As fogueiras em que arde a liberdade na União Europeia!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 03/04/2024)

A União Europeia demonstra todos os sintomas de uma estrutura em crise profunda.


A União Europeia demonstra todos os sintomas de uma estrutura em crise profunda. Tal como outras organizações, no passado, quanto mais tenta fazer passar uma imagem de coesão interna, maiores as fissuras que cria, a partir da exigência, cada vez mais férrea, de cumprimento das regras que tal aparência de coesão exige.

Para conseguir afirmar o seu poder político, Bruxelas é apresentada como um poder, tão distante quanto inatingível, de tal forma superior, que tudo o que dispõe é inquestionável. Colocando-se em tal pedestal, Bruxelas arroga-se de uma sapiência e omnisciência presumidas, apostando num processo de comunicação muito bem montado, assente na ideia de um poder acima de todos os outros, acima dos poderes eleitos, acima dos “governos do povo”: “A UE disse que…”; “a UE diz que não se pode…”; “o governo pediu à UE que…”; “a UE avisou que…”; “o governo foi obrigado, pela UE, a…” Tudo assim, sem questionamento, crítica ou reflexão. Uma espécie de extensão europeia da teoria da “única nação indispensável”.

Se até certa altura, estávamos perante um poder que se impunha por si próprio, que se bastava a si próprio, cuja inatingibilidade era suficiente para desencorajar qualquer ideia contraditória, face à monumentalidade da tarefa que consistia em enfrentar, não um governo, mas “o governo dos governos todos”; atualmente, Bruxelas deixou de se contentar com essa superioridade ontológica, passando a exigir provas inequívocas de lealdade.

Tal significa que aderir, ou não, à “realidade narrativa” apresentada pela burocracia europeia, há muito que deixou de ser um acto voluntário. A lealdade passou a ser demonstrada pelo vigor e rigor com que se interioriza a ideologia “comunitária” – a meu ver trata-se mais de uma idolatria. Houve um momento que funcionou como um sinal para a ativação de mecanismos conformadores das opiniões, à “realidade narrativa” emanada da União. Esse momento está situado em 25/02/2022. Mesmo no Covid, embora já se sentisse a mão de ferro, na circulação de informação que questionasse as vacinas, métodos e políticas desenvolvidas, não assistimos, na Europa, à utilização corrente de meios coercivos diretos, para silenciar, condicionar ou responsabilizar quem não aderia à narrativa.

Mas, nos últimos dois anos e tal como noutros tempos, também bastante inquisitoriais, passou a ser exigida uma prova de lealdade, consubstanciada na adesão a um discurso, a uma narrativa, a uma idolatria. E se é verdade que os poderes deste tipo, ao longo da história, elegeram sempre a “desinformação” e “propaganda” dos inimigos, como semente originária do condicionamento!

Foi, portanto, ao som do trovejar da guerra que começámos a constatar a chegada do “estado de guerra” da UE e a necessidade de prestação de provas de lealdade. Não o noticiaram, não o questionaram ou analisaram. Como em tudo o que caracteriza o poder europeu, nestes dias, apenas constatamos os factos, a sua inexorável existência. Já o discurso, esse, continua a ser o mais luminoso de sempre, ou talvez mais ainda.

Sabemo-lo, por exemplo, quando utilizamos uma ferramenta de Inteligência Artificial generativa de texto, questionando-a sobre “jornalistas perseguidos na União Europeia no quadro do conflito na Ucrânia”. A resposta é invariavelmente a mesma: “corajosos jornalistas perseguidos” só na Rússia, meus caros. Contudo, quando colocamos os nomes de jornalistas como Alina Lipp, Graham Phillips ou Pablo Gonzalez, descobrimos que, afinal, existem jornalistas: acusados de espionagem e preventivamente detidos (Pablo Gonzalez na Polónia, há mais de ano e meio); acusados e sujeitos a pena de prisão até 3 anos, por delito de opinião “apoio à invasão russa” (Alina Lipp da Alemanha); e, pasme-se, acusados de propagandismo e glorificação da “invasão russa e das atrocidades praticadas” (Graham Philips do Reino Unido), ao ponto de ter sido acusado por alguns políticos de ter “cometido crimes de guerra”, apenas por ter entrevistado Aiden Aslin, um mercenário britânico preso em Mariupol, e em consequência integrado numa lista de sanções pessoais que o impedem de reentrar no seu país de origem.

Estes foram alguns dos primeiros casos – nunca assumidos – de violação da prova de lealdade. Como que para dar o exemplo, um punhado de jornalistas experimentaram o peso com que a mão de Úrsula Von der Leyen trata a deslealdade para com a sua narrativa. Nem que seja aquela em que fala de chips de máquinas de lavar que equipam mísseis e economias em pedaços que afinal até crescem mais do que as da UE.

Consequentemente, como em todos os poderes que já não se bastam a si próprios, algures no tempo, a malha ficou ainda mais apertada, deixando de ser apenas os jornalistas e órgãos de grande mediatismo (como as Tv’s russas), a quedarem-se apanhadas nas redes do ministério europeu da verdade. A polícia da idolatria foi lançada ao ataque e fareja debaixo de todas as pedras pelo mínimo sinal de dissidência.

Recentemente, as autoridades checas decidiram perseguir com a entrada na lista de sanções uma entidade com o perfil virtual de “Voice of Europe”, bem como os seus dois responsáveis, acusando-os de pretenderem “minar a integridade territorial, soberania e independência da Ucrânia”, porque, no entendimento destas autoridades, glorificam a “invasão russa da Ucrânia”. Todos temos vindo a aprender que, na UE do nosso tempo, podemos idolatrar nazis, neonazis e até propagar notícias-falsas. É quando o nosso discurso coincide com o de algum russo, por mais insignificante que seja, que somos alvos da ira de Von der Leyen. Como disse, não se trata de “ser, ou não, verdade”; trata-se de lealdade ou traição.

Esta intransigência para com os discursos, mesmo quando proclamados por gente sem exposição mediática, apenas com uma limitada exposição virtual, é em si sintomática de que o nível de tolerância para com o pensamento diverso, crítico ou controverso, está no seu nível mais alto de sempre. Tal fundamentalismo discursivo – e comportamental – está em linha com o que depois nos é dado a ver no mundo real, sobretudo no epicentro da idolatria europeia: Bruxelas.

