Mesmo após a humilhação a Europa insiste que a paz é guerra

(Pepe Escobar, in SCF, 21/08/2025, Trad. Estátua de Sal)


O Império do Caos está em guerra, híbrida e não só, não apenas contra os BRICS, mas contra a integração da Eurásia.


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Bastou uma foto para registrar na posteridade a humilhação total das elites políticas europeias no ano de 2025: a Coligação dos Idiotas, na Sala Oval, alinhando-se como um bando de crianças assustadas, severamente repreendidas pela voz do Mestre — o Diretor e Mestre do Circo.

Isso também foi descrito de forma clara quando Trump colocou a Europa de joelhos. .É claro que o presidente Putin já havia previsto isso, há mais de seis meses:

“Garanto-vos que Trump, com seu caráter e persistência, restaurará a ordem muito rapidamente. E todos eles, vocês verão, em breve estarão aos pés do mestre, abanando o rabo gentilmente.”

A humilhação na Casa Branca selou o acordo e reconfirmou uma obsessão: para a “liderança” do lixo europeu, em todos os níveis no que diz respeito às relações com a Rússia, Paz é Guerra.

Brandindo a sua lógica distorcida, eles não conseguem entender que se a Ucrânia for instrumentalizada — na verdade já está a sê-lo, desde antes de Maidan em 2014 — para assediar e desestabilizar a Rússia nas suas fronteiras ocidentais, a Rússia contra-atacará com violência.

Isso está no cerne do conceito russo de “causas subjacentes” à tragédia na Ucrânia, que devem ser abordadas minuciosamente se houver alguma hipótese real de “paz“, trumpiana ou não.

No panorama geral, isso traduz-se em o Império do Caos e a Rússia se sentarem à mesa para estabelecer um novo acordo de «indivisibilidade da segurança» – tal como Moscovo propôs em dezembro de 2021: na altura, a proposta foi recebida com uma resposta de não resposta.

O novo delírio da EUrolixo Corporation. é atribuir a si mesma o desenho das futuras fronteiras entre uma Europa reequipada e uma Rússia que inevitavelmente lhe infligirá uma derrota estratégica massiva.

É muito improvável imaginar que Trump seja capaz, sozinho, de impor uma nova realidade estratégica à belicosa, porém sem dinheiro, Coligação dos Idiotas. Aconteça o que acontecer com a Ucrânia, Trump, com base nas suas próprias vociferações distorcidas, quer que a Europa “contenha” a Rússia de agora em diante, usando um arsenal de armas americanas absurdamente caras.

Então o que muda é o caráter deste capítulo em particular das Guerras Eternas: ele será travado pela Coligação dos Idiotas, e não pelos americanos.

No curto prazo, isso também revela a única estratégia disponível para a combinação EUrolixo/Kiev: sobreviver a Trump até às eleições intercalares de 2026, destruir o que resta da sua presidência e garantir o regresso da mega quadrilha russofóbica em 2028.

Que Mão Morta irá prevalecer?

Um membro da velha guarda do Estado Profundo, que tinha acesso privilegiado a todos os chefões da era da Guerra Fria, resume as armadilhas que aguardam a Rússia:

“A Rússia está a levar demasiado tempo a neutralizar a Ucrânia, dando oportunidade á NATO de empreender outras manobras de distração. Embora a ofensiva lenta na Ucrânia salve vidas, a NATO procura enfraquecer a posição estratégica da Rússia nos Balcãs e noutros lugares, o que pode custar muito mais vidas no futuro. Se os eslavos nos Balcãs forem esmagados, isso pode enfraquecer estrategicamente a posição geral da Rússia, e isso é muito mais custoso do que uma grande ofensiva relâmpago à Estaline na Ucrânia russa. A Rússia precisa de encerrar esta guerra, agora, e de se voltar para os seus problemas no sul, nos Balcãs, e para as intrigas em Baku.”

