Esta Turquia é culpa nossa

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/04/2017)

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As instituições europeias não se deviam surpreender com os caminhos para um poder cada vez mais centralizado que a Turquia está a trilhar. Afinal, se bem que não se possa fazer o contrafactual, é de supor que se a Europa tivesse aceite o pedido de adesão da Turquia à União, que há exatamente 30 anos está em cima da mesa, talvez o regime de Ancara não estivesse a tornar-se cada vez menos democrático.

A Turquia apresentou o seu pedido de adesão à então Comunidade Económica Europeia em 14 de abril de 1987 mas já desde o ainda mais longínquo ano de 1963 que Ancara foi tentando desenvolver relações mais estreitas com as instituições europeias. Em 1995 assinou um acordo de união aduaneira com Bruxelas e, a 12 de dezembro de 1999, foi reconhecida oficialmente como candidata. Em 3 de outubro de 2005, foram iniciadas as negociações formais para a plena adesão da Turquia à União Europeia, mas desde aí tem sido manifesta a falta de vontade de alguns países europeus, com a Alemanha à cabeça, para aceitar a Turquia no clube.

Na verdade, os direitos de voto de cada país nas instituições comunitárias estão ligados ao número dos seus habitantes – e a Turquia, com 75 milhões, colocar-se-ia quase no mesmo patamar que a Alemanha (80 milhões) e à frente da França (66 milhões) e de Itália (60 milhões), tendo direito a mais deputados no Parlamento Europeu e a mais votos que Paris e Roma em todas as instâncias comunitárias.

É de supor que se a Europa tivesse aceite o pedido de adesão da Turquia à União, que há exatamente 30 anos está em cima da mesa, talvez o regime de Ancara não estivesse a tornar-se cada vez menos democrático

E assim, por manifesto cálculo político, os governos europeus da União foram encanando a perna à rã, arrastando os pés e o processo, fazendo que andavam mas não andavam, esperando não se sabe bem o quê – que a Turquia desistisse ou que, de repente, ficasse com muito menos população ou que acontecesse uma explosão demográfica nos países da União.

E entretanto, as correntes mais laicas e moderadas turcas iam pouco a pouco perdendo posições para setores mais radicalizados, que se foram cristalizando na sociedade e que ganharam um novo e decisivo avanço com a estranhíssima tentativa de golpe de Estado de 15 de Julho de 2016, esmagada pelas tropas leais ao presidente Recep Erdogan. A partir daí, Erdogan não só eliminou toda a oposição, como encerrou dezenas de órgãos de comunicação e acaba de vencer, embora pela margem mínima e com evidentes sinais de fraude, o referendo que lhe vai permitir eternizar-se no poder até 2029 e reintroduzir a pena de morte.

Ao fazê-lo, Erdogan dá um sinal claro de que desistiu da adesão do seu país à União Europeia, que se fartou do arrastamento do processo e que não acredita que ele algum dia venha a ocorrer. Mais: ele sabe que é uma condição “sine qua non” para que um país seja membro da EU que o seu regime seja democrático parlamentar e que não aplique a pena de morte a quaisquer tipo de crimes.

Ao reafirmar a defesa da pena de morte, o presidente turco está a dar um sinal claro de que deixou de contar com a EU como aliada e que vai procurá-los noutro local do globo. A questão é onde.

Na verdade, apesar da Turquia pertencer à NATO, os Estados Unidos não são um amigo predileto. Com a Rússia as relações também não são sólidas. Nem com Israel. Resta saber para onde se irá voltar Erdogan – e se a tentação do poder absoluto não o levará a ficar pouco a pouco isolado interna e externamente.


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O lento declínio da Europa

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 24/03/2017)

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Esta semana foi péssima para a Europa: mais um atentado, desta vez em Londres, causando 5 mortos e dezenas de feridos; e mais uma prova da crescente divisão entre o norte e o sul, através das declarações lamentáveis do presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Diojsselbçoem, dirigida aos países mediterrânicos.

Na altura em que a Europa comemora o seu sexagésimo aniversário, são cada vez mais evidentes os sinais de desagregação da mais ambiciosa construção político-económica da história da Humanidade, idealizada por Robert Schumann e Jean Monet.

Sendo o Brexit a prova mais clara das forças centrífugas que se instalaram na União, outras se lhes juntam, nomeadamente as que vem da Polónia e da Hungria, onde as ideias extremistas ganham terreno e ameaçam arrastar outros por caminhos duvidosos onde os nacionalismos recrudescem e as velhas querelas que dilaceraram a Europa em duas guerras mundiais voltam á superfície.

