A importância da Conferência de Munique

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 20/02/2025)


As alianças são efémeras e funcionam apenas quando existe sobreposição de interesses. Desaparecem ou modificam-se sempre que essa sobreposição deixa de existir.


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A Conferência de Segurança de Munique (CSM) realizada na cidade que lhe dá o nome, de 14 a 16 fevereiro de 2025, ficará registada na nossa memória coletiva. A maratona de discursos teve o seu ponto alto na intervenção do vice-presidente norte-americano JD Vance, que utilizou aquele fórum para informar o mundo de que o projeto globalista norte-americano tinha terminado e que, consequentemente, as relações dos EUA com a Europa iriam sofrer alterações significativas. Esta ia deixar de poder contar com o apoio ilimitado dos EUA.

O carácter disruptivo do seu discurso assemelha-se ao de Vladimir Putin, em 2007, quando sinalizou o início do fim da Ordem Unipolar nascida no final da Guerra Fria, assim como do projeto hegemónico global que lhe estava associado, travestido de “Ordem Liberal Internacional”, que lhe dava o suporte ideológico. O livro de Fukuyama saiu das estantes e foi ganhar pó para os baús da História.

Se o discurso de Putin representou o desafio a essa Ordem e a esse projeto, o discurso de Vance, já num quadro de multipolaridade assumida, veio pôr fim ao projeto exaurido e fantasioso da primazia global norte-americana, causando um grande incómodo aos neoconservadores e neoliberais dos dois lados do Atlântico. E, por consequência, pondo cobro ao atlanticismo ameaçando as alianças que lhe deram corpo, nascidas no fim da Segunda Guerra Mundial.

Vance veio afirmar que o perigo para a Europa não se encontrava na Rússia nem na China, mas sim no seu interior, na distância entre as promessas feitas pelos dirigentes europeus aos seus cidadãos e a forma como (não) eram concretizadas, na falsidade em que assentam os seus princípios, na debilidade do poder político tanto ao nível europeu como nacional e nas ameaças à democracia, dando como exemplo o cancelamento das eleições na Roménia e os ataques à liberdade de expressão. Lembrou que a Europa é fraca e que não está em sintonia com os interesses e valores americanos.

Houve na sala um esgar de confrontação entre duas posições ideológicas distintas. As palavras de Vance chocaram a audiência e provocaram algumas respostas. Como o peixe fora da água em grande agitação antes de morrer, os atlanticistas e defensores de uma esgotada Ordem Liberal davam um ar da sua graça, como fizeram Pistorius e Kaja Kalas, entre outros, mas de um modo inconsequente.

Ao ser formalizado o fim do Ocidente como uma entidade – aparentemente – unida, escancaram-se as portas para a emergência de uma nova Ordem Internacional, por cima dos escombros da antiga, provavelmente mais difícil e agreste para os europeus, cada vez mais irrelevantes geopoliticamente e marginais na gestão dos assuntos internacionais, agora agravada pelo afastamento dos EUA da segurança europeia. O atlanticismo caminha a passos largos para o fundo da gaveta.

Vance veio mostrar quem manda e qual o caminho que vai ser seguido. Não é que isso seja novo, mas costumava ser feito de modo menos rude e arrogante como aconteceu desta vez. Não me recordo de líderes norte-americanos não cumprimentarem os dirigentes de um país anfitrião, por permanecerem pouco mais tempo em funções e, em contrapartida, encontrarem-se com líderes da oposição.

O golpe desferido numa Europa decadente, a caminhar para a irrelevância estratégica, torna evidente o fim do sonho da Europa se tornar num polo de poder mundial, um “par inter pares”, com que muitos sonharam e nos quais me incluo. A adesão incondicional da Europa aos excessos do modelo neoliberal liderado por Washington contribuiu decisivamente para o seu declínio.

A conversa sobre a Europa como um ator global não passou de um delírio alimentado por muitos académicos, quando era claro que a União Europeia, a entidade política que representava a Europa, já não desempenhava um papel de relevo em matérias globais. Como pode a UE querer ser autónoma e pensar ser um ator global se ante esta emergência reúne em Paris durante uma presidência polaca ao invés de em Bruxelas ou, no máximo, em Varsóvia?

