Até ao fim amargo

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 01/03 de 2025, Revisão da Estátua)


Bis zum bitteren Ende é uma antiga e comum locução alemã que remete para a última ceia e significa literalmente «até ao fim amargo», mas que em linguagem corrente se poderá traduzir por «até à última gota».

Foi título de uma conhecida obra do diplomata alemão Givesius sobre a derrocada da Alemanha na última grande guerra. A expressão ocorreu nestes dias em diversos jornais alemães a respeito das semanas e meses que se seguem e cujo horizonte temporal nunca excederá o mês de Junho como o do fim da guerra no Leste.

 Pois, o que a todos continua a espantar não é propriamente o apoio da maioria dos países europeus ao regime de Kiev, mas a ausência de qualquer ajuda outra para além de um teimoso repisar de argumentos esgotados, os quais implicam mais mortos, mais destruição e mais perdas territoriais.

 Era certeiro aquele dito que afirmava estarem os ocidentais a lutar até ao último ucraniano. Ontem, depois daquela algazarra na Sala Oval, ao entrar para o helicóptero, após afirmar que não queria uma guerra de dez anos, Trump deixou cair um desabafo mortal para o regime de Kiev: «deixá-lo continuar a combater e verá o que acontecerá». Só esta advertência devia provocar uma imediata alteração no discurso da UE e obrigar os líderes europeus a encontrar uma solução oposta àquela que tiveram nos últimos anos.

 Ao invés de reunirem esforços para uma qualquer iniciativa diplomática que de algum modo pudesse ser acolhida pela Rússia como contribuição para o acerto da paz, querem mais guerra. Se assim for, a Ucrânia vai sangrar até ao fim amargo e, até, perder a possibilidade de preservar um Estado conforme com fronteiras étnicas estáveis que lhe permitiriam viver em paz interna e em boa vizinhança com a Rússia.

Não sabemos o que estará neste preciso momento em curso nos bastidores do regime de Kiev. Um golpe de Estado? A substituição de Zelensky por alguém que se possa sentar à mesa com os russos? Se a capitulação não está ainda no horizonte, o que podemos prever são meses de violência jamais vista e um regime encurralado a lutar em vão por uma guerra já perdida. Como tudo isto nos lembra 1945.

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Uma lição de russismo e um rumo para a Europa – de Lisboa a Vladivostok

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 28/02 e 01/03 de 2025, Revisão da Estátua)

Zelensky na Sala Oval e a reprimenda…

Uma lição de russismo

Cada vez mais distante dos episódios deste tempo que nos foi dado viver, estive toda a tarde afundado na revisão de uma obra coletiva sobre Vasco da Gama, até ser sucessivamente perturbado pelo incessante toque do telefone que teimei em não atender. Muitos amigos enviavam-me mensagens, cada qual mais alarmista do que a última, até que sintonizei as tv’s que difundiam em direto aquela batalha na Sala Oval.

Coisa jamais vista nos anais da história diplomática, um choque de serralho perante toda a Humanidade que terá certamente o condão de convencer os mais empedernidos da bondade e da urgência de a Europa – ou o que dela sobra – reconhecer que ou há futuro com a Rússia, ou não há futuro algum.

Foi a maior lição de russismo da história, a demonstração pelos factos de que precisamos com a máxima urgência lançar todas as pontes para um entendimento civilizacional com a Rússia para, assim, nos furtarmos ao colapso do Velho Continente.


De Lisboa a Vladivostok

Agarrados aos seus pequenos ódios, preconceitos e teimas, manipulados e privados de qualquer capacidade de análise, aqueles que nestes três anos com ligeireza acreditaram na ilusão de uma luta cósmica entre o bem e o mal, presumindo que faziam parte do polo benigno, terão hoje sofrido uma profunda deceção ao verificarem que não passam de instrumentos, súbditos e tantas vezes servos obedientes de um poder que os usa e descarta. 

São simples proxies. Hoje, não foi a Ucrânia que perdeu a guerra, acontecimento de somenos que era, aliás, há muito evidente para os mais perspicazes. O que hoje morreu foi o sistema euro-atlântico de sujeição montado pelo mundo anglo-saxónico e no qual os atores secundários europeus continentais jogavam papéis de figurantes.

A sujeição dos atores menores foi tão profunda e durou tantas décadas que será pertinente perguntar se os europeus, de tão habituados ao jugo, se saberão libertar e autodeterminar. Tememos que não, a menos que se levante a tempestade, as águas pantanosas ganhem vida e a Europa, toda a civilização europeia, dos Açores ao estreito de Bering, se converta num energético polo de poder mundial.

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Encharcados no delírio, irmanados na penitência

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 27/02/2025, Revisão da Estátua)


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A chuva diluviana que se abateu sobre Macron e Marcelo durante a receção na Praça do Império presta-se a mil interpretações soturnas e empresta à cerimónia uma nota de fim de era.

Os dois regimes envolveram-se numa guerra antecipadamente perdida, empurrados por delírios ideológicos e uma notória falta de informação, agravando a penitência que certamente terão de pagar por não terem acautelado o interesse nacional dos respectivos países.

A derrota francesa só será diferente da nossa na proporção do peso que ambos os países possuem no tablado internacional. Se a França foi escorraçada da África francófona, onde punha e depunha presidentes, Portugal terá perdido capital de prestígio junto da lusofonia, sobretudo no Brasil que aqui veio na pessoa do seu Presidente pedir-nos que não nos envolvêssemos em demasia num conflito que não era nosso.

Não sabemos ainda o que restará da França com projeção mundial após a guerra, mas no que a Portugal respeita, a doidice anti Rússia não só comprometeu o entrosamento com o Brasil, como também chamuscou as excelentes relações que tínhamos com a China. Nós bem dizíamos, debalde, que não era “putinismo”, nem “russismo”, mas interesse nacional.