Crepúsculo dos reitores, ou como se investiga às marteladas

(Nuno Peixinho, in Público, 08/08/2017)

 

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As universidades são, na verdade, dois sistemas onde o ensino e a investigação coabitam, mas sem união de facto.


O “regime de contratação de doutorados destinado a estimular o emprego científico e tecnológico”, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/2016 e alterado pela Lei n.º 57/2017, tem revelado a verdadeira face dos que sobrevivem cientificamente à custa dos bolseiros. As universidades desdobram-se em notas de imprensa com as suas posições nos rankings internacionais e com descobertas feitas pelos seus investigadores. Glorificam-nos, mas aparentemente só enquanto bolseiros, que apenas precisam de um “subsídio de manutenção mensal” que se presume manter-nos vivos e bem lubrificados. Um subsídio, sim, tal como o são o de acção social escolar e o de morte e funeral. Salários e contratos de trabalho? Jamais!

O reitor da Universidade de Coimbra (UC), professor doutor João Gabriel Silva, profetizou que “ficará registado quem foram os autores do mais grave atentado contra a escola pública, de direito público, em toda a democracia portuguesa”, não perdendo a oportunidade de dar a entender que o bom caminho seria transformar a sua escola pública numa de direito privado.

O reitor da Universidade de Lisboa, professor doutor António da Cruz Serra, por sua vez, declarou: “Eu preciso de professores na universidade, francamente, não preciso que me obriguem a contratar investigadores.” Mas quantos investigadores contratou até hoje? Zero! Como é evidente, precisa, de facto, que o obriguem.

O ex-secretário de Estado do Ensino Superior, professor doutor José Ferreira Gomes, consegue, porém, em meia página de um jornal, transcender tudo o que de mais humilhante um investigador bolseiro pode ouvir. Começa por enaltecer o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) por ter tentado — silenciosa e envergonhadamente — que a Presidência da República não promulgasse a Lei 57/2017. E, embora declare “que a situação era insustentável, não tenho dúvida”, não acredita no regime excepcional de concursos públicos para contratação, em substituição de algumas bolsas (porque não se trata de todas, nem pouco mais ou menos!), que a lei consagra como forma de impor alguma justiça. Afirmando, ainda, que nele também “não acreditam os actuais bolseiros que já tinham encontrado um lugar no sector não académico e agora recuaram para o conforto de um emprego que parece perpétuo e sem grandes exigências” — “Só aqueles poucos que sabem que só esse artifício lhes dá o passaporte para uma reforma garantida o poderão aceitar sem remorsos” —, desvirtuando o seu próprio emprego, sem vergonha nem remorsos, considerando-o confortável e sem grandes exigências, e inculpando sem pudor aqueles que exigem que se aplique a lei — lei pela qual se lutou anos a fio e que, mesmo assim, está muito aquém da verdadeira justiça.

Do seu discurso, eu gostaria só de perceber mais duas coisas: primeiro, como é que um bolseiro fora do sector académico tem um “lugar” se continua a ser bolseiro, sem direito a um contrato de trabalho?; e, segundo, quantos foram os que “recuaram” se nenhum concurso dos contratos de seis anos foi ainda aberto pelas universidades?

É aviltante ouvir da boca de colegas afortunados de uma geração que nunca foi bolseira que não é admissível que agora tenhamos direito a um contrato de seis anos e depois a um contrato de trabalho por tempo indeterminado, omitindo os muitos anos já acumulados em que trabalhámos com bolsas — eternamente classificadas como bolsas de formação — e o facto de ainda termos de passar dois concursos públicos e um período experimental para lá chegarmos. Uma geração que muito teve da universidade (e bem!): um contrato de Assistente Estagiário quando terminava o curso; a promoção automática para Assistente após o mestrado ou as Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica; a promoção para Professor Auxiliar após o doutoramento e, passados cinco anos, a tão ansiada nomeação definitiva que a colocava no quadro.

Era assim! Tal como na tropa se dizia que um coronel é um cadete que não morre, na Academia um professor era um assistente estagiário que não morria.

