Quo Vadis ética e deontologia jornalística?

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 28/07/2025)


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A “entrevista” do dia 10 de julho, na CNN, com Pedro Bello Moraes (PBM), que se tornou viral nas redes sociais, trouxe à liça três temas incontornáveis relacionados com o comportamento profissional do jornalista em causa: a falta de ética, a duvidosa deontologia jornalística e a desonestidade intelectual.

Iniciarei este artigo respondendo às perguntas que me foram feitas na dita “entrevista”, uma vez que não o consegui fazer na devida altura, para de seguida elaborar sobre os três temas atrás mencionados. Devo referir, logo à partida, que não me revejo no tipo de “jornalismo” abraçado por PBM, que recorre ao escândalo e à gritaria para atrair audiência. Há cadeias de televisão que professam esse “jornalismo,” mas não é bem nisso que estará interessado o segmento de mercado que a CNN pretende atingir.

A “entrevista”

PBM revelou uma imensa impreparação, como aliás tem acontecido, demasiadas vezes, noutras ocasiões. É difícil a um entrevistado responder às perguntas, quando PBM se sobrepõe sistematicamente, de modo grosseiro, com uma enorme necessidade de mostrar que sabe e que tem opinião sobre o assunto.

Quando suspeita que a resposta não é do seu agrado, interrompe, fala por cima e escarnece do que os entrevistados dizem. PBM tem dificuldade em lidar com alguns princípios básicos do jornalismo, como adiante veremos; não é suposto que um pivô impeça/sabote e comente negativamente o discurso de quem pensa aquilo de que ele não gosta. Na prática, comporta-se como um censor. Apreendeu pouco do que lhe ensinaram nos bancos da extinta Universidade Independente.

Porque é que digo que PBM é impreparado e não sabe do que falava? Tomando como referência quatro dos assuntos da famigerada “entrevista”: 1. A alteração da posição de Zelensky sobre a posição do Vaticano relativamente ao papel do Papa na mediação do conflito ucraniano; 2. A quarta conferência para a reconstrução da Ucrânia; 3. As considerações sobre a minha alegada posição relativamente à Ucrânia; 4. O isolamento internacional da Rússia.

Muito haveria a dizer sobre o papel das igrejas e das elites religiosas na mediação de conflitos, que PBM mostrou desconhecer. A situação está profundamente estudada pela Academia. Não deixa de ser importante analisar a alteração da posição de Zelensky relativamente à mediação do conflito ucraniano pelo Papa, inicialmente de repúdio, para posteriormente pedir a sua intervenção. A explicação exigiria algum tempo (farei um artigo sobre esse assunto), mas a verdade é que não foi possível elaborar sobre o tema, porque PBM não gostou da primeira fase da minha resposta e boicotou a continuação da mesma. De uma forma geral, podemos dizer com elevada certeza, goste ou não PDM, que a alteração da posição de Zelensky sobre a matéria se deveu à crescente fraqueza e ao progressivo isolamento político em que se encontra.

PBM desconhece as premissas básicas dos processos de reconstrução pós-conflito. Como é sobejamente conhecido, recorrendo mais uma vez à Academia, não há reconstrução e desenvolvimento sem segurança, e vice-versa. As conferências de doadores ocorrem normalmente após o processo de paz ou no seu decurso, quando já são claros os termos/contornos da solução política, não quando se está longe de se saber o que vai acontecer.

Como é sabido, estamos muito distantes de uma solução política para o conflito ucraniano e, consequentemente, dos seus contornos. Por todas as razões, estas conferências, com o fito da reconstrução, são irrelevantes e extemporâneas, como se pode concluir das conclusões a que se chegou. Os participantes acabaram a falar de sanções… à Rússia. Não deixa de ser fantástico, paralelamente a essa conferência, a BlackRock liderar, não uma conferência de doadores, mas o sindicato dos investidores. O manifesto recuo desses investidores e a ausência de resultados tangíveis é a prova provada da inutilidade dessas conferências, como fiz questão de sublinhar, onde os amigos se encontram e dão muitos beijos e abraços. PBM impediu que isto fosse explicado, talvez pela dificuldade em perceber a nuance entre investidores e doadores.

