Marcelo está com legionela?

(In Blog Um Jeito Manso, 05/11/2017)

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19 casos de legionela levam Marcelo ao hospital São Francisco Xavier…  li eu.

Até me assustei. Pensei: bolas, coitado, apanhou legionela, é um dos 19…

Mas, afinal, lendo a notícia, vi que não. É uma doença que ele tem mas não é legionela, é a doença de ter que estar em todas, a também chamada síndrome do emplastro. Ou seja, foi lá só para saber o que se passa. A minha alma ficou parva. Um dia destes, e deixa-me virar a minha boca para lá, mas, dizia eu, um dia destes dá-me uma dor de barriga, vou ao hospital a ver se me travam e ainda dou de caras com o Prof. Marcelo, ido lá, de propósito, para me dar um beijinho e uma palavrinha de conforto que isto, quando uma pessoa está com soltura, faz muita falta uma palavrinha de conforto…..

 

A grande regressão

(António Guerreiro, in Público, 04/11/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

Se alguém fizesse uma história semântica da ideia de progresso, encontraria a razão pela qual o qualificativo “progressista”, que teve outrora um uso político imoderado e de grande utilidade, já só emerge quando se fazem escavações lexicais. Parece que já ninguém acredita no progresso nem encontra nele uma razão capaz de fundar uma visão do mundo. Em contrapartida, a palavra “regressão” está em alta e revela-se mesmo capaz de dar sentido a um conjunto de sintomas patentes nos processos sociais e políticos que marcam o nosso tempo. Uma prova eloquente desta nova fortuna concedida à ideia de regressão é um livro colectivo que foi publicado na Alemanha, este ano, e logo traduzido nas principais línguas europeias. O título original é Die große Regression – Eine international Debatte über die geistige Situation der Zeit, um título que cita um outro, famoso, de Karl Polanyi, The Great Transformation (1944). Mas o subtítulo, que fala da “situação espiritual [geistige] da época”, só aparece no original por razões óbvias: ele dialoga de maneira explícita com a filosofia e a literatura alemãs (retoma, ipsis verbis, o título de um famoso ensaio de Karl Jaspers, de 1931). A regressão como categoria analítica da governamentalidade e das tendências de ordem política já tinha sido introduzida, há alguns anos, por um importante sociólogo e teórico da cultura, Stuart Hall (1932-2014), que configurou a política de Margaret Thatcher como uma “modernização regressiva”. O thatcherismo teria inaugurado o projecto de uma modernização reaccionária. Quais são então esses sintomas que justificam o uso da regressão como categoria psico-política? Antes de mais, a “fadiga da democracia”, fazendo emergir por todo o lado não apenas formas de autoritarismo, mas também um conjunto de práticas políticas e gestionárias que dão razão a um conceito que foi entrando no léxico da teoria política: pós-democracia. Num plano mais englobante, a regressão adquire a figura de uma “des-civilização”, como se pode ler no ensaio de Oliver Nachtwey, incluído neste livro. Remetendo para o “processo civilizacional” de Norbet Elias, enquanto resultado de uma mutação das estruturas sociais e da personalidade e manifestando-se no controle dos afectos e no alargamento do espaço mental (cujo resultado foi a constituição progressiva de um poder centralizado que detém o monopólio da violência), a des-civlização que Nachtwey vê como uma dinâmica fundamental das sociedades ocidentais a partir da última década do século passado seria um processo de erosão e declínio.

A ideia de que o progresso traz consigo uma regressão pode então ser deduzida destes sintomas: a sujeição ao mercado e a ausência de alternativa económica;  a interrupção do processo colectivo de mobilidade social ascendente; o triunfo da “modernidade regressiva” que se traduz por uma igualdade horizontal de grupos com traços característicos diferentes (a pertença sexual ou étnica, por exemplo), mas simultaneamente por novas desigualdades e discriminações verticais. Estes e outros factores instalaram um mal-estar que é simultaneamente social, político e cultural.

O processo da civilização de Norbert Elias já comportava esta ideia de uma des-civilização. Como muitos outros espíritos lúcidos, Elias não acreditou no progresso como uma caminhada irreversível nem viu a “civilização” como uma conquista definitiva. Essa foi a ilusão da utopia iluminista e, mais perto de nós, a dos arautos do “fim da história”. Como é que em tão pouco tempo se passou de uma feliz escatologia para uma grande regressão?

Chamem o Antifluffy

(José Pacheco Pereira, in Público, 04/11/2017)

JPP

Pacheco Pereira

Os meus amigos do Media Lab for Citizenship, que organizam um evento anual, o Future Places, criaram uma personagem de um jogo anti-Pokémon, chamada Antifluffy. Conforme o nome indica, a personagem que se desloca nos eventos, com um homem por baixo, é exactamente o contrário de fofinha (nem acredito que escrevi esta palavra…), e por isso ninguém quer acariciar um Antifluffy com o seu corpo coberto de fitas negras de celulóide. Pois eu lembrei-me do Antifluffy como uma necessidade pública urgente para soltar no meio da nossa política, na Presidência, no Conselho de Ministros, em Belém e S. Bento e nos candidatos do PSD, onde também estão precisados de um antiproximidade. E também nos jornais, nas rádios e na televisão, que transpiram “casos humanos” e a exploração comercial da tragédia dos fogos, facilitando o perigoso contínuo da má política para o populismo.