A Ucrânia foi igualmente um tema incontornável na agenda da conferência. A posição dos europeus veio confirmar uma evidência histórica e, de certo modo, dar razão ao presidente Trump. As guerras europeias contribuíram para a diminuição da importância estratégica do continente. Foi assim nas duas Guerras Mundiais, em que a liderança da Ordem passou para potências não europeias. No caso da guerra na Ucrânia, mais uma guerra europeia, a negligência em compreender a História está a produzir resultados dramáticos.

A não participação da Europa no processo negocial em vias de se iniciar evidencia a sua menoridade no relacionamento entre as potências maiores. O topo da pirâmide política europeia sediada em Bruxelas não compreende isto. A sua visão do mundo limita-se a séries curtas, recorrendo à linguagem utilizada pelos economistas. Talvez compreendam agora, tardiamente, que não existem potências normativas, como nos quiseram fazer crer durante décadas.

O alinhamento incondicional da Europa com o projeto neoconservador/neoliberal da Administração Biden demonstrou a sua incapacidade em perceber que o projeto Ucrânia se tratava de um projeto norte-americano sedicioso, de longa data, contra a Rússia, no qual participaram afincadamente algumas potências europeias, na esperança de colher alguns dividendos. A complacência dos europeus ante as revelações do célebre F*** the EU, da autoria de Victoria Nuland, ou We find a way relativamente à destruição do Nordstream, da lavra de Joe Biden, na presença do chanceler Olaf Scholz, contrastam hoje com o escândalo e a raiva face ao pragmatismo geopolítico de Trump e Vance.

Os dirigentes europeus ainda estão com dificuldade em perceber o que está a acontecer. Têm de se adaptar a viver sozinhos, sem a proteção securitária fornecida pelos EUA, num mundo multipolar e numa nova correlação de forças internacionais em que são atores de segunda ordem. No curto prazo, a Europa pode ser confrontada com uma revolução conservadora. As eleições que se avizinham em vários países europeus poderão ser decisivas e comprometer, decisivamente, este projeto europeu onde prosperam os burocratas não eleitos, mas não o desenvolvimento. O PIB agregado da Europa passou de 90% do norte-americano, em 1999, para 75%, em 2024.

Recuperando uma ideia do Coronel Carlos Matos Gomes, um insigne historiador militar, “uma leitura superficial sobre os conflitos do século XX permite concluir que os exércitos europeus são exércitos historicamente derrotados… Foram os EUA e a União Soviética que impuseram a descolonização à Europa através das dinâmicas do Movimento Descolonizador. No século XX quem decidiu a sorte das armas na Europa foram os Estados Unidos, a Ocidente, e a União Soviética, a Leste, que dividiram o continente entre si, em Ialta e Potsdam,” como o voltarão a fazer se for necessário. Nada disto foi tido em consideração pelos altivos burocratas bem instalados na bolha bruxelense.

À semelhança das outras guerras europeias do século XX, também a guerra na Ucrânia está a contribuir para o declínio da Europa. As potências europeias terão de perceber porque deixaram de ser uma prioridade para Washington e que o seu destino vai ser decidido principalmente (se não exclusivamente) pelas grandes potências, China, EUA e Rússia. Afinal, como se estuda nas academias militares e nos cursos de segurança, as alianças são efémeras e funcionam apenas quando existe sobreposição de interesses. Desaparecem ou modificam-se sempre que essa sobreposição deixa de existir.

Os europeus pensaram, ingenuamente, que faziam parte da equipa, que integravam o plantel, quando na verdade nunca passaram de apanha-bolas.

Até há pouco tempo, os inefáveis defensores do elo transatlântico combatiam ferozmente quem defendia o reforço da Política Comum de Segurança e Defesa europeia. Colocavam à frente do desenvolvimento de uma Europa forte os interesses norte-americanos. Multiplicavam-se em conferências e reflexões sobre o tema, em que sob a capa de um pretenso debate se fazia propaganda e criavam lealdades, ridicularizando o projeto de autonomia estratégica europeia. Eram, objetivamente, um instrumento de quem em Washington defendia o imperativo de impedir a emergência na Europa de um polo de poder que pudesse rivalizar com o americano.

Os atlanticistas tinham por missão impedir que a Europa alguma vez pertencesse ao universo dos atores que verdadeiramente contam. Dessa forma, traíram a Europa e os europeus. Alguns, têm agora o descaramento de lamentar a fraqueza militar europeia, quando contribuíram conscientemente para o estado em que nos encontramos.

Agora, abanem a cauda

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 21/02/2025)

Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.


