A peste do futebol

(António Guerreiro, in Público, 25/05/2018)

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António Guerreiro

Consumada a futebolização do país, chegados ao estádio último de um ininterrupto matraquear futebolístico do espaço público, já os ideólogos desportivos se parecem com hooligans e os hooligans se parecem com os ideólogos desportivos. Todos primos, todos irmãos.

Para prosseguir a crónica de uma intoxicação voluntária, aproprio-me do título de um livro que não li, de dois sociólogos franceses. Basta-me o título: Le football, une peste émotionnelle (“O futebol, uma peste emocional”). Em vez de peste, o futebol-espectáculo organizado também pode ser um lugar de formações sociopatológicas. Ou uma obsolescência desportiva. O que não devemos fazer é naturalizar o que nele e à sua volta se passa. Tal como não devemos tratar como meros desvios ou derivas aquilo que já constitui a própria substância do espectáculo. E não é preciso ter ocorrido um episódio de violência real para percebermos o que tem sido uma continuada violência simbólica, exercida como uma injunção colectiva através do empreendimento dos media.

A crónica de uma violência normalizada, ou mesmo da banalidade do ódio, é aquela que nos fala dessa peste emocional promotora da barbárie nos estádios e à volta deles, que difunde o racismo, o populismo, os nacionalismos xenófobos, os regionalismos atávicos e os ódios identitários, dando origem a uma regressão cultural generalizada.

O futebol-espectáculo não é simplesmente um jogo colectivo, tornou-se uma organização para o enquadramento pulsional das multidões: e os estádios de futebol são lugares concentracionários, modelos de totalitarismo. É preciso abdicar da ideia de que são os grandes acontecimentos que determinam essencialmente os homens. Pelo contrário, são as catástrofes minúsculas de que é feita a vida quotidiana que têm uma influência maior e mais duradoura.

Ora, o futebol, que é uma crónica ininterrupta de catástrofes minúsculas, dramatizadas de maneira enfática através da mediatização e da espectacularização exacerbadas, propõe de maneira ideal a violência da competição desportiva. O bárbaro — escreveu Claude Lévi-Strauss — é sobretudo o homem que acredita na barbárie. No futebol-espectáculo instalou-se a barbárie da competição desportiva e a barbárie originada pela peste emocional. Lutas, enfrentamentos, guerras, conflitos, rivalidades, provações, desafios agonísticos: o mais extremo campo semântico do darwinismo social transferiu-se para aqui. E os media praticam o incitamento à guerra e montam o palco das baixas contendas. Não fazem jornalismo desportivo: são, digamos assim, especialistas de polemologia do futebol.

E os jogadores, no meio de tudo isto? Os deuses do estádio são os representantes de formas extremas de escravidão, que a nossa época recalca e não ousa pensar. Há uma pequena parte com ganhos tão astronómicos que tudo o resto é esquecido. E o resto é a instrumentalização dos indivíduos no mais alto grau,  estritamente reduzidos à sua função específica: espera-se que eles sejam um apêndice da performance absoluta. E, por serem isso e nada mais, não podem falar para além daquilo que lhes é consentido pelo clube, não podem protestar contra os patrões, mal são “comprados” ficam destituídos de todo o direito e têm como única condição serem “activos” dos clubes. Têm de abdicar de toda a autonomia e da vida privada. São inteira propriedade do clube, da empresa desportiva que os compra, os vende, os empresta.

E quanto mais valem como desportistas, menos valor têm como pessoas. Chegámos aqui ao grau último da mercadorização da existência. Não há nenhum deus do estádio que não seja ao mesmo tempo uma criatura que se defronta com o inferno.

A política por outros meios

(António Guerreiro, in Público, 20/0472018)

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António Guerreiro

No tempo em que os media eram designados como o quarto poder, eles serviram muitas vezes de estação elevatória do jornalismo à política (desse movimento, foi Paulo Portas o mais eloquente exemplo). Tratava-se, segundo o imaginário mais comum, de um movimento ascensional.

Quando os media tradicionais começaram a perder força e deixou de ser pertinente falar no quarto poder, o movimento inverso tornou-se muito mais frequente: a grande aspiração dos políticos passou a ser a de prolongar as suas actividades por meio da intervenção nos media, ocupando o lugar outrora reservado a intelectuais e a uma elite jornalística, que foram forçados ao exílio ou à extinção. E aí temos uma numerosa milícia de políticos que fazem esse trânsito para a condição de activos reformados, de falsos estagiários, de carismáticos senadores, de profissionais em reciclagem, de almas em processo de purificação, de aves migratórias em preparação para voos mais altos.

Ainda na semana passada foi reforçado o contingente com a entrada, no Expresso, de dois novos elementos, um de elevada patente, Luís Montenegro, e outro elevado e patente, Sérgio Sousa Pinto. Trata-se de continuar a fazer política por outros meios? Isso é o que se diria no tempo em que política e jornalismo eram actividades autónomas, embora servindo os mesmos fins e dotadas dos mesmos ideais. Mas agora devemos reconhecer que o actual processo dominante consiste numa homogeneização dos dois campos, o que permite aos políticos fazerem jornalismo por outros meios. De tal modo que quando são recrutados pelos media estão apenas a entrar numa relação de verdade consigo próprios e com os seus eleitores: de um modo geral, eles sempre fizeram algo que entra no âmbito das atribuições jornalísticas, mesmo quando pareciam estar a tempo inteiro na política. Praticaram uma sutura dessas duas esferas e trouxeram a ambas a mesma linguagem. Vemos isso perfeitamente quando o jargon jornalístico se tornou comum ao jargon político e os políticos parecem conhecer tão bem a redacção dos jornais e os estúdios da rádio e da televisão como estes conhecem os meandros mais ocultos do mundo político.