PBM atingiu o clímax da rudeza quando teve a aleivosia, sem disfarçar a camisola que veste e de modo completamente despropositado, de criticar e fazer um julgamento sobre aquilo que ele pensa ser a minha posição sobre a causa ucraniana:

“… sempre que o oiço, isto é factual, qualquer iniciativa pró ucraniana o sr. general esvazia-a, como ausente de sentido, inconsequente, precipitada, sempre, é a sua linha de raciocínio e de abordagem”.

Não vale a pena perder tempo a comentar a infelicidade destas observações. Talvez PBM quisesse que eu dissesse que a Ucrânia vai vencer a guerra, reconquistar o Donbass e que graças aos financiadores da BlackRock e ao acordo dos minerais vai ser um país independente e soberano, que não perdeu 40% da sua população ativa, que não há mobilização forçada nas ruas (busification), etc. Mas isso eu não vou dizer, porque pauto a minha conduta por critérios éticos diferentes dos de PBM. Não minto às pessoas, certifico as fontes, coisa que ele não faz. Por outro lado, PBM tem de fazer uma atualização da sua base de dados de “clichés”. O da Rússia estar isolada é chão que já deu uvas. Nenhum propagandista com “dois dedos de testa” o continua a usar para não cair no ridículo.

Os equívocos éticos e deontológicos de PBM

Ao longo destes dois últimos anos, PBM tem vindo, nos seus programas, a sonegar ao público informação relevante para a compreensão do conflito na Ucrânia, apenas por não ser abonatória da causa que ele abraça. Entre muitos outros temas…

Foi tabu nos programas da sua responsabilidade abordar temas como o da corrupção na Ucrânia e da investigação jornalística que indiciou Zelensky (Pandora papers) e o seu círculo próximo; veja-se agora a decisão de Zelensky de assinar uma lei que retira poderes ao principal órgão anticorrupção da Ucrânia; a importância política dos grupos neonazis; as baixas ucranianas em combate; a mobilização forçada (busification) em que os mobilizadores agridem e torturam as pessoas que apanham na rua; os passos de Zelensky em direção a um autoritarismo corrupto (parece não ser algo exclusivo da Rússia); as lutas intestinas entre a elite política ucraniana; a notória e pública perda de fé dos ucranianos em Zelensky. etc. Tudo isto já presente na comunicação social ocidental, em particular na norte-americana e britânica. Porque será?

Progressivamente, aquilo que, por conveniência e/ou cumplicidade com os poderes instalados, foi sonegado à opinião pública, vai sendo tornado público confirmando quase na íntegra o que tenho vindo a dizer e a escrever há muito tempo. O tapete começa a fugir debaixo dos pés de quem, como PBM, omite a discussão de factos decisivos. Beneficiando da posição privilegiada de pivô, PBM bloqueou sistematicamente a possibilidade de serem discutidos assuntos importantes, como os atrás referidos. Não lhe era conveniente.

Só aqueles que se preocupam com os factos e com a descoberta da verdade – e não com dogmas e propaganda – serão capazes de desmistificar os sinais mais do que evidentes de que a Ucrânia está a sofrer perdas ímpias e insustentáveis. O que irá dizer PBM quando se tornar impossível escamotear, por exemplo, a forma desonesta como foi escondida do público a verdadeira dimensão das baixas ucranianas?

PBM tem uma cosmovisão provinciana. E eu já estou farto das “tretas” do fantasma de Kiev, das peúgas dos soldados russos e dos cancros do Putin, da falta de munições dos russos, dos ataques russos à central de Energodar e às suas próprias tropas, quando era mais do que óbvio de onde vinham as granadas; os crematórios móveis russos para esconderem as baixas, a economia russa a soçobrar na próxima semana, os ataques russos com trotinetas porque já não têm carros de combate, o envio de soldados com muletas para a frente de combate, etc. Todo este tipo de patranhas fantasiosas de que se alimenta PBM e com que nos brinda, como fossem verdades absolutas e inquestionáveis.

