A miséria do jornalismo ocidental

(José Goulão, in AbrilAbril, 08/02/2024)

A máquina mediática ocidental, que controla os circuitos e conteúdos informativos transnacionais graças aos seus poderes económico-financeiros e tecnológicos, trabalha com métodos coloniais, mistura ostensivamente informação com propaganda.


O jornalismo está debaixo de fogo. Nas situações de guerra, mas também nos ambientes e nas sociedades que se ufanam de ter entre os princípios básicos do seu funcionamento a liberdade de opinião, de informar e ser informado.

É inevitável: a degradação da actividade jornalística, do comportamento das estruturas dominantes no jornalismo e do exercício da própria profissão está associada à transformação da democracia numa coisa puramente formal e não representativa da vontade popular a que resolveu chamar-se «democracia liberal».

Se a democracia liberal vive da asfixia do debate, do confinamento da opinião, da repressão do espírito crítico e da obstrução do esclarecimento, o jornalismo dominante reflecte estes desvios ao funcionamento livre da sociedade. De «quarto poder», entendendo-se por isto um papel de contraponto e de independência em relação à gestão dos três outros poderes, o jornalismo transformou-se num instrumento não apenas útil, mas também indispensável para as estratégias abusivas de governação. 

A resultante do jornalismo que se pratica entre nós, entendendo-se por isso o chamado «mundo ocidental», é uma caricatura degradante da liberdade de opinião e informação, paira como um meio tóxico sobre os cidadãos – a maioria dos quais não dão por isso porque confiam nela quase sempre sem espírito crítico, porque acreditam nas mentiras em que a realidade vai sendo embrulhada, porque os próprios meios de comunicação dominantes neles inocularam o vírus do alheamento, o espírito de rebanho. 

No resto do mundo a situação não será diferente, mas nesses espaços não se afirma com tanto afinco e com ênfase arrogante o apego às liberdades fundamentais. Se o «mundo ocidental» se olha como exemplo, então as práticas que exerce para que se cumpra essa superioridade civilizacional contrariam e negam o discurso oficial. A máquina mediática ocidental, que controla os circuitos e conteúdos informativos transnacionais graças aos seus poderes económico-financeiros e tecnológicos, trabalha com métodos coloniais, mistura ostensivamente informação com propaganda, perdeu os escrúpulos perante a mentira, transformou-se num aparelho global de guerra, militarismo, expansionismo e dominação ao serviço das oligarquias de espectro global.

A tragédia dos jornalistas

Os jornalistas, ou pelo menos a resultante do seu trabalho que mais influencia as sociedades, não estão inocentes no processo que conduziu a este panorama degradante.

Seria muito injusto associar esta realidade traumática aos jovens que sofrem com as dificuldades de acesso à profissão e que, uma vez em funções, se deparam com um clima de autoritarismo, controlo e instrumentalização aos quais é difícil resistir em situações de precariedade e de insegurança. As cadeias patronais de comando, infelizmente asseguradas por jornalistas que assim se dão bem nas suas carreiras, trituram sem piedade as jovens e os jovens jornalistas que não se encaixem rapidamente no sistema de informação à la carte no qual a realidade é um simples acidente e, mesmo assim, só no caso de coincidir com os interesses dos proprietários desses meios. Não é por acaso que sendo a democracia adjectivada como «liberal», a informação que se pratica é de índole «corporativa», oligárquica.

Nas últimas semanas temos vindo a assistir a uma série de explosões em meios de comunicação social provocadas por entidades patronais, em alguns dos casos com os rostos encapuzados em fundos financeiros de casino, guiadas pelo vício da especulação, que jogam com os direitos e a vida dos jornalistas como peças das suas manobras gananciosas ou como solução para supostas crises.