É em Bruxelas que encontramos o centro simbólico ao qual devemos ser leais. O “projeto ucraniano”, para os idólatras do poder central – e seus seguidores –, que assenta nos órgãos que compõem a União Europeia, tem uma dimensão fundadora, tendo-se tornado o símbolo máximo do regime; um regime que já não se afirma pelo que é, mas por aquilo que defende como símbolo máximo do antagonismo Russo: o apoio ao regime de Kiev. Quanto mais rígido, intransigente e exigente, no apoio a Kiev, mais anti russo se é, sendo essa a prova última de lealdade. Será razão para dizermos que esta UE já não é a mesma. Ou será que… Agora é que é o que deveria ser?

Apresentada como projeto de paz, mas acabando a financiar a guerra, em Bruxelas, mesmo a um qualquer transeunte mais distraído, não passa despercebido o símbolo máximo do regime. Bruxelas passou a ser, especialmente desde 25 de Fevereiro de 2022, uma cidade banhada a azul e amarelo. Dos outdoors às vedações das obras públicas, tudo parece denunciar a verdade única à qual temos de ser leais. A Ucrânia de Zelensky é, de facto, um estado membro da EU! A legitimidade que lhe falta na lei formal, sobra-lhe na manifestação da parafernália simbólica e no frenesim perseguidor com que as instituições europeias abraçam a sua proteção.

Dispensando os usuais trâmites de acesso, os quais apenas visam conferir alguma legitimidade formal a todo um fenómeno (Ucrânia na “fast track” para a EU) observável de facto, a Ucrânia beneficia de todo um altar que constitui o símbolo máximo deste fundamentalismo idólatra e desta adoção de facto materializada.

Nada é mais esmagador do que uma ida à praça central do “Luxembourg”, local em que se situa o Parlamento Europeu, sob um olhar próximo de uma Comissão Europeia vigilante e de um Conselho Europeu amestrado, por poderes bastante mais distantes. O amarelo e o azul são tão intensamente proeminentes nesse local, que parece estarmos simultaneamente no céu e perto do sol. Dizem que são as cores da UE… A sua presença nunca foi tão forte como hoje. Também nas cores a Ucrânia e a UE se confundem.

A imagem de Zelensky sobressai desse mar duo cromático, inundado de mensagens como “stand with Ukraine” ou outdoors dizendo “the brave people of Ukraine, represented by their president (…).” Como que a provar que o que está fora, emana de dentro, o estado ucraniano, sem qualquer respaldo democrático que não seja o gerado pela imensa propaganda que nos inunda os sentidos, tem, inclusive, o seu espaço no próprio hemiciclo do Parlamento Europeu. Para além de todas as cabinas de tradução simultânea, para cada uma das línguas que integram o projeto europeu, também o “projeto ucraniano” tem aí a sua. Mesmo que não tenha eurodeputados.

Até os 50 mil milhões de Euros recentemente aprovados pelo Conselho Europeu, para os 4 anos que faltam do Quadro Financeiro Plurianual (normalmente vai até um ano depois do período nominal, que é 21-27), retirados do respetivo bolo financeiro, parecem reproduzir, mais ou menos, aquilo que receberia um país, com 35 a 40 milhões de habitantes e com um rendimento per capita abaixo da média europeia. Ou seja, nem os fundos faltam para o desenvolvimento das metas da estratégia 2030. Agora, digam lá que a Ucrânia não é já um estado-membro?

Poderíamos também tomar, como exemplo, a guerra que a UE comprou com os agricultores Húngaros, Búlgaros, Romenos, Polacos, Eslovacos, porque inunda os mercados europeus de produtos produzidos sem cumprir as mesmas regras a que os outros estão sujeitos. Desta forma, estes países são obrigados a reviver, em relação à Ucrânia, o mesmo sentimento de menorização que qualquer país europeu periférico sente, quando tem de se confrontar com interesses de países mais poderosos, como a Alemanha ou a França. Hoje, até estes dois se submetem aos ditames do tridente “banderista”.

Se, por toda a União Europeia, por todos os estados membros, deparamos com a propaganda do regime, relembrando-nos, a cada passo, de que tudo o que somos e temos se deve, tão só, à “divina” (ou diabólica) presença da “humana, inclusiva, democrática e livre UE”, é na capital e no seu centro nevrálgico que esta propaganda é mais esmagadora. Como um poder que se expande do centro para a periferia.

Perante a derrocada, mais do que anunciada, do regime de Kiev e de tudo o que ele significa, coloca-se à UE um desafio de sobrevivência. Pois as idolatrias têm destas coisas: falta-lhes substância. Por mais que tentem fazer aderir ao “estado-membro ucraniano” a ideia de que este constitui um bastião dos “valores europeus”, tudo se esvai quando é, na Ucrânia de Bandera, que mais se negam os direitos que a UE diz representar.

Por sua vez, foi a Rússia (na URSS) que mais contribuiu para defender tais valores. A única forma de isto não ser um completo equívoco, é se assumirmos, como premissa, que, afinal, esta UE não renega o nazi-fascismo e, ao contrário, odeia a Rússia por ter vencido aquele que havia sido criado para a derrotar.

Com efeito, admitindo a idolatria nazi ou neonazi que hoje constitui a coluna vertebral do poder político ucraniano, mas não admitindo a idolatria da operação russa, a UE diz-nos algo de terrivelmente devastador: as elites ocidentais consideram mais grave o que designam de “invasão” da Ucrânia pela Rússia, do que a invasão nazi-fascista da Ucrânia, da Rússia, da URSS, França, Polónia e por aí fora. Os factos não deixam dúvidas: persegue quem acusa de “apoiar a invasão russa da Ucrânia”, mas apoia quem sabe idolatrar as forças que invadiram e destruíram a Europa inteira. O que volta a fazer-me trazer à colação a sempre controversa questão: afinal, a UE é, ou não, antinazi?

Não se trata aqui de julgar a UE por condenar a operação russa na Ucrânia, trata-se de questionar, por que razão persegue quem diz apoiar esta operação e não persegue, com muito maior força de razão, aqueles que idolatram poderes que destruíram a Europa inteira.

