Do diário da Diana – 12 anos – Escola C+S da Musgueira – Capítulo V

(Carlos Esperança, in Facebook, 06/03/2025)

(O texto que segue é mais uma deliciosa e pertinente alegoria. Provavelmente mais ancorada na realidade do que seria desejável. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 06/03/2025)


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O meu pai anda desorientado com as decisões do Dr. Trump, de que tanto gosta, e da sua política externa, e também não sabe o que dizer do adorado André e do seu querido Almirante das vacinas.

A minha mãe anda feliz por prever para breve o fim da guerra na Ucrânia. Não gosta de mortes, de ucranianos ou russos, e não percebe o Costa, de quem gosta muito, e que foi para Bruxelas por causa daquele parágrafo maldoso escrito pela D. Lucília e, pensa a minha mãe, ditado pelo Marcelo.

Ontem, dia de Carnaval, a minha mãe disse-me para ir brincar com os da minha idade e, na sua pitoresca linguagem, disse-me: Diana diverte-te que o Carnaval é curto e longa a Quaresma, e eu preferi estar com a minha mãe do que com miúdos da minha idade, que são imaturos e ainda me parecem crianças.

O meu pai saiu cedo a dizer mal da Uber e dos imigrantes e lá foi com o táxi à procura de clientes. Aproveitei para falar com a mãe que esteve todo o dia em casa. Perguntei-lhe o que era uma avença e ela disse-me que era uma quantia predeterminada, em princípio justa, para pagar mensal ou anualmente serviços prestados ou a prestar.

A seguir fez-me aquele riso de cumplicidade e começou a abrir o livro, que a avença do Montenegro parecia ser a forma de iludir o fisco quando era advogado ou de prestar um serviço à empresa dos casinos, serviço pelo qual continuou a receber depois de ser PM. Foi apanhado por jornalistas e apressou-se a transferir a avença, essa e outras, para a mulher, enquanto os partidos da oposição o enxovalhavam em público. Depois de se ver aflito, incapaz de desistir desse rendimento, decidiu dizer que a empresa que tinha dado à mulher e aos filhos, agora, que já não era dele, a deu afinal só aos filhos.

Tudo lhe correu mal, até os dois apartamentos que comprou em Lisboa na Travessa do Possolo, viraram tragédia. O Professor Cavaco que também lá tem casa tinha posto o país a rir quando construiu clandestinamente duas marquises e o Montenegro pôs o país a perguntar se não havia ali dinheiro não declarado.

Para agravar a tragédia, a empresa de Casinos, que não precisava dos filhos, bastava-lhe o pai, retirou a avença quando, para apagar pistas, passaram a ex-empresa do PM da sua casa de Espinho para o Porto. A Solverde não quis lesar o seu bom nome com a ligação à família Montenegro, neste caso aos filhos, e retirou-lhes a avença.

Mas o mal já estava feito e os partidos da oposição atacaram na AR a idoneidade moral do Montenegro e via-se que o governo tinha os dias contados. Foi aí que o PM, que já tinha no PSD quem o quisesse substituir, encontrou a forma de obrigar o partido e o Marcelo a aceitarem que fosse ele a disputar de novo as eleições.

Eu ainda perguntei se o Marcelo não era amigo do Montenegro, mas a minha mãe disse-me que não, era apenas cúmplice e andava arreliado porque não lhe ligava importância. Até lhe impôs o Procurador Geral da República, sem o consultar, e era obrigado; tinha feito o mesmo com a constituição do Governo, apenas porque sabia que Marcelo punha os nomes dos ministros nos jornais antes de lhe dar posse; e acabou a anunciar a moção de confiança para o encurralar.

Diz que levou escrito o guião, a dizer que a oposição não o deixava governar, que tinha governado muito bem e dado tudo a toda a gente e, aqui a minha mãe disse, que com a folga orçamental e o bom desempenho da economia que herdara. E que preferia ir a eleições do que ter paciência para responder às perguntas a que dizia ter respondido sem nunca responder. Até chamou às eleições um mal necessário.

A minha mãe disse que Montenegro era um jogador exímio, que mostrara ao Marcelo urbano que um rural podia ser melhor do que ele. Olha, Diana, foi Marcelo que lançou o país em crises sucessivas. As três crises políticas escusadas foram provocadas pelo PSD, as duas primeiras por Marcelo e a última por Montenegro.

