O RESSUSCITADO ( Loquaz Dandy de Joane)

(Joaquim Vassalo Abreu, 11/03/2017)

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O Expresso diário de 02 de Março deste ano da graça de 2017, pela pena do seu Editor Adjunto José Cardoso, diz-nos acerca dos “Offshores” que, para além de Salgado afirmar que nada sabia, o coitado, o CDS, leia-se Nuno Melo, quer que Rocha Andrade, o actual Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, vá depor a Bruxelas, para ali dizer tudo o que sabe sobre as transferências financeiras para o Panamá!

Ora isto só pode provar que o nosso ex “loquaz dandy”, do qual há muito tempo não ouvimos falar, tão ocupado deverá andar lá por Bruxelas, deve ter ficado preocupado ao ver o seu companheiro de “luta” Paulo Núncio em tão maus lençóis, que lhe deu para ter um “golpe de asa”: chamar o actual, que disso pouco sabe pois ainda anda atrás das estatísticas, em vez do outro, o seu companheiro, que de tudo sabia e tudo deixou passar ou manteve em segredo. Para “não beneficiar o infractor”, como explicou!

“Golpe de Asa”, eu disse? Não, foi um golpe de vento na sua forte cabeleira, que por tão espessa lhe tolhe toda a zona cranial e infesta com toda a bicharada que em tanta capilaridade habita, todo o seu hemisfério esquerdo! Esquerdo sim, onde se encerram a grande parte das nossas capacidades, restando para o direito apenas o “pensamento simbólico e criativo”. É o que diz quem sabe.

E, com tal “criatividade”, depois de tão longo silêncio para um tão exímio loquaz, antecipando cenários negros para a sua “cristas” e demais excrescências capilares, este tal “golpe de asa” deverá também querer dizer que se estará a posicionar para um cenário “pós”…

Mais eis que, não tendo ainda pousado a asa, levanta novamente voo e apanhado por uma rabanada de vento que lhe pôs a proeminência capilar à “la Trump”, lhe sai mais esta: “Louçã está para Carlos Costa como a Associação de Estudantes da Nova está para Jaime Nogueira Pinto”!

“Não se pode levar um partido a sério quando se tem um intelectual como Nuno Melo como vice-presidente”. Escreveu hoje mesmo o insuspeito Pedro Marques Lopes!

Mas acerca deste “dandy” eu escrevi, já vai fazer três anos, este para mim definitivo texto, pelo que apenas lhe acrescento o “RESSUSCITADO”.

Ora leiam e recuem no tempo. Às vezes até faz bem…

O LOQUAZ “ DANDY” de JOANE”. ( de 15/05/14)

“Nuno Melo de seu nome. Advogado de Joane e sobrinho de Eurico de Melo, importante figura do Cavaquismo, a quem outrora apelidaram de Vice-Rei do Norte, tal a influência que exercia em tudo o que decisório acontecia a norte do Douro. Tudo passava por ele : licenciamentos, estabelecimentos, autorizações de Cafés, Bombas de Gasolina…tudo. Foi o primeiro grande “ Facilitador” da era democrática. Tal como o tio também Nuno Melo tem particular aptidão para a facilidade e no seu “snobismo” convencido fala de tudo e perora sobre tudo com uma verborreia estonteante. E está em todas. Mas é um “ Dandy”, o “ Dandy” de Joane.

Mas, em vez de “Facilitador” como o tio, ele é, sim, um Simplificador. Porquê? Porque falando tanto e tão superficialmente de tudo, num exacerbado exercício de lugares comuns, ele consegue dizer Nada! Porque ele, agora candidato à reeleição como Eurodeputado pela coligação de direita, conseguiu simplificar os cinco anos em que esteve no PE com a elaboração de um Relatório denominado “ a investigação criminal entre os estados membros para recolha dos elementos de prova”. Mas, segundo dizem, tanto simplificou que parece que não é dele ou nele teve pouca intervenção! Simples e simplificador : andou cinco anos a fazer turismo. Ah, parece que também organizou dois concursos para jovens agricultores…