Tal questão não assumiria tanta importância se a Ucrânia não fosse um estado membro. Agora, quando é, de facto, o mais importante de todos e à volta do qual roda toda a vida da União, pois nenhum nos enche as notícias, discursos políticos e colunas de opinião como este… Ao ponto de a UE tentar reproduzir, no seu comportamento, as práticas mais danosas a que o regime de Kiev obriga os seus próprios concidadãos… Também aí, a adesão à narrativa, à língua, à idolatria de Bandera, à idolatria da UE, da NATO e dos EUA, não é uma escolha, é uma prova de lealdade. Acabam agarrados aos postes, embrulhados em celofane, aqueles que não a praticam. Vá lá que, por cá, ainda não se chegou a esse ponto… Mas, no meu caso, levo muito a sério aquele poema de Martin Niemöller, “primeiro levaram os comunistas…”

De forma, tão encapotada como a que foi utilizada para integrar, na União, um estado-membro que não lhe pertencia, entregando-lhe, como diz Emmanuel Todd, o cetro de um poder que pertencia ao eixo franco-alemão, não porque contribua mais do que todos os restantes, para o orçamento comunitário, mas, pelo contrário, porque é necessário torná-lo no que mais contribuições recebe, a UE lança-se, também, numa sorrateira caça às bruxas, intensificando e generalizando, ainda mais, as provas de lealdade que já exigia. Uma vez mais, nunca assumindo que o faz. Uma outra característica que tão bem cola com Kiev. “Não foi Kiev que bombardeou a Energodar NPP”; “Não foi Kiev que bombardeou as ruas de Donetsk”; “Não foi Kiev que bombardeou a prisão em que estavam os seus próprios militares, enquanto prisioneiros de guerra”…

Consequentemente, foi o próprio Primeiro-ministro belga o encarregado de, em declarações ao New York Times, acusar parlamentares da França, Alemanha, Países Baixos e outros, de serem pagos para prosseguir interesses russos, no Parlamento Europeu. Sem precisar quem são todos os acusados, mas apontando à mesma “extrema-direita” que prolifera graças aos danos que o poder de Bruxelas infringe nas nossas condições de vida, uma vez mais, somos confrontados com as contradições desta União Europeia. E é assim que identificamos em que consiste a prova de lealdade que, agora, é exigida a todos os cidadãos. Nem que seja sob pena de censura nas redes sociais.

Assim, que coisas tão graves disseram ou fizeram os acusados? Bem, é o próprio NYT quem o diz: proferiram coisas como “Os sonâmbulos de Berlim e Bruxelas estão a conduzir-nos para uma guerra externa – sem rima, razão ou propósito” ou “Quem quer que aceite a Ucrânia na NATO está a provocar, gostemos ou não – eu também não gosto – o ataque russo. E agora pergunte-se se está preparado para aceitar a guerra pela adesão da Ucrânia à NATO.” E o que fizeram mais ainda? Opuseram-se à classificação da Rússia como “Estado patrocinador do terrorismo”.

Eis a que nível a UE, o Ocidente, a comunicação social mainstream, colocam as coisas. Não se poupam a esforços para impor, na prática, a ideia de que a Ucrânia é um estado-membro, que não é; atribuir à Ucrânia e ao regime de Kiev um peso político, que claramente não tem; incriminar pela prática do crime de propagação da desinformação russa, quando o que se disse tinha a ver com um Estado – a Ucrânia – que supostamente nem sequer é membro da União; perseguem jornalistas por apresentarem factos que desmentem os apresentados pelo regime de Kiev, que supostamente não é da UE; fecham perfis virtuais por exporem factos que contestam a informação fornecida por um país, o qual, virtualmente – e apenas virtualmente – não é membro da UE. Estão a ver a contradição?

Assim, quanto mais vazias de sentido, substância e profundidade teórica, mais perigosas se tornam as idolatrias, quase como se soubessem, os idólatras, que a manutenção da sua idolatria não depende da sua consistência, mas da força com que é imposta. Neste caso, a força com que é imposta diz-nos que, se a caça às bruxas começou, pouco falta para que as fogueiras comecem a crepitar!

Fonte aqui.


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O TikTok é uma arma contra a hegemonia americana?

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 19/03/2024)

A derrota imposta pelo TikTok à narrativa sionista não deixa de estar relacionada com o papel de Israel na segurança do petrodólar, da hegemonia e da sua derrota pelo mundo multipolar.


No rescaldo da retumbante vitória de Vladimir Putin; após um acto eleitoral com participação muito assinalável (com uma abstenção inferior ao que se passa em regra no ocidente); uma aprovação do actual presidente da Federação Russa, ainda mais elevada; a contradição entre a informação real, testemunhada e constatada por incontáveis observadores internacionais e a informação veiculada no espectro comunicacional dominado pela Casa Branca, obrigam-nos a colocar em perspectiva toda uma batalha informativa que ocorre no universo virtual.

Quando assistimos a notícias de que esta ou aquela plataforma de Silicon Valley vai abandonar a Rússia, à luz da guerra movida ao TikTok, pela plutocracia estado-unidense, não podemos senão considerar que essa saída é uma sorte para o país e o seu povo. Não tivessem as autoridades russas desenvolvido os necessários esforços para construir um ecossistema digital soberano, deixando o país ao sabor dos veículos propagandísticos da Califórnia, e estaríamos a falar de idênticos resultados? Tenho dúvidas!

Um estudo da Rutgers com a NCRI (Network Contagion Research Institute), sobre o alinhamento do TikTok com as perspectivas geopolíticas do Partido Comunista da China, analisa a informação veiculada pela plataforma chinesa, em comparação com o Instagram, utilizando, claro, esta última como referência de controlo.

Subsequentemente, retiram a conclusão de que existe um alinhamento dizendo que, comparando o número de posts entre as duas plataformas, a “perniciosa” TikTok e a “transparente” Instagram, os posts sobre Uigures são de 1 (no TikTok) para 11 (no instagram); sobre o Tibete 1 para 38, Tiananmen 1 para 82 e “democracia em Hong Kong” 1 para 180. Diz o estudo que estes são tópicos “sensíveis” para o governo chinês. Nem por um momento se questiona a veracidade das tais informações sensíveis para a “China comunista”.

Um exemplo concreto é o caso da guerra na Ucrânia, que opõe a OTAN à Federação Russa, em que os posts têm uma relação de 5 (TikTok) para 8 (instagram), quando se trata do movimento “pela Ucrânia”, ou o caso do genocídio em Gaza, em que a relação é de 2 para 6, quando se trata de “apoiar Israel”. O estudo pouco analisa as métricas ao contrário, ou seja, em relação a hashtags que estão em oposição aos interesses de Washington. Mas o que é deveras conclusivo é a total disparidade entre o que o que é mais ou menos referido em cada uma das plataformas. A mesma acusação que é feita ao TikTok, a respeito dos temas sensíveis para o governo chinês, também poderia ser assacada à administração americana, quando se trata de temas que contrariam a sua propaganda, nas plataformas de Silicon Valley. Desse aspecto não trata a Rutgers, e muito menos dos enviesamentos algorítmicos que justificam a disparidade no tratamento de determinados temas. Sabemos bem porque razão existem. E essa razão não abona em favor da Casa Branca, muito pelo contrário.

