Vivemos uma era da brutalidade

(Joseph Praetorius, in Facebook, 06/08/2017)

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Joseph Praetorius

Vivemos uma era da brutalidade. Inútil ignorá-lo. A coisa choca por se seguir a décadas de esperanças assim traídas, mas muitas das traições não têm sequer utilidade.

Portugal afunda-se num regime de usura quotidiana, onde uma pobre população – cujo salário mínimo mal chega aos €500 e à qual se propõem 800 euros para a remuneração mensal de um médico – tem que haver-se, por exemplo, com a voracidade da corja nacional-católica, empregada pelo Partido Comunista da China na EDP, que arbitrariamente faz “ajustes” de facturas de molde a fazer evaporar parte importante do subsídio de Natal e de férias de quem os receba. Os cortes são um negócio em si mesmo. Concertaram o preço das religações. Valem três vezes o preço da conta da água, e duas vezes no caso do gás e metade da conta da luz. Um belo filão de negócio, este.

Um bilhete de autocarro custa quase dois euros – num sistema péssimo, feito para isolar e perder tempo, com os tempos de espera a chegarem aos 40 minutos – e onde a própria classe média, nos seus fatinhos de gimbrinhas e acreditando-se bem engravatada embora, procura uns tascos subsistentes onde possa almoçar por uns cinco euros… ao ponto de uma cadeia de supermercados ter organizado o negócio de vender refeições a esse preço, numa espécie bitoque dos pobres. Como se o bitoque alguma vez tivesse sido de ricos.

A questão dos transportes merece melhor focagem. Em Lisboa, as zonas de Alcântara, Belém, Algés, Benfica, Campolide e Campo de Ourique, Estrela e Lapa, não têm Metro. Onde há Metro, o tempo de espera entre combóios pode chegar aos dez minutos (se houver transbordo, vinte minutos). Em estações mais movimentadas, como o Colégio Militar, não há elevador nem escada rolante. Para os velhos não irem. E não vão. Quanto aos autocarros, falta um sublinhado: quarenta minutos de espera, mais vinte ou trinta de percurso, dá uma hora para percorrer quatro ou cinco km. Mais vale ir a pé. Mas os velhos não vão a pé. As crianças também não. E os adultos em idade activa têm mais que fazer ao tempo. Serve isto para sacar o imposto sobre os combustíveis a quem não pode dispensar o carro – e assim ninguém pode – e para alimentar os estacionamentos de preço usurário, mais as vendas de automóveis (sobretudo em segunda mão). Nisto se não garantindo que as deslocações sejam mais rápidas, porque os engarrafamentos são infernais e os parqueamentos frequentemente impossíveis. É pouco melhor: vinte ou trinta minutos de deslocação engarrafada e vinte ou trinta minutos para parquear, mas a gastar combustível e, portanto, a pagar imposto. Uma loucura.

No desemprego frequente, desalojam-se famílias inteiras e largam-se matilhas de cães de fila (solicitadores de execução) a perseguirem os devedores a quem se reserva pior tratamento que aos delinquentes, expondo-os, por exemplo. Há listas de devedores cuja existência ninguém discute, embora se discuta, claro, a publicidade das listas de pederastas condenados… O devedor, como o delinquente, mais do que o delinquente, até, foi animalizado. Ultraja-se. Caça-se. Expõe-se. E o desempregado subsidiado é um suspeito. Tem medidas de segurança que são as apresentações periódicas, como um suspeito de infracção criminal grave cujo processo esteja em curso.

A taxa de suicídios ultrapassou a da Suécia. A judicatura expõe-se, pela inépcia, a suspeitas públicas que lhe retiram toda credibilidade e quarenta por cento da população consome habitualmente psico-fármacos. Como supremo insulto, a pasta da justiça chegou a ser sobraçada por uma evidente doente mental.

Uma frente de esquerda congelou a situação para não piorar; melhor dizendo, a fim de que a rebelião não estale… Mas talvez fosse bem melhor construir a rebelião. Toda a usura continua a exercer-se.

Coisas asim, não. Assim o pensaram os húngaros. Os russos. Assim o pensam os polacos. E os turcos. Com metade dos franceses. E dos holandeses. Dos austríacos. Os portugueses não têm pensado em nada e portanto não se pode dizer que estejam a pensar seja no que for. Servis até ao desespero.

Assim têm sido as coisas. E fala-se então em retrocesso da democracia…

Deitem o centrismo que permitiu tais extremismos no lixo, se acaso estiverem interessados na democracia. Isto não é evidentemente democracia nenhuma. E removam o enriquecimeno sem causa a que a usura generalizada deu lugar. Nacionalizem a EDP e as empresas de sectores estratégicos. Metam na cadeia a corja cavaquista, com os sucedâneos e os émulos respectivos.

Vai este apontamento dedicado à Ligia Portovedo que escreveu ontem uma coisa que me impressionou e a quem não posso deixar de prestar homenagem.