Vem assim à luz uma inconfessada fraqueza do poder que já foi quarto, antes de se ter dado uma viragem na escala e de a distribuição e hierarquização dos poderes se apresentar de maneira diferente. Na verdade, os media não perderam poder, mas quem tomou conta desse poder não são as mesmas instâncias que o geriram quando ele estava distribuído segundo o ideal de uma esfera pública transparente. Aos jornalistas com a ambição de entrar na política sucederam os políticos que ascendem quando entram no jornalismo do comentário e da opinião. E isto é um sintoma de que há um novo regime de experiência e de poder que já foi designado com um neologismo: mediarquia, o governo dos media (mas também a arqueologia dos media).

Os media funcionam hoje como distribuidores de poder relativamente aos quais deixaram de ser adequadas as formas tradicionais de crítica (sobretudo aquelas que faziam a crítica dos meios de comunicação de massa). Daqui decorre que aquilo a que chamamos hoje democracia está longe de ter o mesmo sentido que o conceito tinha nos antigos tratados de teoria política.

E, de maneira concomitante, a crítica aos media também já não pode seguir as mesmas vias de análise. Questões como as da mentira e massificação deixaram completamente de ser pertinentes. O que importa agora analisar é uma complexa estrutura cujo poder está disseminado ou não se situa no lugar onde parece situar-se.

A ideia de geração

(António Guerreiro, in Público, 06/04/2018)

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António Guerreiro

A  morte de Manuel Reis, fundador das discotecas Frágil e Lux (para além de muitas outras “obras” que marcaram a vida urbana lisboeta nos últimos trinta anos) deu origem a uma pequena e bem localizada discussão pública que, pelo menos implicitamente, faz apelo ao conceito de geração. As divergências que ressaltaram da polémica mostram que mesmo pessoas que viveram nos mesmos sítios e ao mesmo tempo não têm a experiência histórica comum que é constitutiva daquilo a que se chama “geração”, segundo o uso que na historiografia (e na história muito espontânea, onde prevalece a memória) se faz desse conceito. Nesta acepção, não basta ter a mesma idade, ser contemporâneo e ter andado pelos mesmos sítios para se pertencer à mesma geração.

O que conta para transformar um grupo de indivíduos numa geração identificada, com um sentido de pertença geracional, é a maneira como um acontecimento se torna uma experiência partilhada. É neste sentido que falamos da geração do Maio de 68, da qual excluímos aqueles que na época tinham entre 16 e 25 anos (isto é, tinham a mesma idade dos estudantes envolvidos) mas não participaram nem foram tocados pelo acontecimento.

Para gerar uma geração (uso conscientemente o pleonasmo) é necessário um acontecimento que se torne uma experiência comum. As posições muito polarizadas a que assistimos, em torno daquilo a que foi o “efeito Manuel Reis” (ao qual cada um dos pólos atribui um alcance e um significado completamente diferentes), mostram precisamente que o efeito de geração é diferenciado não apenas segundo os meios sociais, culturais e geográficos, mas também segundo a maneira como se constitui a experiência de cada indivíduo.

O conceito sócio-histórico de geração tem hoje, como sabemos, usos bastante alargados e pouco rigorosos. É um conceito nómada. Filósofos como Mannheim e Ortega Y Gasset tentaram dar-lhe um sentido preciso, mas o regime de historicidade que se impôs entretanto é o do curto termo, de maneira que a actual ideia de geração acabou por ser assimilada por uma prática muito comum que consiste em escandir o tempo histórico em décadas, atribuindo-lhes uma certa autonomia.

É uma contagem completamente convencional, que não pode ter nenhum verdadeira significado histórico, mas que satisfaz a ilusão historicista de que a história é uma perpétua actualização. E é assim que na polémica a que me referi várias vezes se mencionou a “geração dos anos 80”. Esta “epoquização” fixada por uma regularidade decimal foi imposta pela obsessão dos media por balanços, efemérides, fins e recomeços. As construções historiográficas por décadas são uma apropriação jornalística da história que rouba o tempo para o devolver sob a forma de passado histórico. Mal as coisas acontecem, já estão transformadas em história. Deste modo, nada produz efeito e até o que é sólido se dissolve no ar, de acordo com a lei formulada por um velho senhor do século passado. A discussão que teve lugar a propósito de Manuel Reis está profundamente contaminada, de um lado e de outro, por uma lógica jornalística que não conhece os instrumentos para analisar aquilo a que, na linguagem de uma sociologia sem pretensões científicas mas com um grande poder de interpretação, se chama “fenómenos de superfície”. O Frágil foi um desses fenómenos. Julgo que é tão errado atribuir-lhe a profundidade que ele não tem e fazer dele um centro urbano de irradiação geracional, como retirar-lhe completamente o seu significado alegórico, enquanto cristalização de acções, desejos, tendências e tropismos que hoje podem ser lidos na sua plena significação.