Um certo Abril*

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 27/04/2016)

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Baptista Bastos

 

O que foi não voltará a ser. Mas temos de estar sempre preparados para a felicidade, acaso para a descobrir ou inventar. As imagens ditosas desses dias antigos estão delidas. Fomos envelhecendo quase sem dar por isso e aquele ali já não sou eu, nem ela é ela: somos outros com a absurda ilusão de que somos os mesmos.

Passámos pelo tempo. O tempo não magoa: pune; não damos por ele, mas ele dá por nós. Numa igreja dos Altos Pirenéus está inscrita esta sentença, em forma de velado aviso: “Todas as horas nos ferem; a última mata-nos.”

Vivemos rodeados de perigos; porém, o prestígio da palavra revolução exultava-nos e convidava-nos a ir em frente. As revoluções são produto de jovens: são os beijos que nos eram proibidos, os beijos frescos e felizes que prendiam o tempo, e parecia que os não queríamos largar. Vivemos de memórias inesquecíveis e estas constroem a saudade, é o que é. E as memórias são inesquecíveis porque as seleccionamos, e somos sempre novos antes que a realidade nos surpreenda com a desconfiança e o sofrimento.

Claro que os velhos, com a consciência de o ser, propendem para a melancolia, pois talvez entendam que já não são precisos. Os velhos. Preenchem o que lhes sobra com a ideia de que alguma vez foram felizes. Isso basta aos velhos. Não sabem quanto das suas lembranças enfada os novos; não sabem ou não querem saber, o que vem a dar no mesmo.

Todavia, viveram, arrebatados, os vertiginosos dias de Abril, porque eram muito novos, e a esperança era o sonho cuja substância se tornara palpável. Não queriam “mandar aqui”: os desejos eram mais modestos: apenas desejavam que a felicidade se prolongasse. Ainda não tinham sido castigados com a evidência de que até o amor morre. As revoluções, não: transformam-se, mas a raiz inicial é sempre a mesma, singela e única: o homem precisa de liberdade e de ser feliz.

*Ao Francisco e ao Manuel, os tempos novos

Apoquentações

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 20/04/2016)

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Baptista Bastos

O deputado Montenegro, ao que parece figura de relevo no PSD, manifestou acentuada apoquentação com o facto de António Costa ter ido à Grécia visitar um campo de refugiados e, de caminho, conversar com Alexis Tsipras. O encontro durou menos de uma hora; tanto bastou para que o desassossegado Montenegro ficasse agitadíssimo de inquietação. Tsipras e Costa sabem que a União está a dissolver-se com a pressão exercida pelo triunvirato (Comissão Europeia, FMI e Banco Central) que domina países, reduz povos à submissão e impõe princípios imperiais às nações.

O mal-estar é generalizado. Os movimentos anti-austeridade multiplicam-se. A tenaz de uma política de “alternância” sem alternativa atingiu um ponto insuportável. O Partido Popular Europeu, onde se alberga toda a Direita, até às franjas do neonazismo, e ao qual pertence, com alvoroços de entusiasmo, o PSD português, actua alimentado pela arrogância de quem não tem de prestar contas a ninguém. Pedro Passos Coelho geriu o nosso país do mesmo modo discricionário. São todos farinha da mesma moagem. Presumo que o deputado Montenegro, ao criticar a curta viagem de António Costa, entendeu parte da questão; uma parte pequena, módica, e não o todo da questão.

O governo português não agrada à direcção desta Europa. As afrontosas declarações de Draghi, quando cá esteve, são significativas. E Costa tem, por igual, o que se chama “má imprensa”, porque esta abandonou o propósito fundamental de informar, esclarecer, para ser o papagaio dos poderes conservadores.

Costa pretende estimular uma contra-corrente que liberte a Europa desta evidente tirania, e recrie os princípios morais e humanos com que foi fundada a União. As coisas parecem melhorar para esta orientação. Em Espanha, em Itália e, até, na França do pobre Hollande, as inquietações populares e políticas não deixam lugar a dúvidas.

Ça ira.

Pequena memória das ruas e das raparigas

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 01/04/2016)

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Baptista Bastos

Há muito tempo que não passava por estas ruas. Aqui nasci, aqui aprendi a sobreviver. As ruas não são locais amenos; são instâncias de desaforo e temos de saber como nos defender. Foi nestas ruas e nas Redacções dos jornais que sempre me senti ameaçado e, simultaneamente, protegido. Fiquei, com sete anos, órfão de mãe. O meu pai trabalhava de noite, dormia de dia, e a minha avó Palhaça, assim como o meu primo Armando, surdo-mudo, enorme e atento, tomavam conta de mim. O meu primo armava aos pássaros e, por mais de uma vez, fui com ele vê-lo montar os bretes. Ele percebia e entendia os pássaros como nunca mais vi assim ninguém.

A minha família era enorme, com muitas primas e primos, e habitava zonas diferentes do bairro. Eu percorria todo aquele território, era amigo dos muitos ciganos que também lá moravam, e eram mantidos na ordem por um velho senhor de longas barbas, vestido de negro, Dom Teodósio, que costumava sentar-se à porta de casa, a observar o movimento e, ocasionalmente, a conversar com os homens seus amigos. Toda a gente gostava daqueles ciganos, e havia um, mais novo, grande jogador de bilhar às três tabelas, muito bem vestido, que ostentava um enorme anel de ouro, no dedo mindinho da mão esquerda

Era um bairro bom e acolhedor, cheio de sol e de raparigas.

As raparigas cheiravam bem e iam aos bailes das colectividades, aos sábados, e nós encostávamo-nos a elas, por vezes beijávamos-lhes as orelhas e elas sorriam felizes e divertidas.

Nesses sábados penteávamo-nos com fixador e usávamos umas popas a preceito. As camisas tabeladas, custavam 50 escudos, e descíamos até Alcântara ou amarinhávamos o Bairro Alto, para ir aos bordéis. As donas dos bordéis enxotavam-nos para a rua, éramos muito novos para aquelas assistências, e as mulheres riam muito e alto.

Quando morria alguém, as pessoas faziam “quêtes”, ou para se comprar flores ou para se ajudar quem cá ficava. Quando uma rapariga era desonrada, quer dizer: quando deixava que o namorado ou outro lhe tirasse os três, era ostracizada caso o tunante não casasse com ela. Com as ciganas ninguém se metia. Os ciganos usavam navalhas e outros métodos dissuasores e viviam num mundo de honra e de defesa e manutenção de outros valores.

Estava a escrever esta crónica quando, de repente, se me impôs o perfume das raparigas e o riso claro e único delas, nas épocas em que a Primavera causa tonturas e as exacerba. Agora, pergunto eu: tudo isto poderá ser esquecido?


Um grande romance de amor e de guerra

Pouso este belíssimo romance de João Paulo Guerra, cuja leitura me enche daquela alegria de que falava Montesquieu: “Não há uma boa hora de frequência de um bom livro que me não atenue e o sofrimento, qualquer que ele seja.” “Corações Irritáveis” (estimulante título camiliano) constitui o combate que João Paulo Guerra tem estabelecido contra as iniquidades da política que levam aos infortúnios da guerra. Ele sabe que todas as histórias beligerantes contêm, no seu bojo, uma grande história de amor. Escrito num português de lei, como é timbre do autor, “Corações Irritáveis” leva-nos a percorrer os caminhos da consciência lesada por uma circunstância medonha, que nada tem a ver com obtusas ideias de “patriotismo.” Todas as guerras têm uma causa económica, adverte João Paulo Guerra. Um texto invulgar pelos níveis de leitura que propõe.