Agora, com o PSD e Montenegro a tentarem sobreviver e o PS em perigo, com Marcelo fora de jogo, lá vamos para eleições com o almirante a ganhar calado e o André a fazer esquecer que no seu bando há mais delinquentes do que nos outros partidos.

Lá vai o Montenegro a pedir ao Gonçalo da Câmara Pereira para voltar a acompanhá-lo e ao Nuno Melo para poder manter aquele exótico partido com que tomou posse – a AD.

Ui, o meu diário já vai muito longo. Conto mais conversas com a minha mãe noutro dia.

Musgueira, 6 de março de 2025 – Diana

Rearmar a Europa. Heil.

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 05/03/2025)


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Rearmar significa voltar a uma situação anterior. O último armamento da Europa ocorreu nos anos 30 do século XX, conduzido pela Alemanha, com o objetivo de derrotar a União Soviética e custou 60 milhões de mortos, a derrota da Europa, a sua divisão em duas zonas de sujeição.

Quer isto dizer que a presidente da Comissão Europeia segue e repete os passos da sua Alemanha dos anos 30? Quer! Mais, quer dizer que ela se propõe hipotecar duas ou três gerações com o endividamento de 800 mil milhões de euros para o dito rearmamento e que o faz numa situação muito mais desfavorável do que a Alemanha o fez no século passado.

Nos anos 30 do século passado, a Alemanha dominava as mais avançadas tecnologias da época nas áreas da aeronáutica, da construção naval, da química, da metalurgia, estava prestes a utilizar armas propulsionadas por foguetões (as V1 e V2) e estava prestes a terminar o projeto de construção de armas nucleares (foram cientistas alemães que dirigiram o Projeto Manhattan).

Hoje a Europa que a warmonger Von Der Leyen quer rearmar está na cauda do desenvolvimento tecnológico — está 10 a 20 anos atrasada relativamente aos Estados Unidos, à Rússia e à China, não domina as tecnologias do aeroespacial, nunca colocou um satélite na Lua! Não dispõe de um sistema de geolocalização do tipo GPS, ou do sistema russo (glonass) ou chinês, indispensáveis à condução dos sistemas de armas, sem os quais, aviões, tanques, navios, até combatentes estão cegos no campo de batalha. A Europa não domina as tecnologias de deceção e mistificação que permitem a luta de drones. A Europa está na cauda da utilização militar da Inteligência Artificial. Os mais poderosos computadores (quanticos) são chineses e americanos! A Europa não dispõe de um sistema de partilha de informação do tipo da internet. Está na cauda da utilização de computação quântica que dentro de dez anos dominará os sistemas de armas e de comando e controlo. A Europa de Von Der Leyen aceitou transferir as informações geradas nas redes europeias para os arquivos de dados nos Estados Unidos e à disposição das suas agências!

A Europa, sob a direção das mentes raríssimas de Bruxelas, vai reiniciar o rearmamento no momento em que as superpotências (o que Europa não é) dispõem de mais de 10 anos de avanço, o que quer dizer que, como o desenvolvimento das tecnologias é exponencial, daqui a dez anos o atraso da Europa será maior do que é hoje! Que foi o que ocorreu quando a Europa decidiu desenvolver o seu sistema de navegação Galileu (apenas para uso civil), quando o GPS americana (militar) já estava plenamente operacional.

O rearmamento da Europa prova que a ideologia que conduziu à II Guerra Mundial continua no posto de comando, que há sempre um Reich a determinar o impulso da Alemanha para o confronto com a Rússia e com isso arrastar o resto da Europa para o grande desastre, para uma situação pior do que a anterior!

O objetivo permanente da Alemanha é tornar-se o centro da Europa, o que quer dizer, dominar a Europa das penínsulas — Escandinávia, Ibérica e Itálica — a Europa central — França, Países Baixos — a Europa de Leste, até Moscovo.

