Ser “aliado” dos EUA é assistir calado à sua própria destruição

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/05/2024)

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.


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O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, disse uma vez que a fórmula usada pela União Europeia, para gerir as suas relações com a China, é “impraticável”, “é como conduzir um automóvel para um cruzamento e olhar para o semáforo e ver as luzes amarela, verde e vermelha acesas ao mesmo tempo”. Eu diria mais… Para além da confusão com as indicações fornecidas pelo semáforo, o condutor – apenas para os chineses – ainda tem de ter atenção aos pregos, óleo e buracos na estrada, que podem originar o despiste ou danos na viatura.

E quem provocaria tais perigos no percurso? Face ao desespero dos actores envolvidos e o caracter unidireccional das acções… Consequentemente, o tom exasperado e catastrofista que encontramos na imprensa ocidental, por oposição a um tom mais triunfalista que vigorava ainda há seis meses (nem tanto), diz-nos tudo o que necessitamos de saber. É incrível como as emoções ocidentais andam num alvoroço, passando de um extremo ao outro, em períodos muito curtos. Da vitória certa na Ucrânia contra a Rússia, passa-se para o pânico generalizado, em que Sullivan, Biden, Borrel ou Macron, que ainda em Setembro já se viam banhar-se nas boas águas da Crimeia, agora passaram à certeza de que as tropas russas não pararão no Dniepr e talvez nem no Danúbio, Reno ou Elba.

Durante 2023 todos assistimos à imparável sucessão de previsões de queda da economia chinesa – a russa já estava “em pedações”, lembremos -, para agora surgir o pânico com a inundação de produtos de grande qualidade e a baixos custos, com os quais o ocidente preguiçoso não consegue sequer sonhar competir. Está a acontecer nos automóveis, como nos semicondutores, máquinas agrícolas, descobrindo-se, aos poucos, pelo tom histérico de Janet Yellen e Blinken, que se algo está a cair, esse algo é a hegemonia americana, cujas estratégias de contenção, até agora, apenas resultaram em adversários ainda mais fortes e capazes. Afinal, é o trabalho duro que molda o carácter. A elite capitalista rentista do ocidente está demasiado habituada ao dinheiro fácil dos royalties, para conseguir competir com aqueles que nunca abandonaram a indústria, a agricultura e as actividades realmente produtivas.

O facto é que, no Washington Post, David Ignatius, investigador ligado ao maior Think Thank do Estados Unidos, partindo de um trabalho da própria Rand Corporation, diz que os analistas referem que os os EUA estão a entrar num declive do qual poucas potências recuperaram; é também a RAND que nos fornece um artigo intitulado “a rivalidade EUA e China numa nova idade média”, apontando para a necessidade de que os decisores têm de desenvolver uma mentalidade neomedieval, nomeadamente, tendo de fazer a guerra sabendo que o “público” não a quer; Borrel diz que os EUA já não são hegemónicos e que a China já se tornou uma superpotência, algo que Brezinsky prometera que nunca mais aconteceria; ou, ainda, os dados estatísticos da economia norte americana, dizem que cresceu apenas 1.6%, no primeiro trimestre de 2024, o que mostra um abrandamento em relação ao previsto. Um grande abrandamento, considerando os 2.7% que são previstos pelas cadeias de transmissão dos EUA, como o FMI.

Curiosamente é da própria RAND que vêm os conselhos mais avisados. No seu estudo “The Fates of Nations” (os destinos das nações), sugerem-se duas reflexões que, considerando o teor e a actualidade, não têm outro destino que não o poder político sedeado em Washington: 1. Quando as nações estão entre uma vitória na guerra ou o colapso nacional (entre a espada e a parede, digo eu), a imposição punitiva e coerciva das condições não constitui um caminho adequado para o sucesso nas rivalidades; 2. A excessiva ambição e abrangência estratégica sobredimensionada contribui para muitos tipos de falhanços.

Estas reflexões são o retrato actual dos EUA: querendo estender-se a todo o lado, começam a abrir fendas no centro, pois quanto maior a extensão da superfície, menor a espessura da cobertura; tomar posições de força em todas as situações – ameaçando todos os contendores com sanções – provoca a fuga e a aversão dos envolvidos e dos que possam vir a estar no alvo dessas acções. Se a isto somarmos o facto de, segundo diversas fontes, a equipa de assessores de Trump lhe ter proposto a aplicação de penalizações aos países que quiserem reduzir a dependência do dólar, já se vê que 2024 vai ser um ano terrível para a maior moeda de reserva mundial. Para já, o ouro nunca esteve tão alto e quase 1/3 do petróleo transaccionado em 2023 foi em outras moedas que não o dólar. Se eu fosse presidente de um qualquer país, tudo faria para reduzir a dependência até à tomada de posse de Trump, considerando que as perspectivas de reeleição de Biden não são as mais entusiásticas.

Perante esta realidade, o que faz Washington? Não conseguindo situar-se neste mundo multipolar em construção e não conseguindo adoptar uma abordagem cooperativa e respeitadora dos outros estados, preferindo focar-se “numa competição de grandes superpotências”, em sentido contrário ao que propõe, por exemplo, a Carnegie Endowment for Internacional Peace, no seu relatório “The United States Policy Challenge”, a administração chefiada por Biden opera como se ainda tivesse todo o poder do seu lado e, faltando-lhe a força com que normalmente contava, adopta a postura da sabotagem, da disrupção e da provocação de instabilidade no “ambiente de negócios” dos seus próprios “aliados”, nomeadamente quando estes se encontram entre a China e as necessidades de “segurança nacional” dos EUA.