Eu explico-me: já não posso com tantos afectos, tanto desejo de estar em cima das pessoas, tanta vontade de envolver tudo e todos numa sopa de pathos, como se fosse o pathos o que mais falta à vida pública portuguesa. Bem pelo contrário, o que falta é um quantum de racionalidade, nem sequer um quantum, que já por si só seria revolucionário, mas uma gigantesca dose de razão, de argumentos, de raciocínios, em vez de tornar a vida pública num festival de beijos e abraços, e de muita lamechice em relação à dor alheia. O problema é que quase se pode fazer uma correlação: quanto mais lamechice, menos reformas e menos mudanças. E de mudanças e reformas é que a nossa vida pública mais precisa.

Como muitas vezes escrevi e repito, a democracia precisa de doses equilibradas de logos (razão), pathos (emoção) e ethos (moral, virtude) e infelizmente está longe de as ter. Bem sei que atravessamos uma tragédia e as memórias vivas dessa tragédia estão por todo o lado. Compreende-se a emoção e seria mau que não existisse, e isso fez a diferença que tramou o primeiro-ministro e bem. Mas, passada a primeira e genuína impressão, naturalmente emotiva, há toda uma sobriedade que falta, há todo um momento em que há que dizer chega e passar para aquilo que é mais útil para todos, a começar por aqueles que perderam tudo nos fogos. Essa altura já passou há muito, e continuar no terreno do pathos, entre o genuíno e a exploração sentimental, não ajuda a resolver problema nenhum. Bem pelo contrário, é a melhor receita para uma política de má qualidade. O pathos é inimigo do tempo que é necessário para pensar, vive da imediaticidade.

Sabemos que o Presidente da República é aquilo a que já chamei, muito antes dos fogos, o Príncipe dos Afectos. Ninguém põe em causa que teve um papel na descompressão da depressão que vinha dos anos do “ajustamento” e da crise gerada nas últimas eleições. Nem sequer se pode pôr em causa que, em determinados momentos, os seus gestos são apaziguadores e necessários. Mas, se há coisa em que ter conta, peso e medida é vital para fazer a diferença, é na afectividade pública. Aliás, já havia excessos anteriores, em que desde a queda de uma avioneta até um acidente numa fábrica pirotécnica motivavam uma visita do Presidente, cuja popularidade é incontestável, mas cuja quase obsessão pela proximidade tem efeitos políticos perversos. Não é que pense que o Presidente queira ser protagonista de uma política populista que coloque em risco a separação de poderes e pretenda um poder pessoal, mas os efeitos sociais de um estilo populista de fazer política são perigosos, para além do protagonismo pessoal do actual Presidente. Uma das razões desse risco é ajudar a criar um padrão de comportamento dominante que pressione tudo e todos a segui-lo num mesmo “estilo”. A pressão sobre António Costa para um pedido de desculpas começou por ser uma constatação de que Costa procedera mal no momento mais agudo dos fogos, para se tornar uma exigência para que ele se comportasse “como o Presidente”. É o mesmo tipo de padrão que leva Pedro Santana Lopes a fazer a diferença do seu adversário centrada na “proximidade com as pessoas” e não na qualidade das políticas e propostas. E é, muito mais grave pelo seu poder multiplicador, o discurso da comunicação social, em particular as televisões “estetizando” os incêndios e valorizando o poder comunicativo da dor.

A política que se move preferencialmente no terreno das emoções, seja com pretexto na corrupção, seja na reacção à criminalidade, seja nas causas de indignação anti-“sistema”, seja também na sequência de tragédias quer individuais, quer colectivas, tem efeitos devastadores na racionalidade, nas pressões sobre os tribunais e nas “sentenças exemplares”, no justicialismo face ao crime, na falta de uma solução equilibrada para o pagamento que a democracia deve fazer aos seus eleitos ou aos seus custos de financiamento, resultando sempre no alimento que dá ao populismo. O populismo moderno, cujo reservatório são as “redes sociais”, tem hoje uma capacidade de potenciação enorme à medida que as mediações fundamentais para a democracia entram em crise, a começar pelo jornalismo profissional, ou a hierarquia dos saberes, ou as instituições representativas.

Uma democracia não pode viver sob uma espécie de ditadura dos afectos, o que não quer dizer que possa viver sem emoções. Mas trata-se de coisas distintas, sendo que, se se abafa o papel da racionalidade, o que acontece depois destes banhos afectivos, são muito más decisões, tomadas à pressa para dar um escape à pressão, mas que ou não mudam nada, ou, pior ainda, inquinam por muito tempo condições que a tragédia proporciona para realizar melhorias.

Não é crueldade nenhuma perceber que a dimensão da tragédia facilita reformas reais, porque criou uma tábua rasa a partir da qual muitas medidas de raiz podem ser tomadas, porque o “mundo velho” ardeu e já não existe. Por exemplo, no caso dos incêndios, há medidas imediatas que não podem ser adiadas, e há medidas que devem ser adiadas para serem bem pensadas e decididas com discernimento. É este segundo caso que o populismo afectuoso atinge com a sua pressão do imediato.

Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem. Não precisa de grandes inteligências, nem de grandes moralidades públicas, mas sim de bom senso e de honestidade básica. Exige uma enorme parcimónia na exibição pública e, sem dúvida, uma certa capacidade de comunicação aliada a uma severidade na fala pública. E precisa, como pão para a boca, de mais razão, menos soundbites, mais argumentos e menos espelhos em que se ouve, ou lê ou vê apenas aquilo de que se gosta, ou de imagens que nos manipulam o corpo pelos afectos e nos encolhem a cabeça.