O Lobo e o cordeiro

(In Blog O Jumento, 17/02/2017)
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Desculpem voltar ao lobo mas as manobras deste mamífero merecem ampla reflexão e consequente desmontagem. Nunca se deve deixar passar em claro as manobras dos lobos, sobretudo as daqueles que usam e abusam da pele de cordeiro.
Estátua de Sal.

Talvez um dia se venha a saber o que levou um até agora discreto bancário a ficar nas primeiras páginas da forma mais triste. De um administrador de bancos espera-se confiança, lealdade, sigilo e privacidade, tudo qualidades que Antónimo Domingues revela não ter ao violar as mais elementares regras de convivência, dando a conhecer a um conhecido lobista o conteúdo de conversas privadas.
Primeiro foram os e-mails, a seguir os SMS, ninguém se admire que Domingues tenha gravado todas as conversas com membros do governo sem a sua autorização e o Lobo Xavier já as tenha ouvido, para verificar se há matéria para mais calhandrice.
Para um administrador de bancos isto é um suicídio, não há ninguém que esteja no seu pleno juízo, nem mesmo o seu amigo Lobo Xavier, que lhe mande SMS ou se comprometa em conversas telefónicas. António Domingues deixou de ser confiável e duvido que passada esta fase o próprio Lobo Xavier tenha confiança no seu velho amigo. O que poderá ter levado alguém experiente a imolar-se na pira da falta de princípios? O dinheiro que perdeu por não ser administrador, a vaidade ferida? Um dia saberemos.
A Caixa Geral de Depósitos representa milhares de milhões de euros, o seu dinheiro pode alimentar muitas empresas, pode ser multiplicado gerando muitas fortunas generosas na distribuição de comissões. A CGD pode aprovar PER que mantém vivas empresas que já morreram, tem importantes participações no capital de outras empresas, como se viu no caso da PT, tem crédito malparado concedido a importantes empresas e personalidades, adquire muitos milhões em fornecimento dos mais variados serviços, tem milhares de milhões para emprestar, pode favorecer muitas promoções políticas ao nível nacional e em cada uma das autarquias.
É aqui que entra o Lobo, neste caso o Lobo Xavier e nesta matéria temos mais um lobo do que um frade a falar para peixinhos. E se Lobo é mesmo o lobo, o António Domingues acaba por ser o cordeiro. Lobo Xavier, apesar de bom cristão, não é conhecido como administrador do Banco Alimentar ou de muitas das IPSS da Igreja. Antes pelo contrário, Lobo Xavier é administrador de grandes empresas e na sua vida não teve uma única aula de gestão.
Todas as grandes empresas têm interesses directos ou indirectos na CGD, grandes empresários mantêm litígios com a CGD, muitas empresas e personalidades têm crédito malparado para renegociar, tudo matérias em que o gestor, o administrador, o advogado ou o lobista Lobo Xavier pode dar uma preciosa ajuda, tudo dentro da maior das legalidades.
Lobo Xavier é o maior lobista da vida política e económica portuguesa. O seu poder é imenso, principalmente se o governo for da direita. Com os governos da direita todas as reformas fiscais com impacto nas empresas passaram pelas suas mãos, Paulo Núncio nada fez sem consultar Lobo Xavier, era o lobista que sabendo dos desejos de algumas das maiores empresas sabia o que os grandes interesses pretendiam das reformas do IRC ou do património.

Neste caso o Lobo misturou o cordeiro, o CDS, o PSD, o Presidente da República, uma estação de televisão e só Deus sabe quantos jornalistas numa manobra visando derrubar o mais competente ministro das Finanças das últimas décadas e ajudar a repor o governo da direita. Um dia talvez saibamos o que tinha o Lobo a ganhar com a degola do cordeiro e pode ser que se venha a perceber que tipo de Conselheiro de Estado é este Lobo Xavier.


Fonte aqui

Máscaras

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/02/2017)

Autor

                  Pacheco Pereira

Nem o Bloco de Esquerda e muito menos o PCP são partidos populistas. Não há em Portugal um populismo de esquerda e nenhum dos temas desses dois partidos em matérias como a emigração, os estrangeiros ou as fronteiras, pode ser comparado, nem de perto nem de longe, com as posições de Trump.


