Zelensky monta a armadilha que ameaça destruir-nos

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 13/06/2024)

Para financiar o esforço de guerra, o ilegítimo Zelensky, que actualmente usurpa o lugar de presidente, prepara-se para vender o que ainda lhe resta.


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A Ucrânia de Bandera, que tem privatizado, de forma absolutamente furiosa, as propriedades estatais que ainda lhe restam e lhe foram deixadas pela Rússia e URSS, já tem grande parte das suas valiosas terras negras nas mãos da Blackrock, Monsanto e de outros interesses norte americanos. A estas se juntam interesses energéticos, mineiros, agro-industriais e imobiliários.

Agora, para financiar o esforço de guerra, o ilegítimo Zelensky, que actualmente usurpa o lugar de presidente (já percebo aquele beijo de Von der Leyen, os usurpadores reconhecem-se mutuamente), prepara-se para vender o que ainda lhe resta. As receitas do FMI, e dos acordos financeiros com a União Europeia, assim o exigem e os negócios em causa constituem, em alguns casos, importantes monopólios naturais.

Todos sabemos quem mais vai lucrar com a compra destes bens estatais. Os EUA ficam com a melhor fatia, mas o Reino Unido, Alemanha, França, por esta ordem, também ficarão com a sua parte. Se o Hotel Ucrânia é o mais famoso bem de todos os anunciados neste novo pacote, segue-se uma lista, que o próprio regime de Kiev diz ser uma “large privatization”. Empresas energéticas, Porto de Odessa, sector mineiro, destilarias, fábrica de maquinaria pesada como locomotivas…

O mais grave disto tudo, o mais trágico para todos nós, é que a venda do país aos interesses dos EUA e do ocidente não é inocente e está muito para além de um simples acto de corrupção ou entrega do país aos interesses estrangeiros. Consciente ou inconscientemente, a aquisição de grandes e lucrativas propriedades, pelas grandes corporações ocidentais, constitui um passo importantíssimo para o agravamento do conflito e que julgo passar ao lado de muito boa gente, normalmente concentrada na vertente especificamente militar. Nestes casos, a vertente militar não mais é do que o pico do Icebergue, que esconde toda a complexidade de relações económicas que, na base, constituem a razão de ser de tudo o que se passa. O recurso ao militar acontece quando as relações na base se tornam inconciliáveis.

Zelensky, certamente ciente de que a guerra só se ganha com a entrada directa dos EUA, nem que tenhamos todos nós de perdê-la (nas guerras todos perdem) para ele a ganhar, à medida que entrega o seu país às oligarquias que sustentam o aparelho político estado-unidense, saberá da importância que tem, o domínio das propriedades ucranianas, por aqueles poderosos interesses. Que melhor forma de proteger o acesso ao mar negro, se não entregando o Porto de Odessa aos interesses ocidentais?

A história diz-nos que os interesses corporativos ocidentais, em especial os estado-unidenses, protegem os seus bens, nem que, para tal, tenham de invadir países e ocupá-los. Neste sentido, Zelensky, sabe que, quanto maior o domínio das corporações americanas na Ucrânia, maior é a probabilidade de agravamento do conflito e de entrada directa dos EUA.

Intencional ou coincidentemente, está em causa um desenvolvimento que, potencialmente, pode atrair os próprios EUA para uma espécie de “armadilha”, conduzidos pela cobiça por dinheiro fácil, do estado e do povo, que caracteriza as corporações imperialistas. Diria mesmo que esta é a história norte-americana no que toca às suas intervenções militares. O seu povo é conduzido, pelos interesses económicos, para “armadilhas” montadas por, e em prol desses mesmos interesses, que envolvem e tornam o estado dependente de guerras reais e potenciais. As famosas guerras eternas.

Já as antigas Companhias das Índias, dos Países Baixos, Portugal ou Inglaterra, detinham, inclusive, exércitos privados para defenderem os seus activos nas colónias. Nos EUA, como noutras potências capitalistas, a defesa desses interesses está acometida aos respectivos complexos militar-industriais, bem como às empresas privadas de recrutamento militar (as PMC).

As potências imperialistas, ao longo da história, intervêm militarmente nos locais onde estão ameaçados os seus interesses monopolistas. O que considero descabido é que esta apropriação da propriedade ucraniana, pelo ocidente, não seja reconhecida como um dos mais importantes factores que influenciam a escalada militar. Todos olham para a parada e resposta das armas, mas poucos olham para as relações materiais subjacentes, as quais, deixam sem saída política, os líderes de ambos os países, que não seja a defesa dos interesses que, em cada momento, se manifestam, mais ou menos sub-repticiamente.

Contudo, no meio disto tudo, existem forças mais poderosas que se movem no sentido contrário aos interesses de Zelensky e do seu gangue da Galícia. Esta guerra nasceu como proxy (por procuração) e, para os EUA, em princípio assim terá de morrer. A batalha decisiva, pela manutenção da hegemonia do sistema imperialista norte americano, joga-se no pacífico. O desafio Chinês obriga a concentração exclusiva e isto leva o próprio partido democrata a exigir do seu representante no Médio-Oriente, Israel, uma atitude diferente e mais conciliadora, de forma a que o conflito não se estenda para lá do desejável. Que o consiga, tenho dúvidas, mas, pelo menos, tenta-o.