É para atingir este objetivo — que vem de Bismark — que Von Der Leyen quer arrastar os europeus com as afirmações vazias de sentido e de explicação de que a Europa tem de se defender: Mas tem de se defender de quê e de quem? Qual é a ameaça que a Europa representa para as superpotências? Que valor tem a Europa para as superpotências, para que a Rússia, o estado com maior superfície no planeta, que dispõe de matérias primas em abundância, tecnologia para as transformar em produtos de alto valor, e baixa demografia invadir a Europa, envelhecida e sem matérias primas nem energia? Que valor tem a Europa para os Estados Unidos, que na estratégia da administração Trump pretende fortalecer o seu aparelho industrial interno para competir com a China e prioriza uma aliança oportunista com a Rússia para atacar a Europa, sendo certo que já avisou que poderá integrar a Groenlândia e o Canadá? Porque haveria os Estados Unidos alimentar um cão velho e dar-lhe proteção para ele realizar os seus velhos sonhos?

O outro argumento, de Von Der Leyen é do mesmo tipo do de Trump: Temos de defender os nossos valores, fazer a Europa Grande Outra vez. Mas quais são os valores da Europa apregoados em vazio por Von Der Leyen? Os do colonialismo que levou a Alemanha reunir a Conferência de Berlim? Os do nazismo e do fascismo? O da entrega da liberdade de informação aos oligarcas do regime (veja-se quem detém os grandes meios de comunicação de Portugal à Alemanha, da França à Polónia). Quem paga aos partidos políticos? Quais os valores que defende o Grupo de Bieldberg? E as universidades, as Business Schools, de onde saem os pregadores do neoliberalismo e da lei da selva do mais forte?

O rearmamento da Europa é um logro perigosíssimo, caríssimo e inútil (exceto para as oligarquias associadas às industrias de armamento) contra o qual os cidadãos europeus se devem levantar, exigindo referendos.

O pacto com o diabo

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 06/03/2025)


No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.


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No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje.

O tema ganhou uma renovada acuidade quando o presidente Donald Trump apelidou o seu congénere ucraniano de ditador. Independentemente do rigor das palavras usadas por Trump importa perceber qual é a verdadeira natureza do regime presentemente instalado em Kiev. Segundo a Varities of Democracy, uma organização de elevada credibilidade académica, que estuda o tema dos regimes políticos a nível mundial, considera a Ucrânia uma autocracia eleitoral, portanto, longe de ser uma democracia plena. Embora não se pretenda com este artigo fazer incursões teóricas no domínio da ciência política, ele apresenta alguns factos que podem ajudar o leitor a fazer uma apreciação do tema mais informada.

Para uma melhor compreensão dos factos e com o intuito de facilitar a sua leitura e sistematização, consideraram-se neste trabalho quatro períodos distintos: desde a independência (1991) até à vitória de Viktor Yanukovych (2010); durante a presidência Yanukovych (2010 – 2014); desde o golpe de Maidan (2014) até à eleição de Zelensky (2019), e desde a eleição deste até aos dias de hoje. Por questões de parcimónia, iremos, fundamentalmente, concentrar-nos no último período.

O aparecimento na Ucrânia, à luz do dia, de organizações ultranacionalistas teve lugar no primeiro período, acelerando após a revolução laranja (2004) e a chegada ao poder de Viktor Yushchenko que, por exemplo, em 2006 reabilitou a organização nacionalista ucraniana OHH UN, responsável pela execução de cerca de 100 mil polacos e judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Nessa sequência, em 2010, pouco antes de abandonar a presidência, Yushchenko concedeu o título de Herói da Ucrânia aos líderes da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) Stepan Bandera e Roman Shukhevych (22 de janeiro).

Durante a presidência de Yanukovych houve uma pausa nessa política de estado, com a anulação do título de herói da Ucrânia concedido por Yushchenko. Mas, isso não impediu que esses grupos continuassem a proliferar. Por exemplo, em 2013, nasce a Misanthropic Division, uma rede internacional neonazi cujo dirigente Dmytro Kanuper foi condecorado pelo parlamento dinamarquês, em 2024, como um combatente pela liberdade, o mesmo que tinha o Mein Kampft como a sua leitura preferida; ou, a trasladação (21 de julho de 2013) por ativistas da organização ucraniana Pamiat (Memória) dos restos mortais de soldados ucranianos que combateram na Divisão SS “Galicia”.