Se, no México, terão sido veiculadas ameaças – ninguém as confirmou – contra o governo de López Obrador, caso este persista na intenção de permitir a instalação de fábricas da BYD, para que estas possam utilizar a isenção de taxas aduaneiras aplicável ao acordo de livre comércio USMCA. São os próprios EUA a desdizer, unilateralmente, que as regras acordadas entre três países, afinal deixam de valer para o México, sem que este, supostamente parte no acordo, tenha uma palavra a dizer. Se esta situação não é demonstrativa de quem manda, realmente, quando algum país assina um “acordo” com os EUA…

Este processo de disrupção, que visa tornar impossível a instalação de empresas chinesas, é levado tão a sério, que até um país como Portugal pode ser apanhado na rede e ver a sua economia profundamente afectada com a intervenção e ingerência norte-americanas.

Vejamos o caso da petrolífera GALP, empresa privatizada e com 51% do capital detido por “investidores institucionais” estado-unidenses. Primeiro, assistimos às notícias de que o 8.º maior poço de petróleo do mundo, situado na áfrica oriental, mais concretamente na costa da Namíbia, tinha sido concessionado “a Portugal”. Concretamente, o poço de petróleo havia sido concessionado, não “a Portugal”, mas à GALP, teria sido “a Portugal”, se a empresa ainda fosse pública (apenas 8% o são). A empresa é gerida por uma família oligarca portuguesa, cuja Holding “Amorim Energia”, que detém 35,8 % do capital, está sedeada nos Países Baixos.

Convém dizer que mais correcto seria dizer que, 80% da exploração, do 8.º maior poço de petróleo do mundo, foi concessionada, não “a Portugal”, mas “aos Países Baixos”. E, embora a família Amorim tenha a gestão da empresa, o capital é detido por uma esmagadora maioria de capital Norte-Americano, Inglês e Canadiano (75,2% ao todo). Já se viu quem realmente manda.

Esta mesma GALP, cujo programa de transição para as energias e sectores sustentáveis, previa um afastamento progressivo dos combustíveis fósseis, veio agora comunicar que abandonou a proposta de instalação de uma refinaria de lítio, no sul de Portugal. A GALP, uma empresa privada que prossegue o lucro, prescinde de um negócio de refinação e lítio, em grande parte financiado por fundos europeus e portugueses e com mercado garantido?

Não esqueçamos que o objectivo final seria, com dinheiro dos contribuintes, garantir à GALP a entrada em um sector estratégico do ponto de vista das indústrias “sustentáveis”, e com rentabilidade garantida, pois o lítio seria explorado também em Portugal, refinado em Portugal e instalado em baterias, em Portugal. Negócio extremamente lucrativo garantido e com desenvolvimento de importante know-how. Explica-se, assim, porque razão a GALP acedeu ao 8.º maior poço do mundo e porque razão veio agora dizer que, afinal, os objectivos de descarbonização vão ter de ser adiados. O que esta gente se preocupa com “as alterações climáticas”!

Para Portugal, este projecto era fundamental, pois fecharia o ciclo de produção e veículos eléctricos dentro de fronteiras. Da mineração do lítio à produção e carros eléctricos, tudo se faria em Portugal. Contudo, havia um senão, neste projecto ambicioso. Este projecto que se constitui como um dos mais importantes a financiar no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia para o país, assentava a produção de baterias através da instalação de uma fábrica da chinesa CALB, a qual já está aprovada pelo anterior governo, o qual sofreu, curiosamente, um golpe judicial de “lawfare”, após o qual foi eleito um outro governo, supostamente com ideias diferentes, nesta matéria. O futuro nos dirá se diferem, ou se o dinheiro acabará por falar mais alto.

Uma vez mais, teremos de voltar a ouvir o que disse o embaixador dos EUA, em Portugal, a respeito dos negócios relativamente aos quais, Washington, não veria com bons olhos a entrada da China. Não ver com bons olhos é um eufemismo, como se sabe. Lítio, dados pessoais, portos e 5G.

Foi assim que um pequeno país, como Portugal, foi apanhado no meio de uma tectónica disputa entre superpotências, em que a, ainda, potência hegemónica, desenvolve um processo de destruição do “ambiente de negócios” aplicável à concorrente. Como sabemos, a história não reza grande coisa sobre aqueles que estão sempre à defesa, e assim se foram fechando cada vez mais. Mas isso são outras contas.

Este exemplo integra em si toda a complexidade, falácia e agressividade da estratégia do “decoupling”, a qual quando traduzida por Ursula von der Leyen para a “língua da EU”, passou para “derisking”. Também demonstra como, na EU, quem manda são os EUA e como estar, hoje, ancorado à União Europeia, e a tudo o que ela representa, constitui, de facto, um grave travão ao desenvolvimento. Portugal, tal como o México, tal como a Alemanha, Espanha, França e toda a Europa, vêem encerrados, boicotados e destruídos projectos de investimento, que poderiam manter a Europa industrializada. Só porque são projectados com companhias chinesas.

