A extrema-direita faz parte do sistema — não se assustem!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 13/02/2024)

As campanhas eleitorais que se estão a desenvolver em vários países europeus têm um tema central que as máquinas de propaganda se encarregam de dramatizar até ao limite, a bem das audiências e do entorpecimento dos cidadãos em geral: a extrema-direita entra nas contas para os governos ditos democráticos e é um perigo para a democracia ou não?

A questão lembra-me as sessões de luta-livre americana, em que há sempre um vilão e os resultados estão decididos à partida. Todos, os lutadores, o árbitro e os empresários, os locutores e comentadores, os treinadores fazem parte do espetáculo. Os jogos que as televisões portuguesas têm apresentado em direto são programas de entretenimento e adormecimento: fazem de conta que existe um mau da fita e que este coloca em perigo a liberdade de decisão dos cidadãos e a sua intervenção nas decisões tomadas em seu nome. O mau da fita representa o seu papel de arruaceiro e o público assobia, ou aplaude.

O jornal El País publicou a 10 de fevereiro um texto de Andréa Rizzi, editor de assuntos globais sobre as “democracias cativas das minorias”. O artigo tem interesse por ser um exemplo da pasta de hambúrguer que é hoje em dia o recheio do pensamento dominante dos dirigentes europeus e dos fazedores de opinião europeia sobre o conceito de “democracia”.

O autor tem um bem guarnecido currículo europeu. Editor-chefe da secção Internacional e vice-diretor da secção de Opinião do El País, licenciado em Direito (La Sapienza, Roma), mestre em Jornalismo e em Direito da UE. Está, pois, habilitadíssimo a promover a falácia sobre a democracia que trouxe a Europa até ao impasse em que vive e da qual não sairá porque está em morte cerebral. Tal como os políticos europeus, o jornalista tem um pensamento redondo e liso sobre o regime que os poderes dominantes impuseram como sendo o padrão de democracia e que conduz à frase resumo dos populistas: eles são todos iguais. De facto, se não são, são ramos do mesmo tronco.

Andréa Rizzi escreve sobre os inimigos que ameaçam a democracia “a incapacidade de construir políticas de Estado sobre questões básicas permite que grupos minoritários em posições influentes obtenham enormes retornos e que os regimes autoritários observam com alegria esta fraqueza das democracias polarizadas.”

Não sei o que seja uma democracia polarizada, mas sei que se os atuais dirigentes europeus são incapazes de construir políticas, isto é, dar respostas a problemas da vida em sociedade sobre questões básicas, é natural que surjam alternativas. A questão é, pois, de aptidão e competência para definir políticas e realizá-las. Os inimigos da democracia são os que corrompem por dentro o seu princípio matricial, a participação dos cidadãos.

O autor, como está na moda, reduz o essencial do conceito de democracia ao voto em representantes. É uma redução deliberada e falaciosa. É a corrupção do conceito de democracia que os grupos dominantes promovem através da comunicação social, porque lhes permite validar o seu domínio com a “vontade popular”. É pura manipulação, que tem fundamentos teóricos — leia-se Capitalismo, Socialismo, Democracia, um livro do economista austríaco Joseph A. Schumpter (basta ir ao Google) — para ficar a saber como o autor (muito respeitado) restringiu a democracia a um mero arranjo organizacional de seleção de elites que competem entre si pelo voto do povo através de uma disputa eleitoral que lhes permite legitimar as suas decisões. É o que se chama uma conceção “procedimental” e minimalista da democracia, mas é a conceção em vigor e consolidada.

Dentro destas baias, que são a Bíblia das elites ocidentais, Andréa Rizzi considera que o “protesto dos tratores que está a abalar vários cantos da Europa põe em evidência problemas importantes das democracias, cujos equilíbrios de poder e mecanismos de funcionamento são muitas vezes tão frágeis que a ação determinada de uma minoria numa posição estratégica é suficiente para provocar reações políticas transcendentais”. A estabilidade é o bem supremo a ser garantido a todo o custo pela “democracia”. Não se mudam os sapatos, há, sim, que adaptar os pés! Na realidade o que os protestos, mesmo que sejam de uma minoria, evidenciam é o resultado de uma política, entendida como a aplicação de uma ideologia a uma sociedade, em que os cidadãos nada de fundamental decidem. Em que o essencial dos interesses está definido à partida, é imutável e assenta em dois pilares: a propaganda e a finança.

