A guerra das rosas

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 31/03/2017)
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Theresa May assinou, na passada terça-feira, a carta que dá início ao Brexit. Como diria Paulo Portas, agora é irrevogável. A fotografia do momento da assinatura podia ter sido tirada em 1970. Dá a sensação que Theresa May foi roubar a roupa, os brincos e o colar à campa da Margaret Thatcher. Sinto falta da pena a assinar a carta. Aposto que a vai enviar por fax. Tudo cheira a Naftalina by Dior.

Estamos no momento Jangada de Pedra do nosso velho aliado. O Reino Unido afasta-se da Europa e vagueia ao acaso para mares desconhecidos, tentando recriar ou recuperar a própria identidade. Mesmo embirrando com a actual União Europeia, custa a aceitar este afastamento. Perder a estrela do Reino Unido é muito mais grave do que perder uma estrela Michelin, mesmo sabendo que a contribuição a nível culinário do Reino Unido se fica pelo “fish and chips”.

A União Europeia sem o Reino Unido é como um sorriso sem um dente incisivo central superior. Perdemos o sentido de humor único dos ingleses e ficamos mais tristes nas mãos do humor alemão o que, por si só, é um oximoro.

Cresci a ver o humor dos Monty Python, a ouvir os Beatles e a coleccionar miniaturas dos double-decker (sim, eu sou antigo) e custa-me assistir a este afastamento. Imagino que em breve irão mandar emparedar o túnel do canal da Mancha. Os muros estão na moda.

Como em todos os divórcios, há culpa dos dois lados. Antes do Reino Unido se afastar da União Europeia, já a União Europeia se tinha afastado de si própria. Nem o Reino Unido é o que já foi nem a União Europeia é o que era suposto ser – e assim acabam muitos casamentos.

Não vai ser um divórcio amigável. A União Europeia vai exigir tudo o que puder exigir, quanto mais não seja pelo receio de perder o resto do harém. Perita em chantagens, como se viu no nosso caso, e no caso da Grécia, a UE irá fazer tudo para fazer a vida negra aos britânicos. Por outro lado, o Reino Unido está com a postura de quem diz – vou só comprar tabaco e já volto e depois nunca mais aparece.

Este divórcio vai ser uma espécie de Guerra das Rosas. Não falo da famosa Guerra das Rosas pela disputa do trono inglês entre os de York e os de Lancaster, mas do filme realizado por Danny De Vito, onde Michael Douglas e Kathleen Turner, um feliz casal de classe alta que, perante a vontade da parte da mulher de se divorciar, inicia um brutal e destrutivo conflito ao se deixar arrastar para um divórcio litigioso.

Numa sequência de cenas em crescendo e movidos por uma sede alucinante de vingança, e decisões idiotas, o casal vai acabar por destruir a sua fabula mansão e pertences com requintes de malvadez, acabando por se matarem um ao outro de forma violenta. O filme é uma parábola sobre a mesquinhez e a ganância dos seres humanos, e a fina linha que existe entre o amor e o ódio. Proponho que Theresa May e Donald Tusk, antes de começarem as negociações, assistam a esta obra genial de Danny de Vito.


TOP 5

Divórcio litigioso

1. “Aeroporto do Funchal rebaptizado de Cristiano Ronaldo causa celeuma” – um país que diz “100 anos das aparições de Fátima” e que fica chocado com um aeroporto com nome de uma pessoa que existe.

2.“UTAO cala Passos: objectivo do défice seria alcançado sem medidas extraordinárias”. – Passos precisa de um rectificativo das suas declarações.

3.“Holanda tentou pressionar Costa no caso Dijsselbloem” – ofereceram-lhe mulheres e copos.

4.Teresa Leal Coelho, candidata do PSD à presidência da CML e eleita vereadora por Lisboa em 2013, faltou a mais de metade de todas as reuniões camarárias do município da capital – se a candidatura correr como se espera, nunca mais vai ter de ir a uma reunião.