Talvez, nem assim a chinesa CALB desista da sua fábrica em Portugal. Contudo, esta previsível ingerência estrangeira, não deixará de diminuir as expectativas de rentabilidade futura da empresa e, sobretudo, de criar um travão à sua competitividade por melhores preços. Sintomaticamente, esta continuada sabotagem da economia europeia e dos “países aliados”, assenta sobretudo em tecnologias que os EUA pretendem dominar. Neste quadro, saber que a Wolkswagen fez um acordo com a chinesa Xpeng, e que em Portugal também se situa uma fábrica da marca alemã. Não deixamos de sentir aqui um cheirinho à já tradicional perseguição, pelos EUA, à economia alemã, a qual sofreu um duro revés com a destruição e encerramento do Nord Stream e do que dele restou. Tudo se volta a interligar.

O que este caso comprova é que, hoje, no ocidente e em especial em territórios de alguma forma controlados pelos tentáculos do poder monopolista estado-unidense (o caso português comprova a importância do caracter público de empresas como a GALP), estão limitados aos negócios que estes não consigam ou não queira sabotar ou destruir.

Se são os próprios Think Thank e institutos de investigação a sugerirem à elite política norte-americana que a melhor abordagem seria a da cooperação, respeito pelas soberanias alheias e, sobretudo, não tentar chegar a todo o lado, não é por falta de conhecimento fundamentado que estas elites se comportam de forma selvática. O seu objectivo muito claro e que consiste em criar um ambiente de tal forma inseguro, imprevisível e errático para as empresas chinesas, que sejam estas a abandonar a pretensão de se instalarem e de comerciarem com a europa e américa latina, sem que possa dizer-se que foram os próprios EUA a sabotarem o desenvolvimento económico de países que dizem ser aliados.

Os meios usados vão desde a alteração unilateral de regras, das suas próprias regras, à promoção de agendas como o “decoupling” ou o “derisking”, ou, ainda, se necessário for, e como comprova o Nord Stream, proceder à destruição directa das infraestruturas de apoio, subversão das democracias através da organização de golpes judiciais e revoluções coloridas, ameaça com sanções e outras penalizações. Em último caso, até uma guerra se promove, comos e faz na Ucrânia e se tenta agora em Taiwan.

E é assim se desdiz tudo o que antes se havia dito, sobre os mercados abertos que se fecham quando em desvantagem ou se abrem quando existe a garantia de que apenas o poder hegemónico os ganha; as agendas climáticas que são prioritárias mas que são logo abandonadas quando os ciclos de acumulação definidos estão em causa; o respeito pelas soberanias dos outros países que são protegidas quando está em causa a aproximação aos rivais e são desprotegidas quando se trata de defender o domínio dos EUA.

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.

Ser “aliado” dos EUA não garante imunidade contra a ingerência, subversão e sabotagem económicas, muito pelo contrário. Garante que esta ingerência é feita mais facilmente, pois as defesas tradicionais que resultam da soberania nacional não existem. Ser amigo dos EUA é, hoje, assistir à sua própria destruição e ficar calado. Com amigos destes… Quem precisa de inimigos?

Fonte aqui.


Austeridade na UE: não há medida europeia que não sirva na forma americana

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 26/04/2024)

Quando mais a Europa precisava de investimento, mais se garante que não o faz, demonstrando que não há medida europeia que não caiba na forma americana.


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Uma vez mais, a burocracia europeia dá razão ao ditado popular que diz “o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita”. É o caso da União Europeia, construída como resposta política em reacção a uma realidade que já não se verifica – a existência do bloco socialista – e que, quando confrontada com a inexistência da sua força vital, enveredou num errático processo de alargamento, que visou sobretudo provocar a Rússia, criar condições para a expansão da OTAN e dar resposta à necessidade crescente que os monopólios têm de novos mercados e de novas fontes de mão de obra qualificada e barata, como sucede no leste europeu.

Neste quadro e dando resposta às necessidades destes últimos, a EU volta a reeditar uma receita já amplamente conhecida pelos povos do sul. Se é amplo o reconhecimento, e a constatação, de que os critérios orçamentais, constantes do Pacto de Estabilidade e Crescimento, constituem um garrote ao investimento público e são responsáveis pela visão de curto prazo que deixou os estados membros reféns do autoritarismo financeiro de Bruxelas; num período em que o bloco europeu perde cada vez mais espaço para as economias com que tem de competir, o poder supranacional não eleito da EU vem novamente propor, desta vez a todos os europeus, algo para o que nenhum desses povos algum dia votaria: austeridade para os próximos 4 anos (pelo menos).

O que surge no horizonte, sem uma discussão nacional profunda, depois de aprovado do Conselho e no Parlamento Europeu, é um pacote de austeridade global, à escala europeia, aplicável à quase totalidade dos países da União, a que se deu o nome pomposo de “Novo Enquadramento para a governação Económica” e que se baseia em instrumentos como a “Análise da Sustentabilidade da Dívida” e “Planos Fiscais Específicos” por estado membro, que serão desenvolvidos no quadro de um período de ajustamento de 4 anos, que pode ser estendido até 7. Se o Pacto de Estabilidade deixava a maioria dos países de fora do garrote da austeridade, a EU tinha de conseguir colocá-los dentro e tentar apagar, no futuro, qualquer memória de que um dia existiu um modelo de estado social a funcionar com sucesso.