A 23 de Junho, em reunião com a Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), a Reitoria da UC garantiu que abririam até ao final de Julho mais de 80 concursos para a carreira docente, aos quais os bolseiros doutorados poderiam concorrer e que, com este artifício legal, isso seria um cumprimento parcial da lei. Ora… Julho acabou. Quantos concursos abriram? Zero! E, mesmo que tivessem aberto todos, entendamos uma coisa: cumprir parcialmente a lei é não cumprir a lei. A lei ou se cumpre ou não se cumpre. Qual seria a reacção das universidades se, alegando falta de condições financeiras, os alunos pagassem só metade das propinas? Seriam meio multados, meio expulsos ou acabariam meio licenciados?

A UC, onde trabalho — ou melhor: “bolso”—, tem, agora, a tremenda oportunidade de contratar cerca de 300 investigadores por seis anos, pagos inteiramente pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e, num pranto, não o quer fazer porque findos os seis anos terá de abrir o mesmo número de concursos para lugares de carreira, afirmando, claro está, não ter condições financeiras para isso. Porém, simultaneamente, chora o seu quadro envelhecido e, numa incrível coincidência, dentro de seis anos terá aproximadamente menos 300 docentes e investigadores nos quadros devido a reformas. Alguém compreende, então, este pranto? Não, ninguém compreende!

O que ficou claro, desde o primeiro minuto, é que a questão fundamental para o CRUP não é, nem nunca foi, a garantia de financiamento futuro. A questão é que o modelo da união do ensino e da investigação nas universidades, que está inscrito nos seus estatutos, não lhes interessa. Embora se apregoem como universidades de investigação, tornaram-se meras escolas de instrução superior, “arrendando” os seus espaços aos centros de investigação, cobrando-lhes 20% de todo o financiamento que eles conseguem por si próprios, “renda” esta que não querem devolver à investigação nem para pagar meia dúzia de contratos. As universidades são, na verdade, dois sistemas onde o ensino e a investigação coabitam, mas sem união de facto.

O CRUP não reconhece que as suas universidades são hoje anãs aos ombros de gigantes, gigantes que são seus filhos, filhos que enjeita e devora. Julgam que se manterão fortes caminhando sobre andas de pau? Os seus líderes não são dignos da responsabilidade que lhes foi incumbida nem da oportunidade que lhes foi dada. E, no entanto, perguntava já Nietzsche: “Pode um burro ser trágico? — Sucumbir sob um fardo que não pode carregar nem sacudir?”

As opiniões veiculadas neste artigo não reflectem necessariamente a opinião da ABIC


A vantagem do demagogo é acreditar que só há burros na plateia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 08/07/2017)

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“Nunca lutes com porco, ficas sujo e ainda por cima o porco gosta”. O artigo de Fernanda Câncio de ontem começa assim. Nunca menciona o candidato apoiado pelo PNR que concorre à Câmara de Loures pela sigla do PSD, mas suspeito que é nele que está a pensar. Talvez não o mencione porque é disso mesmo que ele depende: “Quando estamos, ao rebater um demagogo populista, a fazer o que ele mais quer – dar-lhe oxigénio, atenção, fazê-lo conhecido, acicatar a sua possível base de apoio através daquilo que ele qualificará como a ‘censura’ dos ‘elitistas’ e ‘politicamente corretos’ – e quando temos mesmo de o combater. É um dilema terrível, como o fenómeno Trump demonstrou – e os seus imitadores tentam explorar.” Como Ventura é um fenómeno inédito no PSD, é impossível não falar do assunto.

Se alguma dúvida restasse que estamos perante um pigmeu em bicos de pés, ávido de atenção para saltar uns degraus mais depressa, o desafio que o rapaz fez a Francisco Louçã, para um debate na televisão, deixa-nos esclarecido. Claro que esse debate nunca poderia acontecer. Não é só por não haver qualquer razão para estas duas pessoas debaterem ou por uma questão de estatuto político. É porque só alguém como André Ventura, com a necessidade de aparecer a qualquer preço, debateria com André Ventura. Se fosse sério, muito provavelmente perderia. Volto a citar a Fernanda: “Ser sério e fundamentado dá muito mais trabalho do que mandar bocas e dizer coisas que vão ao encontro dos estereótipos, dos preconceitos, dos ódios.”