Os artigos que escrevi no Público e na Sábado sobre Trump suscitaram uma discussão que ainda está em curso. Nela discute-se aquilo a que tenho chamado o “trumpismo” português. Nessa discussão falta o último artigo da Sábado, em que me refiro em particular, para o caso europeu, do papel, que penso ser crucial, do modo como se reagiu à crise financeira, com as teorias do “ajustamento”, no crescimento do populismo. A vulgata do “não há alternativa”, a definição do alvo da austeridade e o menosprezo, e nalguns casos a intencionalidade, pelo aumento da desigualdade e da exclusão, como dano colateral, criou um caldo de cultura muito favorável ao ascenso do populismo e da demagogia. No caso europeu é igualmente relevante a usura da democracia no contexto das soberanias nacionais, substituindo os parlamentos nacionais por entidades transnacionais e burocracias que usurparam poderes, desertificando as democracias.
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Voltaremos a todos estes temas, mas fiquemos para já com uma tentação que tem havido à direita, incomodada com Trump, mas ainda mais incomodada com as críticas a Trump, que é atacar Trump por ser de… esquerda. Um argumento recorrente, que, por exemplo, se encontra no artigo do Público de Paulo Rangel, mas que também habita no Observador e nos blogues ideológicos da direita, é que a proximidade maior das ideias de Trump é com aquilo que agora se chama “populismo de esquerda” e não com a direita. Aliás repete-se cada vez mais uma equivalência entre Frente Nacional, Orban, o UKIP, e Trump e outros da mesma amálgama, com o Podemos, o Syriza e, no caso nacional, com o BE e o PCP. Com toda a franqueza, acho que esta comparação não tem pés nem cabeça.

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É verdade que em toda a história do populismo moderno existe uma mistura de temas que podemos reconhecer ser da tradição de esquerda e de direita. É o caso típico do peronismo argentino, enquanto movimento, ou da acção de Huey P. Long, como político do Louisiana. Como já dissera Evita Perón, o que lhes importa não é que haja pobres, mas sim que haja ricos, e um discurso violento contra os abusos dos patrões, dos financeiros, dos poderosos de Wall Street, dos exploradores é um padrão, a que Trump não foge, mesmo sendo quem é. O problema é quando o “sistema”, o “pântano”, “eles”, são as ideias redentoras antipartidos e que põem em causa num impulso autoritário o primado da lei e os procedimentos da democracia. Já para não falar do papel de retórica desse discurso.

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Agora, nem o Bloco de Esquerda e muito menos o PCP são partidos populistas. Não há em Portugal um populismo de esquerda e nenhum dos temas desses dois partidos em matérias como a emigração, os estrangeiros ou as fronteiras, pode ser comparado, nem de perto nem de longe, com as posições de Trump. O BE é europeísta, numa versão até mais transnacional do que os nossos europeístas, ligando de facto muito pouco às fronteiras, e o soberanismo do PCP nada tem a ver com o nacionalismo de um “Portugal melhor”, mas com a hegemonia, imposta pela perda de poderes nacionais, de uma política que contestam, a do euro e da UE. Nem o BE, nem o PCP têm qualquer impulso autoritário. Mesmo no caso do PCP, onde há uma real indiferença quanto aos valores da democracia quando se fala de Coreia ou de Cuba, as razões têm muito mais a ver com a história do comunismo, do que com um papel nacional anti-“sistémico”, que colocasse em causa os procedimentos da democracia no Portugal de 2016.

Ovelhas negras, lobos e toupeiras

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 17/02/2017)

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Domingues, que era tão cuidadoso com a sua intimidade e não deixava ninguém ver a declaração de rendimentos, deixa Lobo Xavier vasculhar os seus SMS. Muito estranho. Será que o Lobo Xavier foi ao telemóvel do amigo enquanto ele foi à casa de banho?