É razão para dizermos que “vem mesmo a calhar”! Numa altura em que se deveria investir de forma absolutamente decisiva na industrialização, inovação e conquista de um lugar no topo das tecnologias do futuro, como faz a China, Rússia e para o que se endividam, de forma brutal, os EUA, o que decidem os contabilistas de Bruxelas fazer? Adiar a corrida, colocando em causa as metas que eles próprios definiram para 2030 e 2050.

Uma vez mais se reedita a história dos países bem-comportados e poupadinhos, contra os que não se sabem governar. Mas, desta feita, com excepção de 5 países (Chipre, Suécia, Estónia, Dinamarca e Irlanda), todos os outros terão de apertar o cinto e já no primeiro ano de ajustamento devem cortar 100 mil milhões nos orçamentos públicos. Nem de propósito, 100 mil milhões será, mais ou menos, o que até hoje a EU ofereceu ao regime de Kiev (em Janeiro de 2024 era 85 mil milhões de Euros de acordo com o Kiel Institute). E nenhum dos ilustres premiados é importante para o financiamento do orçamento plurianual europeu. Cirúrgico!

Partindo do princípio de que esta destruição económica em massa é a continuação de um processo começado com o subprime, a partir do qual as economias europeias tiveram de pagar pelos prejuízos dos bancos americanos, continuando com o conflito NATO/Rússia em terras da Ucrânia, que não apenas privou os países europeus de importantes factores de produção, a preço baixo e qualidade e quantidade garantidas… Como deveria a União Europeia agir, principalmente sabendo que, nos EUA de Biden, segue a bom ritmo a execução da legislação de redução da inflação, que aposta num vasto programa de investimento em áreas tecnológicas fundamentais como os veículos eléctricos, baterias de lítio, painéis fotovoltaicos e semicondutores?

Como deveriam agir os dirigentes políticos europeus se olham para a China e vêem investimento massivo em industrias chave, principalmente reconvertendo a economia de industrias de baixo valor, para as de alto valor acrescentado; se olham para os EUA e constatam o mesmo tipo de investimento, com total desprezo pelos níveis de endividamento público, que já passaram os 133% do PIB; se olham para a Rússia, India e constatam um esforço desesperado por recuperar terreno perdido e passarem também a entrar nas economias desenvolvidas… O que era expectável que fizessem, se estivessem preocupados, como dizem, quando andam na caça ao voto, com a saúde, educação, habitação, transição digital e descarbonização? Apostariam em mais austeridade económica?

É incrível como as decisões tomadas ao nível dos órgãos da EU, seja pela burocrática comissão europeia, pelo Conselho Europeu ou pelo Parlamento Europeu, se alinham profundamente com as necessidades dos EUA, num caminho de crescente apropriação de mercados, que parece não ter fim. Se os EUA poderiam ter tudo a ganhar com o conflito Ucraniano, a Europa tinha tudo a perder, e o que fez a autocracia europeia? Atirou-se de cabeça e hipotecou o nosso futuro todo!

Se este conflito, para os EUA, significou mais armas vendidas, terras e propriedades ucranianas apropriadas pelos monopólios, a viabilização da indústria de gás de xisto e “bons empregos para os trabalhadores americanos”, como diz Blinken, para a Europa só resultou prejuízo, bem repercutido no afundamento do motor económico alemão, cujas empresas fogem agora para os EUA e China. Tudo sob uma capa de segurança contra o maléfico governo russo ou sob uma capa de “sustentabilidade e crescimento” como agora com o pacote de austeridade aprovado. Na EU, o nível de propaganda é absolutamente proporcional aos danos causados pelas suas políticas.

Depois disto tudo, o que necessitariam agora, os EUA, uma vez que já controlam totalmente o acesso ao mercado europeu e conseguiram atrair a maioria dos acéfalos dirigentes nacionais para o “derisking” da China e para o “decoupling” da Rússia? O que interessaria mais aos EUA não seria nada mais do que a EU prescindir de apoiar a economia com fundos públicos, desistir dos objectivos de descarbonização e com isso, prescindir do desenvolvimento das tecnologias digitais e ecológicas, que pudessem competir com as norte americanas, nos mercados europeus e internacionais. Se aos EUA tanto chateia a competição férrea da China, nada mais útil que afastar outro competidor, ainda por cima sentindo-se ele contente por fazê-lo.

É importante dizer que talvez nem os próprios EUA esperassem tanto.  De uma assentada é a própria EU que desarma os estados membros da arma do investimento público, o que já estava em causa com o Pacto de Estabilidade e Crescimento (que apenas fez emagrecer os estados europeus) e agora foi incrementado com o novo enquadramento para a governação económica da EU. Mas não se ficaram por aqui. Como muito bem-comportada que é, a tecnocracia europeia aprovou fórmulas de cálculo que, sobretudo, desarmam os países que constituem o motor económico “construção europeia”. Assim, de acordo com as regras estabelecidas neste novo plano de ajustamento fiscal, a França, Itália, Alemanha, Bélgica e Países Baixos têm de realizar os maiores cortes orçamentais, de entre 6 a 26 mil milhões de euros anuais. Ou seja, os países que mais contribuem para o PIB e orçamento plurianual da EU, são, precisamente, os que mais vão cortar.  Melhor era impossível.

