Os eunucos europeus

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 21/07/2024)


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El manuscrito carmesí. Há muitos anos li este romance impressionante de Antonio Gala, que ficciona o fim do império muçulmano na península Ibérica e a derrota de Boabdil, o último sultão de Granada, que se exilou no Norte de África, onde terá relatado o fim do seu reinado em papéis de cor carmesi, exclusivo da corte. Uma das cenas mais dolorosas e marcantes foi o tratamento dado aos eunucos que serviam nos palácios de Granada. Milhares, produzidos numa fábrica de eunucos em Almeria. Os eunucos de Boabdil foram deixados para trás, como coisas. Eles tinham servido como soldados, como navegadores, como artistas, como médicos, como funcionários. Mas foram abandonados. A União Europeia é hoje o corpo de eunucos do império que tem a sede em Washington.

Na política os atores comunicam por atos. Acting, em inglês, que é a língua do império. A visita do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a Washington na próxima semana, depois da campanha de genocídio em Gaza, depois da sua condenação como criminoso de guerra e depois da condenação a semana passada da ocupação dos territórios palestinianos, feita pelo Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas, tem leituras e revela evidências:

A primeira é a de expor que Israel é um agente dos Estados Unidos e todas as ações que executa na Palestina e no Médio Oriente são feitas em nome e em defesa dos interesses dos Estados Unidos. A segunda é que os Estados Unidos se colocam de fora das instituições que de algum modo resultaram do compromisso do pós-segunda guerra de estabelecer uma regulação mínima dos conflitos. O desprezo pelas instituições internacionais significa que a ordem internacional resultante da Segunda Guerra já não existe. Invocá-la é pura hipocrisia. A terceira conclusão é a de que, para o resto do mundo, dada a política de submissão da Europa aos interesses dos Estados Unidos, a Europa é entendida como uma parte destes e não como uma entidade com autonomia. Logo, um ator irrelevante.

O final da ordem resultante da Segunda Guerra criou uma nova situação de ocorrência de um “transiente”, na definição do cientista português do MIT Pedro Ferraz de Abreu, um estado de crise de um sistema à beira da rutura, que abre o caminho para um novo estado do sistema — como ocorreu na queda dos impérios, antes das grandes convulsões, desde as cruzadas às guerras mundiais.

Vivemos um transiente em que o grande império se desfaz diante dos nossos olhos em ambiente de jogo de luta livre americana, tendo por protagonistas dois lutadores senis, oligarquias em disputa, um império que não merece confiança, agressivo, sem lealdades nem princípios.

Em que a alternativa para as pequenas e médias potências é uma nova entidade fiável e estável ao longo da História, a China.

Para o resto do mundo, a visita de Netanyahu aos Estados Unidos a um presidente que acabou de atirar a toalha ao chão e que aproveitará a viagem para apresentar os seus préstimos ao próximo, tem o mesmo significado da prevista e inevitável visita do trio da União Europeia, as duas warmongers e António Costa de chevalier servant, e do novo mordomo inglês: são o mesmo mundo de uma época de domínio do Ocidente que durou cerca de 500 anos e que terminou.

Alguém quer saber dos eunucos dos impérios vencidos?

Uma presidência Trump será mais vantajosa que uma Biden? Qual é o cálculo geopolítico?

(Raphael Machado in Twitter 21/07/2024)

Por que alguns multipolaristas consideram uma presidência Trump mais vantajosa em comparação com Biden? Qual é o cálculo geopolítico?


Com as eleições estadunidenses se aproximando frequentemente vemos análises sobre o que seria mais vantajoso, uma vitória de Trump ou uma vitória de Biden. A resposta, naturalmente, pode muito bem depender do contexto do analista, já que os candidatos podem ter diferentes projetos em relação a cada país, sendo difícil dar uma resposta universal.

Alguns setores iranianos (mas não todos) naturalmente preferirão o Biden por considerar que seria mais fácil um novo acordo nuclear iraniano com os democratas, além de muitos não esquecerem que Trump autorizou o assassinato de Qassem Soleimani. Alguns países ibero-americanos talvez também prefiram Biden a Trump, mas nessas eleições há mais pessoas que rechaçam ambos do que nas anteriores.