Os jornalistas, assim tratados como gado, lutam pelos seus direitos, mas dificilmente alguém os ouve porque os poderes, tanto o executivo como o legislativo, são meros cúmplices das trafulhices patronais. Podem fazer sonoras afirmações de preocupação com a situação dos profissionais, mas não mexerão uma palha em sua defesa porque a classe política e o corporativismo mediático são absolutamente simbióticos, muito mais num período em que, no caso de Portugal, se encavalitam dois actos eleitorais.

O grande pecado dos jornalistas, sobretudo desde o advento do neoliberalismo, foi o de quase terem deixado morrer, na prática, as suas associações profissionais, de não apostarem na solidariedade e na união de uma classe tão cobiçada pelos poderes – que não perdem uma oportunidade para fazer funcionar as suas estratégias de divisão, de chantagem e de exploração do oportunismo sabujo.

Num quadro de quase total inserção dos meios de comunicação social no sector privado da economia, ou seja, nas estruturas florescendo com a ditadura do mercado, os jornalistas não cuidaram das suas estruturas representativas, principalmente aquelas que poderiam responder de imediato a situações arbitrárias e abusivas como os conselhos e comissões de redacção ou quaisquer outras formas de associação e de afirmação profissional que as leis lhes facultam. Extinguiram-se as formas de organização de base e, com esse fenómeno, estiolaram igualmente as leis que as regulam, hoje alvos fáceis dos poderes patronais, contando com a já citada cumplicidade da classe política, isto é, os «arcos da governação». Na superestrutura bipolar, pública e privada, que controla o funcionamento e os conteúdos dos meios de comunicação, uma mão lava a outra; no plano jornalístico, a passividade, o conformismo e a transformação gradual dos jornalistas em ilhas isoladas e indefesas aceleram o extermínio de uma profissão nobre.

Mesmo quando lutam, os jornalistas mal conseguem fazer-se ouvir. Ao longo dos tempos de implantação e expansão do neoliberalismo conformaram-se com um sistema maquiavélico que os foi manipulando, modelando, usando e dividindo, ao mesmo tempo que se via livre, uma após outra, das vozes incómodas, inconformadas e com opiniões próprias.

A ausência de solidariedade da generalidade dos jornalistas e das estruturas representativas da profissão para com essas vozes marginalizadas, a indiferença perante as purgas a que estão submetidos os camaradas que não se encaixam no sistema de produção da opinião única, acabarão sempre por repercutir-se negativamente na classe jornalística como um todo, tornada cada vez mais vulnerável e indefesa perante as arbitrariedades, os caprichos e os interesses de máfias patronais com as mãos livres.

Jornalistas oportunistas, carreiristas, colaboracionistas e com mentalidade de capatazes sempre houve – situações que são comuns a todas as profissões. E as estruturas jornalísticas devem ter a coragem de fazer-lhes frente em vez de se conformarem, dia-após-dia, com os seus comportamentos, mesmo que ajam com as costas muito quentes. Os jornalistas têm leis do seu lado, que se sobrepõem, se invocadas, a quaisquer sistemas de organização e comportamentos internos que não as cumpram. O medo e a inércia induzem faltas de respeito e alimentam as pulsões patronais para violar as leis.

Percebem-se de maneira elementar as razões pelas quais praticamente todos os meios de comunicação que «informam» o mundo estão em mãos de oligarquias transnacionais. É uma inerência da «democracia liberal», assim como a «democracia liberal» é uma inerência da máquina global de mistificação. São simbioses intrínsecas e essenciais do neoliberalismo, o fascismo económico de ambições globalistas para o qual os jornalistas são meras ferramentas úteis e prontas a deitar fora se não funcionarem a contento ou forem meros empecilhos, por exemplo invocando as leis e ousando trabalhar com a independência própria da profissão.

Armadilha «de referência»

As chamadas publicações «de referência» são uma armadilha, sobretudo na formação da opinião pública, um instrumento essencial e «elegante» das estruturas de poder e patronais. São propriedade de grandes grupos oligárquicos pretendendo convencer-nos de que dão inteira liberdade aos profissionais da comunicação, mesmo que, pontualmente ou não, a actividade destes lese os seus interesses – já se ouviram histórias da carochinha bem mais credíveis. Ao mesmo tempo, os jornalistas por eles contratados fazem de conta (ou chegam a acreditar) que têm inteira liberdade, ao mesmo tempo que as classes políticas e patronais os vão envolvendo em auras de credibilidade, qualidade profissional e sapiência.