Quem tem puxado mais por isto é o inevitável Ministro das Finanças alemão, Christian Linder, liberal, como não poderia deixar de ser. Há quem diga que se trata daquele trauma alemão da inflação da primeira grande guerra, mas não se deixem enganar. A Alemanha é um país totalmente ocupado e é hoje uma nação desconstruída, sem vontade própria e totalmente alinhada com as estratégias de Washington. Basta dizer que o seu chanceler assiste à destruição da fonte de alimentação a sua indústria – o Nord Stream – e fica calado. Ou o que dizer da sua tarefa de moço de recados aquando da viagem à China? Dizer que, no aeroporto, nem recebido foi por uma alta figura do estado Chinês, bem reflecte a sua falta de importância e o que os chineses pensam hoje da classe política da – ainda – maior potência europeia.

A verdade é que, com o novo quadro de governação económica, a maioria dos estados-membros serão obrigados a implementar cortes orçamentais massivos. As dívidas terão de ser reduzidas anualmente em 1% do PIB para os países com dívida elevada (acima de 90 por cento da dívida/PIB) e 0,5% para os países com dívida média (60-90 por cento). O limite de 3% do défice previsto nos tratados é complementado pela salvaguarda de resiliência ao défice defendida pela Alemanha, ou seja, por Christian Linder, o que significa que os países terão de continuar a reduzir os seus défices estruturais até que estes fiquem abaixo de 1,5 por cento do PIB. Já não bastava o garrote dos 3%, agora aperta-se ainda mais. Tudo porque o Sr. Linder, que é formado em Ciência Política, mas arvorado em economista, diz que “o dinheiro emprestado não pode gerar crescimento a longo prazo”, o que é tecnicamente incorrecto.

Se o Sr. Linder tivesse razão, nenhuma empresa, família ou organização se endividava para investir. Aliás, esse é o segredo da banca capitalista. Receber os depósitos de quem poupa, para emprestar a quem precisa para investir.

Mas existe uma última prova de que estas políticas, financeiramente autoritárias, não funcionam, nem economicamente sequer.  As regras orçamentais europeias que até aqui vigoraram e presidiram à crise do euro, foram incapazes de reduzir a dívida dos Estados-membros, apenas contribuindo para diminuir os gastos do governo e, em resultado, fazer a procura interna cair, a produção económica diminuir e, como se vê, aumentar a dívida pública. Aquela que agora se quer reduzir, outra vez, da mesma forma, usando o mesmo método.

Em resultado desta política e dos problemas sociais criados e não resolvidos, voltámos a conviver novamente com a extrema direita e o fascismo nos nossos parlamentos, na comunicação social dominante, nas fake-news, nas redes sociais. O discurso anticientífico voltou, mas mascarado de pseudociência, como agora vemos explanado neste novo ajuste fiscal promovido pela EU, a ser aplicado no pior dos momentos possíveis.

Veja-se então como funcionam estas cabeças pensadoras: se o garrote dos 3% não funcionou, destruiu valor, contraiu a economia europeia e criou problemas sociais, a partir dos quais trepou o reaccionarismo e o fascismo, o que fazem eles? Aplicam o garrote ainda com mais força! Alguém compreende uma coisa destas? Se na primeira ronda o doente ficou moribundo, nesta deve morrer de vez. É uma espécie de versão “Big Brother” à escala europeia do livro – excelente – de Michael Hudson “Killing The Host – how financial parasites and debt bondage destroy the global economy” (Matando o hóspede – como os parasitas financeiros e a sua violência da dívida destroem a economia global).

São, assim, vários os ensinamentos que podemos retirar desta loucura toda:

  • O que está a acontecer à Argentina com Milei (o que aconteceu ao Chile de Pinochet), que aumentou a pobreza acima dos 50%, mantém a inflação altíssima e apenas deu a ganhar aos mais ricos, tem mais admiradores na Europa do que o que alguns querem admitir;
  • Hoje, os partidos do arco do poder europeísta, são os partidos da submissão e, no essencial, não divergem uns dos outros (tirando os deputados do grupo “A Esquerda” e os “Verdes”, todos os restantes principais grupos votaram a favor deste desastre);
  • A política económica europeia é actualmente uma extensão da política económica norte americana, mas não numa perspectiva construtiva, e sim numa perspectiva destrutiva, para deixar espaço a ser preenchido pelos primeiros;
  • Os resultados sociais, ambientais, políticos destas políticas financeiras autoritárias impedem os estados membros de desenvolverem as suas condições de vida e de trabalho, ameaçando de forma crescente o estado social e o modo de vida que ainda resta;
  • Face aos resultados conhecidos destas políticas, insistir no seu aprofundamento, implica estar de acordo com o resultado que têm, independentemente do discurso que se possa depois assumir;
  • Uma vez mais a União Europeia surge como refém dos conglomerados financeiros globalistas e norte americanos, que fazem da agiotagem dos estados uma das suas estratégias preferenciais de acumulação, demonstrando que não é a dimensão europeia que nos salva deste sequestro, mas a vontade política que não existe;
  • Prova-se também que a União Europeia é mais uma âncora que hoje obstaculiza o desenvolvimento dos estados, do que um impulsionador do seu desenvolvimento.

