo político está de pernas para o ar. Nas televisões vai-se vendo um esforçado António Costa a calcorrear o país para dar a conhecer a sua mensagem, mas a maioria está a fazer-se de morta. Como resultado, o que está mesmo a entusiasmar comentadores, analistas e comunicação social são mesmo as voltas e reviravoltas das candidaturas presidenciais.

Como resultado da estratégia da maioria, que quer falar muito pouco do passado e pronunciar-se apenas sobre alguns dos resultados económicos atuais e sobre o facto de nos ter salvo de sermos uma nova Grécia, a campanha tem sido morna, tirando algum picante decorrente de erros dos socialistas, martelados até à exaustão pela quinta coluna das redes sociais e que depois chega inevitavelmente aos media tradicionais. E tem sido tão morna que o próprio Presidente da República veio constatar esse facto, considerando que nos estamos a aproximar dos padrões europeus nesta matéria.

Sobra, portanto, o picante das presidenciais, que ainda vêm longe e que serão inevitavelmente condicionadas pelo resultado das legislativas. Mas o certo é que não há dia em que não apareça ou um novo candidato, ou a declaração de um candidato ou dos seus apoiantes, e análises sobre análises sobre o que é melhor para o candidato Y ou Z e sobre as intrigas que dentro dos partidos se vão desenvolvendo à roda deste apaixonante tema.

E assim apesar de pensar que isso era o melhor para si, Rui Rio não avança em setembro, porque Passos Coelho só quer falar das presidenciais depois de 4 de outubro. Marcelo Rebelo de Sousa, que sabe que por vontade de Passos não será apoiado pelo PSD, já terá a sua máquina preparada para o levar ao colo até Belém. Pedro Santana Lopes pôs-se a fazer contas à vida e antes um pássaro na mão (a Santa Casa da Misericórdia) do que um muto fugidio (a conquista do palácio cor-de-rosa). Sampaio da Nóvoa anda a pedalar pelo país, ansiando por um sinal definitivo de António Costa. Maria de Belém vai tecendo a sua teia por forma a Costa ter mesmo de a apoiar. O PCP admite não apoiar um candidato próprio. E depois há mais candidatos, de todas as cores e paladares, que permitirão seguramente uma ampla escolha para aquele que os portugueses entendam ser o melhor Presidente da República para os próximos quatro anos.

Ana Sá Lopes escrevia no i que António Costa ganha as legislativas e Marcelo Rebelo de Sousa as presidenciais. Há quem prefira o contrário: ganhar as legislativas, embora perdendo as presidenciais. E há quem aposte na dobradinha: São Bento e Belém. Sempre avisado e alinhado com as sondagens, Cavaco Silva já vai falando em acordos parlamentares que garantam uma governação estável nos próximos quatro anos. A chave está nos indecisos, que todos procuram captar. A maioria joga com a recuperação que se vai notando (mais nos indicadores que na vida das pessoas), esconde coisas que vai fazer (o corte de 600 milhões nas pensões) e diz que o PS nos levará para os caminhos gregos. O PS tenta explicar uma proposta económica interessante mas de difícil compreensão, enreda-se em cartazes polémicos e numa campanha bastante amadora e aposta agora tudo no único valor seguro que tem: António Costa.

Os debates que aí vêm serão importantes. E tudo o que se disser e fizer em setembro inclinará a balança para um lado ou para outro.

A maioria acredita no efeito Cameron. O PS acredita que a escolha «ou eles ou nós» o vai beneficiar. Aguardemos serenamente – com a certeza que não é indiferente a escolha mas que muito do nosso futuro não está nas nossas mãos.