Se a análise dos hashtags, que supostamente estão no universo de interesses da China, já nos deixa antever que o que é do interesse deste país é diametralmente do desinteresse de Washington, existe uma questão, em particular, que é muito mais sensível do que as restantes, trata-se da causa palestiniana. Por cada 3 posts de “apoio à palestina” no TikTok, temos apenas 1 no Instagram. Isto diz-nos, na minha opinião, mais sobre os EUA do que sobre a China. Considerando que o governo chinês é conhecido por não se imiscuir nos assuntos internos dos outros países e considerando que mantém importantes relações comerciais com Israel, este desfasamento entre TikTok e Instagram é revelador, acima de tudo, das preocupações dos estados unidos.

E por aqui já temos um breve indício do real motor por detrás desta onda anti-TikTok que se tem observado correr o capitólio. A verdade é que a comunidade judaico-americana tem sido a mais activa no lobbying anti TikTok. Um artigo em  www.jewishreviewofbooks.com , com o título “Israel’s TikTok problem” diz com todas as palavras que “proteger os americanos da influência política do TikTok será um ganho para a relação entre Israel e o seu mais importante aliado”. Palavras para quê?

A grande preocupação é o espaço dado pelo TikTok aos grupos pró-Palestina e com ideias que designam de “antisemitas”, sabendo-se o quão exacerbadas são as sensibilidades antisemitas dos sionistas. O alerta que este artigo dá é extremamente sério, apontando para os graves problemas desta elite com a democracia em si. Para além de referir, como factor negativo, o peso demográfico que países como a Indonésia, Malásia ou Paquistão têm no TikTok, influenciando o algoritmo – esta coisa da democracia tem muito que se lhe diga -, todo o artigo apela à atenção da classe dirigente americana para o facto de estar em causa um confronto geracional entre os jovens e os mais idosos. O que os preocupa mesmo muito é que os mais jovens são amplamente mais “pró-Palestina” do que “pró-Israel”. O culpado? É o TikTok! Porquê? Porque os impede de propagar, com eficácia, a sua propaganda.

Esta realidade é mesmo assumida no artigo, quando critica a administração do TikTok, por não aceitar um anúncio pago que dramatizava a questão do retorno dos cidadãos israelitas sequestrados. Ao mesmo tempo, é o sitio internet www.vox.com quem vem relatar o facto de o ministério dos negócios estrangeiros israelita de gastar 1,5 milhões de dólares em propaganda no Youtube, X e comunicação social dominante sobre a mentira – já confirmada – dos 40 bebés decapitados.

Eis, realmente, o pecado principal do TikTok. Mais do que propagar informação de baixa qualidade ou alinhada com as pretensões chinesas, a plataforma não é controlada aos sabores de Washington ou Telavive.

Como que a dar-me razão relativamente a estas coisas da democracia e dos problemas que a Casa Branca tem com ela – bem reportados no tratamento das eleições russas e nas escolhas do povo russo -, é o americano Pew Research Center que numa análise sobre a importância das redes sociais para a democracia, vem dizer-nos que só em três países, mais de metade da população, diz que as redes sociais são más para a democracia: tal é o caso dos Países Baixos, da França e os Estados Unidos. Sendo caricato que, o país que mais redes sociais tem e que mais as controla – ao contrário do que assume -, é precisamente aquele em que mais pessoas dizem ser as redes sociais uma coisa má para a democracia: no caso, os EUA, com 64% de respostas em sentido negativo. Sintomático, conhecendo-se a exposição à manipulação da Casa Branca. Talvez, os povos americano e europeu, não durmam assim tanto.

O que terá isto a ver com toda a propaganda do “Russiagate”, das “fakenews” anti Trump, ou do recente caso TikTok? A meu ver, tudo!  Trata-se, sobretudo, de um problema em lidar com um facto insofismável: a abertura das redes sociais ao mundo, coloca numa posição desfavorável, do ponto de vista demográfico, as pretensões da casa branca, dissolvendo, numa imensa maioria global, a propaganda que Washington fabrica para denegrir os governos que não lhe obedecem. Como tal, as plataformas que não obedecem aos seus ditames, eliminando os posts ou os usuários que estão em contradição com a propaganda ocidental, têm de ser banidas. O que não faltam são artigos como o da www.nbcnews.com, a referir que “os críticos renovam chamadas para um banimento do TikTok, alegando que tem um desvio anti-israelita”. É todo um modelo unipolar que está em causa.

Assim, o problema dos EUA com o TikTok é simples. O TikTok representa um contraponto digital, ao nível dos contrapontos que já existem no real. O mundo virtual era visto, até há muito pouco tempo, como uma espécie de paraíso celestial – qual jardim do Éden neoliberal – totalmente controlado pela cúpula do poder estado-unidense. Até que, um dia, alguns países começaram a encontrar soluções que favorecessem a criação dos eu próprio ecossistema digital.

A fatídica e estratégica decisão sucedeu com a República Popular da China ao rejeitar um Google e um Facebook “sem travões manuais”, que não funcionassem segundo os trâmites que a Casa Branca havia definido para o seu território, mas segundo os seus próprios. A Huawei, TikTok, Wechat, Aliexpress e outras plataformas digitais de topo, são “filhas” dessa decisão chamada, no ocidente, como a “a grande Firewall da China”. E o mais caricato disto é que a existência da “grande firewall da China” é, sobretudo, responsabilidade da agressiva e intrusiva política externa americana. Se alguma verdade o estudo da Rutgers nos ensina é que a agenda americana anti-chinesa foi responsável, em parte, pelos problemas geracionais que os EUA encontram, hoje, entre a sua população e que respeitam às relações entre o seu território americano e o seu braço no médio-oriente.

E esta leitura pode ser parcialmente confirmada numa poll da Universidade de Quinnipiac de 17 Outubro de 2023, a qual diz que os votantes, com idades entre os 18-34 anos, 39% desaprovam o envio de armas para Israel combater o Hamas, dos 35-49 anos (35%), enquanto os que têm mais do que 50 anos, só 17% desaprovam o envio. Ou seja, verifica-se uma fractura geracional clara (50% de diferença), confirmada no facto de as métricas do TikTok apontarem para uma equidade no número de visualizações, dos últimos 30 dias, relativamente a vídeos com a hashtag “apoio a palestina” e “apoio Israel”. Algo que não sucede nas plataformas de Silicon Valley.