Mas ele é um “ Dandy”! Profere sentenças de um modo ligeiro, leviano e simplista e vai falar aos pescadores da Póvoa e Caxinas de sapato de vela, calça beije, casaco azul com botões dourados e camisa a condizer. E promete-lhes, em seu nome e do CDS, mais uma vez, um mar sempre azul e sem ondas. Com tanta palavra sem ideias ele simplifica. Como naquela comissão de inquérito ao BPN onde ele também simplificou : tudo fez para prender o polícia em vez dos ladrões…

Mas ele, o “Dandy” de Joane, é também um ilustre advogado dessa terra. Licenciado na Portucalense ali, em vez de leis, aprendeu loquacidade. E a simplificação que o leva a afirmar peremptoriamente que Sócrates foi o pior primeiro ministro de sempre e pior ainda que Salazar e Caetano. Simples! E que a Esquerda é responsável pelo estado a que chegamos e que eles nos salvaram deste estado. Com um palavreado estonteante, mas simples. E simplificador.

Mas acontece que a loquacidade deste “ Dandy” é uma capa, como a da sua cabeça acinzentada, uma espuma e um nevoeiro que servem para ocultar e fazer passar despercebidos todos quantos concorreram para a deformação moral da nossa sociedade : os do BPN, do BPP, do BCP, do Banif, dos submarinos, dos sobreiros, das contrapartidas… todos seus conhecidos, todos inimputáveis e de quem ele nunca fala. Para eles não tem verborreia…

É um “Dandy”, o “Dandy” de Joane- Famalicão. Mas eu que aqui afirmei que ele fala, fala, fala e nada diz de substantivo, não quero que me acusem de injusto e redutor e, em nome da justiça, vou aqui deixar alguns sólidos pensamentos do personagem:

  • …Portugal está muito melhor, o que não invalida que as pessoas não sintam. Pois, se calhar, até invalida, mas é só se calhar…”.
  • “…Votar no PS nestas Europeias será premiar o ex-governo e alguns dos seus membros. O infractor está nas listas do PS que tem na cabeça o líder parlamentar de Sócrates e o seu dois…”.
  • “…Mas não é o governo que é candidato às Europeias, mas sim eurodeputados sem qualquer ligação às decisões políticas…”.
  • “… Não tenho dúvidas que o desempenho deste governo será saudado na história do nosso país. Eu também não duvido nada por motivos diferentes…mas ficará…”.

Estas pedras preciosas de maturidade política deste “ Dandy” e o seu pensamento político deviam ser dadas nas escolas e universidades. De onde deveriam ser retirados Sócrates e Platão.

Ou então mandá-lo num foguetão…direitinho a Plutão!”

Nota: Era o que eu escrevia há três anos atrás! E notem o quanto actual ainda estou…!


Fonte aqui

Que futuro para a Europa?

(Paul de Grawe, in Expresso, 11/03/2017)

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                              Paul de Grawe

A União Europeia está a debater-se com uma crise existencial. Muitas pessoas perguntam qual será o seu futuro. À luz destas dúvidas, a publicação na última semana do Relatório Branco da Comissão Europeia sobre o futuro da União Europeia vem mesmo na hora.

O Relatório Branco propõe cinco cenários para a evolução da União Europeia no futuro. Poderá dizer-se que são muitos os cenários propostos. De facto, o futuro é tão incerto que o que poderá vir a desenvolver-se não estará provavelmente nesta lista da Comissão Europeia. Ainda assim é útil discuti-los.

Há, em primeiro lugar, dois cenários extremos. Numa das ponta está apenas uma zona de comércio livre. Neste cenário, só o mercado único resistiu, limpo de todas as instituições que restringem a soberania dos Estados-membros. Isto é, de facto, o que o Reino Unido tinha em mente quando escolheu o ‘Brexit’ — uma zona de comércio livre sem perda de soberania; um cenário no qual todos mantêm o poder de veto e comercializa alegremente com os outros.