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Assim como a enxurrada de decretos espalhafatosamente assinados por Trump está a transformar a democracia americana numa espécie de Coreia do Norte vergada ao culto da personalidade de Kim Il-Donald, também a sua ânsia de tornar tudo irreconhecível e irreversível está a acelerar o mundo. Deixemos agora de lado os seus sinistros projectos para a Palestina, onde o seu plano de ‘paz’ se resume a uma limpeza étnica, com a expulsão dos palestinianos da sua terra — um plano saudado por 76% dos israelitas. Fiquemos pela análise daquilo que aparentemente se pode concluir da expedição punitiva que ele enviou à Europa, do seu longo e frutuoso telefonema com Vladimir Putin e do início das conversações sobre a Ucrânia em Riade, reunindo os chefes da diplomacia russa e americana e deixando de fora ucranianos e europeus.

A primeira coisa a constatar é que em todas as questões de política externa em que já tocou — as tarifas ao mundo inteiro, o Canadá, a Gronelândia, a faixa de Gaza ou a Ucrânia — ele avança como um bulldozer, apresentando soluções e pretensões que, apesar de absolutamente insólitas e agressivas, são prudentemente levadas em conta e suavemente contestadas pelas potenciais vítimas de tais ideias. Até o Hamas pia baixinho quando ele se propõe “tomar conta” de Gaza e redesenhar o mapa da Palestina sem palestinianos! É a estratégia da ameaça e da intimidação, de quem nada se importa em ofender amigos ou perder aliados. Na tal expedição punitiva que enviou à Europa no final da semana passada, o exemplo acabado desta política externa, chamemos-lhe assim, foi o discurso insultuoso que o fedelho presumido J. D. Vance dirigiu aos líderes europeus sentados à sua frente e, por extensão, a todos os europeus, tendo suscitado apenas uma tímida reacção do chanceler Scholz, que, por acaso, está de saída. De resto, passando também por Pete Hegseth, secretário da Defesa, e Keith Kellogg, enviado especial para a Ucrânia, a Casa Branca fez questão de deixar bem claro o desprezo a que vota a Europa e os seus líderes. Do ponto de vista americano, nas conversações de paz para a guerra da Ucrânia, não só os ucranianos não fazem falta à partida, como os europeus não têm nada a ver com o assunto: como explicou Kellogg, podem dar sugestões desde que não venham com queixinhas por não terem lugar à mesa. Já sabemos que Trump pode mudar de ideias de um dia para o outro, mas na quarta-feira, quando este texto é escrito, a posição americana parece simples: Trump e Putin decidem os termos do acordo de paz, depois comunicam-no à Ucrânia e a seguir, sim, os americanos convocam a Europa para enviar tropas para a fronteira entre a Rússia e a Ucrânia para velarem pela sua manutenção, mas sem que os Estados Unidos fiquem vinculados pelo artigo 5º da NATO, indo em auxílio das tropas europeias caso as coisas se compliquem. É pegar ou largar, a “pax donalda”.

Confesso que se isto não fosse trágico, envolvendo o destino de um país e dos seus nacionais, só me dava vontade de rir ao observar o estupor dos líderes europeus e as suas enxovalhantes tentativas de serem levados em conta nas negociações de paz para a Ucrânia. Durante três anos, estes mesmos senhores não só recusaram sugerir, integrar ou promover qualquer negociação de paz, como afirmaram mesmo — eles e a sua imprensa dedicada — que a simples ideia de o fazer era uma traição à Ucrânia e um serviço prestado a Putin. Mesmo quando se tornou evidente que Trump ia ganhar as eleições e que se propunha “acabar com a guerra em 48 horas”, custasse isso o que custasse à Ucrânia, os chamados “líderes” europeus não deram um passo para se anteciparem e posicionarem como actores e interessados no desfecho. Antes pelo contrário, estes “líderes” que agora suplicam um lugar à mesa como criancinhas enxotadas para a cozinha, mantiveram sempre inalterável o seu mantra: apoiar a Ucrânia por tanto tempo quanto necessário. E eles, que agora se atropelam nas promessas de aumentarem as despesas com a defesa, na tentativa de acalmarem o ogre, foram-se autodesarmando, fornecendo a Zelensky tudo o que ele foi sucessivamente pedindo: sistemas antiaéreos, mísseis, carros de combate, aviões — só faltou a bomba nuclear. Se tentarmos encontrar algum pensamento estratégico nesta conduta só pode ser a crença irracional de que a guerra teria de durar até que a Rússia fosse vencida, custasse isso o que custasse à Ucrânia e à Europa.