Em resposta à intenção chinesa de não estar dependente de um ecossistema dominado por Washington, choveram ataques. “Na China não há liberdade”; “na China a ditadura é tanta que nem o Google é igual”. Sintomaticamente, quer a China, quer a Rússia, demonstraram, desde cedo, querer desenvolver o seu próprio ambiente digital, antecipando, de forma tão independente como sapiente, os riscos relacionados com o acesso, em larga escala, às mentes dos seus povos. Por portas travessas, a atitude da Casa Branca, dá razão aos dois países. Hoje, é a Casa Branca que quer proteger o seu espaço virtual vital.

Poderia concordar-se, ou não, com as limitações que a RPC, à data, exigiu no motor de busca e cuja renitência em aceitá-las, levou ao bloqueio dessas aplicações. Hoje, percebemos que para a Alphabet e Meta não se tratava de aceitar aplicar “limites”, mas, sim, de quem os definia e mandava aplicá-los. Simplesmente – e paradoxalmente – era ao Tio Sam a quem cabia aplicar limitações, não se reconhecendo ao próprio Estado Chinês o poder de as aplicar em seu território. Inversamente, aplicando-as por cá, mais do que nunca, o Tio Sam acusa a RPC de querer impor uma “autocracia digital”.

Assim, no plano material, com a inauguração do mundo multipolar, a crescente autonomia de nações como o Irão, China, Rússia, India, Brasil, Arábia Saudita, África do Sul, não demorou a que, também no plano do digital, se começasse a fazer sentir a “ameaça” da multipolaridade. Esta imposição da “grande firewall da China” constituiu, na minha opinião, um passo importante neste processo.

O primeiro sintoma deste sucesso foi a Huawei, ao desafiar a ditadura das tecnologias de comunicação, até aí monopolizadas pelos EUA. A Huawei, acima de tudo, significava o acesso às mais avançadas tecnologias do futuro, por parte de um país considerado “menor”, pela elite supremacista anglo-saxónica e seus wannabees. Estancar este desenvolvimento tornou-se uma das principais tarefas dos EUA, do seu empreendimento de “contenção da China”. Um sinal óbvio deste sucesso é que o discurso estado-unidense tem vindo a passar do nível de “contenção da China” para o nível, mais agudo, de “contrariar a China”, o que parece indiciar um reconhecimento do insucesso. Já não se trata de “conter”, mas de contradizer, anular, contra-atacar, “contrariar” o que não foi contido.

Resultado destas escolhas é que, quem ler a proposta H. R. 7521 (Protecting Americans from Foreign Adversary Controlled Applications Act) ou o relatório, que serviu de fundamento à proposta de lei, emitido pelo Comité de Energia e Comércio, pode constatar, pelas próprias palavras dos EUA, aquelas que terão sido as principais preocupações da China, à data da tentativa de entrada, sem limites, do Google e Facebook, no seu território. Todos os riscos que ali se apontam ao TikTok, muitos deles já apontados à Huawei, constituem práticas conhecidas, encetadas pelos EUA, contra os países que não guardam o seu espaço virtual, como deveriam e como exigiria a protecção da sua soberania e os interesses dos seus povos.

Eis o que se diz, logo no início, no relatório do Comité de Energia e Comércio: “adversários estrangeiros usaram o acesso aos dados (…) como disruptor da vida diária dos americanos, conduzem actividades de espionagem e empurram campanhas de desinformação e propaganda na tentativa de minar a nossa democracia e ganhar influência mundial e ao controlo”.

Sintomaticamente, temos de levar muito a sério esta coisa do “controlo” e do “interesse nacional”. De acordo com os dados fornecidos pelo próprio relatório, o TikTok está em 150 países e serve 1 bilião de pessoas, entre as quais, 170 milhões de americanos. E este é um drama real para Washington. Como controlar as mentes de um povo, quando metade segue uma plataforma que não controlam? Como manipular as mentes de 170 milhões de americanos, quando a tecnologia que poderia ser usada para as manipular está na China? Como recolher os dados de 170 milhões de pessoas, agregando-os em perfis e predizendo os seus comportamentos, para que os possam impulsionar nas direcções pretendidas, quando esses dados estão armazenados na China? Se Israel está em perigo, logo, o dólar e a hegemonia também o estão.

Entretanto, o accionar do botão de pânico também está relacionado com o efeito que o TikTok possui enquanto disruptor do ambiente virtual, monopolista, criado em Silycon Valey. A CIA, através da DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), criou todo um ecossistema virtual, transportando para aí cada uma das mentes do seu povo. Esse ecossistema, controlado em todo o ocidente, apenas e tão só, pelas agências de segurança ao serviço de Washington, pretendia um certo grau de invulnerabilidade. Para ser perfeito, o fluxo de dados teria de ser fechado e estanque, para que não houvesse infecção dos algoritmos, e com ela, uma disrupção do funcionamento “harmonioso” do sistema de “capitalismo de vigilância”, como muito bem lhe chamou Shoshana Zuboff.

É este ecossistema, através do qual as agências de segurança dos EUA monitorizam, em tempo real, toda a informação digital dos povos do mundo, prevendo e produzindo comportamentos, promovendo e despromovendo partidos, governos e figuras públicas, acelerando ou atrasando agendas, que está em causa.  Acima de tudo, com o TikTok, a preocupação do regime instalado em Washington ultrapassa os níveis de ansiedade da administração Trump, com a Huawei. Mal ou bem, com a Huawei estavam em causa os aspectos tecnológicos mais estruturais, mais arquitectónicos. Com o TikTok, o que está em causa é o próprio sistema nervoso central da internet. A China passou a ter acesso privilegiado à rede neuronal e ao sistema nervoso central de um corpo, que os EUA haviam criado para dominar o mundo.

Com o monopólio virtual profundamente afectado, no seu próprio território, os EUA optam por dar um tiro no pé, como o fizeram quando decidiram carregar a Rússia de sanções sem fim.  Devido a esta acção sobre o TikTok, os EUA enviam mais um sério aviso aos países que detêm capital e investimentos no ocidente. A qualquer momento, uma alteração legislativa, um pretexto geopolítico, uma falsa denúncia, pode justificar um confisco.