O protesto dos agricultores tem as mesmas causas do protesto dos candidatos a comprar casa, dos doentes à espera de consulta, dos reformados a propósito das pensões, dos motoristas de camiões, dos polícias, dos médicos e enfermeiros do SNS. Tem uma origem conhecida e escamoteada pela propaganda (informação é coisa que não existe): a ditadura da finança. O Banco central Europeu, essa democrática instituição, empresta dinheiro apenas aos bancos a 2% de juros, estes emprestam dinheiro aos que querem abrir um negócio, comprar uma casa, adquirir um bem, a 8% (os valores serão mais ou menos estes). O agricultor vende um quilo de um produto a um valor X a uma empresa de grande distribuição, que o vende ao público a 5X e mantem o diferencial no banco a render a 90 dias. O banco empresta esse dinheiro a 8X. Pessoal dos serviços nacionais de saúde protestam em toda a Europa porque a sua falência proporciona o desenvolvimento dos negócios da medicina privada, geradora de investimentos da banca e de avultados lucros. Não há votos que legitimem esta ditadura. Mas este regime é apresentado como essencialmente democrático e o que o ameaça, segundo o pensamento dominante, é a extrema-direita! Não é. É a usura, um velho termo caído em desuso que nenhum partido do “arco da governação”, e muito menos a extrema-direita, aqui em Portugal o Chega e a Iniciativa Liberal, a versão hard e a versão soft do neoliberalismo, prevê eliminar ou limitar.

O editorialista do EL País reconhece que “o protesto agrário é notável como mobilização e que esta, infelizmente, é instrumentalizada pela direita, mas como já conseguiu um forte impacto no debate político, as instituições de Bruxelas farão concessões”. Pois farão, como sempre fazem, como o farão com a habitação, ou com a saúde, mas não farão concessões em nome da democracia, nem para satisfazer uma justa pretensão, mas porque são máquinas de girar e centrifugar o dinheiro que proporciona lucros e poder às oligarquias financeiras e atirar dinheiro para a multidão faz parte das receitas vindas da antiguidade de os nobres o lançarem mãos cheias de moedas àqueles cujos protestos causam maior impacto. Os subsídios aos agricultores acabarão por ir parar à banca, através da inflação que provocam (as empresas de distribuição e a banca jamais abdicarão das suas percentagens de lucro), e o mesmo acontece com a habitação, os subsídios à compra de casa cujos juros os “liberais” propõem que sejam pagos pelo governos, ficando o Estado a subsidiá-los a bem dos lucros da banca e da “financiarização” da política, da sujeição da política à finança. O jogo de protestos e negociações está viciado à partida e não é de democracia que se trata.

A direita aproveita-se dessa causa? Perguntem à direita se tem um programa financeiro alternativo ao sistema bancário cujo vértice é o FED (o banco central dos EUA), a que se juntam o Banco Mundial e o FMI, ou à bolsa de Wall Street. No debate entre o Raimundo do PCP e o Ventura do Chega, este demagogo perguntou a Raimundo se ele era contra o Euro. Não sendo o Euro o fundo questão, o que acontece que o BCE é, porque o emite a um dado valor que contempla os interesses dos usurários (dos banqueiros e financeiros) contra o dos cidadãos.

O perigo do crescendo da extrema-direita que o editorialista refere, sem nunca explicar o que materializa o perigo, é o de ela introduzir uma violência descontrolada que perturbe a velocidade mais conveniente ao dínamo do sistema financeiro, uma velocidade que este determina através dos governos e dos partidos políticos tradicionais.