Os EUA, estando plenamente conscientes da “armadilha” montada por Zelensky, não deixam de aproveitar o ganho, mas, é aos países europeus que foi reservada a defesa dos seus interesses corporativos e militares na Ucrânia. Enquadrando tais interesses no que Blinken refere como “área de segurança transatlântica”, tal classificação, do meu ponto de vista, não arrasta os EUA para o conflito. Arrasta, isso sim, a própria OTAN e, em especial, a Europa. Como já foi sublinhado inúmeras vezes, é a europa quem tem de arcar com a maior fatia de esforço.

Este esforço será pago com mais armas, dinheiro, vindo este dos 300 mil milhões de euros congelados, os quais Biden, na próxima cúpula do G7, não deixará de entregar á Ucrânia. Estando tais reservas, sobretudo, em bancos europeus, adivinhem que moeda e que sector financeiro entrará em colapso, após este confisco? Para já a Arábia Saudita deixou caducar, no dia 9 de Junho, o acordo que mantinha com os EUA, para a venda exclusiva de petróleo em Dólares (o acordo Petrodólar). Mas, durante muito tempo ainda, os EUA usufruirão do estatuto de moeda de reserva. Já o Euro e a Libra Esterlina não se podem gabar do mesmo e quando os países do sul global acelerarem a retirada, já em marcha, das reservas depositadas em bancos europeus, é que veremos.

E destes factores resulta outro movimento que se afirma em contradição com os interesses do regime de Kiev. Esta tensão entre “interesses dos povos europeus” e “interesses corporativos” dos EUA, ameaça destruir a democracia restante de muitos países europeus e partir nações inteiras. As últimas eleições para o Parlamento Europeu são já um resultado disso mesmo. França, Alemanha, Bélgica, Países Baixos, Dinamarca, assistiram a resultados importantes, que representam sobretudo a ansiedade popular pela normalização das suas vidas. Trabalhadores, agricultores, pequenos empresários, estão fartos de instabilidade, austeridade e pessimismo. Aos povos europeus foi-lhes subtraída a esperança numa vida melhor.

Os mesmos que subtraíram e negam, todos os dias, tal esperança, são quem acusa de movimentos “populistas”, “extremistas”, “radicais”, todos os partidos que se opõem ao belicismo do designado “centro político”. A cada um que atira com a palavra “paz”, eles respondem com a acusação de “putinista”; a cada um que atira com a máxima de que “nem mais uma bala para alimentar o conflito Ucraniano”, respondem com um contundente “agente do kremlin”. Estereotipar, dividir, tribalizar, tornou-se a palavra de ordem de um suposto “centro político”, que se auto-elegia como capaz de unir o espaço entre as margens.

Desistindo deste papel de “moderação”, o próprio “centro moderado” é também atirado para uma margem. Atirado para a margem que defende a continuação da guerra, da confrontação, figuras como Macron, Sholz, Sunak ou a burocrata Von Der Leyen, acabam a conduzir as populações para as forças que, neste quadro niilista, mais organizadas e financeiramente poderosas surgem: as forças reaccionárias. Estas forças, pressentindo e vivendo do descontentamento, atraem quem se sente desagradado pela situação económica, pelo medo de uma guerra em larga escala e a falta de perspectivas de crescimento, recuperação e desenvolvimento.

Neste quadro, a única resposta dos dirigentes mais belicistas é a de contrapor ao medo da guerra, o medo da extrema direita. E este é o drama que se vive na Europa, nos EUA, no Ocidente colectivo. A sensação – aparente apenas – de que não existe uma alternativa válida, faz com que sejam acenadas apenas duas alternativas que, à superfície, mutuamente se excluem: ou existe a opção do “centro moderado”, pelo confronto, pelo belicismo, pelo sacrifício económico e social, em nome de “valores europeus” que ninguém sabe bem o que são; ou a opção “autocrática”, “autoritária”, “ditatorial”, da extrema direita, mas na qual o “centro moderado”, através de um contraditório processo de reescrita da história e paradoxal confusão filosófica, integra as soluções à esquerda.

Bifurcados entre duas alternativas terríveis, acaba-se a escolher entre Macron e Le Pen, porque se considera uma de “extrema direita” e o outro um “centrista liberal e moderado”. Contudo, dizer que Le Pen é mais de direita que Macron, é cometer um erro crasso. Macron é mais dissimulado e polido, mas não é menos destrutivo. Macron tornou-se, hoje, um dos principais incendiários da guerra nuclear. Sem utilizar o termo, todos sabemos qual a consequência do envio de tropas da OTAN para a Ucrânia. Também sabemos qual será o resultado da instalação de bases de F16 nos países bálticos. E todos sabemos onde vai acabar a autorização de utilização de mísseis SCALP lançados por aviões Mirage II, contra território Russo reconhecido.