Cria-se e alimenta-se uma elite, uma aristocracia jornalística sofrendo de complexo de superioridade sobre os companheiros de profissão que não foram dotados com os seus skills (dotes, em linguagem da plebe), ou então que ousam ter opiniões diferentes da versão única, recorram a fontes plurais ou tenham até o desplante de criticá-la. Os jornalistas «de referência», os iluminados conhecedores da política e dos jogos de poder, dos quais são íntimos e até actores, têm a União Europeia e a NATO na conta de infalíveis e inatacáveis, enfim são também eles pilares da «democracia liberal». Pisam as alcatifas dos poderes, bebem do fino, no caso de se esmerarem na conquista de boas referências podem até ser contemplados com uma cadeirinha num qualquer conclave de Bilderberg, entre a nata conspirativa mundial. Porque têm atributos próprios da aristocracia, são jornalistas que não hesitam em atacar e difamar, nas suas prosas e dissertações, companheiros de profissão que se mantêm fiéis aos princípios da deontologia e teimam em ser independentes.

O jornalismo foi minado pelo «jornalismo de referência», instrumento do poder neoliberal globalista. O estado desprestigiado e desprestigiante a que o jornalismo chegou tem igualmente que ver, sem dúvida, com o papel divisionista e segregacionista representado por essa suposta elite, pelo seu desempenho na formatação da opinião única e na perseguição a quem não a segue, na descredibilização do jornalismo guiado pela deontologia e pela colagem letal aos poderes políticos e das oligarquias patronais.

O extermínio dos jornalistas

O extermínio físico dos jornalistas é um passo qualitativo extremo que os poderes considerados «democráticos» e aliados carnais dos centros da democracia liberal não hesitam agora em dar.

Em cento e alguns dias, Israel assassinou em Gaza mais de cem jornalistas, o maior massacre, que prossegue, de profissionais da comunicação alguma vez registado em conflitos da história moderna. Ao governo sionista de Israel tudo serve de argumento e pretexto para assassinar jornalistas e também as suas famílias.

Wahel Dahdouh, jornalista palestiniano chefe da delegação de Gaza da estação televisiva Al Jazeera, com sede no Catar, perdeu a mulher, três filhos e um neto às mãos de soldados israelitas. Um dos filhos era igualmente jornalista e foi abatido na região de Rafah, no sul do território junto à fronteira com o Egipto, em zona que as tropas sionistas prometeram livre de acções militares.

Shireen Abu Akleh, jornalista com dupla nacionalidade palestiniana e norte-americana, igualmente ao serviço da Al Jazeera, foi fuzilada intencionalmente, há meses, por um soldado sionista na Cisjordânia ocupada. De Washington não chegou qualquer acção efectiva de repúdio.

Gonzalo Lira, jornalista chileno e norte-americano que expôs corajosamente – obviamente contra as correntes jornalísticas manipuladas pelo colonialismo – as atrocidades cometidas pelo regime nazi-banderista de Kiev na região do Donbass, morreu recentemente na sequência da ausência de cuidados médicos quando esteve sob tortura na prisão às ordens de Volodymyr Zelenski, um democrata liberal acima de qualquer suspeita. O silêncio norte-americano perante o caso diz tudo.

A Julian Assange, vivendo a agonia da ameaça de prisão perpétua ou liquidação nas masmorras norte-americanas, parece não haver «justiça ocidental» que lhe valha depois de ter fundado o website WikiLeaks e nele ter exposto e comprovado as cruas realidades sobre a conspiração e o terrorismo como instrumentos do sistema imperial e da sua vocação «civilizacional».