Para posicionar o TikTok na linha de tiro, os EUA voltam a olhar-se ao espelho. No preâmbulo, a proposta de lei H.R. 7521, faz referência à Lei chinesa para a Segurança Nacional, publicada em 2017, fazendo uma clara distorção, quer do seu conteúdo, quer do seu âmbito territorial. Fazendo referência ao que sabemos ser o artigo 7.º dessa lei – através do relatório do comité de energia e comercio –, referem que existe o risco do TikTok ser chamado a partilhar os dados pessoais internacionais com o governo chinês, uma vez que, como alegam, todas as organizações, publicas ou privadas, têm de colaborar com os esforços dos serviços de inteligência chineses. O que é verdade, em parte, pelo menos. O texto do artigo 7.º da Lei de Segurança Nacional da RPC, diz o seguinte: “Todas as organizações e cidadãos apoiarão, auxiliarão e cooperarão com os esforços de inteligência nacional, de acordo com a lei, e protegerão os segredos do trabalho de inteligência nacional de que tenham conhecimento”.

O que o texto da proposta não refere é o que vem no artigo seguinte da Lei de Segurança Nacional da China. Afinal, exige o artigo 8.º da mesma lei “respeitar e proteger os direitos humanos, protegendo os direitos e interesses consagrados aos indivíduos e organizações”. Ou seja, ao contrário do que diz o congresso dos EUA, esse auxílio está condicionado ao cumprimento de lei e dos direitos dos cidadãos e organizações, não se tratando de um poder discricionário, autoritário e autocrático.

Mas, a principal distorção introduzida no relatório do comité de energia e comércio, consiste mesmo na interpretação territorial da Lei Chinesa de segurança nacional. O artigo 7.º da Lei da Segurança Nacional da RPC é para ser lido no quadro da constituição chinesa, ou seja, a cooperação cinge-se a pessoas e organizações de nacionalidade chinesa, relativamente a acções praticadas em território chinês.

E é precisamente na China que a Bytedance mantém a sua base tecnologica fundamental. Essa é mesmo o maior dos obstáculos dos EUA. Ao contrário do que dizem os promotores da proposta que visa “proteger os americanos do adversário estrangeiro – lei de aplicações controladas”, não se trata do receio de que os seus 170 milhões de americanos sejam monitorizados. Afinal, realisticamente, todos sabemos, pela prática e pela teoria, que a China tem uma doutrina de não ingerência nos assuntos internos dos outros países. Por muito que falem da Lei Chinesa de “Protecção de Dados”, de 2020, esgrimindo o argumento de que esta prevê a utilização de dados pessoais e organizacionais para prevenir e antecipar riscos para a segurança nacional, nada disto é inovador nem constitui excepção, nos dias de hoje, em qualquer país que se preze por querer proteger o seu povo. Já monitorizar todo o povo, como fazem os EUA, é totalmente injustificado.

O que realmente preocupa o regime plutocrático e gerontocrático americano, é o monopólio. Um império faz-se de monopólios, e para se ser império não basta ser-se grande, é preciso monopolizar-se. E para construir e manter um império hegemónico, é fundamental monopolizarem-se os sectores estruturais da economia. E este é o problema real. O TikTok, não apenas destrói o monopólio de Silicon Valley, competindo furiosamente com tais plataformas, como lhes rouba o espaço, antes blindado, como acreditava a Casa Branca.

Para proteger o que resta do monopólio, que tal escolher alguém que sentimentalmente se sinta ligado a esse desígnio? A escolha recaiu sobre o ilustre congressista nascido em Nova Deli de descendência indiana, Raja Krishnamoorthi. O certo é que Raja tem tudo a ver com o que seja anti chinês, como por exemplo, as suas responsabilidades no “Comité Selecto da Câmara dos Estados Unidos sobre Competição Estratégica entre os Estados Unidos e o Partido Comunista Chinês”. É óbvia a intenção democrata, uma forma de transformar algo político, num desígnio pessoal, que busque o confronto e a provocação directa.

Assim, assistimos a mais um acto de desespero, cujo efeito resultará no incremento da já instalada desconfiança em relação à seriedade com que o ocidente encara a sua própria ideologia de “mercado livre e aberto”. Na liderança de um sector inaugurado pelos próprios EUA, ultrapassando-os no seu próprio jogo, Titok e China demonstram, assim, que os tempos de exclusividade e acesso restrito ao que de melhor o mundo pode dar, são tempos idos. Tal como a Rússia já havia demonstrado que se tinha acabado o tempo de desmandos à volta do seu território.

Daí que, pensando em impérios e monopólios – a propósito de uma resolução recentemente aprovada no Parlamento Europeu que visa “descolonizar, desimperializar e refederalizar a Rússia” -, esta questão do TikTok, uma vez mais, demonstra a existência de um movimento de desagregação.  O TikTok está para o mundo virtual como os BRICS estão para a desdolarização, no mundo material. Ambos são processos inexoráveis que ameaçam acelerar a “desimperialização” do ocidente.

Esta relação do TikTok com Israel é premonitória. A derrota imposta pelo TikTok à narrativa sionista não deixa de estar relacionada com o papel de Israel na segurança do petrodólar, da hegemonia e da sua derrota pelo mundo multipolar. O TikTok coloca tudo em perigo!

Fonte aqui.


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A Europa corre o perigo de adormecer em paz e acordar em guerra

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 06/03/2024)

Somos governados por uma aristocracia eleita por poderes supranacionais, que usa os estados como territórios expandidos, dos interesses centrais a quem responde.


Europeus, não se admirem se um dia acordarmos ao som de notícias como “a guerra começou”. Este prenúncio é tudo menos fantasioso e é para ser levado muito a sério. Na minha ignorância, julgo mesmo que, na história humana, após a segunda guerra mundial e considerando a experiência da guerra fria, estaremos, talvez, no momento em que o risco de confrontação militar é mais elevado. À falta de uma arquitectura mundial unificadora, de democracias sólidas e de canais de comunicação estáveis e credíveis… Tudo se torna possível.

No quadro de mais uma adaptação da já secular doutrina estratégica “da espada e do escudo”, enunciada, em 1917, pelo General Pershing, quando explicava às suas tropas que não estavam, na Europa, para defender os europeus, mas para defender os americanos, uma vez que os países europeus constituem um escudo e os EUA a espada, ao longo dos últimos 30 anos, a Casa Branca foi construindo uma elite administrativa aristocrática e aristocratizada, a qual responde, em primeiro lugar, aos interesses da “espada” americana.