A manutenção da extrema-direita europeia no limbo em que ainda se encontra resulta da avaliação da sua utilidade que os grandes grupos financeiros fazem, pois são eles que a financiam, como financiam os partidos tradicionais: É mais vantajoso ter perto do poder uma extrema-direita xenófoba que provoque a rejeição de emigrantes, com o consequente aumento do custo da hora de trabalho e a obrigação dos europeus realizarem tarefas pesadas, sujas e mal pagas, ou mantê-la afastada de forma a garantir uma reserva de mão-de-obra através da emigração? Quando é que a extrema-direita deve ser utilizada para promover agitação social (greves de médicos e enfermeiros, de motoristas, de polícias, de agricultores, juízes e procuradores) que passem a ser mais vantajosas do que investimentos na construção civil, na exploração de matérias-primas, na hotelaria ou turismo? A aproximação da extrema-direita do poder resulta da análise que os seus investidores fazem da sua utilidade na realização das suas estratégias e não do seu perigo.

Adianta o comentador do El País “que na história recente da Europa há vários casos de meia dúzia de assentos parlamentares que exercem uma influência absurda, ou de setores muito minoritários que, por uma razão ou outra, têm uma capacidade de pressão exorbitante.” E mais: “Isto é democracia, dir-se-á.” Pois é, digo eu, e também: o que não é democracia é a política (e a democracia) ser determinada por meia dúzia de assentos não parlamentares, ocupados por desconhecidos sentados em cadeiras ergonómicas à volta de mesas de tampo brilhante, em salões insonorizados no topo de arranhas céus, ou em bunkers isolados das vistas e dos ouvidos dos cidadãos, onde têm lugar os governadores dos bancos centrais, que ninguém elegeu, ou os membros da elite dos clubes financeiros, do tipo Bieldberg, ou os mágicos manipuladores dos centros de estudos, os think tanks de grandes fundações que têm multimilionários como patrocinadores, ou os administradores dos grandes fundos de investimentos que dominam as bolsas de valores. A democracia é evitar a tirania dos que nos determinam o valor do dinheiro que temos e recebemos, o quanto podemos comprar com ele, quanto temos de pagar por uma casa, por um quilo de batatas, por um litro de azeite, por uma semana de férias, por uma operação cirúrgica, por um medicamento, um livro, ou um casaco. E, dado que o artigo também refere a guerra na Ucrânia, democracia é ter direito a saber as causas e poder intervir na decisão de a Europa meter a cabeça no laço que a estrangulará.

Considera o autor, como muitos comentadores de largo espetro televisivo que nos Estados Unidos o desbloqueamento da ajuda à Ucrânia se transformou numa provação devido à mera “politiquice” entre Democratas e Republicanos. É não perceber (ou não querer que os outros percebam) nada dos americanos: os oligarcas que governam os Estados Unidos desde a fundação — os “gloriosos foundig fathers” — agiram sempre e apenas de acordo com os seus interesses, o impasse não é politiquice, é conflito de interesses entre grupos oligárquicos, não existe nenhuma disfunção no topo de política dos EUA, o que menos incomoda os políticos americanos é o direito, a razão, ou o interesse dos outros. E o mesmo se diga da questão do genocídio dos palestinianos. O que interessa aos EUA é manter o domínio no Medio Oriente através de Israel sem ultrapassar o limite em que surjam acusados de cumplicidade por outros atores políticos importantes, de ponderar quando as vantagens do apoio ao massacre passam a ser menores do que os inconvenientes. Pura análise de vantagens e inconvenientes. A observação da atitude das democracias europeias perante a guerra na Ucrânia e o genocídio na Palestina expõe o conceito em vigor de democracia europeia: os cidadãos podem reclamar (não muito alto), mas a política europeia em nada se alterará. Atirar dinheiro para calar reivindicações, sim, é democrático, considerar as vozes que questionam as decisões fundamentais não é!

A ação das minorias não é contra a democracia, é o resultado de políticas decididas sem intervenção dos instrumentos da democracia: a consulta e a participação.