O golpe de estado arquitetado pelos EUA no início de 2014 – numa audição no Congresso norte-americano, Vitória Nuland confessou terem sido gastos, desde 1991, cinco mil milhões de dólares em ações subversivas na Ucrânia – foi executado com a colaboração ativa destes grupos. Não é, por isso, de estranhar ver Oleg Tyanibok, um confesso nazi líder do Svoboda, uma organização de extrema-direita, impedido de entrar nos EUA devido às suas opções políticas, ser reabilitado e aparecer ao lado do falecido John McCain.

Em 2014 realizaram-se eleições presidenciais (25 de maio) e legislativas (25 de agosto). Nas primeiras concorreram 21 candidatos e nas segundas 29 partidos, num ambiente de grande hostilidade relativamente às forças não apoiantes do novo regime. O Partido das Regiões que tinha ganhado as eleições em 2010 não teve condições para concorrer às eleições legislativas, apesar de ter apresentado um candidato às presidenciais. O sistema marginalizou e absorveu os partidos pró-russos influentes. Nesse ambiente iniciaram-se as perseguições e o assédio a jornalistas e opositores ao regime.

Petr Poroshenko, presidente, entretanto, eleito, vem dizer, num tom “conciliador” que os “ucranianos terão empregos, eles [os russos] não; nós teremos pensões, eles não; as nossas crianças irão para as escolas e jardins de infância, as deles terão de se esconder em caves.” Iniciam-se os ataques indiscriminados às populações russófonas do Donbass por milícias ultranacionalistas, com a anuência do governo, recorrendo ao bombardeamento intensivo de áreas residenciais. Tornaram-se triviais as procissões destes grupos pela Avenida Moscow Prospect, redenominada Avenida Bandera Prospect, com archotes, em datas simbólicas.

Poroshenko toma medidas para diminuir a relevância social da língua russa e da Igreja Canónica Ortodoxa. Em 2017, foi aprovada uma lei que proibia o uso do russo no sistema de ensino. Em dezembro de 2018, foi criada a Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), independente da igreja canónica ortodoxa, alinhada com Constantinopla, cujos sacerdotes não só subscrevem a ideologia dos setores politicamente mais radicais do espetro político ucraniano, como homenageiam publicamente colaboradores nazis, personagens como Stepan Bandera.

Neste período generalizaram-se as punições públicas extrajudiciais dos chamados marauders, uma forma de justiça popular, “em que pessoas são atadas a árvores e postes com fita-cola, com as calças ou saias baixadas e as nádegas fustigadas com chibatas e varas.” Estas práticas sociais passaram a ser dirigidas contra quem se suspeitasse ser russófilo. Bastava ser ouvido pela “polícia de costumes” a falar russo ao telemóvel. Em 2015, Poroshenko bane o partido comunista, do antecedente, uma força política com uma considerável influência na sociedade.

Em maio de 2019, Zelensky ganha as eleições e assume o poder com a promessa de resolver o problema das províncias rebeldes que dilacerava a sociedade ucraniana havia cinco anos e fazer a paz. Mas fez tudo ao contrário do que tinha prometido. Tendo chegado ao poder escudado num partido – “Servo do Povo” – com uma ideologia libertária, rapidamente se posicionou como um partido russofóbico e pró-americano, navegando num pântano de contradições ideológicas que combinava ideias liberais, socialistas e nacionalistas.

A intervenção na Rada (27 de maio de 2019) de Dmytro Yarosh, fundador do Sector Direito e comandante do Exército Voluntário ilustra bem a importância dos referidos grupos na sociedade ucraniana, quando ameaçou Zelensky de morte se “traísse a Ucrânia”, ou seja, se tivesse a aleivosia de implementar os Acordos de Minsk (“que não eram para ser cumpridos, mas para ganhar tempo e preparar a ofensiva final contra o Donbass e a Crimeia”).

Com a tomada de posse de Zelensky, acelera-se o processo de deterioração das liberdades cívicas iniciado no mandato do seu antecessor, particularmente no que respeita à promiscuidade entre Estado e grupos ultranacionalistas, que aumentam de protagonismo. Completamente alinhado ideologicamente com aqueles grupos, Zelensky vai aprofundar aquilo que Poroshenko tinha iniciado. Os oligarcas seguem-lhe o exemplo.

Um dos principais objetivos do presidente, ex-russo falante, é a completa eliminação da língua e cultura russa. Imediatamente após os protestos de Maidan, o Verkhovna Rada decidiu revogar a lei sobre os princípios da política linguística do Estado, que estava em vigor desde 2012. Em 2017, Poroshenko proíbe o ensino em russo, e a partir de janeiro de 2021, Zelensky dá outra machada na língua russa, ao proibir a sua utilização na administração do Estado.