5.“Busto de Cristiano Ronaldo no aeroporto do Funchal está a ser alvo de chacota na internet e em vários jornais do mundo” – sobre o busto do CR, a minha avó diria o que dizia dos bolos da minha mãe: “Puseste pouco fermento.”

O holandês errante

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 24/03/2017)

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Finalmente, Dijsselbloem é oficialmente considerado uma besta. Demorou, mas lá chegámos. As eleições holandesas mostraram que o Dijsselbloem ainda é menos popular no país dele do que nos países do sul. Desta vez, o presidente do Eurogrupo não disse, como antes das eleições gregas, que os gregos tinham de escolher se queriam ser uma Coreia do Sul ou do Norte. Na altura, eram os do Norte que eram os maus da fita.

Como todos já devem ter conhecimento, excepto os que felizmente estavam bêbedos, Dijsselbloem disse que os países do Sul gastam tudo em álcool e mulheres. O mais incrível é dizer isto como se fosse mau. Quem me dera ter gasto tanto dinheiro em boémia como gastei em bancos. A verdade é que enquanto a nossa taxa de alcoolemia subia, o partido de Jeroen Dijsselbloem caía dos 25% para os 6%. Se eu fosse o holandês, ia apanhar uma cardina.

Tenho a teoria que esta generalização é conversa de quem passou muito tempo com o Durão Barroso. Por outro lado, desconfio que isso, vinho e mulheres, foi o que andou a fazer a troika quando cá esteve por isso não deu por nada no nosso sistema financeiro.

Para muitos, as palavras de Dijsselbloem foram consideradas um comentário infeliz. Vamos lá ver uma coisa, o comentário não é infeliz, é xenófobo e misógino. Se o presidente do Eurogrupo fala desta forma de política europeia, mais valia deitar serradura no chão das reuniões do ECOFIN, dado que isto é conversa de tasca.

Eu sou dos que gastam dinheiro em álcool, mas confesso que a minha dúvida, quando vou para borga, é sempre a mesma: “bebo mais um Famous Grouse ou poupo para pagar uma tese de mestrado a um indivíduo que perceba disso e aldrabo o meu currículo?” Já em termos de gastos com o sexo feminino, tenho de reconhecer que, por acaso, a única vez que gastei dinheiro numa mulher foi em Amesterdão. Teve de ser. Era o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa.

Resumindo, percebo que um indivíduo com o ar do Dijsselbloem ache que para ter mulheres é preciso pagar. Felizmente, não tenho esse problema. O meu problema tem sido o dinheiro que tenho gasto com homens, dado que não há banqueiros do sexo feminino. Em Portugal, temos um vício terrível em gastar dinheiro com malta do sexo masculino, basta dizer que o Mexia ganhou 5,5 mil euros por dia na EDP em 2016. Ou seja, acabo a gastar uma fortuna com um homem e depois não posso desfrutar do sexo feminino, na sua plenitude, porque tenho de apagar a luz porque está caríssima.

No fundo, isto não passa de inveja. Temos boas praias, mulheres bonitas, bom vinho, boa comida e eles têm tulipas. E só não temos mais para gastar nos nossos belos vícios porque muitas das nossas empresas fogem para os “paraísos fiscais” na Holanda. Dá vontade de beber para esquecer.


TOP 5

Copos e mulheres

1. Londres: ataque pode ter sido executado por “lobo solitário” – a nova expressão para terroristas é “lobo solitário”. Eu quero ir sozinho para uma cabana na montanha com um cão e lareira, não me lixem.

2.  Ao fim de nove meses, as obras de restauração no túmulo de Jesus em Jerusalém foram terminadas – está tão lindo que ele não vai resistir a ressuscitar outra vez.

3. O líder do Eurogrupo era, segundo o seu porta-voz, um dos alvos de cartas armadilhadas dirigidas a vários líderes europeus – trazia um garrafa de Porto.

4. Passos considera “história da carochinha” esperar que Europa resolva problema do malparado – tudo indica que Passos vai acabar cozido e assado no caldeirão.