Trump, é claro, ignora essas subtilezas da Big Picture. Na melhor das hipóteses, ele admitiu, à Fox News, que “a Ucrânia não recuperará a Crimeia” e “a Ucrânia não se juntará à NATO“. Mas ele não parece importar-se com o facto de “França, Alemanha e Reino Unido quererem enviar tropas para a Ucrânia” como parte do novo kabuki: “garantias de segurança“. Essa é uma linha vermelha intergaláctica para Moscou.

Paralelamente, é ilusório acreditar que Putin esteja finalmente pronto para negociar a “paz“. Não se trata de paz; trata-se sempre de apresentar factos incontestáveis ​​no campo de batalha, porque Moscovo sabe que esta guerra só será vencida no campo de batalha.

As forças russas alcançaram a última linha defensiva da Ucrânia no Donbass: Slavyansk-Kramatorsk. E estão rapidamente cercando redutos importantes perto de Pokrovsk e Konstantinovka. É um ponto de viragem estratégico/psicológico! A partir daí, o céu – a estepe – é o limite.

Some-se a isso o ataque cibernético combinado ao Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, que revelou que as perdas de Kiev, em termos de mortos e desaparecidos, chegam a uns impressionantes 1,7 milhão de pessoas.

Tudo isso significa que estamos a aproximar-nos rapidamente do momento fatídico em que o vencedor ditará os termos completos da capitulação do inimigo. Não há necessidade de marchar até Bankova, em Kiev, e hastear a bandeira russa.

Entregar-se a um acordo de “paz” sórdido e falsificado, manipulado por Trump, acarreta uma série de sérias derrotas estratégicas para a Rússia.

Por exemplo: deixar Odessa e Kharkov para as maquinações do MI6 e dos britânicos. Ao mesmo tempo, Moscovo precisa de começar a prestar muito mais atenção ao seu ponto fraco na frente do Cáucaso Meridional, onde a melíflua iniciativa turca visa estabelecer um cinturão/corredor pan-Turânico.

O Império do Caos está em guerra, híbrida e não só, não apenas contra os BRICS, mas também contra a integração da Eurásia. Algumas das suas implicações certamente serão discutidas na próxima cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCS) em Tianjin, de 31 de agosto a 1 de setembro. Putin, Xi, Modi e Pezeshkian estarão todos presentes.

E isso deve incutir em todos os atores a necessidade dos BRICS e da OCS, mais cedo ou mais tarde, representarem a Eurásia, unindo-se cada vez mais, aprofundando não apenas a sua cooperação económica, mas também geoestratégica. Só há um caminho a seguir: negociar em conjunto com o Império do Caos, cada vez mais descontrolado. Putin e Xi já sabem disso. Lula e Modi estão a começar a entender.

Entretanto, é irresistível a tentação de retratar Putin como alguém que concedeu a Trump uma saída magnânima: permitir sair da derrota estratégica imperial na Ucrânia sem perder a dignidade.

O problema é que a enorme frente Paz é Guerra jamais aceitará isso. E isso vai muito além da EUrolixo Corporation, incluindo a velha guarda atlantista, grandes atores das finanças internacionais e os neoconservadores mortos-vivos, mas não ainda verdadeiramente mortos.

Rússia, China, BRICS/OCS precisam de estar em alerta vermelho 24 horas por dia, 7 dias por semana. A frente Paz é Guerra já está a converter-se na frente do Novo Mercado de Armas Nucleares (NTB): ameaças nucleares, armas biológicas e ataques terroristas. A Rússia pode ter a Mão Morta – que exterminará qualquer atacante. A frente do Novo Mercado de Armas Nucleares (NTB), na melhor das hipóteses, tem a mão morta e esquelética de um morto-vivo.

Fonte aqui

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Obrigado, Excelência. Eu não esqueço.

(Carlos Esperança, in Facebook, 22/08/2025)


Obrigado, Excelência, por tudo o que tem feito por nós. Eu sou dos portugueses de bem, não sou ingrato. Por isso lhe agradeço. Num país em que temos pudor de manifestar os nossos sentimentos, quero dizer-lhe que gosto de si, Excelência.