Mas há quem tenha mesmo que debater. É o caso dos candidatos à Câmara de Loures. Todos terão de passar por essa provação. Se Ventura fosse candidato pelo PNR podia ser ignorado. Como foi Passos Coelho que lhe deu guarida isso é impossível. Um dos candidatos, o do BE, já debateu com a figura no mês passado. Fabian Figueiredo experimentou fazer aquilo que muitos exigem quando estas figuras aparecem: vencê-lo pelos argumentos. Apesar de não se ter saído mais, rapidamente terá descoberto que isso não é possível. Não porque os argumentos não existam, mas porque eles não são para ali chamados. O excerto que aqui deixo é elucidativo da forma de debate em que figuras como Ventura se sentem confortáveis, muito comuns nos confrontos clubísticos.

O debate deu-se num espaço televisivo da TVI24 dedicado a crimes, em que o jornalista “Miguel” e o candidato “André” se foram tuteando entre si, com o candidato do BE como uma espécie de convidado, que foi várias vezes avisado que, apesar de serem os dois candidatos a um cargo político, não se estava ali para se falar de política. Ali era para falar de crimes, ciganos e coisas que dão audiência. A camaradagem que aproxima os políticos demagogos e os jornalistas de tabloide é natural. Vivem do mesmo negócio: o medo. A razão pela qual não se debate com estas pessoas não é por haver assuntos tabus. Não é apenas porque debater os seus argumentos já é dar-lhes legitimidade num combate em que a seriedade perde sempre perante a demagogia. É também uma questão de forma.

André Ventura é professor em faculdades públicas e privadas, anda por escritórios do regime e tem vários livros publicados. Até já publicou uma investigação autodidata sobre uma conspiração que envolve Islão e o assassinato de Arafat, editada pela Chiado Editora. Já então tentou, sem tanto sucesso como pretendia, criar uma polémica que envolvesse ameaças e que fizesse dele um Salman Rushdie lusitano. Tudo nele é um clássico do arrivista mediático. Conseguiu finalmente sair do esgoto televisivo por onde vagueava e encontrar os holofotes da política a sério.

André Ventura não é burro nenhum. O que caracteriza os demagogos oportunistas não é serem estúpidos, é estarem absolutamente convencidos que aqueles a quem se dirigem o são. O que os caracteriza é o desrespeito intelectual que têm por quem os ouve e lê. Basta acompanhar os debates futebolísticos do senhor para o perceber.

Basta ouvi-lo neste debate da TVI para o confirmar. Ele acha que, sendo para quem é, bacalhau basta. A falta de escrúpulos faz o resto. Ventura está-se nas tintas para as pessoas de Loures e para os ciganos. Ventura viu um estudo de opinião que lhe dizia que as pessoas de Loures tinham aquele sentimento e foi ao encontro dele para ganhar votos. É daquelas pessoas em que ambição ocupa todo o espaço onde podia habitar uma qualquer convicção. Todos conhecemos alguém assim.

André Ventura não é um racista politicamente incorreto. É só mais um oportunista. Se fosse um xenófobo convicto poderíamos desprezar as suas ideias. Sendo o que é, somos obrigados a desprezar apenas a pessoa. E da mesma forma que não começamos a negociar com um vendedor de banha da cobra, não devemos debater com pessoas assim. Porque vai sempre correr mal. Não só porque vivem do preconceito que é mais eficaz do que o argumento, mas porque não haverá, como experimentou o candidato do BE a Loures, debate nenhum. Dentro da pocilga o porco ganha sempre.


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Rogoff, o esquerdista que quer perdoar as dívidas

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 07/08/2017)

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Está visto que os esquerdistas querem todos a mesma coisa: que a dívida do país seja perdoada. Agora, até arranjaram um reforço de peso, um tal Kenneth Rogoff, um economista norte-americano, que deve ter na mesinha de cabeceira a foto da Catarina Martins.