Para ele, tudo o que vem do Governo ucraniano, do Instituto do Estudo da Guerra, a instituição governada pela família dos neoconservadores Kagan, ou dos serviços secretos ingleses, é inquestionável. Para ele é herético e condenável suscitar interrogações, questionar a mentira óbvia, perturbar os seus dogmas e as suas verdades. Para PBM análise é quando o analista corrobora as suas perguntas, antecedidas de longas introduções, com a resposta já incluída. Mas PBM não é o Inquisidor-mor nem os seus programas são sessões do tribunal do Santo Ofício.

Dá-se o caso de PBM andar com o passo trocado. A comunicação social ocidental de referência — antes ferozmente leal a Zelensky — começou a publicar abertamente histórias sobre corrupção, autoritarismo e incompetência dentro do regime ucraniano. Essas mesmas acusações eram antes descartadas como “propaganda russa”. Agora, são notícias de primeira página. O que vem reforçar a justeza das dúvidas que tenho vindo a levantar. Pelo contrário, PBM tem alinhado descaradamente nos seus programas na propagação da mentira, tratando a sua audiência como débeis mentais.

Como disse um antigo alto funcionário da Administração de Zelensky, “se a guerra continuar, em breve não haverá mais Ucrânia pela qual lutar… Zelensky está a prolongar a guerra para se manter no poder.” “Todos os que participaram na propagação desta ilusão partilham essa responsabilidade”. É o caso de PBM e da sua adesão patológica à mentira.

Agora, com três anos de atraso, começa a haver na Ucrânia quem venha corroborar o que tenho vindo a dizer. “A Ucrânia é um peão dispensável num jogo americano… Trump, Putin, Xi [que vão] gastar-nos [à Ucrânia] como trocos, se precisarem.” Sempre tive a noção disto e expressei-o em múltiplas ocasiões, contrariando a tese da luta entre as democracias e as autocracias, que PBM tanto adora.

Como disse um antigo ministro ucraniano, outrora um forte apoiante de Zelensky, “A Ucrânia tem dois inimigos, dois “Vladimir”: Zelensky e Putin, Putin está a destruir a Ucrânia a partir do exterior, mas Zelensky está a destruí-la a partir do interior, destruindo a sua vontade de lutar e o seu moral.” Afinal, o apoio a Zelensky está longe de ser aquele que a propaganda nos quer convencer, contrariando a inquebrantável e acrisolada fé de PBM no decrépito regime instalado em Kiev.

Mais tarde ou mais cedo, PBM terá de se confrontar com a realidade. E nessa altura cá estaremos para verificar quem tem faltado à verdade, quem tem revelado falta de ética e desonestidade intelectual. Pensar não é sacrilégio nem heresia, nem PBM decide quem vai para a fogueira. Questionar os dislates de PBM não é ser pró-russo nem pró-Putin (o que quiserem, tanto faz), mas ser intelectualmente honesto, aquilo que PBM não é, e contestar o atestado de debilidade mental, que ele nos seus programas nos quer passar. Continuo convicto de que não pode valer tudo por causa das audiências.

Fonte aqui

O Major-general Carlos Branco deixa a CNN

(Major-General Carlos Branco, in Facebook, 24/07/2025)


(Foram muitas as patifarias que fizeram ao Major-general Carlos Branco os pivôs da CNN e outros comentadores ignorantes, avençados e insolentes. Uma atuação orquestrada de bullying mediático com – pelo menos – o beneplácito da estação. Mas atingiram o objetivo: calar uma voz informada, isenta e desmistificadora da parcialidade e da propaganda disfarçada de notícia, que é a especialidade da CNN.