E o que dizer de Sholz e do seu SPD? Já não basta o facto deste partido ter sido conivente com a subida do poder nazi e de Hitler, decidindo não alinhar com as forças progressistas, comunistas e democráticas que combatiam, então, o nazismo, nas ruas e nos locais de trabalho, como hoje, é outra vez o SPD que volta a atirar a Alemanha contra a Rússia, privando o seu país dos recursos que o tornaram uma potência mundial. O que diria Karl Marx se soubesse que o museu, em sua memória, situado em Trier, é gerido pela Fundação Friedrich Herbert (sim a que financiou o Partido Socialista em Portugal), organização ligada ao SPD?

É então a política “moderada” (o termo “moderado” vale como elogio por si só) que ameaça conduzir-nos para uma guerra nuclear. Eu pergunto o que é que isto tem de “moderado”! É que, por absurdo, mesmo que se reconhecesse toda a culpa à Rússia e a Putin, seria dos “moderados” quem se esperaria o maior esforço de diálogo e paz. Ao invés, é dos “moderados” que esperamos o contrário: a ultrapassagem constante de linhas vermelhas, as russas e a suas próprias. Quantas linhas vermelhas esta gente já ultrapassou, na sua escalada?

Quer Zelensky consiga o seu copo cheio – a entrada dos EUA na guerra – ou seu copo meio cheio – a entrada da Europa na guerra -, qualquer das soluções é devastadora para as nossas vidas e tal devastação é o que resulta de quando se apoia, se é cúmplice e conivente com gente que faz do ódio, da xenofobia, o seu modo de vida. O ódio que vejo nos Ucranianos da Galícia, contra a Rússia, compara-se ao ódio dos sionistas, contra os árabes palestinos. Um ódio tribal, selvagem, bárbaro e medieval. Na Ucrânia ou na Palestina, o ódio nunca venceu barreiras, só as construiu.

Como diz um amigo meu, quando nos mandarem enfiar o capacete e pegar na metralhadora, talvez nos lembremos que a paz é o maior bem que a civilização nos pode garantir. Talvez nesse dia acordem para a “armadilha” em que fomos apanhados e consigam ver, no horizonte, quem, de facto, com palavras de veludo, exaltações à “democracia” e acusações aos “extremismos” nos está a levar para a extrema destruição!

Fonte aqui.


União Europeia: da paz para o belicismo

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 06/06/2024)

Pertencer à União Europeia começa a parecer-se com aqueles sonhos que nos deliciam durante o sono, mas que, ao acordar, constatamos que não passam disso mesmo, de sonhos.


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Uma parte importante das tensões criadas na Europa de Leste, junto às fronteiras da Rússia, tem a ver com uma ilusão que é criada, segundo a qual, a entrada, por si só, na União Europeia, produz um conjunto de benefícios inquestionáveis, os quais, de outra forma, não são atingíveis. Mas serão os benefícios assim tão inquestionáveis?

Numa União Europeia cuja economia sem encontra crescentemente canibalizada e contida pelos EUA, cuja cúpula de poder esconde amiúde que esta ameaça seja a mais grave e limitadora de todas, atualmente, o futuro realista que este bloco representa para os países aderentes, não vai além de previsões de crescimento económico muito anémicas e, mais grave ainda, coroadas com a exigência de confronto com a Rússia, que afastam completamente o pressuposto, segundo o qual, a adesão ao restrito clube da Europa ocidental representava, acima de tudo, uma garantia de paz.

O caso ucraniano é o mais extremo, mas, seja a Geórgia, Moldávia, Sérvia, Montenegro ou outro qualquer país que tenha pertencido à URSS ou ao “bloco socialista”, o pedido é sempre o mesmo: entrar para a UE, significa entrar para a NATO, entrar para a NATO, significa ser inimigo da Rússia. De uma forma cada vez mais pronunciada, ser inimigo da Rússia, significa também prescindir de relações livres com aquela que é, atualmente, a maior fonte de crescimento económico, científico, tecnológico, do mundo, que é a China. E esta é, talvez, a seguir à inimizade com o mundo russo, a mais dispendiosa moeda de troca que uma nação tem de pagar, para pertencer ao seleto “jardim” ocidental.

Há muito que o Ocidente deixou de representar a maior fonte de crescimento económico. Décadas de desindustrialização propositada, neoliberalismo e financeirização, inverteram essa realidade. De uma posição de expansão, o Ocidente passou a uma posição de contenção da expansão alheia. Hoje, a maior garantia de crescimento económico, para qualquer nação, consiste nas suas relações com os BRICS (India, China e Rússia): vão ser os 3 países que mais vão crescer em 2024, de acordo com o FMI.

Se para países como Portugal, a Grécia ou Espanha, a moeda de troca era medida em liberalização dos mercados e privatização dos recursos nacionais, para que as transnacionais ocidentais pudessem entrar e adquirir o que antes estava em posse do país; fruto da sua condição geográfica e da sua identidade histórica partilhadas com a Rússia, aos países da Europa de Leste, as exigências económicas, vêm acopladas de uma autêntica declaração de inimizade.