Revivalismo de verão ao fim da tarde

(Por Estátua de Sal, 05/08/2017)

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Não se passa nada. A política foi a banhos. O Passos anda de alpergatas lá para os lados da Manta Rota. O Costa meteu sabática e também ninguém sabe dele. Os fogos estão meio para o fraco apesar do calor. O diabo também está de férias e deve estar em qualquer praia, de óculos escuros, disfarçado de jovem yuppie.

Resolvi fazer uma viagem ao passado. Aqui ficam algumas músicas de há muitos anos. Outros verões, outros tempos, outros hábitos, outros sons, outro mundo.

Mundo melhor? Talvez. Avaliamos sempre o mundo em função do nosso estar e do nosso ser, da nossa idade, e dos nossos sonhos. Enquanto formos tendo sonhos o mundo é sempre melhor, porque ainda acreditamos na nossa capacidade de o transformar. As crenças são como tudo, vão esboroando ao ritmo das desilusões, e ficam numa pequena caixa da nossa memória que visitamos de vez em quando com ternura.

Era no tempo em que os vocalistas até cantavam de fato e gravata, tinham que saber cantar, e os guitarristas tinham que saber música. Enfim, tudo coisas démodés.

Era esse o tempo. Aqui ficam algumas recordações de verão em vídeo. Divirtam-se, sobretudo aqueles que, como eu, também as puderem recordar com a mágoa do tempo que passou por nós.



 

 

Chegou o Tesla Model 3. É um carro histórico, mas (ainda) não é para todos

(Sérgio Magno, in Expresso Diário, 05/08/2017)

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Elon Musk prometeu um carro elétrico atraente, tecnologicamente avançado e com grande autonomia por 35 mil dólares. E, a acreditar na apresentação do Tesla Model 3, na madrugada deste sábado, cumpriu. Não foi este o entendimento de muita gente que, nas redes sociais, tem mostrado alguma desilusão.


Model 3 que vai ser vendido nos primeiros meses não será a versão base anunciada, mas sim uma versão mais bem equipada, com maior autonomia e… mais caro. Como vários clientes, que já reservaram o Model 3, têm indicado, o preço real desta versão facilmente ultrapassa os 50 mil dólares quando se adicionam extras como o Autopilot mais sofisticado e o tejadilho em vidro (um opcional que só pode ser adquirido num pack Premium que custa 5000 dólares).

Desilusões que só podem ser explicadas por expectativas irreais. Parece que há pessoas que esperavam um milagre. Algo como uma versão mais pequena de um Model S superequipado a um preço de um Volkswagen Golf. Ora, milagres não existem, apesar de Elon Musk já nos ter habituado a muitas surpresas – basta analisar como a Space X está a baixar consideravelmente o preço de explorar o Espaço. Mas, felizmente para a Tesla, entre as mais de 500 mil reservas já efetuadas do Model 3, são muitos o que têm usado as mesmas redes sociais para mostrar quão entusiasmados estão com o seu futuro carro.

De forma realista, o Model 3 de 35 mil dólares, que em Portugal deverá ter um custo mais na casa dos 40 a 45 mil dólares (há que somar impostos e outras taxas), ou seja 34 a 38 mil euros, não tem concorrentes à altura. Os carros elétricos com preço semelhante não oferecem nem a tecnologia nem a autonomia do Model 3 – já para não falar do design, mas esta característica é sempre discutível.

Quanto aos automóveis convencionais, os concorrentes mais próximos em termos de dimensão e equipamento são, provavelmente, o BMW Série 3 e o Mercedes Classe C, que facilmente ultrapassam o preço anunciado para o Model 3 quando equipados com um motor que ofereça um desempenho similar (aceleração). E estes carros têm custos de utilização (combustível, manutenção, impostos de circulação…) muito superiores a um carro elétrico.

Muito mais pessoas vão poder aceder a um automóvel elétrico sofisticado devido a um preço de acesso mais baixo. Por tudo isto, o Model 3 é, de facto, um carro histórico, que vai obrigar a indústria a acelerar o passo para acompanhar – como, aliás, já tinha acontecido com o Model S.
Mas, pelo menos por cá, o Model 3 não vai ser um carro para todos. Não vai ser um Ford Model T que, por ser bem mais barato que todos os restantes carros familiares disponíveis na altura (início do século XX), conseguiu ser acessível até para as classes trabalhadoras dos Estados Unidos. Para o Model 3 poder ser comparado ao mítico modelo da Ford, o preço base teria de ser muito mais baixo.

O IPHONE DOS CARROS

A comparação com o iPhone é mais feliz. Um smartphone que conquistou meio mundo não por ser económico – nunca o foi –, mas por trazer uma nova forma de usar um telemóvel. Por oferecer uma experiência de utilização revolucionária a um preço, que apesar de elevado, não era inatingível. Mais importante, por proporcionar acesso a todo um ecossistema. E aqui entramos num outro erro habitual quando se fala dos carros da Tesla: analisá-los, simplesmente, como automóveis. Não são apenas carros, do mesmo modo que o iPhone não era apenas um telemóvel.