Nunca existiu um ataque tão cerrado contra a vida de cidadãos que desempenham trabalhos jornalísticos como actualmente. «Os nossos coletes de imprensa, em vez de serem símbolos universais de protecção, tornaram-se alvos das miras israelitas, ao ponto de os nossos colegas em Gaza dizerem que usar coletes os torna inseguros», denuncia o Sindicato dos Jornalistas Palestinianos.

Caem sucessivamente por terra todas as normas de respeito por civis em situações de guerra, atropelando a Declaração Universal dos Direitos Humanos que, no seu artigo 19.º, determina que «todo o indivíduo tem o direito à liberdade de opinião e expressão, o que implica o direito a não ser inquietado pelas suas opiniões e de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias através de qualquer meio de expressão».

Tal como as leis que, Estado após Estado, deveriam assegurar direitos aos jornalistas, também esta declaração universal é agora letra morta.

A reacção de organizações e associações nacionais e internacionais de jornalistas está longe de corresponder à magnitude da catástrofe sob os seus olhos; não vai além de «lamentos», expressões de solidariedade vazias de conteúdo e sem equivalência prática susceptível, em contexto profissional, de ter repercussões constrangedoras para os responsáveis pela violência contra os jornalistas e o jornalismo.

As organizações de jornalistas europeus demonstram, na generalidade das suas reacções perante a violência contra a profissão, uma tendência para o alinhamento com as posições governamentais e da União Europeia em relação, por exemplo, aos conflitos na Ucrânia e na Palestina. Pedem tanto a Israel como ao Hamas que «poupem civis», como se tudo tivesse apenas que ver com o 7 de Outubro e os ataques aos direitos dos palestinianos não se arrastem há mais de 75 anos. Este equilíbrio virtual entre algozes e vítimas é próprio de governos cúmplices dos autores dos massacres e deixa pelas ruas da amargura a independência e a coragem que devem guiar os jornalistas.

Gideon Levy, um destemido jornalista israelita do diário Haaretz, que não tem vida fácil em função do seu profissionalismo desassombrado, escreveu há dias: «11500 crianças mortas em Gaza. O horror nesta escala não tem qualquer justificação». E desafiou os seus leitores, desassossegando-os: «dão-se conta da extensão desta monstruosidade?» Gideon Levy confronta assim os carrascos de milhares de inocentes indefesos bem no coração dos seus domínios. O jornalismo e os cidadãos do chamado mundo ocidental só teriam a ganhar se este exemplo não correspondesse a um caso fortuito.

Quanto à Ucrânia, estamos perante um pouco mais do mesmo. As associações ocidentais que dizem representar os jornalistas lamentam, com propriedade, os profissionais que são vítimas directas da invasão russa; mas são bem menos, ou mesmo nada, enfáticas perante a violência muitas vezes assassina contra jornalistas praticada pelo regime nazi-banderista de Kiev, atingindo tanto os que, internamente, procuram desmascarar a repressão contra as vozes discordantes como os que são vítimas das agressões banderistas contra as populações do Donbass. Este equilíbrio desequilibrado, uma réplica das conhecidas posições de dois pesos e duas medidas assumidas pelos governos e pelas estruturas da União Europeia, desprestigiam os jornalistas e transformam-nos em alvos ainda mais fáceis e manobráveis das estruturas de poder. Numa frase curta: os jornalistas ocidentais não se dão ao respeito e sofrem as consequências. Em última análise, aviltam a profissão, tratam a deontologia como as mafias patronais encaram as leis e deixam os cidadãos indefesos e à mercê de um sistema triturador, inimigo do esclarecimento e da pluralidade de ideias, alienante e mesmo estupidificante.