Esta receita profundamente danosa, experimentada casuisticamente durante a crise do sub-prime, passa agora da sua fase casuística, pontual, onde foi experimentada e aperfeiçoada, para a sua fase de aplicação global, passando a política oficial da EU. Se na primeira fase eram os próprios estados membros e os respectivos governos que ficaram com a culpa, enquanto maus gestores e gastadores, o que representou um efeito nefasto na qualidade das democracias ocidentais, desta feita, a culpa será atirada para as “regras europeias” o que agravará a sensação de impotência dos povos e com ela a frustração. Desta frustração tenderá a alimentar-se, em primeiro lugar, a demagogia neofascista.

Este efeito é inegável e é resultado dos vários choques que a EU recebeu e dos efeitos que tais choques tiveram na degradação das condições de vida dos povos. O facto é que quando olhamos para as previsões de crescimento do próprio FMI, de todo o ocidente, a EU é a que menos cresce (com previsões de 0,8% para 2024 e 1,2% para 2025). Rússia, EUA e especialmente China e India, crescem mais, muito mais.

Se a história nos diz que o “estado mínimo”, a contracção, a austeridade, impedem o crescimento, o desenvolvimento, tendo apenas como único efeito a aceleração da concentração a riqueza no topo, não existe nenhum argumento que possa ser jogado a favor deste plano de austeridade. Gerir em função das possibilidades apenas, leva-nos ao encolhimento, à cobardia, à pequenez. A gestão em função das necessidades faz-nos crescer, arriscar e ir mais longe. Essa coragem, essa visão, não existe hoje na política dos estados membros e, muito menos, ao nível europeu.

É fácil cortar e deixar cair, o que é difícil é fazer crescer, quando tudo levaria a crer que apenas se poderia cortar. Hoje, na EU, corta-se a direito. Quando mais a Europa precisava de investimento, mais se garante que não o faz, demonstrando que não há medida europeia que não caiba na forma americana.

Fonte aqui.


Os ataques “kalibrados” contra o neocolonialismo

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 17/04/2024)

Se há coisa que o ocidente monopolista não entende é como unir coisas que são diferentes, como aceitar as diferenças alheias, como criar uma força comum entre diferentes, unidos apenas por um sentimento, a liberdade.


Pouco tempo depois da resposta Iraniana ao ataque sionista, que destruiu o seu consulado na Síria, vitimando mortalmente o Comandante sénior Mohammad Reza Zahedi, eis que é a própria Casa Branca, e Biden, a puxar as rédeas de Netanyahu e transmitir ao mundo que a acção foi devidamente “calibrada”. Isto, depois das autoridades sionistas cuspirem fogo, ameaçando com apocalípticas consequências, contra o renascido potentado persa.

Esta “calibragem” no discurso de Washington é a consequência óbvia do que se havia passado antes da retaliação Iraniana; nas 48 horas que a antecederam foram vários os estafetas europeus a pedirem “contenção” ao Irão, alertando para as consequências gravosas que essa falta de “contenção” poderia despoletar. Os sinais de preocupação eram tão evidentes quanto o tinham sido, até aí, o branqueamento e legitimação, da acção provocadora de Israel, face aos seus vizinhos da região.

Quem não esteve, contudo, com meias medidas foi Ursula von der Leyen. Em mais um show de hipocrisia de proporções bíblicas, esta senhora veio ameaçar com a única resposta que conhece: pacotes de sanções contra o Irão, por ter desenvolvido um “ataque não provocado”. Também Macron não poderia ficar para trás e veio dizer que é preciso continuar a “isolar o Irão” com as sanções do costume.

Se algo há a retirar deste comportamento é mesmo este facto: Úrsula Von Der Leyen e os Macrons deste mundo vivem numa realidade que já não existe, na qual o ocidente “racial, moral e intelectualmente superior” tinha a legitimidade para punir, perseguir, invadir, ameaçar e destruir todos os que se lhe opunham. Mas se, na sua odiosa cegueira, ainda não o constataram, não se pode dizer o mesmo de quem neles manda. O mundo mudou e está em processo de acelerada transformação.

A impunidade acabou quando a Federação Russa disse não aceitar a ultrapassagem da linha vermelha que havia imposto e que determinava a neutralidade da Ucrânia; o mundo mudou quando Irão, Hezbollah, Huthis e Hamas declararam não aceitar mais os abusos sionistas, contra as suas populações e seus aliados; o mundo mudou quando a China não desistiu da Rússia e Irão, demonstrando que o mundo multipolar estava para ficar. Para destruir um, terão de os destruir aos três. Todos interligados por alargadas parcerias estratégicas.

Consequentemente, a resposta do Irão tratou de sinalizar que o país está preparado para dar uma resposta decisiva, no que considera constituir uma escalada de abusos crescentes, por parte do sionismo e seus apoiantes, e que não continuará a tolerar o desrespeito genocida, por parte da entidade sionista que controla e se confunde com Israel.

Este comportamento por parte do Irão, antes impensável e intolerável pela “comunidade internacional”, encontra agora um espaço de legitimidade absolutamente revelador de como mudou o mundo, nestes anos de crescimento da multipolaridade. Nem as sanções têm já o mesmo peso, tendo o Irão – tal como a Rússia, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Nicarágua – aprendido a ser auto-suficiente, transformando a agressão em força de oposição; nem o ocidente domina já o sul global com a força que estava acostumado a fazê-lo; nem os EUA, e o seu espaço vital, constituem ainda aquela potência militar de que todos tinham medo.