A fraqueza das denominadas democracias europeias do pós Segunda Guerra não está na maldade dos americanos, dos russos, dos chineses, ou dos guerrilheiros que disparam sobre os barcos que se dirigem ao canal do Suez, está no regime de ditadura financeira, no servilismo dos dirigentes europeus aos interesses da finança, na negação dos valores que a Europa do pós-guerra foi considerando seus depois de séculos de colonização e de colonialismo de imposição de um poder baseado na força e na convicção da superioridade cultural.

A decadência das democracias europeias tem hoje um centro interpretativo, com figuras e cenas ao vivo — tipo sex shop — em Israel. A Europa pode rever-se hoje nesse espelho. O nazismo nasceu da fraqueza dos que se diziam democratas e afinal eram obedientes funcionários públicos, como declararam no tribunal de Nuremberga.

Por fim a questão exemplar da agricultura europeia e da política da União Europeia. De acordo com o Eurosat, em 2019 o setor agrícola ocupava 9,5 milhões de europeus e 3,8 milhões na produção alimentar, a agricultura contribuía com 1,3% do PIB europeu.

A UE atribuiu ao conjunto de 27 países 38,2 mil milhões de euros à política agrícola, 13,8 mil milhões para desenvolvimento rural e 2,4 mil milhões ao mercado de produtos agrícolas. No total 54, 4 mil milhões. Há pouco, a mesma UE atribuiu 50 mil milhões à Ucrânia. Em conclusão: Os agricultores são uns chatos antidemocratas e os ucranianos chefiados por Zelenski uns democratas de primeira apanha!

Os vários protestos que ocorrem na Europa podem estar a ser conduzidos pela extrema-direita, mas a extrema-direita apenas está a geri-los em nome de outros interesses. Nunca colocou em causa o poder do BCE, nem as guerras em que a Europa se envolveu seguindo os EUA no Iraque, na Síria, no Afeganistão, no Kosovo, na Ucrânia e na Palestina, nunca colocou em causa os muros no México, nem em Gaza, nem as despesas colossais com o rearmamento da Europa, nem a inevitável desindustrialização da Europa causada pelo aumento do preço da energia devido às sanções à Rússia, sobre as quais os cidadãos europeus não foram, democraticamente, chamados a discutir. A extrema-direita faz parte de um “sistema” em que “democracia” passou a ser uma palavra sem sentido, em que o rótulo não corresponde ao conteúdo.

Estas “imparidades” pagam-se caro. A solução habitual para resolver os grandes impasses é uma grande guerra de destruição de bens materiais e humanos. O discurso da guerra já está na ordem do dia nos dirigentes europeus e não é por acaso que falam sempre de armas nucleares. A extrema-direita também não ameaça esta solução, apoia-a. Faz parte da NATO.

Deixo o link para o artigo do El País aqui.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Privatização da ANA: um assalto em curso

(Manuel Gouveia, in Resistir, 13/02/2024)

(Então o Ventura e o Montenegro (esses “grandes lutadores” contra a corrupção), não dizem nada?! O Montenegro tem que prestar vassalagem a José Luís Arnaut, o homem de mão do PSD para a execução deste roubo a céu aberto, que ainda hoje é administrador da ANA aeroportos (os favores pagam-se). E, já agora, ninguém traz este escândalo para os debates com o Montenegro – o Pedro Nuno Santos, por exemplo -, ou será que o PS também tem o rabo trilhado?

Estátua de Sal, 13/02/2024)


O Tribunal de Contas demonstra como mais de 20 mil milhões foram desviados do erário público para os bolsos dos acionistas da Vinci. Sim, vinte mil milhões. De euros. O suficiente para construir DUAS linhas de Alta Velocidade Lisboa Porto, mais DOIS Aeroportos Internacionais, mais a TTT Lisboa-Barreiro e ainda salvar outra vez a TAP….

Ler artigo completo aqui.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte II

(José Catarino Soares, 12/02/2024)

Valodymyr Zelensky, fotografado em 9 de Abril de 2022, o dia em que tomou a decisão mais vil da sua carreira política e a mais desastrosa para os destinos da Ucrânia.