Quando chega a hora de os poderes patronais, por esta ou aquela razão sem fundamento, ajustarem contas com profissionais da informação, só porque sim, como agora acontece através da Europa graças a uma crise auto-infligida, é óbvio que não levam em consideração os serviços prestados, nem sequer o zelo subserviente dos lambe-botas. Então os jornalistas descobrem que estão sozinhos, sem poderem contar seriamente com as organizações que dizem representá-los, quantas vezes emaranhadas no acessório, nem com o apego das classes políticas ao cumprimento das leis porque, na verdade, quem faz a lei que conta são os poderes oligárquicos, os padrinhos de redes mafiosas globalistas.

Aos jornalistas continua a restar apenas um caminho para exercer verdadeiramente a profissão: o da independência e o da procura da verdade através de todos os meios que estão ao seu alcance. É a via mais dura, exige coragem, empenho, risco e a abdicação de comodismos e mordomias que corrompem e, em boa verdade, são estranhas ao exercício da profissão; mas é a via mais digna, a que compensa, a prazo, e a que transforma o jornalismo num quase inexplicável fascínio para os que o praticam com dedicação e respeito inegociável pelo direito de todos a uma informação fundamentada e rigorosa. Esse é também o caminho para que a maioria dos cidadãos, usufruindo do autêntico direito a ser informados, sejam mais livres, mobilizados e esclarecidos. Tudo aquilo que os patrões mediáticos e a classe política «liberal» não toleram.


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Dicas para ir para a lama com um porco e sair de lá limpo

(Tiago Franco, in Facebook, 09/02/2024)

Não chegam os comentadores de serviço a levar o Chega, e a direita em geral, ao colo.

Não chega o tempo de antena dado a André Ventura há quase 5 anos.

Não basta que, repetidamente, os moderadores permitam a André Ventura que interrompa de forma contínua o opositor e até substitua o jornalista, fazendo ele próprio as perguntas.

Para além disso tudo, ainda conseguem terminar o debate com uma diferença de tempo de quase dois minutos a favor do pastor, não dando qualquer hipótese a Paulo Raimundo de rebater a mais pura demagogia usada no fim pelo Ventura.

Se quem é democrata, mesmo anti PCP primário, não percebe o problema nesta rampa de lançamento que a CS montou para o Chega, então, espero que aproveitem bem o que aí vem. E se tiverem tempo e paciência, vão ouvir as declarações do Pacheco nos Açores hoje. Um partido “antissistema” que ameaça mandar tudo ao chão se não for para o poder. É isto o Chega, não é outra coisa.

Dito isto, uma crítica para dentro. André Ventura meteu-se várias vezes a jeito e Raimundo não soube aproveitar. No PREC, nos impostos, na história da clandestinidade (que Paulo Raimundo lhe devia ter esfregado no focinho), na emigração, no favorecimento à banca, nos financiadores do Chega, na antiga profissão do Ventura, no SNS, nas sucessivas mudanças de posição do Chega, na destruição do estado social. Raimundo pareceu, em momentos diferentes, quase a perder o controlo emocional e, claramente, com pouca experiência para este tipo de debates. A linha é exatamente a mesma de Jerónimo com a agravante da gaguez mediática.

Por favor, não se encolham quando dizem que o PCP não defende a NATO ou advoga a saída do Euro. Expliquem porquê, apenas. Esta merda desta pergunta, que aparece há 15 anos, tem que estar mais do que na ponta da língua. Ser contra a NATO não e defeito, é medalha.

Quando Ventura acusa, novamente, o PCP de apoiar a Rússia, Paulo Raimundo tem que lhe cair em cima e explicar, em 5 segundos, que a Rússia é governada há 20 anos pela família política do Ventura, do Orbán, da Meloni, da Le Pen. Quem apoia a Rússia é o Ventura e o Centrão que lá foi vender vistos Gold, não é o PCP. Há 2 anos que se repete essa mentira. Não pode haver tremores na altura de a rebater.

Quando Ventura fala de 74, Raimundo tem que lhe gritar, sem pestanejar, que foi a morte de comunistas que permitiu que fascistas como o Ventura gozassem hoje da liberdade para dizer disparates. Quando Ventura fala em mortes, Raimundo tem que lhe dizer que quem escreveu o programa do Chega foi um antigo bombista.