Em qualquer grupo fechado, a sua coesão interna funda-se em sentimentos de pertença, os quais, neste caso, residem nos valores da exclusividade, individualidade (não é para quem quer) e inacessibilidade (é só para quem pode) ao comum dos mortais. O grande objectivo, e sucesso, da estratégia americana, reside na criação de um sentimento segundo o qual, cada um dos membros do grupo, faz parte de uma estrutura de eleição, à qual só aderem seres muito especiais. Este sentimento é trabalhado a partir de variadas estratégias de comunicação, sugestão e persuasão que visam criar uma identidade de grupo, mesmo quando os respectivos membros partem de países, realidades e áreas educacionais diversas.

Vejamos alguns casos exemplificativos, mas também paradigmáticos. Emanuel Macron, passou pelo Institute d’Etudes Politiques de Paris – IEP, o qual constitui a chancela de confiança, a premissa, segundo a qual, o sistema neoliberal passa a ver, em Macron, alguém preparado para a administrar os seus interesses. Para além do caracter selecto com que esta instituição privada, exclusiva, se apresenta, as convenções que mantém com a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e com a, sempre reputadíssima, London School of Economics, ou o curso de mestrado em inglês para jovens promessas mundiais, representam uma poderosa contribuição deste instituto para a causa monopolista neoliberal. É ali que se criam os fundamentos ideológicos e os ensinamentos propagandísticos que, mais tarde, são enraizados no discurso político.

Para quem tenha dúvidas desta descrição que faço, nomes como Alain Juppé, Lionel Jospin, Dominique de Villepin, Jacqes Chirac, François Hollande e François Miterrand, todos passaram pela escola Sciences Po. do IEP. Podemos mesmo dizer que, estudar no selectíssimo IEP é meio caminho andado para o estrelato mundial e, mais importante ainda, para os afazeres públicos de um dos motores da EU.

Contudo, esta exclusividade não é restrita aos mais elevados representantes da aristocracia ocidental. Mesmo os mais bárbaros e obscuros wannabes são obrigados a apresentar um qualquer tipo de conexão. Tal é o caso de Kaja Kallas, a primeira ministra da Estónia, que se candidata a tudo o que dê tacho e pertence a todos as direcções que a aceitem. Kallas passou pela necessária Estonian Business School, pois as escolas de Business têm aqui um papel fundamental no enquadramento ideológico do eleito, mas, entre muitas outras coisas, Kallas pertence também à organização Global Young Leaders, organização privada relacionada com Universidades como Stanford, da Ivy League, destinando-se essencialmente a formação STEM.

Profundamente ligada aos programas de formação para jovens, seleccionados através das estruturas americanas existentes dentro das universidades e escolas de todo o mundo, aos “sortudos” eleitos dos seus programas, é destinada toda uma panóplia de excepcionais insígnias como “Innovative”, “Business” ou “Leadership”. Em programas que vão desde as escolas do ensino básico à universidade, os “estudantes” aprendem a movimentar-se, desde muito novos, nos meios do poder, desenvolvendo competências ligadas à criação de ONG’s, empresas, partidos, como intervir junto de governos, da ONU e de outras estruturas.

Pense-se assim: numa escola pública que propositadamente não forma os alunos para a vida política, o que constitui um erro crasso em democracia, as mesmas elites que o negam à generalidade da população, preparam os seus rebentos para as sucederem de forma directa – qual monarquia hereditária escondida – nos afazeres dos adultos. Como se costuma dizer, em terra de cegos, quem tem olho é rei. E as elites oligárquicas sabem-no melhor do que ninguém.

Outro caso é o de Rishi Sunak, o Indiano que se sente mais americano que inglês. O que não admira. Em 2006, por exemplo, Sunak requentou um MBA da Universidade de Stanford (quase omnipresente), como bolsista da “Fullbright”. A “Fullbright” é mais um daqueles programas que desenvolve cursos para supostos jovens brilhantes. Lá está, a exploração do individualismo, do egocentrismo, do sentimento de exclusividade, como pilares da construção de um sentimento de pertença, através de reforço positivo enquanto ser excepcional. Todos se sentem excepcionais. Daí a sua arrogância, o seu distanciamento.

Não admira, portanto que a própria Ursula seja tão fervorosamente anti Russa e atlantista. Como não poderia deixar de ser, entre 1992 e 1996 viveu em Stanford (outra vez Stanford), na Califórnia, onde estudou economia. O próprio Donald Tusk, da Polónia, fez parte de uma Associação de Estudantes Independentes, criada em 1980, financiada pelos mesmos de sempre, que visava subverter, a partir da academia o regime – à data socialista – da Polónia. Mais tarde, foram os quadros desta “associação” deveras “independente” que apoiaram, no terreno, a organização da Revolução Laranja na Ucrânia. Ou seja, o que vemos na Ucrânia, hoje, é o resultado de um amplo projecto de separação e submissão da europa aos interesses neoliberais, hegemónicos e imperiais dos EUA.

Este “escudo” europeu, como podemos constatar, é construído por um grupo que funciona quase como uma sociedade secreta, dotado de profunda coesão interna, baseada no sentimento narcisista de eleição, exclusividade e de pertença a um grupo de elite, treinado para liderar, formado para administrar os interesses supranacionais do estado monopolista por excelência, os EUA.

Agora, imaginem-se numa estirpe de gente que, para além de muitos pertencerem às classes mais abastadas ou à aristocracia política, ainda lhes inculcam, através de inúmeros recursos institucionais ao dispor, a ideia de que fazem parte de um grupo restrito, colocado acima do comum dos mortais, destinado a decidir, por conta dos interesses monopolistas que os contratam. Pertencendo a uma elite deste tipo, o comum erro, que normalmente custa a careira, a honra e até a vida, para esta gente não passa de um percalço na ascensão ao topo. Imaginem-se colocados numa posição destas, como se comportariam? Com sentido de responsabilidade? Ou com total sensação de impunidade? Se soubessem que o vosso poder, estatuto e legitimidade emanavam de interesses supranacionais, a quem seria natural demonstrarem a vossa lealdade? Ao povo?