Essa exigência tem efeitos dramáticos nesses países. A Ucrânia está cá para demonstrá-lo. Como prova a Geórgia agora e como provará a Moldávia amanhã, como se sente também na Sérvia. Aceitar integrar a UE significa declarar guerra a uma parte, não raras vezes considerável ou até maioritária, da sua própria população. Ou seja, nem crescimento, nem paz, nem segurança, nem sequer o direito à memória. Alguém consegue extrair algo de construtivo do facto de centenas de milhares de russos que vivem na Estónia deixarem de poder falar, ler e celebrar a sua língua e história? Custa-me a crer.

Como no caso ucraniano, o que se propõe a esses povos é que desistam da sua história passada, dos seus alicerces e fundações culturais e até religiosas e os substituam por um futuro, apresentado tão radioso, quanto, na realidade, o é incerto. Nem os mais cegos podem negar o processo de destruição da cultura russófona e russófila na Ucrânia, nomeadamente a partir do golpe de estado de EuroMaidan. Como não podem negar a perda de influência do Ocidente no mundo e a crise que se avizinha no seu horizonte.

Neste quadro, a organização que se apresenta como a garantia de paz na Europa, constitui, nesta nova era, um caminho quase certo para a guerra. Podem dizer que “a culpa é da Rússia, que os impede de aderir às estruturas ocidentais, por não querer perder o seu domínio.” Mas, depois de a própria Rússia, em tempos da sua própria ilusão, ter tentado entrar para o clube ocidental e tal lhe ter sido negado, não será normal que este país tenha começado a olhar de forma desconfiada para quem compete, por sinal, pelo espaço próximo às suas fronteiras? Algum país gosta de estar rodeado de inimigos?

Assim, esta vertigem ou ilusão de que, pertencendo à UE, um país passa, automaticamente, a pertencer à elite e terá o seu futuro recheado de riquezas abundantes envolvidas nos mais elevados “valores europeus”, ameaça rasgar nações inteiras. A exigência de que, para aderir, tem de se prescindir do seu passado, é simplesmente inaceitável para muita gente. O que é compreensível: que tipo de futuro pode assentar num passado vazio, renegado, amaldiçoado? Aderir à UE significa, para os países do leste europeu, uma guerra permanente com o seu passado. Veja-se o caso da Bulgária ou da Eslováquia.

Mas não se pense com isto que, para os países do sul europeu, não se exigindo tal moeda de troca, tudo resulta em ganhos certeiros e indesmentíveis. Do ponto de vista económico, a história está longe de ser unívoca. Podemos dizer que a economia desses países se uniu, não por adesão, mas por incorporação, no seleto clube ocidental. Contudo, os seus próprios povos, e as suas condições de vida, ainda esperam pela tão ambicionada “convergência”.

Entretanto, também não é sério dizer que a entrada destes países, na União Europeia, tenha representado um retrocesso ab initio. É um pouco como ser pobre entre ricos. Ser pobre, entre pobres é muito pior. Portugal, por exemplo, por alturas da entrada na Comunidade Económica Europeia, debatia-se com lacunas brutais em matéria de infraestruturas. A população ativa era muito pouco qualificada, em matéria salarial, encontrava-se entre as mais pobres de toda a Europa. Nesse sentido, o potencial de aproveitamento do acesso a um mercado de centenas de milhões de pessoas era muito elevado. Essa realidade acabou por se refletir em prateleiras cheias de produtos nunca vistos, mesmo que a maioria das bolsas, muitas vezes, não pudessem comprá-los. Mas, no início, até esse problema prometia e parecia vir a resolver-se. Para tal, a União Europeia acenou com milhões em fundos comunitários, que trariam consigo o desenvolvimento nacional.

Para um país como Portugal, os fundos comunitários recebidos foram acompanhados de uma exigência de destruição da sua indústria, agricultura e pescas. Tudo isto, em troca da transformação numa economia de serviços. Como alguém disse um dia, as estradas que se construíram com os fundos, não foram feitas para os portugueses; foram feitas para a Europa central cá colocar os seus produtos e turistas.

De 1986 a 2029, Portugal e a UE terão “investido” mais de 200 mil milhões de euros em fundos estruturais. Seria pouco sério dizer que não serviram para nada. Mas sendo um montante aparentemente desconcertante, a verdade é que país pagou muito mais do que a mera compra de produtos e serviços do norte e centro da Europa.

Atualmente, quando olhamos para o contraste visual fornecido pela passagem de automóveis muito velhos, envolvendo outros, tão caros como raros… Não podemos deixar de sentir um sabor agridoce. No melhor dos casos! Portugal é o país da UE com mais trabalhadores empregados que vivem abaixo do limiar da pobreza, muitos passando também a sem-abrigo, dormindo em ruas, com os melhores hotéis e os mais competitivos apartamentos para arrendamento turístico.

A crise e austeridade eternas constituem a herança da segunda fase da adesão europeia, a que resultou da entrada na zona Euro. Crescimento económico e salarial reduzidos, desregulação das leis laborais, do direito à habitação, ao mesmo tempo que as privatizações, parcerias público-privadas e benefícios para os monopólios ocidentais se multiplicaram. Tudo justificado pela nova ambição: a “contenção orçamental”. O objetivo declarado já não era a paz, o crescimento e o desenvolvimento. Passaram a ser as “contas certas”.

