A política por outros meios

(António Guerreiro, in Público, 20/0472018)

Guerreiro

António Guerreiro

No tempo em que os media eram designados como o quarto poder, eles serviram muitas vezes de estação elevatória do jornalismo à política (desse movimento, foi Paulo Portas o mais eloquente exemplo). Tratava-se, segundo o imaginário mais comum, de um movimento ascensional.

Quando os media tradicionais começaram a perder força e deixou de ser pertinente falar no quarto poder, o movimento inverso tornou-se muito mais frequente: a grande aspiração dos políticos passou a ser a de prolongar as suas actividades por meio da intervenção nos media, ocupando o lugar outrora reservado a intelectuais e a uma elite jornalística, que foram forçados ao exílio ou à extinção. E aí temos uma numerosa milícia de políticos que fazem esse trânsito para a condição de activos reformados, de falsos estagiários, de carismáticos senadores, de profissionais em reciclagem, de almas em processo de purificação, de aves migratórias em preparação para voos mais altos.

Ainda na semana passada foi reforçado o contingente com a entrada, no Expresso, de dois novos elementos, um de elevada patente, Luís Montenegro, e outro elevado e patente, Sérgio Sousa Pinto. Trata-se de continuar a fazer política por outros meios? Isso é o que se diria no tempo em que política e jornalismo eram actividades autónomas, embora servindo os mesmos fins e dotadas dos mesmos ideais. Mas agora devemos reconhecer que o actual processo dominante consiste numa homogeneização dos dois campos, o que permite aos políticos fazerem jornalismo por outros meios. De tal modo que quando são recrutados pelos media estão apenas a entrar numa relação de verdade consigo próprios e com os seus eleitores: de um modo geral, eles sempre fizeram algo que entra no âmbito das atribuições jornalísticas, mesmo quando pareciam estar a tempo inteiro na política. Praticaram uma sutura dessas duas esferas e trouxeram a ambas a mesma linguagem. Vemos isso perfeitamente quando o jargon jornalístico se tornou comum ao jargon político e os políticos parecem conhecer tão bem a redacção dos jornais e os estúdios da rádio e da televisão como estes conhecem os meandros mais ocultos do mundo político.

Vem assim à luz uma inconfessada fraqueza do poder que já foi quarto, antes de se ter dado uma viragem na escala e de a distribuição e hierarquização dos poderes se apresentar de maneira diferente. Na verdade, os media não perderam poder, mas quem tomou conta desse poder não são as mesmas instâncias que o geriram quando ele estava distribuído segundo o ideal de uma esfera pública transparente. Aos jornalistas com a ambição de entrar na política sucederam os políticos que ascendem quando entram no jornalismo do comentário e da opinião. E isto é um sintoma de que há um novo regime de experiência e de poder que já foi designado com um neologismo: mediarquia, o governo dos media (mas também a arqueologia dos media).

Os media funcionam hoje como distribuidores de poder relativamente aos quais deixaram de ser adequadas as formas tradicionais de crítica (sobretudo aquelas que faziam a crítica dos meios de comunicação de massa). Daqui decorre que aquilo a que chamamos hoje democracia está longe de ter o mesmo sentido que o conceito tinha nos antigos tratados de teoria política.

E, de maneira concomitante, a crítica aos media também já não pode seguir as mesmas vias de análise. Questões como as da mentira e massificação deixaram completamente de ser pertinentes. O que importa agora analisar é uma complexa estrutura cujo poder está disseminado ou não se situa no lugar onde parece situar-se.

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