Uma perda para a liberdade de expressão e para a democracia. Bem haja, Major-general Carlos Branco. Os verdadeiros democratas estão consigo.

Estátua de Sal, 24/07/2025)


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No seguimento da minha “entrevista” com Pedro Bello Moraes (PBM), no dia 10 de julho, na CNN Portugal, pelas 13 horas, em que este ultrapassou todos os limites da ética e da deontologia jornalística, sem posteriormente se retratar ou admitir o erro pela sua prestação vergonhosa, não me restava outra alternativa que não fosse a de cessar a minha colaboração com a CNN Portugal. Ficou evidente uma assimetria de papéis que tem de ter consequências e que eu não posso consentir.

Criou-se uma situação insustentável em que foram transpostas todas as linhas vermelhas que a paciência sem limites pode tolerar. Foi um péssimo exemplo, um caso daquilo que o jornalismo não pode nem deve ser. O desempenho medíocre e desastrado de PBM vai tornar-se num estudo de caso nas escolas de jornalismo, para se mostrar aos iniciados na carreira o que não se deve fazer, e como não se devem comportar quando se é ignorante e impreparado numa matéria.

O meu agradecimento ao Nuno Santos pelo convite que me fez há três anos para colaborar na análise do conflito ucraniano. A CNN foi pioneira em Portugal no convite a militares para analisarem/comentarem de forma continuada e sistemática situações de conflito, algo que já se fazia noutros países, em particular nos EUA, mas que foi mal recebido num meio que se julga “prá frentex” onde, infelizmente, ainda prevalece alguma inveja e provincianismo. Na altura, isso criou azia a muita gente. Primeiro estranhou-se, mas depois entranhou-se. Agora vários canais, copiando a CNN, recorrem a militares. O que há três anos era considerado, por alguns, um crime de lesa-pátria tornou-se normal, até mesmo incontornável para quem quiser estar no topo das audiências.

Gostaria de sublinhar que a CNN Portugal é a única cadeia de televisão que ainda permite diversidade de opiniões, num panorama nacional onde os laivos censórios se tornam cada vez mais evidentes, no qual se incluem os canais públicos.

O pensamento não alinhado com a propaganda imposta pelo mainstream corre o risco de se tornar delito.

Desejo votos de sucesso à CNN Portugal e aos que nela trabalham com afinco, elevado profissionalismo e dedicação. Não confundo a CNN com a mediocridade de PBM, colocado em horários em que ninguém vê televisão. Os períodos da grande audiência estão destinados a jornalistas com menos de metade da sua experiência profissional, mas indiscutivelmente com mais talento, algo que manifestamente falta a PBM.

A ausência nesta fase do comentário televisivo não significa o abandono da análise dos acontecimentos, que continuarei a fazer noutras plataformas, lembrando sempre que há mais marés do que marinheiros.

Mais uma guerra europeia ao virar da esquina

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 18/07/2025)


Em vez de apelarem ao bom senso e à contenção, elites há que estão sequiosas por envolver os seus povos na guerra, fazendo vista grossa das consequências irreversíveis que uma aventura dessas terá para a Europa e para a humanidade.


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Muito se tem falado do declínio da Europa. A possibilidade de se criar um clima de paz no Velho Continente, que evite acontecimentos dilacerantes como aqueles que o atingiram no século XX, parece estar seriamente comprometida. Para isso, muito tem contribuído a mediocridade das lideranças europeias. Dada a dimensão do tema, limitar-nos-emos a assinalar apenas alguns dos casos mais marcantes.

As guerras intraeuropeias do século XX contribuíram decisivamente para a redução da sua importância geoestratégica. Como resultado da II Guerra Mundial, as potências europeias ficaram, pela primeira vez na história, subordinadas a uma potência não europeia e foram amputadas dos seus impérios coloniais, apesar da resistência de algumas delas aos processos de descolonização. A Europa foi sempre a grande perdedora das guerras ocorridas no seu espaço geográfico, mas nada aprendeu.