Quando o jornalista pergunta se os imigrantes o incomodam e Ventura responde “claro que não”, Raimundo tem que lhe perguntar que, se não incomodam, porque coloca nas suas redes sociais, vídeos a criticar muçulmanos em oração no Martim Moniz? Não há problema nenhum de se repetir, em frente ao próprio, que André Ventura é racista e xenófobo. Ventura acha ótimo encher o Instaram de fotos dele a rezar em Fátima mas já fica escandalizado se vir um muçulmano virado para Meca numa rua de Lisboa.

Quando se fala em saúde ou educação, e Ventura ensaia o número do defensor dos pobres, é preciso perguntar-lhe o que mudou desde os tempos do primeiro programa, que falava em privatizar tudo. Ou até do segundo programa, aquelas inesquecíveis 9 páginas. É preciso explicar que Ventura mente, sempre. É preciso demonstrar que Ventura não tem ideologia, diz o que for preciso para ganhar votos mas que, no poder, seguirá apenas a agenda típica da extrema-direita.

Quando fala nas pensões de 200 euros que queria aumentar, deve-lhe ser perguntado como? Com os 15% flat no IRS que sugeria nas 9 páginas e que não passava de uma fuga aos impostos dos mais ricos? Ou com o dinheiro da corrupção que já todos lhe explicaram que não pode ser contabilizado como receita extraordinária? Ou com o dinheiro que ajudava os clientes a esconder nos paraísos fiscais?

Quando o tema é habitação lembrem-se que Ventura fazia parte dos defensores dos vistos Gold.

Sempre que Ventura disser num debate “e não nos acompanharam nessa proposta” digam, “nem nós nem ninguém uma vez que o grupo parlamentar do Chega teve 0 propostas aprovadas”.

Quando o tema são cortes, impostos e finanças em geral, lembrem-se que Ventura anunciou números (400 milhões) retirados à ideologia de género (no congresso do Chega) e mal saiu do palanque já tinha jornalistas a dizer que não existia tal tema e muto menos números. Ventura anuncia medidas ao calhas sem qualquer aplicação prática (como o iva da primeira habitação). Sempre que ele falar em ajudar os pobres, digam-lhe que em 2020 o programa do Chega para os Açores era cortar 50% do RSI. Expliquem que os imigrantes que ele tanto detesta, contribuem para Portugal 7x mais do que consomem. Digam-lhe, sem pestanejar, que ele repete, sem se rir, números e medidas sem sequer as confirmar, apenas para iludir os eleitores.

Quando Ventura fala em meter a banca a pagar as taxas de juro (algo que sempre votou contra, pelo que todos percebemos que é populismo básico), perguntem-lhe onde andava ele, quando Luís Filipe Vieira foi apertado na comissão do BES pelos calotes que todos pagámos e o Chega assobiou para o lado? Estaria ainda a lembrar os seus tempos de comentador na CMTV, em que seguia o guião ordenado por Vieira?

Quando Ventura fala nos apoios ao país A ou regime B, perguntem-lhe, já que apoia Milei, se concorda com a criminalização do direito à manifestação. E quando ele ficar entalado, insistam: como é que apoia as políticas de Milei e, em simultâneo, as manifestações dos polícias?

Ventura é isto. Não faz um debate sem mentir, sem dizer números ao calhas, sem contradizer as suas próprias posições. E fá-lo tantas vezes que, ao fim de 5 anos, não há desculpa para caírem sempre na mesma esparrela. Interrupções, demagogia e mentiras. Basta respirar fundo e, em cada um dos temas fazer as perguntas que escrevi acima. Depois é esperar que ele se enrole sozinho e não largar o osso, ou deixar mudar de tema, até ele responder.

É preferível até, ficar calado e apenas falar 2 minutos de debate, se for apenas isso que o jornalista permitir sem interrupções, mas usar esses dois minutos para mostrar os buracos onde Ventura se mete.