Sendo certo que a moeda de troca ainda não foi, de longe, tão grave e destrutiva como é a que se exige aos países da ex-URSS, é importante perceber que, os fundos recebidos, não vêm a custo zero. Vêm, sim, acompanhados de um processo de substituição, formatação e condicionamento económico e sociocultural, que visam afastar estes países da sua dimensão “sulista” e ambicionar, como um burro a uma cenoura, a pertença ao norte. Acoplados aos fundos vêm os bastões de condicionalidades, recomendações, orientações e exigências inconfessadas e inconfessáveis, que hipotecam o prometido futuro.

O poder de Bruxelas cresce à medida que enfraquece o dos estados membros periféricos, que se viram sem moeda para influenciar a política cambial, sem poder para definir a taxa de juro, que passou a ser fixada pelo BCE, e agrilhoados aos critérios do Pacto de Estabilidade e Crescimento. A tudo isto Bruxelas, e os partidos da submissão, fazem da fome, a cura para a anorexia. A vítima necessita de ganhar peso e a médica Von Der Leyen prescreve-lhe uma cura de emagrecimento.

A verdade é que à Comissão Europeia nunca se ouviu uma recomendação a exigir contenção nas parcerias Publico Privadas da saúde ou das autoestradas, as quais chegam a garantir rentabilidades anuais de 13% ao ano; nunca exigiu cortes nos perdões e isenções fiscais aos grandes grupos económicos ou impostos para os seus pornográficos lucros. As recomendações do Semestre Europeu, quando pedem “contenção orçamental”, referem-se a contenção salarial, emagrecimento dos serviços públicos e privatizações, muitas privatizações, numa gula sem fim por mais e mais dinheiro fácil.

No fim disto tudo, cabe perguntar: se os países do sul receberam tantos fundos, se para os receberem tiveram de cumprir as condições impostas (condicionalidades de política económica e fiscal, revisões constitucionais e adoção de instrumentos de regulação económica e política) e se os recebendo, não atingiram, em mais de 30 anos, os níveis de desenvolvimento dos países do centro e norte da Europa, apesar de tal ser prometido, então a resposta só pode ser uma: é porque não era suposto!

E é isto que dói ouvir aos euroentusiastas e aos fanboys de Bruxelas. Mas, como é que o seu conto de encantar preferido não passa de um sonho adiado, cujos pressupostos indiciam que, afinal, esse adiamento é eterno, porque, aos países da periferia, no quadro da divisão europeia do trabalho, não cabem aos países da periferia as atividades de maior valor acrescentado? E nada mais evidencia esta realidade do que os dados relativos á convergência salarial: à promessa de convergência futura, não foi apenas a economia portuguesa que não correspondeu, mas todas as economias periféricas da União Europeia. Crescendo, nunca foram capazes de convergir, mantendo-se ou aumentando sempre as distâncias entre os do sul e os do centro e norte da Europa.

O facto é que o único país pequeno e periférico que o ousou romper com esta lógica foi a Grécia. Hoje, todos sabemos onde a Grécia foi parar. Acusaram o país de roubar, mentir, falsificar, tudo porque o governo respetivo cometeu o “crime” de querer pagar ao seu povo o mesmo que auferiam os trabalhadores dos países do centro e norte da Europa. Já os maiores países europeus, que ultrapassam os limites do défice constantemente, em caso algum foram alvo de “procedimento por défice excessivo” e medidas de austeridade para o corrigir.

Acresce ainda que, no deve e no haver, no caso Português, entre fundos recebidos e a compra dos produtos e serviços fornecidos pelo centro e norte europeus, entre 1996 e 2023, este país deu mais do que recebeu, explicando-se por aí o porquê desta aventura europeia. De acordo com o Banco de Portugal, entre o que entrou e o que saiu, o país ficou com um saldo negativo de 61 mil milhões de euros.

Em conclusão, a cenoura que atrai o burro, os fundos comunitários, mais não são do que empréstimos encapotados, disfarçados sob a forma de “investimento”, mas cujo retorno vale mais para quem os dá – os países do norte e centro da Europa – do que para quem os recebe. O “investimento” em fundos, constitui assim um duplo benefício: domínio económico e político sobre os beneficiários dos subsídios; retorno económico no médio e longo prazo.

O facto desses fundos serem atribuídos ao abrigo de estratégias (estratégia de Lisboa; Estratégia 2020 e 2030) concebidas em Bruxelas, determina que os mesmos não visam resolver os problemas reais dos países periféricos. Os fundos comunitários visam resolver os problemas que os países periféricos têm para que possam ser utilizados como instrumentos de enriquecimento dos países centrais. A instrumentalização que os países da Europa central e do norte fazem dos países de leste, no que concerne à estratégia de domínio das terras russas e eslavas, encontra paralelo nos países do sul e da Europa mediterrânica, nomeadamente aproveitando as ligações geográficas intercontinentais que tais países significam, para além do seu significado como mercados de destino e como reservas de mão-de- obra qualificada e barata, a qual é formada, a contento, com os próprios fundos comunitários.