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Mas fizeram ainda pior do que isso: não só não quiseram promover qualquer acordo de cessar-fogo ou de paz, como o impediram. Podiam tê-lo feito antes de a guerra se desencadear com base nos Acordos Minsk II, ou podiam ter apoiado, logo um mês depois, o cessar-fogo acordado em Ancara, por iniciativa da Turquia e de Israel e com a presença de russos e ucranianos. Porém, sucedeu o contrário: perante a inércia dos restantes, o então primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, pressionou Zelensky a não assinar o acordo, elevando-o à altura de um novo Churchill e prometendo-lhe todo o apoio ocidental para derrotar os russos. A Europa, a NATO e os Estados Unidos de Joe Biden quiseram a Ucrânia a lutar por eles contra a Rússia, apenas com o seu apoio em armas e discursos. E se é inquestionável que o início da tragédia ucraniana se inicia com a invasão de um país soberano por parte de Putin, também o é que os aliados ocidentais procuraram a guerra e não a paz e, enquanto os ucranianos combatiam e morriam, eles faziam discursos empolgantes e mesmo milionários — como as tournées em defesa da Ucrânia a que Boris Johnson se dedicou profissionalmente depois de ter sido forçado a sair de Downing Street. Faziam discursos, deixavam a Europa arruinar-se com a guerra e alimentavam o complexo militar-industrial americano em que Joe Biden se apoiava e as empresas americanas de combustíveis e gás liquefeito de quem se tornaram generosos clientes depois de Biden ter imposto e sabotado o fornecimento de energia russa mais barata à Europa. Imaginar que isto, mais o incitamento à entrada da Ucrânia na NATO — que sabiam que era a linha vermelha que despoletaria a guerra — foi tudo inocente e apenas a vontade de apoiar o herói Zelensky e o seu povo, ou de parar na Ucrânia aquilo que juravam seria uma subsequente invasão russa da Europa, não tem sustentação. Mas foi isto que eles nos venderam durante três anos, com o inquebrantável apoio de uma imprensa que se esqueceu de pensar e questionar e dos líderes de opinião a que ela recorria. E agora, que têm eles para dar à Ucrânia, quando Trump se prepara para lhe impor uma paz que recompensa o invasor e ainda lhes quer surripiar as riquezas minerais? O que têm eles para dar? O esforço para conseguirem um lugar à mesa, ao mesmo tempo que, já em tardio pânico, acabam de perceber que não têm solução para novos tempos em que terão de viver sem a protecção militar dos Estados Unidos. Se Putin quisesse mesmo invadir a Europa, como dizem, agora era o momento certo para o fazer.

Durante três anos, eu andei aqui a escrever que esta era uma miserável geração de líderes europeus, incapazes de pensamento estratégico, incapazes de lerem os sinais do tempo e exibindo uma bravura de quem manda outros combater e morrer pelas nossas crenças.

Hoje, assistindo à humilhação a que a Casa Branca de Trump nos sujeita, vendo as reuniões de emergência desta fraca gente, e, sobretudo, antevendo o preço que os ucranianos ainda terão de pagar pelos nossos erros de falta de visão, só não me rio, de facto, porque tudo isto é trágico. Agora, a nós, os europeus, resta-nos continuar a viver, seja como for, e a eles, os nossos líderes, resta-lhes abanar a cauda, como anteviu Putin.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia.

Acabará em lágrimas

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 21/02/2025)

(Em tempos idos a Dona Clara era visita assídua da Estátua de Sal. Depois foi perdendo gaz e brilho, vieram as guerras, veio ao de cima o seu “americanismo” meio blasé. Ainda assim, ela tem que fazer uma cambalhota muito menor do que muitos dos opinadores da nossa praça, relativamente à guerra na Ucrânia.

Publico, pois, a Dona Clara neste seu manifesto que podia ter o seguinte título: “Uma no cravo, uma na ferradura ou, uma no Trump, duas no Putin!” 🙂

Estátua de Sal, 22/02/2025)


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Inaceitável. A palavra passou a significar, no léxico dos chefes europeus, pode ser inaceitável, mas aceito tudo porque não tenho alternativa. Depois de J. D. Vance cuspir nas gravatas dos ditos chefes, o ministro alemão da Defesa Boris Pistorius levantou-se e berrou que era inaceitável. A seguir, na vez de falar, disse que os europeus tinham de “trabalhar com os americanos” para a NATO poder assegurar a defesa da Ucrânia. Como diz que disse?