Não esqueço a generosidade de quem abdicou da lucrativa empresa de avenças para nos dirigir, ajudado por 16 abnegados ministros e 43 ajudantes, e, muito menos, a ingratidão dos que o censuram, porque só sabem dizer mal.

Obrigado, Excelência, por ter roubado uma semana às férias para nos aturar, sim, para nos aturar, a nós, ingratos, que até de um refrescante gin com o seu grande esteio, Leitão Amaro, o queríamos privar. Não eu, Excelência, que lhe agradeço e não esqueço o que lhe devo, mas todos esses ingratos que o esgotaram em dois dias, depois de ter voltado.

Obrigado por nos poupar nos incêndios a fastidiosas informações como aquelas com que a ministra Temido e a Dr.ª Graça Freitas nos massacravam no período da Covid-19. Uns fazem, como V. Ex.ª, outros falam e perdem tempo a responder a jornalistas.

Ouvi-o, por devoção e dever, toda aquela hora em que falou do muito que lhe devemos e da sorte que nos coube por estarmos agora livres dos governos extremistas de António Costa. E quanto sofri, Excelência, ao vê-lo empolgado e empolgante a falar dos êxitos e a anunciar o regresso da Fórmula 1 ao Algarve, enquanto as televisões perfidamente nos incomodavam com o ecrã dividido entre V. Ex.ª e os fogos! Mesmo assim, ainda gastou 7 minutos com os fogos que ofuscaram a presença dos nossos melhores, do Dr. Hugo Soares e do Dr. Marques Mendes, a este nem o vi, e que vai ser o nosso próximo PR.

Excelência, quem julga que não é sensível não viu a cara de sofrimento quando falou ao País das 45 medidas, incluindo o fim de taxas moderadoras na Saúde, com gravata preta pelo luto de bombeiros, depois da exaustiva viagem a Viseu onde foi mostrar o Dr. Ruas aos ministros. Quarenta e cinco medidas, Excelência, bastavam duas para eu o idolatrar.

Excelência, agora que tem a oportunidade histórica de erradicar o PS não o poupe. E, quanto ao PR, esse socialista dissimulado, que andou com o PS ao colo durante 8 anos, que até aceitou que o PCP e o BE lhe dessem apoio parlamentar, anseio por vê-lo curvar-se a dependurar as insígnias de PR no peito ilustre do Dr. Marques Mendes.

O PSD, que foi uma vergonha com Rui Rio, é agora a referência dos que veem em V. Ex.ª o timoneiro, o grande líder, que será reconduzido com maioria absoluta enquanto a porcaria das eleições servir para gastar tempo, dinheiro e para dividir os portugueses.

Não há fogo que lhe resista, Excelência.

Obrigado, Excelência, por dar o máximo!

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A Economia do Fogo num país de aselhas governado por mentecaptos

(Por Pedro Almeida Vieira, in Página Um, 21/08/2025)


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O Governo voltou a anunciar um cardápio de medidas para acudir às zonas devastadas pelos incêndios deste ano: isenções, apoios financeiros a famílias, empresas e agricultores, reconstrução de casas, reforço dos cuidados de saúde, prorrogação de prazos fiscais e contributivos. Um extenso rosário de paliativos, embrulhado em discurso piedoso, que já conhecemos de cor e salteado.

A cada tragédia sucede a mesma liturgia: visitas oficiais, promessas de apoios, choradeira perante as câmaras, discursos sobre a “solidariedade nacional”. Depois, silêncio, esquecimento e a inevitável repetição da catástrofe. Este é um ciclo vicioso que se arrasta há décadas e que revela não apenas incompetência, mas uma deliberada recusa em alterar a estrutura de um país refém da sua própria economia do fogo.

Não se trata de má sorte. Não se trata de acidentes. Portugal não tem quatro anos malditos no espaço de um quarto de século por mero acaso – 2003, 2005, 2017 e agora 2025 não são caprichos da Natureza. São a prova empírica de que vivemos num país de aselhas e de mentecaptos políticos, incapazes de agir estruturalmente. Os Governos sucedem-se, mudam as caras, trocam-se siglas partidárias, mas o resultado é sempre o mesmo: hectares e hectares carbonizados, vidas destruídas, um território rural cada vez mais desertificado. Não é azar – é gestão criminosa. 