É, portanto, imperioso desmontar e denunciar este ciclo de exploração, cujos benefícios não são distribuídos de forma equitativa e que tende a manter as diferenças relativas ao longo do tempo, diferenças essas que visam manter intocável tal ciclo. Acresce que, acoplada a esta dimensão político-económica, adiciona-se uma outra, a qual, o conflito que decorre na Ucrânia vem desmascarar. Países periféricos e distantes, foram subitamente eleitos como inimigos da Rússia, sem que os seus povos fossem tidos em conta, os quais, inconscientemente assistem à transferência dos seus fundos para o esforço de guerra.

O mais trágico é que quem denuncia a falência deste projeto europeu, é acusado de “antieuropeu”, como se esta fosse a única formulação possível, como se a história humana não tivesse os cemitérios cheios de histórias inevitáveis. Quando esta União Europeia entra na sua fase belicista, é mais fundamental que nunca falar de uma Europa de paz, cooperação e amizade entre os povos. Uma Europa em que a abertura não signifique submissão.

As eleições que agora se avizinham, para o Parlamento Europeu, serão mais um momento durante o qual muito pouco se falará de União Europeia, do seu caracter autocrático, do seu macrocefalismo. Ao invés, cantar-se-á uma Europa inexistente, a qual, enquanto celebra os “valores europeus”, lhes exige a fratura da Europa continental. Enquanto celebra a “união”, obriga-os a prescindir da sua história e substituí-la por um revisionismo branqueador do seu passado fascista. Enquanto exige a entrega da sua economia, substitui-a pela dependência eterna, pelo poder politico dos monopólios, representados em Bruxelas.

Pertencer à União Europeia começa a parecer-se com aqueles sonhos que nos deliciam durante o sono, mas que, ao acordar, constatamos que não passam disso mesmo, de sonhos. O projeto europeu não resiste nem à luz do dia e muito menos ao acordar.

Fonte aqui.


A Rússia ganha pontos entre as ex-colónias portuguesas

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 24/05/2024)

Portugal falhou, como falha a União Europeia, como falham os EUA, em ver, no mundo multipolar, um mundo sem nações indispensáveis, o seu futuro, o nosso futuro.


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Está ao rubro a luta pelo domínio das principais fontes minerais do mundo. Como não poderia deixar de ser, essa luta é mais intensa nos locais onde a acumulação de riquezas mais se faz sentir: África Subsariana e Médio Oriente. O problema é que esta luta está a fazer movimentar as placas tectónicas, provocando o pânico entre as hostes pró EUA/NATO/UE.

O aprofundamento das relações entre a China e os países do Sul Global e dos africanos, em particular, acompanhada pela intervenção da Rússia no continente africano, iniciando um combate eficaz ao terrorismo, o mesmo terrorismo que justificou, durante quase 20 anos, a presença de missões da União Europeia e EUA no continente, tem vindo a provocar uma onda de desespero e recriminação em todo o espectro político situacionista e pró Hegemónico.

A presença militar russa – através do Russian African Corps – em diversos países africanos (Burkina-Faso, Mali, Chade, Líbia, Sudão, Moçambique, República Centro Africana), tem suscitado, da parte dos partidos do centro, centro-direita e direita neoliberal, do espectro político europeu, todo o tipo de recriminações, sendo a última delas, a de que a Rússia está a “alinhar ditaduras” em África. Isto vindo de políticos europeus que estiveram sempre alinhados com o neocolonialismo e com o imperialismo, chega a ser caricato, se não fosse trágico.

Fazer acreditar que a ditadura em África chega, no século XXI, com a chegada da Rússia ao terreno, depois de andarem 500 anos a pilhar, escravizar, ocupar, corromper, condicionar e explorar o continente…. Mostra muito do porquê o Ocidente coletivo não ser capaz de encontrar o seu lugar no mundo.

A incapacidade de EUA/NATO/UE de encontrarem um lugar no mundo multipolar, um mundo que se quer libertar, avidamente, do passado paternalista, neocolonialista e subserviente, em que havia sido colocado, ao longo de 500 anos de história, encontra ecos em acontecimentos recentes em todo o mundo: Em Bratislava, Robert Fico é alvejado com três tiros e está em estado crítico; no Irão falece, em acidente de helicóptero, o presidente e mais 4 altos quadros do estado; na República Democrática do Congo foi tentado um golpe de estado e no Burkina-Faso alguém tentou atacar o palácio presidencial.

A luta pelo controlo dos ativos minerais faz-se ao milímetro, bastião a bastião, mina a mina, concessão a concessão. Entretanto, se a China gastou 19 biliões de dólares, durante 2023, em investimentos mineiros, e a Rússia aprofunda relações com o Senegal, Líbia e outros, os EUA, através da International Development Finance Corporation, apenas investiu 740 milhões de dólares. Percebe-se a renitência. Habituados a obter as minas a preços de saldo ou quase de graça, os países ocidentais confrontam-se, agora, com a necessidade de ter também de pagar. O que é um problema, pois o modelo ocidental é o que referiu a primeira-dama da Serra Leoa, numa entrevista recente. Fatima Maada Bio explicou como o Reino Unido detém todas as minas do seu país e é quem gere a própria rede elétrica do país. Há que garantir que se portam bem.

