A vantagem do demagogo é acreditar que só há burros na plateia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 08/07/2017)

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“Nunca lutes com porco, ficas sujo e ainda por cima o porco gosta”. O artigo de Fernanda Câncio de ontem começa assim. Nunca menciona o candidato apoiado pelo PNR que concorre à Câmara de Loures pela sigla do PSD, mas suspeito que é nele que está a pensar. Talvez não o mencione porque é disso mesmo que ele depende: “Quando estamos, ao rebater um demagogo populista, a fazer o que ele mais quer – dar-lhe oxigénio, atenção, fazê-lo conhecido, acicatar a sua possível base de apoio através daquilo que ele qualificará como a ‘censura’ dos ‘elitistas’ e ‘politicamente corretos’ – e quando temos mesmo de o combater. É um dilema terrível, como o fenómeno Trump demonstrou – e os seus imitadores tentam explorar.” Como Ventura é um fenómeno inédito no PSD, é impossível não falar do assunto.

Se alguma dúvida restasse que estamos perante um pigmeu em bicos de pés, ávido de atenção para saltar uns degraus mais depressa, o desafio que o rapaz fez a Francisco Louçã, para um debate na televisão, deixa-nos esclarecido. Claro que esse debate nunca poderia acontecer. Não é só por não haver qualquer razão para estas duas pessoas debaterem ou por uma questão de estatuto político. É porque só alguém como André Ventura, com a necessidade de aparecer a qualquer preço, debateria com André Ventura. Se fosse sério, muito provavelmente perderia. Volto a citar a Fernanda: “Ser sério e fundamentado dá muito mais trabalho do que mandar bocas e dizer coisas que vão ao encontro dos estereótipos, dos preconceitos, dos ódios.”

Mas há quem tenha mesmo que debater. É o caso dos candidatos à Câmara de Loures. Todos terão de passar por essa provação. Se Ventura fosse candidato pelo PNR podia ser ignorado. Como foi Passos Coelho que lhe deu guarida isso é impossível. Um dos candidatos, o do BE, já debateu com a figura no mês passado. Fabian Figueiredo experimentou fazer aquilo que muitos exigem quando estas figuras aparecem: vencê-lo pelos argumentos. Apesar de não se ter saído mais, rapidamente terá descoberto que isso não é possível. Não porque os argumentos não existam, mas porque eles não são para ali chamados. O excerto que aqui deixo é elucidativo da forma de debate em que figuras como Ventura se sentem confortáveis, muito comuns nos confrontos clubísticos.

O debate deu-se num espaço televisivo da TVI24 dedicado a crimes, em que o jornalista “Miguel” e o candidato “André” se foram tuteando entre si, com o candidato do BE como uma espécie de convidado, que foi várias vezes avisado que, apesar de serem os dois candidatos a um cargo político, não se estava ali para se falar de política. Ali era para falar de crimes, ciganos e coisas que dão audiência. A camaradagem que aproxima os políticos demagogos e os jornalistas de tabloide é natural. Vivem do mesmo negócio: o medo. A razão pela qual não se debate com estas pessoas não é por haver assuntos tabus. Não é apenas porque debater os seus argumentos já é dar-lhes legitimidade num combate em que a seriedade perde sempre perante a demagogia. É também uma questão de forma.

André Ventura é professor em faculdades públicas e privadas, anda por escritórios do regime e tem vários livros publicados. Até já publicou uma investigação autodidata sobre uma conspiração que envolve Islão e o assassinato de Arafat, editada pela Chiado Editora. Já então tentou, sem tanto sucesso como pretendia, criar uma polémica que envolvesse ameaças e que fizesse dele um Salman Rushdie lusitano. Tudo nele é um clássico do arrivista mediático. Conseguiu finalmente sair do esgoto televisivo por onde vagueava e encontrar os holofotes da política a sério.

André Ventura não é burro nenhum. O que caracteriza os demagogos oportunistas não é serem estúpidos, é estarem absolutamente convencidos que aqueles a quem se dirigem o são. O que os caracteriza é o desrespeito intelectual que têm por quem os ouve e lê. Basta acompanhar os debates futebolísticos do senhor para o perceber.

Basta ouvi-lo neste debate da TVI para o confirmar. Ele acha que, sendo para quem é, bacalhau basta. A falta de escrúpulos faz o resto. Ventura está-se nas tintas para as pessoas de Loures e para os ciganos. Ventura viu um estudo de opinião que lhe dizia que as pessoas de Loures tinham aquele sentimento e foi ao encontro dele para ganhar votos. É daquelas pessoas em que ambição ocupa todo o espaço onde podia habitar uma qualquer convicção. Todos conhecemos alguém assim.

André Ventura não é um racista politicamente incorreto. É só mais um oportunista. Se fosse um xenófobo convicto poderíamos desprezar as suas ideias. Sendo o que é, somos obrigados a desprezar apenas a pessoa. E da mesma forma que não começamos a negociar com um vendedor de banha da cobra, não devemos debater com pessoas assim. Porque vai sempre correr mal. Não só porque vivem do preconceito que é mais eficaz do que o argumento, mas porque não haverá, como experimentou o candidato do BE a Loures, debate nenhum. Dentro da pocilga o porco ganha sempre.


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2 pensamentos sobre “A vantagem do demagogo é acreditar que só há burros na plateia

  1. Mas por vezes, um debate vale muito e mete os pontos nos is. Relembro já agora o debate Marine Lepen contra Macron, em que ela mostrou bem quão longe estava do seu rival e como não dominava verdadeiramente nenhum dos dossiers imprescindíveis para um Presidente da República. Só que este debte foi nesse caso obrigatório visto ela ter ganho a primeira volta das eleições.

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  2. “… Sendo o que é, somos obrigados a desprezar apenas a pessoa…” concordo e, sendo assim, desaconselháveis serão quaisquer referências ao cavalheiro. falar dele (mencionar o seu nome) é “ir a jogo” e isso é o seu desejo… e Daniel Oliveira menciona-o várias vezes.
    o “candidato” (neste caso), como sói dizer-se, “está nas tintas” se dizem bem ou mal da sua pessoa, o importante para ele é que se diga, que se fale. e ao que parece…

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