Centeno deu uma conferência de imprensa e lá se tentou safar como podia e pedia o presidente Marcelo. Com pouca habilidade, e com aquele ar de quem está aflito para ir fazer chichi, o Ministro das Finanças transformou a sua chico-espertice numa chico-tolice e pronto. Há quem prefira passar por cordeirinho que ser ovelha negra. E assim ficou despachado o assunto, até porque havia 2,1 razões para que a demissão de Centeno fosse uma idiotice.

Já todos percebemos o que aconteceu, de tal modo que usei o eufemismo para “menti, prometi, mas afinal não me dava jeito cumprir” e evoquei o “eventual erro de percepção mútuo na transmissão das nossas posições” para justificar não ter aparecido no jantar do dia dos namorados e ficar em casa a ver o PSG-Barcelona.

Parecia que finalmente a novela das cartas de amor entre Domingues e Centeno tinha chegado ao fim quando surge a notícia: “o conselheiro de Estado António Lobo Xavier, amigo de António Domingues, deu a conhecer ao Presidente da República o conteúdo das SMS entre o ex-presidente da CGD”. Agora sim, isto está ao nível das vinganças de namorados. Que bom! Revelar SMS, acho o máximo. Nestas coisas da Caixa Geral de Depósito e do sistema financeiro em geral sou uma porteira. Adorava espreitar as SMS dos banqueiros. O do Horta Osório deve ter nudes.

É um volte-face surpreendente. Domingues, que era tão cuidadoso com a sua intimidade e não deixava ninguém ver a declaração de rendimentos, deixa Lobo Xavier vasculhar os seus SMS. Muito estranho. Será que o Lobo Xavier foi ao telemóvel do amigo enquanto ele foi à casa de banho? É a explicação mais lógica. Até porque, se bem me lembro, Domingues quando se demitiu dizia ser: “vítima de turbilhão mediático politicamente instrumentalizado e frequentemente a resvalar para a demagogia populista”. Ou seja, o Lobo está a envolver o Domingues num turbilhão mediático, não é coisa de amigo. Logicamente, chego à conclusão que Lobo Xavier andou a bisbilhotar o telemóvel do Domingues. É a única hipótese. Quer dizer… há outra hipótese.

Nos media, em relação a este caso, Lobo Xavier é descrito como amigo de Domingues e conselheiro de Estado, mas fica sempre esquecido o facto do Lobo ser administrador executivo do BPI. Parece estranho ser um administrador do BPI, concorrente directo da CGD, a ter acesso aos SMS de um ex-presidente da Caixa e a fazer o papel de defensor da ética. Parecendo que não, o indivíduo que traçou o plano da CGD e que trabalhou no BPI, troca e revela SMS sobre a Caixa com Lobo Xavier, administrador do BPI. Já vi toupeiras com menos dioptrias.

Tenho a curiosidade aos saltos e gostava de saber durante quanto tempo o doutor Domingues andou a trocar mensagens com o administrador do BPI, desde quando e o que lhe revelou. O meu ADN de porteira começa logo a latejar e fico cheio de vontade de conhecer as SMS trocados entre Domingues, ex-administrador da CGD, e Lobo Xavier, administrador do BPI, ex-banco de Domingues. Aposto que há smiles.


TOP 5

Deixa-me ver os teus SMS

1. Expresso: “Marcelo sentiu-se traído quando leu SMS de Centeno e Domingues” – e foi comer uma vichyssoise.

2. Madeira Rodrigues afirma que Sporting tem sido alvo de gozo – mas não tanto como a candidatura de Madeira Rodrigues. Parece uma promoção – despedir o JJ + mudar as cadeiras + tapar o fosso = 1,5 milhões, só no Continente.

3. Polícia francesa diz que violação com cassetete não foi “intencional” – ao próprio polícia já lhe aconteceu uma centena de vezes ao sentar-se à pressa.

4. Cordão humano contra Acordo Ortográfico em Lisboa – dão as mãos à antiga portuguesa, não há cá “hi five” nem essas cenas.

5. “No fim de semana o conselheiro de Estado Lobo Xavier, amigo de Domingues, deu a conhecer o conteúdo das SMS ao PR” – Marcelo devia ter dado voz de prisão ao Lobo: “Então você é administrador do BPI e tem SMS privadas do, na altura, presidente da CGD com o ministro?!”