Foram igualmente proibidos os livros escritos em russo, incluindo os clássicos da literatura russa. Zelensky ordenou a retirada de 100 milhões de livros de autores russos das bibliotecas da Ucrânia. Tolstoi, Pushkin, Dostoievski e Gorky, entre outros, foram proscritos. O mesmo sucedeu aos compositores russos. Tchaikovsky, Prokofiev, Shostakovich, Borodin, Glinka, Rimsky-Korsakov e muitos outros foram também banidos. Espetáculos e quaisquer outras manifestações culturais em língua russa foram igualmente proibidas. O inglês passou a ser a segunda língua na Ucrânia. As minorias húngaras e romenas, que tinham pretensões semelhantes à russa foram igualmente atingidas e objeto de discriminação.

No plano religioso, Zelensky foi mais além de Poroshenko e proibiu a igreja canónica ortodoxa (ICO). Foi penoso ver, em abril de 2023, o cerco ao Kiev Pechersk Lavra (KPL) e os correligionários da nova igreja ucraniana expulsarem os sacerdotes da ICO com a ajuda da polícia. De santuário de referência da ICO, o KPL passou a ser lugar de cerimónias pagãs e de encontros gastronómicos sem qualquer relação com a religião. Por toda a Ucrânia, os acólitos da nova igreja apoderaram-se dos santuários da ICO e expulsaram os seus sacerdotes.

Foi durante a vigência de Zelensky, que se realizaram os maiores ataques à liberdade de expressão no país. No dia 3 de fevereiro de 2021 foram banidos três canais de televisão (ZIK, News 1 e 112 Ukraine). No dia 20 de março de 2022, obedecendo às ordens de Zelensky, o Conselho de Defesa e Segurança Nacional da Ucrânia ilegalizou, de uma assentada, 11 partidos políticos por supostas ligações à Rússia. Viktor Medvedchuk, o líder da “Plataforma para a Vida”, o principal partido da oposição, que ocupava 44 lugares no parlamento ucraniano, foi colocado em prisão domiciliária.

Destino semelhante teve o presidente do supremo tribunal. O presidente do Tribunal Constitucional “ausentou-se” para parte incerta para não ter a mesma sorte. Até o antigo Presidente Poroshenko, um adversário político e inimigo de longa data de Zelensky, foi vítima da repressão política e da caça às bruxas “politicamente motivada” promovida por Zelensky, que o acusou de “alta traição” e de auxílio a organizações terroristas. É longa a lista de políticos, jornalistas e empresários mortos, sequestrados ou torturados durante a presidência de Zelensky. Um deles, é Oleksander Dubinskyi deputado na Rada, vítima de duas tentativas de assassinato e preso há mais de 15 meses por criticar a corrupção no país.

Em contrapartida, nenhuma das organizações neonazis foi ilegalizada. O nazismo e as insígnias fascistas normalizaram-se na sociedade e no seio das forças armadas. A suástica, o Sol negro e a caveira de Totenkopf vulgarizaram-se e tornaram-se moda. Zelensky publicou, sem qualquer pudor, fotografias destas insígnias nas suas contas das redes sociais.

A 13 de maio de 2023, Zelinsky visitou o Papa envergando uma camisola preta com o emblema da UNO, uma organização nacionalista ucraniana, e entregou-lhe um ícone com uma silhueta negra de Cristo ao colo da Virgem Maria, o que, de acordo com os cânones da Igreja Católica pode ser considerado satânico. A moda chegou também a outros domínios como monumentos, toponímia e filatelia, utilizados para exaltar figuras prominentes do movimento ucraniano bandeirista, responsável pela morte de judeus.

No dia 1 de março de 2022, de acordo com o decreto assinado por Zelensky, foi criada a “Legião Internacional de Defesa da Ucrânia” que passou a ser integrada na estrutura das Forças Armadas, cujo pessoal incluía mercenários, adeptos de ideias extremistas e terroristas de várias partes do mundo.