  1. Introdução 

Em 12 de Dezembro de 2023, publiquei um extenso artigo, intitulado: “Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos” (ver aqui). Nesse artigo, divulguei e interpretei dois testemunhos de peso de um facto da máxima relevância ‒ aquele que é enunciado no título do artigo ‒ que o sistema mediático dominante da comunicação social em Portugal não achou por bem dar a conhecer ao público português.

Neste artigo, que é a continuação do artigo de 12-12-2023, divulgo e interpreto mais dois testemunhos de peso, mais recentes, relativos a esse mesmo facto, os quais, uma vez mais (salvo melhor inventariação), o sistema mediático dominante da comunicação social em Portugal não se dignou dar a conhecer ao público português.

Isto, não obstante a sua enorme importância para a boa compreensão das duas guerras na Ucrânia — a que começou em 13 de Abril de 2014 (entre a Ucrânia e as então recém-proclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk na região da Donbass) e a que começou em 24 de Fevereiro de 2022, entre a Rússia e a Ucrânia, com a “Operação Militar Especial” (OME) da Rússia, antes de se fundirem, militarmente, uma com a outra em Fevereiro de 2023.

Como o artigo é muito extenso, vou dividi-lo em 4 partes (2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª) para facilitar a sua leitura. Esta é a 2.ª parte, já que o artigo de 12-12-2023 passou a ser a 1.ª parte por retroacção.

2. Lembrete

Os testemunhos a que me referi no artigo de 12 de Dezembro de 2023 são declarações públicas de duas pessoas: (i) Davyd Arakhamia, chefe do grupo parlamentar do partido Servente do Povo (o partido  fundado pelo presidente Volodymyr Zelensky) e chefe da delegação da Ucrânia nas negociações com a Rússia que tiveram lugar na segunda quinzena de Março de 2022, na Turquia, com vista a alcançar um acordo de paz entre os dois países; (ii) Gerhard Schröeder, ex-chanceler da Alemanha (1998-2005), que participou nessas negociações como mediador, a pedido da Ucrânia.

Estes dois homens declararam ambos, publicamente ‒ em 24 de Novembro de 2023 e 21 de Outubro de 2023, respectivamente (cf. fontes indicadas no artigo referido na Introdução) ‒ que a Ucrânia e Rússia tinham chegado a um acordo para pôr termo ao conflito armado entre ambas em Março-Abril de 2022 e que esse acordo de paz era, atendendo às circunstâncias, altamente favorável à Ucrânia.

3. As bases do acordo de Março-Abril de 2022

Porquê? Porque as principais exigências de que a Rússia não abria mão eram (a) a adopção pela Ucrânia de um estatuto de neutralidade político-militar (semelhante, por exemplo, ao da Áustria); e (b) a sua desvinculação total da OTAN (NATO em Inglês). Por outras palavras, a Ucrânia renunciaria a todos os acordos actuais com a OTAN e a qualquer plano futuro de adesão à OTAN, e comprometer-se-ia a não instalar armas nucleares (de fabrico próprio ou alheio) no seu território, nem acolher instalação de bases militares estrangeiras ou contingentes de tropas estrangeiras no seu território.  Repare-se que, para cumprir esta parte do acordo, a Ucrânia teria, entre outras coisas, de revogar três artigos da sua Constituição (os artigos 85, 102 e 116) que prescrevem aos seus órgãos de governação a obrigação de tudo fazerem para a Ucrânia ser aceite como Estado-membro de pleno direito da OTAN.