Quem trabalha em Bruxelas afirma que o declínio se sente nas instituições comunitárias e na estagnação latente da Comissão Europeia. E há quem afirme: “amigo, isto parou no tempo e no espaço”. E quem assim fala trabalha há mais de 30 anos no coração da União.

São assim cinco os males que enfrenta a União Europeia: a divisão entre o norte e o sul; os riscos de desagregação, que aumentaram exponencialmente com o Brexit; uma deriva populista e autoritária que vem ganhando adeptos crescentes; uma guerra não declarada instalada no seu território e que faz vítimas em Madrid, Londres, Bruxelas ou Paris; e uma incapacidade de tomar decisões económicas em conjunto para relançar o crescimento ou para resolver a questão das dívidas soberanas.

A isto junta-se um panorama político mundial altamente volúvel: uma liderança errática e autocrática nos Estados, uma liderança matreira e agressiva na Rússia e uma liderança emergente e cada vez mais presente da China. Em relação a estas realidades, a Europa parece vogar ao sabor das surpresas e dos acontecimentos, com as respostas a serem individuais e não tomadas de posição colectivas.

Por isso, colocar a questão de saber se a União caminha para um declínio inexorável não é despicienda. Tudo parece apontar para aí, embora não seja de ignorar a resiliência que a EU já demonstrou ao longo de diversas crises. E pode ser que a aguda consciência que o mundo que se lhe seguirá será bem pior que o atual sirva para travar o que se apresente de momento como um inexorável declínio.


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O Dia do Pai cujos filhos emigraram

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 20/03/2017)

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Ontem passou mais um Dia do Pai. O nome devia mudar para Dia do Pai do Emigrante. É que há poucas famílias da chamada classe média que não tenham pelo menos um filho emigrado, quando não dois ou mesmo três.

No meu círculo de amigos, um dos casais tem os dois filhos fora, ele em Sidney, ela em Londres; outro, tem a única filha em Edimburgo; outro ainda tem uma filha em Londres, outra na Escócia e só uma vive cá; outro tem duas filhas em Londres e outra cá; eu tenho um filho em Sillicon Valley e a filha cá.

É bom para eles? Fora de causa. É muito bom, do ponto de vista profissional e financeiro, além da rede de contactos que entretanto constroem e que lhes será muito útil pela vida fora. Além disso, tornam-se cidadãos do mundo e ficam aptos a trabalhar em qualquer ponto do globo. A contrapartida é que não voltam – ou muito poucos voltarão. Por falta de oportunidades profissionais interessantes mas também pela baixa remuneração que lhes é proposta e que não tem qualquer comparação com o que lhes é oferecido no estrangeiro, com os estudos que fizeram e com o trabalho que desenvolvem. Mais que não fosse – e há outras razões que dificultam o regresso, como relacionamentos afectivos com pessoas doutros países entretanto estabelecidos – aqueles motivos são mais que suficientes para não pensarem voltar a Portugal, pelo menos tão cedo.

É que a esmagadora maioria não emigrou porque estivesse desempregado. Estavam quase todos a trabalhar. Emigraram porque o que aqui lhes pagavam era demasiado irrisório e sem perspectivas de melhoria rápida para quem sabe o que valem os conhecimentos especializados que dominam.

É essa uma das conclusões de um estudo promovido pela Fundação AEP com o apoio da União Europeia/Feder, que está a ser realizado há alguns meses junto da Diáspora (com especial incidência na Europa), sob a direção do investigador Pedro Góis, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e que será revelado em meados de Abril.

E a prova é que embora mais de 70% desses jovens portugueses qualificados digam que querem regressar, 66,8% dizem que não pensam fazê-lo antes de três anos e quase 40% acrescentam que não pensarão em tal coisa antes de cinco anos. É, como se compreende, uma resposta de alguém que precisa de tempo para decidir. Mas que também precisa de estímulos para regressar: projetos interessantes e inovadores e remuneração compatível. E isso não se vê no horizonte. Pelo contrário. O processo de ajustamento devastou a economia portuguesa. Antes da crise, Portugal tinha 35 empresas entre as 100 maiores da Península Ibérica. Agora tem apenas seis. Quem pode agora oferecer salários competitivos e projectos desafiadores para fazer regressar a maioria dos jovens talentos que emigrou? Quase nenhuma empresa, como é óbvio. O país perdeu a maioria da geração mais bem preparada que alguma vez teve.