REUTERS

A Tesla é uma marca de energia e de mobilidade. Em Portugal ainda não se percebeu muito esse conceito porque por cá ainda não há rede de supercarregadores nem a comercialização, pelo menos em grande escala, das soluções de produção e armazenamento de energia solar da Tesla. Mas os donos de Tesla sabem bem a que me refiro. Querem um exemplo? Visitem a página de Facebook Eagle One (https://www.facebook.com/TeslaEagleOne/), que relata as experiências de mobilidade de um português cliente da Tesla.

Este orgulhoso condutor de um Model S está de férias na Croácia depois de uma viagem de carro entre Portugal e aquele país a custo zero graças à rede Superchargers da Tesla (disponível a partir de Espanha). A ideia de percorrer grandes distâncias rapidamente, com custos baixíssimos e sem emissões é muito libertadora e, uma vez mais, revolucionária.

Este conceito de ecossistema também é evidente do modo como é possível aceder a serviços e atualizações diretamente a partir do carro. Que outra marca permite, por exemplo, aumentar a capacidade de aceleração, adquirir tecnologia de condução autónoma ou aumentar a capacidade da bateria com simples toques no ecrã tátil? A Tesla tem seguido uma política de atualizações única na indústria. O que também tem é evidente na produção.

Elon Musk prefere adicionar a melhor tecnologia disponível no momento a todos os carros produzidos, deixando para os clientes a possibilidade de adquirir ou não essa tecnologia quando adquirem o carro, ou mais tarde através de simples atualizações remotas do software. É o que tem feito com o Autopilot, que também vai estar no Model 3, adicionando um custo de produção de alguns milhares de dólares: este é um sistema de hardware complexo, constituído por várias câmaras, sensores, radares e uma poderosa unidade de computação. Para garantir um melhor preço, Musk podia, simplesmente, ter optado por retirar esta tecnologia do Tesla mais barato de sempre. Mas esta decisão não respeitaria o ADN da marca.

Neste modelo de negócio, a Tesla parece considerar que é economicamente mais interessante incluir a tecnologia (hardware) em todos os carros, mesmo que não seja utilizada, do que criar muitas versões. Esta simplificação de produção faz sentido em séries de fabrico relativamente reduzidas, como é o caso dos Model S e Model X, mas pode ser um risco num modelo que a marca pretende produzir em larga escala. E é também por isto que a Tesla está a forçar as versões mais bem equipadas nesta fase inicial. Se boa parte dos clientes optasse pelo modelo base, é provável que a Tesla perdesse dinheiro na venda dos carros. Neste momento, é muito provável que a Tesla não se possa dar ao luxo de vender Model 3 de 35 mil dólares.

E aqui entra outro conceito associado ao Model 3: a concretização do primeiro “master plan” de Musk. O objetivo do empreendedor sempre foi começar por produzir, em pequenas quantidades, automóveis elétricos para um segmento elevado de modo a conseguir desenvolver a tecnologia e obter o investimento para criar um carro elétrico acessível. Pelas razões já indicadas, não me parece que o Model 3 seja, pelo menos para já, a concretização desse objetivo. Uma vez mais, Elon Musk terá sido demasiado otimista nos seus planos, mas é esta característica que faz dele o empreendedor que está a conseguir, como poucos na história, mudar o mundo.

Voltando à comparação com o iPhone, a produção de um carro é muito mais complexa que a produção de um smartphone. A Tesla não pode, simplesmente, contactar um fabricante chinês e pedir a produção de um milhão de Model 3 em dois meses. A marca norte-americana tem de investir em fábricas, criar uma rede de pós-venda, gerir milhares de referências de peças e fornecedores…

A TESLA VAI CONSEGUIR?

Neste momento decorre um género de guerra fria entre os grandes fabricantes tradicionais e a Tesla. As marcas tradicionais desdenham a capacidade de produção, distribuição e pós-venda da marca californiana. O que me faz lembrar o que alguns executivos da Nokia e da Blackberry – só para citar alguns – diziam aos jornalistas sobre o iPhone… E todos sabemos como isso correu. Musk tem conseguido provar que é capaz de concretizar os seus objetivos, por mais difíceis que pareçam ser, embora muitas vezes demorem bem mais tempo a ser atingidos que o idealizado pelo sul-africano.

Mas não deixa de ser verdade que o Model 3 é um grande risco para Musk. Mais um entre os muitos que este empreendedor já enfrentou. É possível até que seja um dos grandes da indústria a concretizar o sonho do empreendedor em produzir um automóvel elétrico verdadeiramente popular.

O próximo pretendente a este título é o novo Nissan Leaf, que deverá ser apresentado no início de setembro e, provavelmente, chegar ao mercado europeu já nos primeiros meses de 2018 – bem antes do Model 3. Mas uma coisa é certa: sem a Tesla, nem estaríamos a discutir a popularização dos automóveis elétricos. Corra muito bem ou muito mal, o Model 3 já está a mudar o mundo.