Em troca, (i) ser-lhe-iam dadas garantias de segurança por vários Estados (como, por exemplo, os EUA, o Reino Unido e a França [membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU] a Turquia, a Alemanha, o Canadá, a Itália e Israel — segundo declarações feitas na altura por Davyd Arakhamia à imprensa, por Mykhailo Podolyak no Tweeter e segundo o testemunho de Schröeder em 21 de Outubro de 2023) ; (ii) haveria um cessar-fogo imediato; (iii) a Rússia abdicaria do objectivo da “desmilitarização” da Ucrânia [entender: a redução das suas Forças Armadas à  porção côngrua] e (iv) retiraria as suas tropas para fora das fronteiras da Ucrânia em 23 de Fevereiro de 2022 (que, convém lembrar, não abrangiam uma parte da Donbass [a parte pertencente às Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk] e a Crimeia) [1].

O acordo previa ainda (??) [2], por proposta da Ucrânia, mais de uma década de negociações posteriores para discutir questões litigiosas (Crimeia [incluindo Sebastopol] e Donbass) sobre as quais as duas partes tinham e têm entendimentos antagónicos. Segundo o testemunho de Schröeder, a Crimeia estava fora de questão por ser há séculos parte do território e da história da Rússia: a Rússia nunca abdicaria dela [3]. Mas estaria disposta negociar um estatuto autonómico para a população russa, russófona e russófila da Donbass no âmbito da Ucrânia. Mais concretamente (segundo o testemunho de Schröeder), as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, onde vive uma grande parte dessa população, obteriam um estatuto de autonomia no seio da Ucrânia semelhante à do Tirol do Sul em relação à Itália, que garantiria os seus direitos linguísticos, culturais, legislativos e administrativos.

Para se entender esta proposta, convém saber que o Alemão é, a grande distância, o idioma maioritário do Tirol do Sul (também conhecido como Província Autónoma de Bolzano ou Alto-Ádige), seguido do Italiano, o idioma maioritário na Itália. As línguas alemãs e italiana são ambas línguas oficiais em todo o Tirol do Sul — tal como eram o Russo e o Ucraniano na Donbass e nos demais oblasti russófonos e russófilos do Leste e Sul da Ucrânia, antes do golpe de Estado de Maidan (Fevereiro de 2014). No Tirol do Sul, o ladino (um idioma românico muito minoritário) é também oficial em algumas comunas. Todos os cidadãos do Tirol do Sul têm o direito de se exprimir na sua língua materna nas suas relações com a administração pública e com os órgãos autonómicos de poder, inclusive nos tribunais e perante um juiz. Existem escolas separadas para cada grupo linguístico e a sinalética do espaço público (edifícios públicos, repartições administrativas, sinais de trânsito, etc.) e semipúblico (lojas, restaurantes, cinemas, etc.) é quase inteiramente bilingue ou, por vezes, trilingue.

Repare-se que para acolher uma autonomia da Donbass (Repúblicas de Donetsk e Lugansk) semelhante à do Tirol do Sul, a Constituição da Ucrânia teria de ser profundamente revista, como, aliás, estava já previsto no artigo 11 do Acordo de Minsk-2 (2015), mas que a Ucrânia nunca cumpriu [4]

3. Mais duas testemunhas de peso

Relativamente às negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia que tiveram lugar na Turquia em Março-Abril de 2023, entraram em cena recentemente mais duas testemunhas de peso: Oleksandr Chaliy e Oleksiy Arestovych.

Istambul, 29 de Março de 2022. Na foto vêm-se vários membros da delegação ucraniana nas negociações russo-ucranianas. O primeiro homem a contar da esquerda, é o embaixador Oleksandr Chaliy; o segundo homem é Davyd Arakhamia, chefe dessa delegação e chefe do grupo parlamentar do partido Servente do Povo (o partido fundado pelo presidente Volodymyr Zelensky); o quarto homem é Mykhailo Podolyak, assessor do chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia; o quinto homem é Rustem Umierov, actual ministro da Defesa da Ucrânia. Não consegui identificar o terceiro homem. Foto: Lokman Akkaya/Anadolu Agency via Getty Images.