Hoje, potências como o Irão podem dar-se ao luxo de aumentar a parada e encurralar o arrogante ocidente. O mais interessante é que, do ponto de vista estratégico, os EUA haviam apostado numa profusão de provocações múltiplas, cada vez mais alargadas e que visavam escaladas militares localizadas, as quais tinham como função conter a expansão dos países que constituem os pilares centrais desta libertação do sul global: Rússia, China e Irão.

Resultando na expansão continuada do mundo multipolar, do desenvolvimento do “sul global”, que mais não é do que a “maioria global”; acompanhada da perda, pelo ocidente, de posições estratégicas que ditam o acesso às reservas estratégicas de mão de obra da Ásia e África; às reservas de commodities na Rússia, Médio Oriente, América Latina e África; ou, à capacidade industrial instalada da Ásia; a tríplice entente multipolar que dirige o processo anti-imperialista, através dos seus ataques “calibrados”, está provocar uma corrosão progressiva da entidade imperialista, anunciando-se, algures no tempo, o seu colapso.

E este constitui o grande mérito destes três países e dos seus aliados, a Africa do Sul, mais convicta, a India e o Brasil, mais periclitantes, a que se juntaram agora outros cinco países, e que, em breve, se juntarão muitos outros, entre os quais o próprio Vietname, o qual já oficializou a sua intenção de aderir aos BRICS. Estes países têm tido a paciência, a sabedoria e a competência para agir de forma tão concertada quanto possível, mas também de forma tão desconcentrada quanto necessário, sem se deixarem enredar em insanáveis contradições internas que os exponham à máquina de destruir nações que são os EUA. Deste modo, a expansão desconcentrada coloca problemas extremamente difíceis de ultrapassar, a quem pretende destruir este processo de expansão, que é também um processo de libertação do neocolonialismo.

Não se pode dizer, contudo, que estamos num momento histórico totalmente original. Com efeito, é bom recordarmos as palavras de Zbigniew Brzezinsky, ao Nouvelle Observateur, em 1998, aquando, numa entrevista, este reconheceu que, não só os EUA, conscientemente, haviam contribuído para a invasão do Afeganistão, pela URSS, como se regozijou – como gostam de fazer os arrogantes supremacistas -, pelo facto de, mesmo com um milhão de mortos, ter valido a pena o apoio aos Mujahidine (Talibãs), o qual sabiam, antecipadamente, ser visto por Moscovo, como algo de intolerável nas suas fronteiras e que não deixaria de provocar uma guerra.

Num processo com semelhanças ao que se passou na Ucrânia – formação de uma elite dirigente profundamente anti-Russa (ou anti-URSS) praticante de uma ideologia odiosa e extremista -, o mais importante que Brzezinsky disse, contudo, foi que os EUA, estando ideologicamente na defensiva, com a agenda dos direitos humanos foi possível virar a maré e colocar a URSS na defensiva. Hoje, a ideia de um mundo multipolar recolocou o Sul Global, como um todo, numa posição ideológica ofensiva e, ao mesmo tempo, os EUA voltaram a encontrar-se na defensiva. E desta feita, bem que podem vir com a agenda dos direitos humanos outra vez, que já ninguém acredita neles.

Deste posicionamento podemos retirar um ensinamento valioso para os nossos dias: por muito agressivos, arrogantes e beligerantes que pareçam, os EUA – incluindo Israel – foram novamente colocados numa posição defensiva. Tudo o que fazem, acontece como resposta a uma realidade em que o mundo multipolar se continua a expandir e o ocidente “alargado” a contrair. Por muitos “alargamentos” que a OTAN possa propagandear, o espaço vital dos monopólios ocidentais, que constituem as raízes do imperialismo, tem vindo progressivamente a diminuir. Este é um facto indesmentível e só um endividamento brutal da Casa Branca faz como que a economia dos EUA continue, artificialmente, a crescer e com ela, a alimentar o processo de “contenção” do crescimento do mundo multipolar.

O que é impossível de esconder é que o problema dos EUA, desta feita, é mais complicado. Não será tão fácil passar “à ofensiva” como o foi com a URSS. Embora a URSS constituísse um desafio formidável e que a elite dirigente, em Washington, logo identificou como sendo algo de vida ou de morte, o facto de a potência soviética ser, à data, o único pilar em que assentava o desafio, facilitava as coisas. Era muito fácil partir o mundo em dois e diabolizar a outra parte. Ao contrário de hoje, a URSS não se podia suportar na China.

Já o desafio que é imposto através da China, Rússia e Irão, secundados pela India, África do Sul, Brasil e muito outros, é muito mais complexo e deslocalizado. Em primeiro lugar, não se trata de um bloco monolítico com uma mesma ideologia. Tratam-se de países com sistemas de governação muito diferentes, desde os mais liberais, como Brasil e África do Sul, aos socialistas como a China ou os nacionais desenvolvimentistas como a Rússia, ou mesmo o Irão, associando-lhe ainda a sua dimensão teocrática e democrática. Do ponto de vista da propaganda, isto coloca muitas dificuldades, daí que, nos últimos meses tenhamos assistido a um crescente desenvolver de uma linha de propaganda, segundo a qual a China tem interesse na vitória de Trump – ele que a quer destruir – e que é a extrema direita europeia quem apoia a China e é por esta apoiada. É uma espécie de “Rússiagate”, desta feita em versão chinesa. Enfiar uma mesma carapuça a todos e diaboliza-los, não tem sido nada fácil.