5. Atentado em Londres faz 5 mortos – o mundo está perigoso, de Londres à discoteca Luanda.

Ok, põe-me ko

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 17/03/2017)

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Assunção, com esta desculpa, tenta deixar de ser responsável para passar a ser apenas solidária. Transforma uma incompetência num gesto bonito. Aleluia!


Numa entrevista ao jornal Público, Assunção Cristas revelou pormenores surpreendentes sobre a resolução do BES e não só. Não sei por onde começar. Talvez pela frase: “o Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca”. Provavelmente estavam convencidos de que a troika tratava disso. Se no estado em que estava o sistema financeiro português (BES, BANIF, CGD) no Conselho de Ministros não se falava de banca, mais valia fazerem as reuniões num elevador e falar do tempo. Imagino que nessa altura andassem mais preocupados com os aldrabões do RSI e os chupistas dos pensionistas e não tinham vagar para falar de banqueiros.

Cristas confessa: “Estava no início de férias e recebi um telefonema da ministra das Finanças a dizer: ‘Assunção, por favor vai ao teu e-mail e dá o OK, porque isto é muito urgente, o Banco de Portugal tomou esta decisão e temos de aprovar um decreto-lei’. Este OK cego da Assunção é uma espécie de KO do discurso de exigência que a líder do CDS/PP exibe na Assembleia.

Resumindo, Cristas diz que foi contactada “durante as férias” pela ministra das Finanças para assinar “com urgência”, e “sem conhecer o dossiê”, a resolução do BdP sobre o BES, e nem hesitou. Curioso que isto é mais ou menos como o Salgado fazia na gestão do BES. Para a Assunção, a Maria Luís era a DDT.

Talvez ainda influenciada por ter sido ministra da Agricultura, Assunção desabafa ao jornal que acusou de plantar notícias sobre a fuga de milhares de milhões offshore: “como pode imaginar, de férias e à distância e sem conhecer os dossiês, a única coisa que podemos fazer é confiar e dizer: ‘Sim senhora, somos solidários, isso é para fazer, damos o OK’.” Ou seja, a líder do CDS/PP vem dizer que não tinha conhecimento, daí não ter culpa. Mas o que se espera de quem não tem conhecimento é que tenha sabedoria. Diz um velho dito popular: “conhecimento é saber que o tomate é um fruto, sabedoria é saber que não se deita tomate numa salada de frutas.” Assunção, com esta desculpa, tenta deixar de ser responsável para passar a ser apenas solidária. Transforma uma incompetência num gesto bonito. Aleluia!

Tenho dúvidas se a única atitude que podemos ter, sem conhecer os dossiês, é confiar e dizer que damos o OK. Se calhar, também podemos enrolar o páreo com motivos frutícolas, deitar fora o corneto de morango, interromper as férias e ir saber o que se estava a passar. Custa pensar que alguma das nossas desgraças podiam ter sido evitadas se a água naquele dia não estivesse tão boa. Ainda para mais, para infelicidade nossa, ao mesmo tempo que Cristas estava de férias, a máquina das finanças, do indivíduo de elevado carácter, também tinha tirado uns dias de folga. Maldito bom tempo.


TOP 5

Vai ao teu mail

1. Núncio foi advogado da empresa venezuelana responsável pela saída da maior fatia de dinheiro para os “offshore” – uma coisa é certa, temos de reconhecer que o Núncio foi o indivíduo que mais trabalhou no anterior Governo.

2. Schäuble faz aviso a Portugal: “Certifiquem-se de que não precisam de um novo resgate” – e vocês vejam lá se tomam conta do Deutsch Bank. Tenho a teoria que, desde que morreu o Mister Spock, resta Schäuble como o único ser vivo que não compreende as emoções dos humanos.

3. A 14 de Março é comemorado o dia internacional do pi – ou das palavras censuradas em rádio e televisão.

4. O antigo presidente do BES diz que teria saído “na hora” do banco se o Governador Carlos Costa lhe tivesse dado uma “palavrinha que fosse” – isto dá vontade de dizer um palavrão.

5. Vítor Gaspar: “não tenho memória” de alertas da troika sobre a Caixa – faz confusão que esta gente tão saudosista de outros tempos nunca tenha memória de nada.