A forma como os EUA, e os interesses monopolistas que compõem o seu sistema de poder, subverteram qualquer ideia de autonomia estratégica à EU, atirando-nos a todos para a uma linha da frente que, não visa proteger os nossos interesses, mas os deles próprios, consistiu na entrega da alta política, não aos mais experientes estadistas, aos mais emergentes líderes de massas, ou aos mais capazes e competentes quadros públicos, mas, ao invés, a uma estirpe espartana socialmente isolada (apenas no modo de organização e não nos costumes), composta por carreiristas, incapazes de distinguir entre interesse público e privado, nacional ou internacional. Para tais seres, os interesses da coisa pública confundem-se com os seus, e os seus, com os dos seus patrocinadores. São uma e a mesma coisa, num ciclo vicioso em que quem ganha e quem perde está, à partida, determinado.

E, se a actuação deste grupo privilegiado, elitista, segregacionista e exclusivista, em matéria de economia europeia, tem os resultados à vista, também no que concerne à política externa, os seus actos demonstram por conta de que projecto as suas lealdades são expressas. Victoria Nuland veio à Europa exigir uma demonstração de apoio e recebeu-a sob a forma de um Macron que, convocando todos os líderes europeus para o Palácio do Eliseu, procurou discutir a possibilidade de enviar tropas europeias para a Ucrânia. Não fosse Robert Fico, que, pelos vistos, não se revê neste selecto grupo de yuppies, e não saberíamos que os líderes em quem é suposto os povos europeus confiarem, discutem, entre si, à porta fechada e nas costas da mesma democracia com que enchem a boca, algo como o rastilho que pode incendiar uma terceira guerra mundial. Ou seja, discutem, entre si, a utilização da Europa como escudo da espada americana, com total desprezo por quem dizem governar.

Coincidência ou não, é também após a visita da incendiária Nuland, que todos tomámos conhecimento de que três militares alemães de alta patente, desejavam preparar um ataque à ponte sob o estreito de Kerch, usando mísseis Taurus fornecidos pelo seu país. Entre todas as formas de manifestação de lealdade, a mais hilariante só poderia vir de Zelensky, quando este, qual Cristo ressuscitador de mortos, conseguiu transformar as centenas de milhares de soldados, que ele próprio enviou para a morte, em apenas 31 mil falecidos. Onde param então mais de 500 mil soldados?

Dizem depois os incautos que, no Ocidente, faltam “estadistas”, o que repetem vezes sem conta sem se dar conta do paradoxo. Para existirem “estadistas” teriam de existir estados. Se, nesta nova construção geográfica que é o “ocidente colectivo”, já não existe a figura do estado-nação, mas, antes, territórios de interesse estratégico, então, no quadro deste modo de organização, o que podemos esperar daqui são missionários e enviados plenipotenciários que servem sobretudo os interesses monopolistas da hegemonia americana. Uma espécie de cônsules de um poder imperial supranacional. Actualmente, qualquer leitura que façamos sobre a realidade política vigente, tem de ter em conta que a Europa, Japão, Coreia do Sul ou Austrália não apenas constituem o “escudo” de defesa dos EUA, mas também o seu “espaço vital”. Um espaço vital que, agregado ao seu próprio, capacita os EUA para uma competição feroz com o eixo Rússia, China e Irão, mais populoso, produtivo e motivado. Já não se trata, apenas, de “manter a Europa dentro” ou a “Alemanha em baixo”, como era pretendido para a missão da NATO, trata-se, sobretudo, de fazer coincidir o território NATO com o território vital dos EUA, o que levanta profundas questões sobre o papel da União Europeia, num quadro deste tipo.

Assim, se a realidade que analisamos não é composta por estados-nação, mas por um espaço comum supranacional, liderado pelos EUA, esperar por “estadistas” não é minimamente realista, pois ao “estadista” preocupa o Estado, enquanto organização colectiva que constitui a cúpula de uma determinada existência sociopolítica. Interessa-lhe a Nação, o povo, a sua economia, as suas tradições e identidade. Será que são estes valores que movem um Emanuel Macron, uma Ursula Von Der Leyen ou um Donald Tusk? Nem a sua actuação e, muito menos, o seu currículo, o indiciam.

Assim, a coberto da impunidade que só um estatuto excepcional, mas sobretudo supranacional, pode trazer, assistimos a uma discussão sobre a oficialização da presença de forças europeias na Ucrânia, nomeadamente as que estão afectas aos “estados” que andam a celebrar, nas costas dos seus povos e sem discussão soberana, acordos bilaterais de segurança, que os podem obrigar a entrar numa guerra, tal como o  Reino Unido inaugurou, como mundial, a segunda guerra, por ter assinado um tratado bilateral de segurança com a Polónia. Se este não é um assunto para ser discutido, profundamente, em democracia, por um povo, então não sei o que será mais importante! Casas de banho mistas? Casamento entre pessoas do mesmo sexo? O retrocesso nas leis do aborto? Sem desprimor por essas questões, claro!

Bem sabemos que, tal discussão, neste preciso momento, resulta de mais uma manobra contingente, que visa impedir aquilo que prometeram, desde o início, nunca ser possível: a vitória russa! Nunca se retractando e provando que a impunidade que sentem tem correspondência no poder que os legitima, a designada “comunicação social” dominante, a tal que deveria informar, escrutinar, questionar, criticar, cala-se bem caladinha e passa a dizer, hoje, o que veementemente, ontem, negava. Como que a provar que, uns e outros, emanam de uma mesma fonte de poder.

O facto é que, por este caminho, amanhã, poderemos acordar com forças da NATO oficialmente estacionadas, ao longo da fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e Bielorússia e, a sul, na região de Odessa, procurando salvar a ligação dos resquícios do país que antes existiu, ao Mar Negro. A partir desse dia, Vladimir Putin, o ministro Shoigu ou Medvedev, já não terão de fazer de conta de que não existem tropas da NATO às portas da Rússia! Elas estarão lá, para todos verem. Nesse dia, saberemos para que ainda servem as bandeiras nacionais dos estados-membros da UE e da NATO. Servem apenas para mascarar a presença da Aliança junto do seu eleito inimigo, ou para transmitir aos povos europeus, enganando-os, de que não será a NATO que lá estará, mas sim, os seus estados. Afirmar a presença da NATO, por um lado, e escondê-la, por outro.

Quando tal suceder, confirmaremos, na prática, tudo o que disse anteriormente: somos governados por uma aristocracia eleita por poderes supranacionais, que usa os estados como territórios expandidos, dos interesses centrais a quem responde, e os conceitos de estado-nação, apenas, para legitimar as acções que visam desenvolver, sob a sua capa.

E só assim será possível adormecermos, uma certa noite, em paz, e, no dia seguinte, acordarmos em guerra!

Fonte aqui.


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