Zelensky aderiu e alimentou a fantasia, promovida pelos ultranacionalistas, de um estado mono étnico, monocultural e centralizado. A aprovação na Rada da lei racista e xenófoba sobre os povos indígenas” (13 de dezembro 2022) foi uma materialização desse desígnio. Inserido neste projeto, assiste-se a um movimento de revisionismo histórico com laivos fantasiosos e caricatos. Igor Tsar, autor do livro “Ucrânia – a pátria ancestral da humanidade”, vencedor do Prémio Stepan Bandera, publicado em Lvov alerta-nos para uma imensidão de “factos históricos” desconhecidos (foram as tribos arianas da Ucrânia que fundaram o Irão no 4º milénio a.C. e colonizaram a Palestina. A língua inglesa é proveniente da Ucrânia. Até Jesus era ucraniano).

Nesta análise sobre o regime ucraniano sob a tutela de Zelensky, não podíamos deixar de referir o envolvimento de Zelensky na corrupção que grassa no país, que se encontra devidamente documentada. No outono de 2021, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou os chamados Pandora Papers, onde se incluíam dados das contas offshore de 35 líderes mundiais. Zelensky e os seus parceiros do estúdio Cartel 95 estavam entre eles.

Entre 2012 e 2016, foram transferidos 41 milhões de dólares para a empresa offshore de Zelensky. Num país normal teria sido preso. Uma das múltiplas mansões que tem por esse mundo fora encontrava-se na Crimeia, um erro que lhe custou caro. Foi expropriado e a mansão vendida em hasta pública, tendo o resultado da venda revertido para um fundo de ajuda a combatentes russos.

No Ocidente passou a ser pecado falar de neonazis na Ucrânia, dando-se início à maior campanha de branqueamento de um regime político realizada até hoje. O “Guardian”, entre outros órgãos de referência da comunicação social, que antes do início da guerra em 2022 escrevia “bem-vindo à Ucrânia, o país mais corrupto da Europa”, passou depois a considerar que “A luta pela Ucrânia é a luta pelos ideais liberais.” A corajosa reportagem de Mariana Van Zeller sobre grupos neonazis na Ucrânia foi censurada e retirada do canal Disney. Quem desmonta esta e outras falácias (o tema está longe de se esgotar neste artigo) foi acusado de ser propagandista do Kremlin.

O branqueamento do regime instaurado em 2014 é feito com base em dois argumentos: se o regime tivesse a filiação ideológica de que é acusado não teria um presidente judeu; os neonazis não têm expressão eleitoral significativa, por isso o regime é democrático. As questões devem, no entanto, ser colocadas de outro modo. Seria insuportável para as democracias europeias admitirem que estão a apoiar um regime que permite a proliferação da ideologia nazi e protege organizações neonazis.

Por outro lado, omite-se o facto de que muitos desses partidos/grupos ultranacionalistas não concorreram às eleições, e menospreza-se deliberadamente a sua influência na sociedade, sobretudo nas forças militares e de segurança, consolidada no rescaldo do golpe de Maidan. O facto da Ucrânia ter servido de tirocínio de combate a vários grupos neonazis europeus está superlativamente documentado em língua portuguesa (aqui (cap.IV) e aqui).

A farsa completa-se quando Zelensky participou nas comemorações do 80º aniversário da libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz, ou se ajoelha no memorial de Babyn Yar, em Kiev, não obstante a sua adesão incondicional à exaltação histórica dos bandeiristas, os mesmos que perpetraram o massacre lembrado por aquele memorial.

Não podemos deixar de nos questionar sobre a complacência e promiscuidade do Ocidente com as forças neonazis que proliferam na Ucrânia, porque é que se omitiu essa realidade e se tornou um tabu a partir de fevereiro de 2024, apesar de denunciada antes, com o conluio da comunicação social. Os exemplos são gritantes, e são muitos. Os aplausos em pé no parlamento canadiano a Yaroslav Hunka, que durante a Segunda Guerra Mundial serviu na 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen-SS, considerado um “herói” durante a visita do Presidente Zelensky. Por terem sido vítimas da brutalidade destes grupos, os polacos são uma exceção a este unanimismo.

Pelo exposto, pode concluir-se que Donald Trump não anda afinal muito longe da verdade. Pelo andamento da carruagem, não se admire o leitor se um dia acordar e perceber que andou três anos a ser enganado. A possibilidade de isso acontecer já esteve mais distante.