Quando Ventura falar em poder e responsabilidade, digam-lhe que num dia votou a mesma proposta de lei de 3 formas diferentes. Que armadilhou o governo dos Açores. Que andou 5 anos a dizer que era contra o sistema e as cunhas mas que, agora ameaça a constante instabilidade se não tiver pastas ministeriais. Fala em tachos mas assim que aumentou o grupo parlamentar meteu logo familiares de deputados como assessores e anda, nas sobras do PSD, a recrutar deputados que se recusam a largar a mama.

É repetir em cada debate o alinhamento que aí está e, num ápice, acaba-se o mito de ter que lutar na lama com um porco. Ele abre sempre, mas sempre, a carreira de tiro nos mesmos temas. A vida daquele homem está nas redes sociais. As contradições, os disparates e os absurdos estão, em grande parte, registados um pouco por toda a internet. Quão difícil pode ser desacreditá-lo entre aquilo que vende e aquilo que realmente é? Não fará mossa no seu eleitorado, pobre, que não tem dúvidas e acha mesmo que o caminho é votar em quem lhes vai tirar a escola e o SNS, mas fará a diferença no nosso eleitorado. O tal que percebe o que está em causa, que percebe as lutas passadas, que entende a importância do PCP na AR mas que espera, desde os tempos perdidos do João Amaral, que o PCP entre no século XXI.

Paulo Raimundo está a iniciar-se nestas lides, parece ser honesto e boa pessoa. Mas o PCP já tinha quadros experientes e com presença mediática, melhor preparados para estes tempos exigentes em que o partido procura recuperar votos. João Ferreira e João Oliveira, por exemplo.

Às vezes parece que temos todos um Schmidt em cada esquina e complicamos o que, à partida, seria simples e óbvio. Ainda assim, a minha vénia para ele por aceitar ir para a frente da batalha.


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Os agricultores pararam a Europa contra a guerra na Ucrânia. E nem sabem disso.

(Raquel Varela, in Facebook, 02/02/2024)

Além da melhor coleção de boinas do mundo, ontem os agricultores da Europa deram uma lição. Sem a história não se compreende nada, nem porque há tantos vegetarianos estropiados na Ucrânia, nem a transição verde europeia que destrói o Brasil. A história é muito melhor que o GPS.

A transição do feudalismo para o capitalismo só é possível com a expropriação dos camponeses, que passam a assalariados agrícolas de grandes propriedades. Estas dores de parto geram revoltas épicas, com efeitos de arrastamento em toda a sociedade. Não há mi-mi-mi e negociações delicadas, é com foices no século XIX e tratores no XX. Lutam a sério. Lutam com as armas de trabalho.

A PAC (Política Agrícola Comum) é o instrumento europeu mais bem-sucedido para garantir expropriação sem expropriação, ou seja, a agricultura torna-se capitalista, produzindo com recurso a técnicas intensivas culturas escolhidas (leite e cereais), mas os agricultores recebem subsídios para manter uma quantidade razoável de pequenos e médios agricultores no campo, lado a lado com as grandes explorações, evitando assim as suas revoltas, . A tese mais importante sobre isto é de um historiador social-democrata, europeísta convicto e sério, Kiran Patel, com quem trabalhei em Munique. Foi ele que me chamou a atenção para este facto essencial – a PAC foi a contenção dos camponeses e só ela tornou possível a UE porque evitou as revoltas (pode ser lido no seu livro Project Europe).

Assim, a mais capitalista das explorações, propriedade de bancos, convive na Europa, com o pequeno e médio agricultor.

A queda da taxa de lucro das empresas na Europa, depois de 2008, levou-as em busca de uma nova fase de expropriações. Agora só há lugar para as grandes corporações que querem arrasar com o que resta dos pequenos agricultores, abrindo o mercado ucraniano às corporações norte-americanas e europeias (para quem tinha dúvidas fica claro o objetivo “democrático” no apoio à guerra na Ucrânia: é que as terras da Ucrânia ocidental foram vendidas em 2019 por Zellensky) e ao Mercosul, onde países como o Brasil têm 40% da população a passar fome mas são chamados a virar toda a produção para o mercado europeu, com soja, por exemplo, que alimenta a carne na Europa.

