A ideia de geração

(António Guerreiro, in Público, 06/04/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

A  morte de Manuel Reis, fundador das discotecas Frágil e Lux (para além de muitas outras “obras” que marcaram a vida urbana lisboeta nos últimos trinta anos) deu origem a uma pequena e bem localizada discussão pública que, pelo menos implicitamente, faz apelo ao conceito de geração. As divergências que ressaltaram da polémica mostram que mesmo pessoas que viveram nos mesmos sítios e ao mesmo tempo não têm a experiência histórica comum que é constitutiva daquilo a que se chama “geração”, segundo o uso que na historiografia (e na história muito espontânea, onde prevalece a memória) se faz desse conceito. Nesta acepção, não basta ter a mesma idade, ser contemporâneo e ter andado pelos mesmos sítios para se pertencer à mesma geração.

O que conta para transformar um grupo de indivíduos numa geração identificada, com um sentido de pertença geracional, é a maneira como um acontecimento se torna uma experiência partilhada. É neste sentido que falamos da geração do Maio de 68, da qual excluímos aqueles que na época tinham entre 16 e 25 anos (isto é, tinham a mesma idade dos estudantes envolvidos) mas não participaram nem foram tocados pelo acontecimento.

Para gerar uma geração (uso conscientemente o pleonasmo) é necessário um acontecimento que se torne uma experiência comum. As posições muito polarizadas a que assistimos, em torno daquilo a que foi o “efeito Manuel Reis” (ao qual cada um dos pólos atribui um alcance e um significado completamente diferentes), mostram precisamente que o efeito de geração é diferenciado não apenas segundo os meios sociais, culturais e geográficos, mas também segundo a maneira como se constitui a experiência de cada indivíduo.

O conceito sócio-histórico de geração tem hoje, como sabemos, usos bastante alargados e pouco rigorosos. É um conceito nómada. Filósofos como Mannheim e Ortega Y Gasset tentaram dar-lhe um sentido preciso, mas o regime de historicidade que se impôs entretanto é o do curto termo, de maneira que a actual ideia de geração acabou por ser assimilada por uma prática muito comum que consiste em escandir o tempo histórico em décadas, atribuindo-lhes uma certa autonomia.

É uma contagem completamente convencional, que não pode ter nenhum verdadeira significado histórico, mas que satisfaz a ilusão historicista de que a história é uma perpétua actualização. E é assim que na polémica a que me referi várias vezes se mencionou a “geração dos anos 80”. Esta “epoquização” fixada por uma regularidade decimal foi imposta pela obsessão dos media por balanços, efemérides, fins e recomeços. As construções historiográficas por décadas são uma apropriação jornalística da história que rouba o tempo para o devolver sob a forma de passado histórico. Mal as coisas acontecem, já estão transformadas em história. Deste modo, nada produz efeito e até o que é sólido se dissolve no ar, de acordo com a lei formulada por um velho senhor do século passado. A discussão que teve lugar a propósito de Manuel Reis está profundamente contaminada, de um lado e de outro, por uma lógica jornalística que não conhece os instrumentos para analisar aquilo a que, na linguagem de uma sociologia sem pretensões científicas mas com um grande poder de interpretação, se chama “fenómenos de superfície”. O Frágil foi um desses fenómenos. Julgo que é tão errado atribuir-lhe a profundidade que ele não tem e fazer dele um centro urbano de irradiação geracional, como retirar-lhe completamente o seu significado alegórico, enquanto cristalização de acções, desejos, tendências e tropismos que hoje podem ser lidos na sua plena significação.

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