3.1. Oleksandr Chaliy

Oleksandr Chaliy é um embaixador veterano que foi primeiro vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Secretário de Estado para a Integração Europeia e Conselheiro para a Política Externa do Presidente da Ucrânia. Actualmente, Chaliy é Presidente da Grant Thornton (uma empresa multinacional de auditoria, fiscalidade e consultoria) na Ucrânia e membro do Painel de Personalidades Eminentes da Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), para onde foi nomeado em 2014. Foi um dos membros da delegação da Ucrânia nas negociações com a Rússia que tiveram lugar na Turquia, em Março-Abril de 2022.

3.2. Oleksiy Arestovych

Oleksiy Arestovych é um major (?) ou tenente-coronel (?) na reserva [5] que trabalhou, entre 1994 e 2005, na Direcção Central de Informações do Ministério da Defesa da Ucrânia (um serviço secreto de informações do governo, não do Estado-Maior General das Forças Armadas da Ucrânia). Quando a população russa, russófona e russófila dos oblasti do Leste e do Sul da Ucrânia (i) se revoltou contra o golpe de Estado de Maidan (Fevereiro de 2014) que derrubou o presidente eleito Viktor Yanukovytch e contra a abolição pelos golpistas do Russo como idioma co-oficial (juntamente como o Ucraniano) nesses oblasti e (ii) proclamou, na região da Donbass, as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, Arestovych ‒ segundo o seu próprio relato ‒ juntou-se à guerra da Ucrânia contra os revoltosos, participando em 33 missões de combate  [6].

Em 28 de Outubro de 2020, Arestovych foi nomeado conselheiro para a política de informação e porta-voz oficial da delegação ucraniana no Grupo de Contacto Trilateral sobre a Ucrânia nas conversações de Minsk sobre a resolução da guerra na Donbass. Em 1 de Dezembro de 2020, o Chefe do Gabinete do Presidente Zelensky, Andriy Yermak, nomeou Oleksiy Arestovych como seu conselheiro para as comunicações estratégicas no domínio da segurança e defesa nacional. Arestovych exerceu este cargo até Janeiro de 2023, altura em que se demitiu. Após o início da invasão da Ucrânia em 2022 pela Rússia, Arestovych tornou-se internacionalmente conhecido por uma recomendação e uma profecia que fez, com o maior cinismo, durante uma entrevista ao canal de televisão ucraniano “Apostrophe.ua,” em 18 de Fevereiro de 2019.

[continua]


Notas e Referências

[1] Este relato foi também corroborado, um tanto surpreendentemente, por um artigo de Fiona Hill (ex-directora sénior para a Europa e a Rússia do Conselho Nacional de Segurança dos EUA) e Angela Stent (directora do Centro de Estudos Eurasianos, Russos e do Leste Europeu da Universidade Georgetown, em Washington D.C). No meio das suas muitas lucubrações fantasistas sobre Putin e a Rússia, alimentadas pela sua proverbial russofobia, a senhora Hill e sua colega Stent confidenciam-nos que obtiveram informações fidedignas junto de «múltiplos ex-dignitários americanos» [entenda-se: membros do Conselho Nacional de Segurança, CIA e Pentágono que continuam no activo, mas que fazem questão em falar como se estivessem reformados] com quem falámos em Abril de 2022» sobre o que estava a passar nas negociações entre a Ucrânia e Rússia. E ficaram a saber o seguinte: «Os negociadores russos e ucranianos parecem ter chegado a um acordo provisório sobre as linhas gerais de um acordo provisório negociado: a Rússia regressaria à sua posição de 23 de Fevereiro, quando controlava parte da região da Donbass e toda a Crimeia, e, em troca, a Ucrânia prometeria não procurar adesão à NATO e, em vez disso, receberia garantias de segurança de uma série de países» (Fiona Hill & Angela Stent, “The World Putin Wants: How Distortions About the Past Feed Delusions About the Future”. Foreign Affairs, September/October 2022). Apesar de reconhecerem os factos essenciais do acordo de Março-Abril de 2022 entre a Rússia e a Ucrânia, convém não deixar passar em silêncio as imprecisões destas duas autoras. Não era a Rússia que “controlava parte da região da Donbass” em 23 de Fevereiro de 2022, mas a República Popular de Donetsk (RPD) e a República Popular de Lugansk (RPL). Estas duas repúblicas separaram-se da Ucrânia em 2014 e os seus cidadãos expressaram livremente, por grande maioria, a sua vontade de fazer parte da Federação Russa em dois referendos: um realizado em 11 de Maio de 2014, na RPD e na RPL, e o outro realizado em 23-27 de Setembro de 2022 nas mesmas repúblicas. A adesão à Federação Russa só ocorreu, porém, na sequência do último referendo, oito anos depois do primeiro. Também não é exacto dizer que a Rússia “controlava toda a Crimeia” em 23 de Fevereiro de 2022 (seria semelhante a dizer que “Portugal controla o arquipélago da Madeira” ou que “Portugal controla o Arquipélago dos Açores”, em vez de dizer que “a Madeira e os Açores são regiões autónomas de Portugal”). O que é exacto é dizer que a Crimeia é, desde 2014, uma república autónoma da Federação Russa, por vontade maioritária dos Crimeus, expressa num referendo realizado em 16 de Março de 2014.