O fim da Guerra Fria não só permitiu a afirmação dos EUA como a grande potência global, como proporcionou à Europa, entretanto libertada das grilhetas da Guerra Fria, uma oportunidade histórica única de afirmação internacional, não aproveitada. Houve forças que procuraram seguir esse caminho de libertação, mas não conseguiram prevalecer relativamente aos que defendiam um papel de subordinação estratégica aos EUA.

soft power norte-americano foi, e continua a ser, um instrumento poderoso e eficaz de socialização das elites políticas europeias, fazendo com que subordinem os interesses nacionais e coletivos da Europa aos dos EUA. Não teve grande futuro político quem, na década de noventa, colocava a autonomia europeia à frente do designado elo transatlântico. As iniciativas, para levar por diante a ambição de tornar a Europa num polo de decisão estratégica, foram devidamente sabotadas por Washington e pelos seus servidores internos colocados em centros de decisão, sobre os quais Washington manteve sempre um droit de regard.

Temos presente, por exemplo, as tentativas de levantar uma Política Externa e de Segurança Comum (PESC) e de se avançar com a construção de uma Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD), cuja evolução foi minada pelos britânicos, ao serviço de interesses não europeus. Não será, pois, de estranhar a oposição do presidente Barack Obama ao BREXIT.

A concretização desse projeto de domínio global tornou-se na política oficial dos EUA. Os geoestrategistas norte-americanos deram contributos decisivos para a sua articulação, sugerindo caminhos às lideranças instaladas nos centros de poder em Washington. As ideias de nação indispensável e do excecionalismo americano, proferidas vezes sem conta pela então secretária de Estado Madeleine Albright, faziam parte da concretização desse projeto.

A doutrina Wolfowitz (1992), concebida para consolidar o estatuto de superpotência dos EUA, tinha como primeiro objetivo impedir o ressurgimento de um novo rival, quer no território da antiga União Soviética, quer noutro local, nomeadamente na Europa. Nada melhor, para fazer isso acontecer, do que “seduzir” as elites europeias. O pensamento que subjaz a esse projeto foi posteriormente consolidado por vários think-tanks e académicos, entre outros por Zbigniew Brzezinski no seu “The Grand Chessboard” (1997).

O plano era e continua a ser o mesmo. O alargamento da NATO é um capítulo desse processo, neste caso orientado contra a Rússia. A inclusão da Geórgia e da Ucrânia na Aliança seria a cereja no topo do bolo. Antevendo a reação de Moscovo e a instabilidade que daí adviria, a França e a Alemanha opuseram-se. Na Cimeira da NATO, em Bucareste (2008), o plano enfrentou alguns obstáculos. Para indicar que não permitiria a colocação de bases militares na sua fronteira, em 2008, a Rússia envolveu-se numa guerra na Geórgia. Mesmo assim, o recado não foi entendido.

Entretanto, os EUA instalaram sistemas de defesa antimíssil na Polónia e na Roménia, no âmbito da Abordagem Europeia Adaptativa por Fases (EPAA), da NATO, para fazer face a potenciais ameaças de mísseis balísticos provenientes… do Irão. Estes destacamentos foram acordados no âmbito do plano de Defesa da NATO contra Mísseis Balísticos (BMD), de 2010, na sequência da revisão dos planos do escudo antimíssil da era Bush pela Administração Obama, em 2009. Na prática, isto significa colocar misseis sensivelmente a 5/7 minutos de Moscovo e de S. Petersburgo, sugerindo de modo desengonçado e pouco convincente de que era para fazer face à ameaça iraniana.

Com base nas premissas enunciadas, não será difícil compreender o que aconteceu na Ucrânia nos últimos 20 anos, nomeadamente o golpe de estado que derrubou um governo democraticamente eleito, como parte do necessário confronto para derrotar e esgotar Moscovo. Por isso, há que prolongar a guerra, até que a Europa esteja em condições de combater a Rússia, não importando o que isso possa custar ao povo ucraniano.