A seguir, os americanos disseram que iriam trabalhar com os russos para acabar com a guerra da Ucrânia, e os europeus estavam excluídos. E, para já, os ucranianos também. Os americanos ou, subentenda-se, os amigos americanos da NATO, insinuava o discurso pistoriano, esquecendo que os americanos não parecem comportar-se como um país aliado e muito menos como um país amigo e não mencionam a NATO.

A seguir, veio o prosódico Rutte, abanando a cauda e falando a voz do dono, ralhar ainda mais com os europeus por quererem sentar-se à mesa sem avançarem planos, projetos, táticas e estratégias, e sobretudo dinheiro para armas, muitas armas. Americanas. Rutte está há pouco tempo no posto e tem medo de perder o emprego. Pode não ter a sorte de Stoltenberg, que regressou ao Governo da Noruega como ministro das Finanças, por ser um “Trump whisperer”. Ótima recomendação. Até agora, não piou.

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O mundo mudou e os líderes da Europa rejeitam qualquer visão do mundo que não a sua, e qualquer mudança terá de ser incorporada na sua visão do mundo, mesmo que torcida, manipulada ou desfigurada. A recusa obstinada do pragmatismo e a clara avaliação do que significa a eleição de Trump e dos seus ideólogos do Projeto 2025, e a aliança entre a alta tecnologia, o capital e a política, acabará, tal como se previa que a guerra da Ucrânia acabasse, em lágrimas. As lágrimas servirão para consolar uma Europa que se tornou sentimental e se arroga todos os exclusivos da bondade e da justiça no mundo, enquanto as impopulares proposições desmentem as ações.

A Europa, cuja diplomacia sempre assentou na hipocrisia, ou o que chamamos União Europeia, não passa de uma coleção de Estados que em nada concordam na execução. Mesmo Costa, que teve uma opinião certeira sobre o desfecho da Ucrânia, acabou silenciado e a concordar com “os países principais” da Europa, na gíria da cimeira de Paris. Tivemos o naufrágio do “Costa Concordia”, agora temos o ‘Costa Concorda’ com este naufrágio.

Recusando uma leitura do mundo real e recusando agir em conformidade, a liderança da Europa tornou-se um motivo de embaraço para os povos europeus, convidados a pagarem e a sacrificarem-se em nome de “ideais” que Bruxelas e os partidos liberais impõem às gerações futuras. Os jovens são convidados por líderes no ocaso, de Scholz a Macron, a pagar a dívida europeia, a defesa e a reconstrução da Ucrânia e a totalidade da defesa europeia no futuro. São ainda convidados a alistarem-se nas forças armadas que os seus impostos pagarão, embora não seja claro se com um único exército europeu, se com dezenas deles, se com armas europeias, se com armas americanas, e em que mapas, fronteiras e trincheiras.

Terão também de pagar, porque o dinheiro não dá para tudo, a saúde e a educação, as pensões e segurança social (do futuro), e ajudar a pagar a monstruosa dívida europeia (do passado) que vem da covid. Só a conta da pandemia oscila entre €20 e €30 mil milhões e ainda não começou a ser paga. E esqueçam as alterações climáticas, depois logo se vê. A emissão de dívida comum é olhada com entusiasmo pelos italianos que têm uma das dívidas mais altas da UE e sabem aldrabar as contas a seu favor, sabendo também que são a ponte com Musk e Trump e que a multinacional Leonardo, armas e tecnologia aeroespacial de sede italiana, pode vir a ganhar contratos rentáveis de defesa. Em Portugal, o génio Seguro, o Tó Zé, é adepto desta solução, ele que se revelou um poderoso estratego de guerras e disputas políticas. A dívida comum, dissolvida entre países pobres e ricos, acabaria no que já conhecemos. A Alemanha paga.

Com um pormenor, a Alemanha não só não quer pagar como não pode pagar. A guerra da Ucrânia e a interrupção dos fluxos de energia barata a par do declínio industrial atiraram o país para os braços da extrema-direita da AfD, os novos amigos de Musk e J. D. Vance, e da extrema-esquerda que é contra a guerra e contra a imigração e tem bons resultados com isso, Die Linke, de Sahra Wagenknecht. Esqueçam a dívida comum, porque nas próximas eleições o SPD será, como dizem os americanos, toast. E a CDU não poderá agir ao contrário da vontade popular, que não quer a guerra e quer que os fluxos de energia sejam restabelecidos. A metade leste da Alemanha, a mais extremista e descontente, é justamente a metade que foi soviética e que a metade ocidental, a mais confortável e liberal, insiste em proteger da Rússia de Putin.