[2] Pus dois pontos de interrogação a seguir a “o acordo previa ainda” porque desconhecemos o teor exacto, literal e completo desse acordo, conhecido como “Comunicado de Istambul”. Michael Von Der Schulenburg, ex-Secretário Geral Adjunto da ONU, referiu, em 6 de Março de 2022, que esse acordo tinha 15 artigos (“Ukraine: we need peace now”, https://michael-von-der-schulenburg.com/ukraine-we-need-peace-now/). Por sua vez, a jornalista independente russa Farida Rustamova, que não nutre qualquer simpatia por Putin e pelo seu regime, publicou o que diz ser o texto completo desse acordo, na versão entregue pela delegação ucraniana à delegação russa em 29 de Setembro de 2022, em Istambul (“Ukraine’s 10-point plan”, Faridaily, Mars 29, 2022 [substack.com/@faridaily]. Mas Vladimir Putin afirmou no seu encontro com a delegação africana de 17 de Junho de 2023, que o acordo final de Istambul, assinado pelos chefes de ambas as delegações, tinha 18 artigos. Não pode, por conseguinte, tratar-se (pelo menos parcialmente) do mesmo documento de 15 artigos referido por Schulenburg, nem do documento de 10 artigos publicado por Rustamova. Teremos de aguardar a publicação do documento exibido por Putin para termos uma avaliação mais completa e exacta desse acordo.

[3] Elucidei as razões dessa posição da Rússia no capítulo 3 [A colossal patranha da anexação da Ucrânia pela Rússia] do meu livro Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: Um roteiro para o fim da guerra na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal (Editora Primeiro Capítulo, Agosto de 2023).

[4] Sobre este assunto, ver José Catarino Soares, op.cit., pp.11-12.

[5] A entrada “Oleksiy Arestovych” da Wikipedia (edição em Inglês) afirma que Arestovych é tenente-coronel. Porém, uma outra fonte, o jornalista ucraniano Dmytro Oliinyk, afirma que ele é major (“Zelenskyi’s spokesperson: soldier, actor, psychologist, propagandist.” OpenDemocracy, 26 April 2022). Daí os pontos de interrogação entre colchetes.

[6] «Tal como Zelenskyi, Arestovych também tem um passado de actor, tendo trabalhado no teatro, em anúncios publicitários e em filmes durante as décadas de 1990 e 2000. A partir de 2000, realizou seminários e acções de formação em psicologia, inscreveu-se na escola do psicólogo e astrólogo russo Absalom Podvodny e estudou teologia no Instituto de Ciências Religiosas São Tomás de Aquino, em Quieve. A combinação de competências militares, de representação e psicológicas de Arestovych ajudou-o a tornar-se um bloguista de sucesso na década de 2010. Após a revolução ucraniana de 2014, apresentou-se como especialista militar, aparecendo na televisão e noutros meios» (Dmytro Oliinyk, op.cit.).


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.