Mas a Serra Leoa tem eleições, eleições ganhas com a melhor propaganda que as empresas mineiras ocidentais podem comprar. Se exemplo existe para demonstrar que o problema não reside na existência de uma falsa democracia, controlada a partir de Wall Street, mas nas condições de soberania que cada estado tem, efetivamente, para se desenvolver…. É o da Serra Leoa. Vejam lá quem lucra com a tal “democracia ocidental”.

É por estas razões, por perpetrar este tipo de estereótipos e falácias que o Ocidente coletivo continua sem perceber o que lhe está a acontecer e sem entender, porque razão, mais de 500 anos depois da chegada dos Portugueses ao continente africano, os povos africanos se querem libertar. 500 anos de domínio foram suficientes para convencer a maioria de que, com o Ocidente a liderar, o desenvolvimento será sempre uma miragem. E os únicos que não o compreendem são os próprios ocidentais. A criação da Associação de Estados do Sahel é, talvez, a primeira vez que, em África, se definem relações geográficas sem estarem sujeitos ao paternalismo ocidental. Há, portanto, que valorizar esta emancipação.

É neste quadro de emancipação que também em Portugal explodiu a indignação quando os órgãos de soberania recém-empossados, o governo e a direita radical, entraram em colapso nervoso ao descobrirem que uma ex-colónia portuguesa – São Tomé e Príncipe – havia negociado, celebrado e aplicado um acordo militar com a Rússia, sem pedir autorização. Se não pretendiam que fosse pedida autorização, não foi isso que deram a entender com o seu desespero.

Não faltaram recriminações ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e pedidos de explicações, por parte dos sectores mais russófobos – vá-se lá saber porque serão russófobos, à parte de terem passado pela Ivy League – da política portuguesa. Ao ponto de o Presidente da República, talvez pensando que ainda estava nos seus 16 anos (antes da revolução que ditou o fim da guerra colonial e a descolonização), ter referido querer “ver o acordo”.

Portugal, país pequeno do ocidente europeu, mas dos mais russófobos da União Europeia, herança de mais de 40 anos de fascismo – a mais longa ditadura da Europa –, sempre olhou para a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa, Portugal, Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe), como algo que tem ali à mão, mas que escusa de apanhar, porque nunca fugirá. Uma espécie de visão neocolonial, bem presente nas relações económicas entre os vários países, com exceção do Brasil. O Brasil é um peso pesado, como se sabe.

Atrelado à política externa definida pelos EUA e União Europeia, prescindindo de uma visão internacional soberana e independente, os sucessivos governos nunca conseguiram, quiseram ou optaram, por olhar para a Comunidade de Países de Língua Portuguesa como o futuro de Portugal, como a sua principal ponte para o mundo, para todo o mundo… Uma ponte construída com o de mais precioso que une os povos, a língua e a cultura.

Para as autoridades portuguesas, a CPLP nunca passou de uma mera porta de saída, entreaberta apenas por razões económicas, sobretudo, ao sabor de interesses bem mais vastos e nem sempre coincidindo com os portugueses. Vejamos o caso do Memorando de Entendimento entre os EUA, e a União Europeia, em apoio ao desenvolvimento do corredor do Lobito, entre Angola, Zâmbia e República Democrática do Congo. Portugal, o segundo maior exportador para Angola, logo a seguir à China (ao longe), não surge sequer relacionado na documentação que refere a integração deste corredor do Lobito na estratégia europeia por matérias-primas críticas, o Global Gateway. No fórum de lançamento do Global Gateway em Angola, a única presença portuguesa foi a embaixadora da União Europeia em Angola.

Tal como com os seus senhores do centro da Europa, Portugal também falhou sempre em promover alternativas de desenvolvimento que pudessem aproximar os países lusófonos do mundo desenvolvido e, sobretudo, falhou em promover uma cooperação, entre iguais, que retirasse benefícios do enorme mercado à disposição dos povos de língua portuguesa, de todos eles. Um fator de união que ainda hoje constitui um dos principais elos de ligação entre os EUA e o resto do mundo. A língua.

Ao invés, Portugal optou sempre por se virar para norte e contentar-se com a ideia de ser um dia tratado como o são os povos do Norte, tal como os africanos se foram perdendo na ilusão de se desenvolverem através da aproximação ao ocidente, sonho do qual estão, agora, a acordar. Portugal tem caído e continua a cair no mesmo equívoco. Portugal nunca vai assumir qualquer centralidade que não seja alicerçada na sua soberania, independência e numa visão que vire o país para o futuro, para o Sul Global, para o mundo em crescimento, em cooperação, em desenvolvimento. O facto é que, muitos milhões de fundos europeus depois, nem Portugal, nem nenhum país periférico da União Europeia, almejou convergir com os países do norte e centro europeu, quanto aos níveis mais elevados de desenvolvimento. Se nenhum o conseguiu, dezenas de anos depois, centenas de biliões e euros depois, é porque não era suposto consegui-lo. Tal como nenhum africano o conseguiu em 500 anos de domínio ocidental. Há coisas que a própria história se encarrega de demonstrar, apesar de todos os discursos e de todos os floreados.