É neste quadro caótico e calamitoso que os últimos liberais europeus querem fingir que mandam enquanto nos cobrem de vergonha. Era claríssimo que Trump iria agir deste modo apesar das honras e dos convites para Notre-Dame. Quando Macron, o pequeno Napoleão sem exércitos, sem batalhas e sem vitórias, montou uma aproximação e lhe atirou Zelensky para cima na fotografia, era claríssimo que Trump estava incomodado com o espetáculo. E furioso, desdenhado pelos líderes que agora rastejam aos pés.

Esta aproximação macroniana e desajeitada também não deu resultado com Putin, que colocou uma mesa de cem metros no meio da conversa. Putin foi ridicularizado, mas era uma formidável manifestação de poder imperial e de distância litúrgica, reduzindo o tamanho do francês. As redes riram-se, os memes são uma nova expressão política, e não viram os sinais. Como, na guerra da Ucrânia, não viram os sinais. E como, na senescência de Biden e companhia, e sobretudo dos incompetentes Antony Blinken e Jake Sullivan, não viram os sinais. A sombra de Trump crescia sobre a Europa, e a Europa tapou os olhos, enquanto proclamava a derrota da Rússia.

Putin é muito mais inteligente e perigoso do que todos estes tigres de papel encostados ao amigo americano que se tornou o inimigo americano. Quem for um leitor atento da História, sabe que não se ganham guerras contra a Rússia. Muito menos se ganham guerras por interposto corpo armado. A diplomacia nunca teve hipótese nesta refrega que dura desde o alargamento político da Europa, o interesse alemão, e o expansionismo da NATO a leste, o interesse americano.

Quem avisou que acabaria mal e que o fim seria trágico foi acusado de pactuar com Moscovo e ser amigo de Putin. Acabou em lágrimas, com a Ucrânia numa impossível situação, humilhada e ignorada por Washington. Ao enviar J. D. Vance para Munique, depois de recusar receber Zelensky, Trump sinalizava a repugnância pelo Presidente ucraniano. Vance é o homem que disse, com clareza, a Ucrânia não me interessa. Trump vê em Zelensky alguém que serviu Biden, um inimigo. Putin recusa sentar-se com Zelensky, e Trump, de facto, também.

Desde os anos 90, quando os russos dominavam Londres, a lavandaria do dinheiro, e começaram a dominar a política inglesa e a comprar os políticos, do tory Boris Johnson ao reform Farage e ao labour Peter Mandelson, nomeado embaixador do Reino Unido em Washington com esperança de que seja outro “Trump whisperer”, que Putin interfere ativa e passivamente nas políticas da Europa. Durante décadas, a Europa não se importou de aceitar o dinheiro russo e de fechar os olhos às colónias e ações russas no continente.

França, Itália, Inglaterra, em particular, aceitaram o estabelecimento de teias económicas, financeiras e políticas que desaguavam em Moscovo. Em Londres, onde os russos dominavam a cena social, murmurava-se que o dinheiro era sujo e a vida continuava. Importante era não ficar a dever dinheiros aos russos, à máfia russa, e não deixar que os russos dissidentes estabelecessem bases operacionais que incomodassem Putin. A máfia russa era pior do que a Mossad, o assassínio do banqueiro Safra em Monte Carlo, protegido por dezenas de agentes da Mossad, demonstrava o alcance letal da longa manus russa. Putin nunca perdoava uma traição. Quando Putin mandou assassinar em solo inglês, o Governo de Boris Johnson camuflou o relatório. Por essa altura, os russos, incluindo Prigozhin, mandavam. A seguir, veio o ‘Brexit’, onde Putin teve dedo, a primeira grande brecha na Europa unida. A Europa e a Grã-Bretanha não se recompuseram. Na América, em 2016, sabemos que houve interferência.

É com um inimigo deste calibre, com esta inteligência e sentado em cima do maior arsenal nuclear do mundo, mentor de um novo bloco estratégico com a China, a Índia e o Sul Global, mais os árabes, que uma Europa em oclusão mandibular se defronta.

Acabará em lágrimas!