E, contudo, insiste-se na farsa dos bodes expiatórios. Há sempre quem aponte o dedo aos “incendiários”, às “ignições criminosas”, ao “clima extremo”, até aos “interesses do lítio”. Tudo serve para iludir a raiz do problema: a desordem fundiária, o minifúndio abandonado, a ausência de ordenamento florestal, a dependência do eucalipto e do pinhal, a ausência de políticas sérias de prevenção. O país não é um país de incendiários – é um país que aprecia cultivar essa narrativa, porque ela desvia atenções e permite manter de pé um status quo de interesses aparentemente obscuros mas evidentes nas sombras.

Fala-se pouco, mas há hoje uma verdadeira Economia do Fogo instalada, tão entranhada quanto as acácias invasoras que dominam os nossos matos. Essa Economia vive e prospera das chamas. Há nela múltiplos actores, todos satisfeitos com o imobilismo governativo. As empresas de meios aéreos, sempre prontas a engordar contratos chorudos a cada verão; as corporações de bombeiros “voluntários”, que já de voluntárias pouco têm e que transformaram a tragédia em mecanismo de financiamento; os madeireiros, que aproveitam a desgraça para adquirir madeira barata e lucrar com a miséria alheia; e, agora, uma nova vaga de empreiteiros da reconstrução, ávidos em receber milhões de euros públicos para erguer de novo o que amanhã pode tornar a arder. É um ciclo obsceno: o fogo destrói, o Estado distribui, meia-dúzia lucram, os contribuintes pagam.

silhouette of trees on smoke covered forest

Não pode continuar esta palhaçada. Não é com apoios pontuais, com moratórias fiscais, com subsídios de tesouraria que se resolve um problema estrutural. É preciso romper com a lógica assistencialista e com o oportunismo político que se alimenta da tragédia.

Portugal precisa de mudanças drásticas e corajosas: consolidação fundiária, gestão dos espaços florestais profissionalizada em larga escala, limitação séria da expansão de espécies silvícolas cada vez menos adaptadas às condições socio-ambientais (eucalipto e pinheiro-bravo), investimento continuado em prevenção e silvicultura sustentável. Não se trata de inventar a roda, mas de ter coragem política para enfrentar lóbis instalados e pôr fim à Economia do Fogo.

Em 2003, Durão Barroso prometeu uma reforma profunda após o verão infernal. Em 2005, já com Sócrates, repetiram-se juras de “nunca mais”. Em 2017, António Costa encenou a mesma coreografia, jurando que a tragédia de Pedrógão e os fogos do Outono seria um ponto de viragem. Hoje, Montenegro vem repetir o ritual: mais apoios, mais promessas, mais remendos. O guião é o mesmo, os protagonistas mudam.

bonfire

O país não aguenta mais este teatro macabro. Não basta reconstruir o que arde, é preciso impedir que arda. O Governo tem de escolher se quer ser cúmplice de um sistema parasitário ou se quer, finalmente, governar para o interesse público. Portugal não precisa de mais discursos piedosos nem de mais milhões a fundo perdido para sustentar esta Economia do Fogo. Precisa de líderes que tenham a coragem de dizer basta e que, em vez de lágrimas de ocasião, tragam reformas estruturais. Se Montenegro repetir o mesmo que prometeram Barroso, Sócrates e Costa, ficará inscrito na mesma lista infame de chefes de Governo que deixaram o país arder em cinzas.

Esse é o ponto de hoje: ou se rompe, ou continuaremos a ser um país de aselhas, governado por mentecaptos políticos, que confundem solidariedade com esmolas e política com oportunismo. O futuro da floresta, do território e da própria dignidade nacional não pode ficar refém desta Economia do Fogo.

Fonte aqui.