No outro extremo, está o cenário ‘mais Europa’. Aqui todos os Estados-membros escolhem decididamente caminhar em frente na direção da união política, incluindo a união fiscal, de defesa, social, etc. É bom de sonhar. E eu sou uma pessoa que gosta de ter esses sonhos.

Entre estes dois extremos, há três outros cenários. Há, primeiro, o ‘cenário arrastar isto’: continuamos a fazer tudo como dantes. Vamos de crise em crise. Foi realmente esse o cenário que Robert Schuman previu como forma de a Europa avançar. Até agora, teve razão. A Europa tornou-se gradualmente mais integrada, conduzida por uma sucessão de crises que gritavam por uma solução. A questão é se esta forma de caminhar em frente não atingiu os seus limites.

O seguinte é ‘Europa à la carte’. É o que fazem os países que querem mais integração. Reforçam as suas fronteiras exteriores, criam uma união fiscal, uma defesa comum e, dependendo dos gostos, escolhem outros itens do menu da integração. Os países que não gostam, simplesmente ficam de lado.

Finalmente, há o cenário ‘menos, mas melhor’. Menos Europa, mas a Europa que sobra será feita de melhor forma (mais eficiente, como dizem os economistas). Este é o cenário ideal de muitos partidos de centro-direita na Europa que querem dissociar-se da rejeição da extrema-direita do projeto europeu no seu conjunto. Era também o cenário de David Cameron quando, antes do referendo, defendia a repatriação das responsabilidades europeias para os Estados-membros e tornar as instituições europeias mais ‘eficientes’. Não conseguiu nem de longe convencer os outros Estados-membros a ir nesta direção.

E agora, como escolher entre estes cenários? Esta questão não é realmente colocada no Relatório Branco. Este é, portanto, mais um catálogo de possibilidades do que um guia para a ação. Coisa que não me satisfaz por aí além.

De forma a lançar alguma luz sobre esta questão, permitam-me que invoque o ‘trilema impossível’ que foi formulado por Dani Rodrik. Este diz que globalização (comércio livre), soberania e democracia são mutuamente incompatíveis. Só dois dos três podem existir em simultâneo. Assim, se os países querem manter a sua soberania nacional e manter processos democráticos de decisão têm que afastar da globalização e do comércio livre.

A razão para tal é que a globalização e o comércio livre impõem uma série enorme de regras e constrangimentos que desgastam a soberania nacional e o processo de decisão democrático.

Se os países escolhem o comércio livre (o mercado único no contexto europeu), então têm de abrir mão da soberania nacional. Só podem preservar a democracia organizando processos de decisão democráticos a um nível mais alto. No contexto europeu isto quer dizer que uma escolha a favor do mercado único força os que nele participam a abandonar a soberania nacional plena e se querem manter a democracia concordam em organizar esta democracia a nível europeu. Isto implica a criação de um governo europeu sustentado por um Parlamento europeu democraticamente eleito.

O princípio do trilema impossível permite-nos mandar para o lixo uma série de cenários do Relatório Branco. É o caso do ‘cenário só-mercado-único’. Não é sustentável porque se baseia na ilusão de que podemos ter mercado livre e manter tanto a soberania nacional quanto uma democracia completamente funcional. O cenário “menos mas melhor” sofre da mesma ilusão porque quer retirar poder às instituições europeias para reforçar a soberania nacional, ao mesmo tempo que mantém em pleno o mercado único.

O Relatório Branco cria a ilusão de que temos uma série de opções. De facto, não é assim. A teoria do trilema impossível ensina-nos que a escolha é feita entre o progresso na direção de uma união política para preservar o mercado único e a democracia, e (se rejeitarmos a união política) restabelecer as barreiras alfandegárias de forma a proteger a democracia. Eu já escolhi.

Professor da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica

Havia a princesa do povo. Nós temos o príncipe do povo.