Todos sabem, por sua vez, que muitos russos preferem Trump, por causa das promessas irrealizáveis de “acabar logo com a guerra na Ucrânia”; Trump, aliás, que tem seus fãs até mesmo…na Coreia do Norte, onde ele conseguiu estabelecer uma relação construtiva com Kim Jong-Un.

Existem, de fato, bons argumentos “oportunistas” para preferir Biden, se adotarmos o ângulo de que o governo Biden tem sido bem pouco competente no gerenciamento de crises externas e internas, o que nos permitiria dizer que Biden acelera a decadência dos EUA. É a lógica de preferir que o inimigo tenha um líder mais fraco e menos lúcido.

Mas há, realmente, alguns multipolaristas que consideram mais vantajosa uma vitória eleitoral de Trump. Não é por acharem Trump “isolacionista”, “pacifista”, ou por qualquer besteira do tipo, tampouco por se crer realmente que ele vai dar fim ao conflito ucraniano (até porque, recordemos, ainda não é bem do interesse russo um fim para esse conflito). São dois os pontos fundamentais que tornam esse cálculo possível.

Em primeiro lugar, a distinção entre imperialismo e globalismo. Uma das chaves de leitura das eleições estadunidenses em termos de “conflito entre elites”, é o que contrapõe elites imperialistas a elites globalistas. Essa não é uma contraposição entre opostos, mas entre posições em graus diferentes de um mesmo eixo.

Trump é, categoricamente, um imperialista. E enquanto imperialista ele é o representante de certos interesses extrativistas de uma parte do empresariado estadunidense. Trump é defensor do “interesse nacional” (entendido como interesse econômico de certas elites ligadas principalmente à indústria e à energia), mesmo que às custas de outros países.

Biden, por sua vez, é um globalista. Enquanto globalista ele é o representante político da superclasse cosmopolita e desterritorializada que pertence ao circuito dos negócios transnacionais, especialmente das finanças, tecnologia, ONGs e outros setores de tendência mais cosmopolita e menos enraizados.

A diferença é de estágio no desenvolvimento dos processos liberal-capitalistas, sendo possível definir o globalismo como a “desterritorialização” ou a “cosmopolitização” do imperialismo. É o capitalismo pós-burguês e transnacional. Nesse sentido, rigorosamente, se Biden encarna melhor os setores mais de vanguarda do capital, se Biden representa as forças que almejam o estabelecimento de um Estado-Mercado mundial, então ele é a força mais nefasta.

Veja, não é uma análise moral. Não tem a ver com quantidade de corpos, com bombas lançadas ou guerras iniciadas. É a visão fria das coisas como elas são à luz da lógica do desenvolvimento histórico do liberalismo.

Em segundo lugar, há uma outra consideração que se vincula à anterior.

As elites globalistas, como vanguarda da superclasse cosmopolita, estão imbuídas de um pathos cruzadista e milenarista. É a mentalidade de ansiar pelo “fim da História” e tentar “provocá-lo”, gerando situações de “choque” que podem permitir uma reestruturação rápida do planeta em conformidade com as ideias mundialistas.

É a mesma mentalidade dos arautos do Grande Reset os quais, na sua maioria, conscientemente, se vinculam a Biden.

O problema é que esse tipo de mentalidade milenarista parece dessensibilizar em relação à possibilidade de uma guerra nuclear entre grandes potências, com o risco de holocausto nuclear. Uma guerra nuclear, afinal, talvez não seja tanto um risco, mas uma “oportunidade” de reorganizar toda a existência planetária com pouquíssima oposição. É a ideia de um “Grande Reset” nuclear.

É isso que explicaria o porquê o Ocidente estar tão despreocupado com a escalada de agressividade em relação à Rússia, com provocações inconsequentes.