Enquanto não convencem todos os europeus a serem vegetarianos – como se o consumo de proteína animal não fosse essencial ao cérebro – e martelam que comer animais faz mal à saúde e à alma, fazem dos europeus a carnificina dos lucros. A UE/corporações económicas, aqui pilotadas pela líder de direita alemã e ultraliberal Úrsula, decretam que os produtos da Ucrânia entram sem taxas, diminuem as do Mercosul (Brasil e Argentina), e fazem entrar produtos do Norte de África sem garantias e controlo sanitário assegurado, enquanto aqui exigem aos agricultores controles burocráticos insustentáveis e kafkianos. Ah! Claro, tudo isto em nome da “transição verde”, “ecologia” e “sustentabilidade”, as palavras que Úrsula usa mais, enquanto desembolsa 50 mil milhões de euros dos nossos impostos para armamento à Ucrânia – destruída -, mais guerra, mas sempre chamando-lhe sustentabilidade e democracia.

A tentativa de expropriar os camponeses teve uma reação em cadeira gigante, chama-se luta de classes – é preciso deixar de ter medo das palavras, senão não se explica nem compreende a sociedade. Ontem houve luta de classes, e os de cima ficaram ansiosos, recuaram nas leis, despejaram milhões em poucas horas para parar os tratores de avançar sobre as capitais, onde os acionistas de bancos comem carne do lombo com trufa negra e champanhe.

Úrsula quer lucros para capitalizar a terra, são os bancos e os seus acionistas que querem ser donos das terras. Os agricultores pararam a Europa em resposta, em apenas um dia, toda a Europa parou. Nenhuma lei contra o corte de estadas foi acionada porque, como dizia o mestre Howard Zinn, historiador: “se queres quebrar a lei fá-lo com, pelo menos, 2 mil pessoas”. Não querem tornar-se assalariados agrícolas, mais uns milhares de homens e mulheres a trabalhar como nepaleses, escravos apinhados em contentores. É contra isto que lutam, contra a sua proletarização.

Os partidos do centro liberal e da extrema-direita gritam contra os imigrantes mas apoiam as leis de expropriação, as armas para a Ucrânia e toda a panóplia de leis que vão fazendo de agricultores, meros proletários. Ontem a RTP, aliás na voz de Rodrigues dos Santos, abriu o telejornal comparando, no mesmo universo, os assalariados agrícolas com os agricultores!, não compreendendo o elementar: são duas realidades completamente distintas, um pequeno agricultor que recebe subsídios e um proletário que apanha fruta.

Tudo está em disputa. A Rússia, juntamente com os EUA, Argentina e Brasil são os maiores produtores. A Rússia está com as terras mais férteis, inclusive as da Ucrânia oriental, pois a invasão completou o acesso da Rússia à maior fatia das “terras negras”, as mais produtivas. A NATO crescia para leste, justamente para ter acesso a elas, a estas terras.

Por isso os acordos de Minsk nunca foram cumpridos – o choque já criou milhões de refugiados ucranianos, mais mão-de-obra barata na Europa. É que nada se perde em capitalismo: nem mesmo os estropiados e os cadáveres dos mortos de guerra deixam de gerar lucros na conta do funeral. É o dinheiro. O vil dinheiro, o mercado a funcionar. Ontem, a UE e os EUA, com o voto de vencido de Orban (que queijo limiano terá ganho este parceiro do Chega?!) largou mais 50 mil milhões, para a guerra. A guerra deles, onde morre quem trabalha.

É o estado da UE, ou como diziam os agricultores belgas, quando deixaram estrume na capital Bruxelas: “esta não é a minha UE”. Que vivam os agricultores!


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