Pois não é que o tal Rogoff deu uma entrevista ao Expresso, publicado na edição de papel este sábado, dizendo que, na resposta à crise iniciada em 2008, “o erro maior foi a Europa e o FMI (…) terem recusado o perdão ou a mutualização das dívidas da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha”? É preciso topete! Então aos credores, aos que nos ajudaram, aos que meteram cá dinheiro, não lhes devíamos ter pago?! Onde é que já se viu empréstimos a fundo perdido? Isso é o que a Catarina Martins quer e o Francisco Louçã e a Mariana Mortágua e mesmo aquele Pedro Nuno Santos, do PS. E agora temos este Rogoff a dar-lhes cobertura. É comuna, de certeza.

Aliás, não é só comuna: também alinha com o Sócrates, o que é ainda mais grave! Sim, noutra das respostas diz que o segundo grande erro no combate à crise foi “não se ter aumentado significativamente a despesa em infraestruturas”. Ora foi isso mesmo que o Sócrates fez! Ele foi o Parque Escolar, o luxo asiático nas escolas, as eólicas, aquelas rendas excessivas, os investimentos de proximidade, eu sei lá! Foi um fartar vilanagem! E depois demos com os burrinhos na água e tivemos de ir a correr pedir ajuda internacional. E depois de nos emprestarem o dinheiro, o americano queria que não o pagássemos?! Este Rogoff também deve ter ido visitar o Sócrates à cadeia, ai deve deve, só que como os jornalistas não o conheciam não lhe perguntaram o que tinha ido lá fazer.

E mais. Diz que “os constrangimentos aos défices orçamentais, impostos pelo Tratado de Maastricht, não fazem sentido em condições de recessão profunda”, pelo que “deve permitir-se aos países terem défices maiores em períodos de recessão a troco de se comprometerem com orçamentos equilibrados ou mesmo com excedentes quando as suas economias estiverem a crescer acima da tendência”. O homem é um subversivo! Um revolucionário! Quer colocar tudo em causa! Quer implodir a ordem estabelecida! É preciso regras, porque sem regras a União Europeia não funciona! Há que impor disciplina aos países gastadores do sul, se não usam o dinheiro todo em vinho e mulheres, como bem disse o Dijsselbloem! Desconfio que este Rogoff é que é o diabo cuja vinda era anunciada por Passos Coelho! Leu o pensamento da Mariana Mortágua e encarnou o espírito da Marisa Matias! Não sei mesmo se não consulta periodicamente o Jerónimo de Sousa, que é pessoa para lhe segredar exatamente o que ele disse!

Ainda por cima diz que o maior risco que existe atualmente para a economia mundial é “uma administração Trump errática”. Aí está! O homem é contra o Trump! Deve ter apoiado a Hillary… Qual Hillary! Deve é ter apoiado o Bernie Sanders e mais aquelas ideias malucas e revolucionárias que ele tinha. E só apoiou a Hillary, se apoiou, porque é contra o Trump. Um esquerdista, é o que é. Se não vivesse nos Estados Unidos era guerrilheiro, de certeza, com boina à Che Guevara, com estrelinha e tudo!

Ora deixa cá confirmar no Facebook quem é este Rogoff. Formou-se em Yale. Hum… O Mário Centeno não tirou lá a pós-graduação? Depois, o tal Kenneth Rogoff fez pós-graduação no MIT. Ai está! Ali é tudo muito liberal… Professor de Economia em Harvard? Isso é mais surpreendente. Harvard não costuma dar cobertura a revolucionários. O quê? Também foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional? Deve ter sido no tempo do Dominique Strauss-Kahn, em que o FMI era uma animação. Ah, foi antes? Está bem. Mas podia ter sido no tempo do Dominique. E também foi campeão de xadrez sub-21 nos Estados Unidos e grande mestre internacional? Lá está. Esses tipos do xadrez são todos de esquerda. O Capablanca, o Petrosian, o Spassky, o Karpov, o Kasparov… Mesmo o Fisher não sei se não era de esquerda. Em qualquer caso, era um génio mas não era bom da cabeça.

Estou esclarecido. Este Kenneth Rogoff não me engana. Se fosse português votava no Bloco de Esquerda, de certeza. Onde já se viu um economista sério e competente defender o perdão das dívidas soberanas?


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