Acresce que, estes países, cada um da sua forma – o Irão menos – estão conectados com as cadeias de valor ocidentais, o que impede uma acção decisiva e brutal, independente de consequências. Veja-se o que aconteceu com as sanções à Rússia, agora pense-se no que aconteceria se essa agressão se desse contra a economia chinesa.

É esta a essência da “multipolaridade”, a que outros chamam “multiplexidade”, que consiste na sua enorme capilaridade, como cogumelos que se multiplicam por todo o mundo, cada um com a sua morfologia, mas todos com a mesma natureza, tornando-se virtualmente impossível de conter o seu crescimento. Como os EUA aprenderam com a Rússia, não basta atacar um, é preciso fazê-lo a todos, mas, a todos, é impossível, como estarão, agora, a perceber. Esta diversidade é absolutamente desafiadora para a lógica totalitária e unicista estado-unidense, que se via a dominar um mundo uniforme.

Se há coisa que o ocidente monopolista não entende é como unir coisas que são diferentes, como aceitar as diferenças alheias, como criar uma força comum entre diferentes, unidos apenas por um sentimento, a liberdade. Para unir, o imperialismo estado-unidense sente uma necessidade imperiosa de uniformizar, desrespeitando e destruindo culturas, tradições, crenças e ideologias, com o sentido de impor a sua.

Estes países multipolares, alicerçados num estado interventivo (algo de comum a todos e que rejeita a proposta ocidental do estado mínimo neoliberal, substituído pelos monopólios), que controla os sectores estratégicos da economia e apostados na soberania económica, tornam o controlo das suas economias muito complicado. Não admira que uma das linhas de ataque dos EUA à China seja a necessidade de abolição dos “controlos de capital”. É que a história da “liberalização” é vantajosa para quem tem mais poder de aquisição. Nós sabemos quem tem mais dinheiro acumulado, fruto de 500 anos de pilhagem e escravatura.

A verdade é que os EUA, olhando para esta realidade, perceberam que a estratégia de Brezinsky teria de ser adaptada à realidade actual, nomeadamente, deveria ser desconcentrada ou capilar, devendo optar-se por provocações deslocalizadas, aproveitando a dispersão de bases militares por todo o mundo. À Rússia, seria a Ucrânia, Geórgia, Moldávia, Arménia, secundados de perto pela OTAN; à China seria Taiwan, Coreia do Sul, Tailândia, Filipinas, Japão e a escorregadia India; ao Irão, Israel.

As provocações deslocalizadas, através de proxys muito bem armados, colocam um problema, problema esse agora demonstrado pela retaliação Iraniana. A manta é curta, para um ocidente que não tem a capacidade industrial de outrora, deslocalizada por culpa exclusiva sua, através de uma impopular política de destruição de postos de trabalho, ao serviço dos monopólios.  E isto acontece num quadro de contracção financeira, económica e social. Até do ponto de vista do financiamento destas operações, o ocidente acaba preso às suas contradições: ao contrário dos estados, os monopólios não investem no bem comum, apenas na concentração da riqueza. Tirar do estado para dar aos monopólios acabou no que estamos a ver.

Alicerçados em complexos militares industriais em que as principais empresas são públicas e, mesmo quando privadas, obrigadas a concorrer com as públicas, o Irão, China e Rússia, produzem muito barato o que ao ocidente sai caríssimo (a defesa aérea do Iron Dome, na noite da retaliação Iraniana, gastou à volta de mil milhões de dólares). Esta realidade possibilita uma resposta “calibrada” de valor relativamente baixo. Em comparação, quem mais gasta com estas operações, é quem tem as economias a cair; quem menos gasta, é quem tem as economias a crescer. Uma vez mais, uma consequência do estado mínimo neoliberal, saído do consenso de Washington.

Daí que o grande desafio que se coloca ao mundo multipolar será o de continuar a apostar em respostas suficientemente “calibradas”, para coloquem em sentido o agressor, sem entrar numa escalada de vida ou de morte, mas mantendo o agressor ocupado, corroendo-se cada vez mais, e cuja actividade o leva a acreditar que está a avançar, quando, na verdade, se está a retrair. A Rússia fê-lo magistralmente com a Operação Militar Especial e a China também o está a fazer do ponto de vista não militar.

Daí que, ouvir Ursula von der Leyen com a sua proverbial arrogância, ameaçar o Irão com ineficazes sanções, ouvir Trump e o seu MAGA, Sunak a querer falar grosso e Macron armado em Napoleão, ao mesmo tempo que dizem “o mundo está com a Ucrânia”, “a Rússia está isolada”, “vamos conter a China” ou “o Irão atacou Israel”, demonstre isso mesmo: os servidores de monopólios andam entretidos a jogar aos soldadinhos de chumbo sem constatarem que o fazem num tabuleiro cada vez mais pequeno.

Consiga o mundo multipolar continuar a proferir os seus ataques “calibrados”, seja sob que forma forem tais ataques (uns mais militarizados, outros mais comerciais e tecnológicos) e teremos por garantido que serão capazes de completar a tarefa, antes iniciada por outros: acabar com o neocolonialismo que amordaça, ainda, o sul global.

Vamos lá Kalibr!

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