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 10/03/2017)

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Bom dia. Este é o seu Expresso Curto. O dia está lindo, o céu azul, o sol brilhante. O país vai bem para o primeiro-ministro e mal para o líder da oposição. E temos um Presidente da República que congrega multidões à sua volta sempre que sai à rua e que está como peixe na água entre os seus súbditos.

Ontem, para assinalar o primeiro ano do seu mandato, esteve no Liceu Pedro Nunes, onde centenas de alunos o ouviram durante duas horas e lhe fizeram numerosas perguntas. Depois foi vender a revista Cais – conseguiu passar 30 exemplares – e almoçou sandes e refrigerantes com os dois sem-abrigo que tinham essa função. E foi a uma farmácia. O aparato era tanto que um homem que passou fez a comparação definitiva: “É como a Princesa Diana. É o príncipe do povo”, conta a Raquel Albuquerque na excelente reportagem que fez para o Expresso Diário. E não se esqueceu de condecorar as duas anteriores primeiras damas, Maria José Rita e Maria Cavaco Silva.

Contudo, debaixo da sua imensa simpatia e afabilidade, esconde-se (e quem se lembra das suas análises dominicais na TVI sabe isso muito bem) um Hamlet: “Serei cruel mas não desnaturado. Que da minha boca saiam punhais, mas que as minhas mãos não empreguem nenhum”.

Nos últimos dias, da boca de Marcelo Rebelo de Sousa tem saído vários punhais. Para a direção do PSD que fala num país crispado, o Presidente diz que não há qualquer crispação. “As pessoas estão com confiança, com boa disposição, com espírito positivo”, disse. Para Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, que afirmou que se podia falar quase num milagre em relação à evolução das contas públicas, respondeu dizendo que milagres só o de Fátima. Para os que desvalorizam os resultados económicos, prefere olhar para o copo meio cheio e falar dos indicadores positivos. Para os que queriam novas eleições, diz que o país precisa de estabilidade. São punhais atrás de punhais. E todos, ou quase todos, para a sua família política – ou, pelo menos, para a atual direção do PSD. Marcelo paga assim aquilo que Passos Coelho lhe fez quando, ao definir o candidato a Belém que o PSD apoiaria, excluiu quem se portasse como “um cata-vento de opiniões erráticas em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político“.

E como não dá ponto sem dó, o Presidente, que disse que não se candidatava e se candidatou, e que disse que só faria um mandato, anunciou ontem que no Verão de 2020 logo decide se se recandidata ou não: “Se eu sentir que tenho o mesmo dever de consciência de ser candidato que tive quando fui candidato há um ano e meio, eu sou candidato outra vez. Se eu sentir que não tenho esse dever de consciência, porque o país está numa situação tal em que há outras hipóteses tão boas ou melhores do que eu, não há o dever estrito de ser candidato, eu não sou candidato”.

Quem se desfaz em elogios é o primeiro-ministro, que felicitou o Presidente da República pelo seu primeiro ano de mandato, sublinhando que este foi “um ano exemplar de cooperação entre os órgãos de soberania”. Frisou ainda o contributo de Marcelo Rebelo de Sousa para o clima de paz social que se vive em Portugal, desejando-lhe “os maiores sucessos na continuação deste seu mandato”. Não contente, colocou uma imagem no tweeter, em que está a segurar um chapéu de chuva para Marcelo, nos arredores de Paris, enquanto este discurso na Festa da Rádio Alfa a 12 de junho, no âmbito do Dia de Portugal. Em contrapartida, o Presidente tem segurado várias vezes o chapéu de chuva para abrigar o Governo das críticas violentas da oposição de direita.

Conclusão: se há crispação não é entre o Presidente social-democrata e o primeiro-ministro socialista, por muito que isso custe a Pedro Passos Coelho, Luís Montenegro ou Luís Marques Guedes, que querem manifestamente fazer da “crispação” e da “asfixia democrática” um cavalo de batalha, embora sem grandes factos que sustentem a estratégia.