Terá sido este o raciocínio que levou o Diretor do Instituto de Economia e Estratégia Militar Mundial, na Escola Superior de Economia, Dmitri Trenin, a escrever no Kommersant que a guerra na Ucrânia é uma “guerra por procuração do Ocidente contra a Rússia. E este confronto, em si mesmo, faz parte de uma guerra mundial em curso, na qual o Ocidente está a lutar para manter a sua hegemonia mundial. Esta será uma guerra longa e os Estados Unidos, com ou sem Trump, continuarão a ser o nosso [da Rússia] adversário. Para nós, o que está em jogo nesta luta não é o estatuto da Ucrânia, mas a existência da Rússia.”

Se os dirigentes europeus tivessem percebido nestes termos a natureza da presente guerra na Ucrânia, ou seja, na perspetiva de uma confrontação entre potências de primeira grandeza, como na verdade é, como um capítulo da concretização de um projeto global, em vez do argumento pueril e panfletário da luta pela expansão da democracia, estariam hoje numa posição mais confortável e vantajosa. Infelizmente, décadas de socialização impossibilita-os de terem uma cosmovisão que se distancie do servilismo.

Exatamente por isso, em vez de racionalizarem a verdadeira causa da confrontação e de orientarem o seu esforço para a resolução do problema, envolveram-se numa linguagem belicista, agitando histericamente o papão de uma invasão russa aos países da NATO, sem terem qualquer indício credível dessa possibilidade, amplificando a ameaça recorrendo a uma série de porta-vozes presentes diariamente na comunicação social. Segundo eles, a guerra com a Rússia é inevitável.

Talvez fizesse sentido evitá-la, porque serão sempre perdedores e a sua situação estratégica piorará. A haver beneficiários do lado ocidental, hipótese extremamente remota e improvável, os europeus teriam de se contentar com os restos. Apesar desta evidência, as domesticadas elites políticas europeias aderiram, sem qualquer hesitação, ao presente rufar dos tambores.

Não deixa de ser oportuno recordar o que aconteceu na preparação de Maidan, em que a Alemanha de Merkel conspirou ombro a ombro com os EUA, mas, na altura de distribuir os despojos, foi posta de lado e não conseguiu meter no governo nenhum dos seus apaniguados. Não foi além de conseguir nomear Wladimir Klitschko para presidente da Câmara de Kiev.

A linguagem dominante em Bruxelas e nas chancelarias europeias tem pouco a ver com a criação de uma capacidade de dissuasão militar europeia, mas sim com uma vontade desenfreada de criar capacidades militares para uma confrontação militar com a Rússia. Por isso, não será de estranhar o alinhamento da retórica de Bruxelas com o das maiores potências do continente.

O atual comissário europeu para a defesa e espaço e antigo primeiro-ministro lituano Andrius Kubilius sugeriu uma “solução final” para a questão russa, ao apelar à Europa para se armar ativamente com vista a um “futuro confronto” com a Rússia. Algo semelhante disse a atual representante para a política externa da União Europeia (UE) e antiga primeira-ministra da Estónia Kaja Kallas, quando afirmou que a “desintegração da Rússia em pequenas nações não é uma coisa má.” Não deixa de ser extraordinário como a narrativa revanchista dos irrelevantes bálticos – os três juntos conseguem ter metade da população de Portugal – se consegue impor na política externa da UE.

O primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron “cantam a mesma música”. Macron apelou a um aumento substancial das despesas de defesa da França nos próximos dois anos, citando ameaças iminentes, leia-se Rússia: “Desde 1945, a liberdade nunca esteve tão ameaçada e nunca foi tão grave”.

Para abrilhantar o cenário, o chanceler alemão Friedrich Merz, que disse mais do que uma vez ser o seu grande objetivo tornar a Alemanha a principal potência militar da Europa, a mesma pessoa que afirmou estar Israel a fazer o “trabalho sujo” por nós [Europa], veio declarar que os esforços diplomáticos para terminar a guerra na Ucrânia se encontram esgotados: “Esgotam-se quando um regime criminoso, recorrendo à força militar, põe abertamente em causa o direito à existência de todo um país e procura destruir as liberdades políticas de todo o continente europeu.”