Foi esta mesma subserviência, que Portugal exige às suas ex-colónias e que a União Europeia exige a Portugal que fez com que um país com 10 milhões de habitantes, com acesso histórico privilegiado a um mercado de 300 milhões de habitantes, com mais de 2 triliões de euros de PIB, não tenha conseguido transformar esse acesso numa vantagem estratégica, até numa perspetiva da sua integração europeia.

Ao invés, Portugal perdeu-se em sonhos adiados, vendo cada vez mais longe a prometida “convergência” europeia. Convergência que nunca mais chega, como nunca mais chega o prometido desenvolvimento aos países africanos, com que acena o Ocidente coletivo, desde que há 500 anos decidiu ir para África salvar almas e levar a civilização.

As relações económicas de Portugal com os países africanos dizem tudo. Portugal importa cerca de metade do valor que exporta, de acordo com os dados do Instituto Nacional de estatística, para os anos de 2018-2022. Já quando apreciada a relação com o Brasil, a situação inverte-se e é Portugal que fica com a Balança desequilibrada. Portugal manda bens manufaturados, com valor acrescentado médio e importa bens de baixo valor acrescentado não transformados. Esta relação demonstra que Portugal tem feito muito pouco para ajudar estes países no seu desenvolvimento, nomeadamente através das transferências tecnológicas. Angola tem muito petróleo, não o refina, Portugal não tem petróleo, mas sabe refiná-lo. Um e outro estão nas mãos de interesses estrangeiros. Um pequeno exemplo.

Daí que, não possa admirar a ninguém, esta relação entre São Tomé e Príncipe e a Rússia, que também se antevê na Guiné-Bissau e em Moçambique. É, uma vez mais, a história quem explica esta relação, pois não foi senão a URSS que apoiou os movimentos de libertação que combateram contra o governo colonial português, enquanto os EUA e outros países europeus apoiavam o ignominioso apartheid. Foi com armas e tropas soviéticas e cubanas, que se derrotou a África do Sul, na batalha do Cuito Cuanavale, que se tornou o início do fim daquele regime genocida. Hoje, quando olham para a ameaça terrorista, os países africanos olham para o Sahel e detetam o óbvio: 20 anos de “apoio” na luta contra o terrorismo, pelos países ocidentais (França, EUA, Reino Unido), e os terroristas eram cada vez mais. Até que chegaram os russos. Aí, a história já foi outra. Tal como na Síria.

Esta situação é sintomática da falência de toda uma política externa que dizia querer fazer “pontes” com o mundo. Tal como todo o Ocidente coletivo, também Portugal não soube preservar a sua relação privilegiada com África. Quando os governantes portugueses assistiram ao acordar dos países africanos, à sua aproximação aos BRICS, à sua recusa em aplicar sanções à Rússia, o que fizeram? Tentaram compreender? Tentaram perceber por que razão, estes países perderam a fé no Ocidente? Nunca! Apenas recriminaram e destacaram-se claramente da tendência geral.

Portugal afastou-se dos seus para se juntar aos outros. Aos que lhe pagaram para destruir a indústria, agricultura e pescas de que necessitava para ser uma mais-valia na CPLP. Hoje, 80% dos postos de trabalho criados são de baixa qualificação, baixo salário, e Portugal tem muito pouco a oferecer a África e ao Brasil, que outros não possam oferecer. Como se viu no caso do Global Gateway em Angola, as potências europeias não necessitam do envolvimento de Portugal para relançar os seus acessos e as suas redes.

Este acordo entre a Rússia e São Tomé e Príncipe representa, sobretudo, a incapacidade portuguesa em ver futuro para além dos decadentes e cada vez mais fascizantes NATO/UE/EUA. Representa a falência em ver no Brasil e nos restantes países africanos de língua portuguesa um mercado comum enorme, uma fonte de industrialização, cooperação, numa estratégia em que todos ganham: uns porque vendem, outros porque compram, outros porque produzem, outros porque trocam. A CPLP era a ponte dos países lusófonos para o mundo. Para todo o mundo.

Portugal falhou, como falha a União Europeia, como falham os EUA, em ver, no mundo multipolar, um mundo sem nações indispensáveis, o seu futuro, o nosso futuro. Não se admirem, portanto, que a Rússia, a China, o Irão ou mesmo a India continuem a expandir-se em África, nesta segunda leva da descolonização. Na primeira, a URSS ajudou a obter a liberdade, na segunda, é a Rússia quem vem colher os frutos de todo esse soft power, incrustado na história humana a letras de ouro. Enquanto uns quiseram perpetrar a colonização, outros ajudaram, em momentos-chave, a combatê-la.

E, por muito que doa ao Ocidente, é a Rússia quem está, agora, em condições de recolher o resultado de um investimento que os blocos imperialistas não quiseram, não puderam, nem estavam preparados para desenvolver. Não estava, simplesmente, na sua natureza.

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