Uma presidência Biden, por essa leitura, representaria um risco maior de holocausto nuclear do que Trump. E isso porque a mentalidade imperialista é, por natureza, oportunista e mais preocupada com ganhos materiais mais imediatos e com extrair vantagens dos parceiros do que com construir um “admirável mundo novo”.

O fator que complica tudo é, porém, o messianismo sionista, tão presente na base de apoio de Trump quanto na base de apoio de Biden; de modo que, se a probabilidade de uma guerra nuclear em larga escala com Trump é menor que com Biden, ela certamente não é nula, especialmente devido ao fator sionista.

Também é necessário apontar que, na medida em que Trump escolhe a China como alvo principal, apesar do mais provável ser uma guerra comercial, não deixa de ser possível uma escalada militar no Pacífico, o que também pode levar a uma guerra nuclear.

Mas na prática, a sinofobia é uma orientação geral do Deep State estadunidense, e aparece como prioridade na maioria das análises de prioridade estratégica de longo prazo para os EUA, de modo que, mesmo sob Biden, a posição anti China está bem representada.

Naturalmente, vistos a partir da América Ibérica, ambos acabam aparecendo como menos diferentes do que a partir da perspetiva de outras regiões do mundo, excetuando, de fato, essa maior tendência cosmopolita e maior propensão a um holocausto nuclear sob Biden.


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Missionários de um Deus vencido

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 19/07/2024)

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Para quem prega a democracia pelo mundo fora, com missionários armados até aos dentes, o atentado falhado contra Trump, bem como a permanência no espaço público da patética figura de Biden, revelam bem toda a tóxica hipocrisia de quem não respeita, em casa, as boas-práticas impostas aos de fora com baionetas. Hipocrisia, até quando se usa a democracia como escudo para alimentar o inferno genocida dos amigos, como ocorre em Gaza. Sem uma pinga de espírito crítico, desprovidos da capacidade de se olharem ao espelho sem os partirem, os protagonistas da tragédia americana desempenham os seus papéis, sem cuidar da triste imagem derramada para o resto do mundo.

Mas o que são hoje os EUA? Nascido o país de uma ideia setecentista de liberdade, própria e vigorosa, conseguiu firmá-la na primeira Constituição moderna. Ela esteve nas secretárias dos constitucionalistas franceses de 1789-1791, e tem sido modelo para muitas leis fundamentais de muitos outros países ao longo dos séculos.

A liberdade política original dos EUA respira um espírito de independência, das comunidades e indivíduos, contra qualquer tutela externa (duas guerras contra o Império Britânico). É uma liberdade republicana, representativa, que inventou o primeiro federalismo onde os cidadãos também contam. Mas essa liberdade liberal (o pleonasmo é só aparente) tem um poderoso antagonista. Fraco no início, mas que ganhou força com o crescimento da tecnologia e dos mercados. A liberdade económica. Ela é não só mais indomável e irrestrita do que a liberdade política, como, tem capacidade para a controlar e, eventualmente, destruir.

A liberdade económica norte-americana é iliberal. Não tem limites constitucionais, e ainda menos éticos. Produz bilionários, que transportam nos bolsos, senadores e candidatos presidenciais, como quem exibe troféus de caça.

No campo de batalha do mercado não há Convenção de Genebra, nem se fazem prisioneiros. A concentração de riqueza é hoje pornográfica. A desigualdade campeia. Cada cidade norte-americana fecha os olhos aos seus milhões de sem-abrigo (losers), pobres e doentes.

Em 1970 o Coeficiente de Gini (que mede a desigualdade, sendo ela maior quanto maior é o seu valor) nos EUA era de 0,39, hoje é de 0,49. Comparativamente, Portugal tem 0, 35 e a Rússia tem 0,36.

O Estado federal (haverá exceções nos planos municipal e estadual) é hoje uma instituição plutocrática, uma “democracia bilionária” (para citar o título de um livro de 2018, de George R. Tyler). Por isso, Trump será de novo o presidente dos EUA. O dinheiro dos bilionários, a começar por Elon Musk, jorra de Biden para a sua campanha. Como carisma do crepuscular deus da democracia.