Esta conversa assenta que nem uma luva na ambição alemã, de longa data, de se libertar do espartilho da Guerra Fria, de se rearmar e de se tornar a grande potência militar da Europa. A Alemanha, do ex-funcionário da Black Rock – Merz, caminha assim, com grande entusiasmo, para uma escalada sem precedentes contra a Rússia. A decisão de entregar misseis Taurus à Ucrânia é mais um dos seus capítulos, com resultados perigosos e muito incertos.

Do outro lado do Canal da Mancha acirra-se a histeria militarista contra a Rússia. O ex-chefe do Exército britânico, General Patrick Sanders, em entrevista ao “Independent”, insta o governo a construir abrigos anti bombas devido à acrescida ameaça de Moscovo ao Reino Unido. Para ele, uma guerra com a Rússia dentro de cinco anos é considerada como um “cenário realista”. E acrescenta: “se a Rússia interromper as operações militares na Ucrânia, poderá lançar em poucos meses um ataque limitado contra um membro da NATO, e o Reino Unido será obrigado a responder. Isso pode acontecer até 2030”. Esta tese foi subscrita por outros dirigentes europeus. A opção dos decisores suecos de distribuir à população manuais de sobrevivência, como um preparativo para uma guerra ao virar da esquina, é reveladora da insanidade que atinge largos setores das elites políticas europeias.

Em vez de apelarem ao bom senso e à contenção, estas elites estão sequiosas por envolver os seus povos na guerra, fazendo vista grossa das consequências irreversíveis que uma aventura dessas terá para a Europa e para a humanidade. À retórica adicionam-se os múltiplos indícios de preparação para um conflito. Por exemplo, o porto de Roterdão, o maior da Europa, está a reservar espaço para navios que transportem material militar; as provocações no mar Báltico aos petroleiros com destino a portos russos são cada vez mais frequentes; a ameaça de colocar uma força de países europeus (a coligação de vontades) na Ucrânia.

Muito se poderia acrescentar para apontar o indisfarçável e destemperado desejo de se avançar para uma confrontação. Dispensamo-nos de referir as insólitas declarações sobre o tema, do secretário-geral da NATO Mark Rutte.

Tudo isto sem haver do lado de Moscovo quaisquer preparativos para atacar um país da NATO ou pretender provocar uma guerra em larga escala, artificialmente lucubrada por dirigentes insensatos e desmemoriados. Depois de três anos a combater no Donbass, com as dificuldades conhecidas, sem recorrer à mobilização e sem ter nenhuma anunciada, contando apenas com contratados, é difícil imaginar qual o interesse da Rússia, com uma população de 144 milhões de habitantes, em querer atacar países da NATO, que não dispõem de matérias-primas ou de quaisquer recursos minerais significativos. Alguém terá de o explicar devagar e com seriedade.

Para não falar da capacidade militar para o fazer e da retórica distópica, que nuns dias afirma estar a Rússia falida e que noutros dias vai atacar a NATO. O futuro da Europa não pode ficar nas mãos do revanchismo báltico e alemão, que já estiveram juntos do lado derrotado da história, na II GG. Já agora, convinha relembrar ao longo dos últimos dois séculos quem atacou quem e como terminaram essas guerras. Talvez essa reflexão possa ajudar a compreender melhor o momento que se vive.

Estes apontamentos serão aproveitados para colar o autor à narrativa russa. Aviso os mais distraídos que não se trata disso, mas tão somente de salvaguardar os interesses da Europa, onde vivo, que só perderá com mais uma guerra.

Quem aposta as fichas na derrota e na fragmentação da maior potência nuclear do mundo devia, ao invés, dar entrada num hospício. Infelizmente, é quem está à frente dos nossos destinos.