Venezuela: ajuda humanitária, o tanas!

(Por Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/02/2019)

Daniel Oliveira

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A catástrofe social e humanitária na Venezuela tem dois responsáveis políticos. O primeiro é Nicolás Maduro, que se agarra ao poder como uma lapa apesar da sua incomensurável incompetência e evidente impopularidade. O segundo é Donald Trump, que organiza o cerco à Venezuela, fazendo os cidadãos pagar o preço deste braço de ferro. Os dois, Maduro e Trump, devem ser condenados por este jogo macabro.

A resposta à crise política na Venezuela são eleições presidenciais antecipadas, que nem Maduro nem o autoproclamado Presidente querem marcar, apesar de ser o dever político do primeiro e do segundo se ter comprometido a isso perante a comunidade internacional. Só não reconheço qualquer legitimidade à administração Trump para qualquer intervenção em qualquer país da América Latina, usando o esfarrapado argumento da defesa da democracia. Falta aos Estados Unidos, que sempre se com comportaram como uma potência colonial na região, o currículo mínimo para se autoproclamarem polícias do continente. E muito menos Donald Trump, admirador dos mais abjetos ditadores do mundo. Quanto à Europa, não lhe reservo mais do que umas linhas para o seu miserável seguidismo, apenas para anotar que a UE já se esforçou mais pela democracia na Venezuela do que pela democracia na Hungria, que é seu Estado-membro.

Não há nada de novo na utilização da “ajuda humanitária” como arma política. Não sei se alguma vez tinha atingido o espalhafato hollywoodesco de vir acompanhada com espetáculos musicais na fronteira, abrilhantados pela presença do intrépido combatente pelos direitos humanos, Mike Pence. Mas esta forma de “ajuda humanitária” só engana quem quer ser enganado. Nicolás Maduro não tem razão em coisa alguma, a começar pelo facto de não ter reconhecido um Parlamento eleito e a acabar pela recusa em marcar eleições presidenciais que façam o país sair do impasse. Mas tem toda a razão numa coisa: o envio de ajuda humanitária para a Venezuela é de um cinismo pornográfico.

A Venezuela tem a maior reserva petrolífera do mundo e é um dos maiores produtores de crude. O levantamento do bloqueio à compra das suas matérias-primas e à venda de material de refinaria, assim como o descongelamento de contas do país, chegaria para resolver o problema humanitário da Venezuela num ápice, permitindo que o país se sustentasse a si mesmo.

Cercar economicamente um país para o obrigar a receber em esmola política o que pode pagar com o que é seu é o oposto de uma ajuda humanitária. A ajuda oferecida pelos EUA e pela Europa é tão humanitária como a da Rússia. É um jogo político que usa a fome dos venezuelanos.

A retórica cínica da ajuda humanitária pode, no entanto, ter outro propósito: tornar aceitável mais uma intervenção militar que ofereça aos EUA o controlo de reservas petrolíferas e restabeleça o seu total poder no quintal da América Latina. A conversa humanitária já foi usada para invadir outro importante produtor petrolífero, o Iraque. Também então os promotores daquela aventura (alguns são repetentes, como o sinistro John Bolton) prometiam a democracia em troca da rendição. Estamos ainda hoje a pagar, com uma tragédia no Iraque e na Síria, a crise dos refugiados e o terrorismo no mundo, o preço da irresponsabilidade. Também então os que não estiveram do lado de Bush foram acusados de cumplicidade com um ditador. Estavam apenas do lado da razão, da cautela e da decência. É desse lado que devem continuar.

Os que agora usam o povo da Venezuela para o seu cinismo “humanitário” são mais ou menos os mesmos que prometiam espalhar a democracia pelo Iraque e seus vizinhos.

Sem ser preciso qualquer tipo de solidariedade, apoio ou compreensão para com Maduro, devem merecer a mesma oposição que tiveram em 2003. Se o Iraque serviu para alguma coisa foi para não voltarmos a ser enganados pela máquina de propaganda de Washington. O que os movia então é o que os move agora.

Que escrever, digam-me…

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 25/02/2019)

Há uns tempos que já não escrevo. Certamente que quem se habituou ao modo prolífico com que escrevia, deverá pensar que este tipo, depois da morte da mulher, é dado a depressões e a estados de alma, e não lhe apetece mais escrever. Tais observações não deixam de ter um bom fundo de verdade mas, para que saibam, não passo um dia que não me assalte a vontade de escrever e até tenho alguns textos escritos!

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A grande verdade é que a realidade é volátil e escrever sobre a espuma dos dias torna-se um exercício inútil pela sua efemeridade. É preciso falar de algo mais substancial, algo mais profundo e que faça as pessoas pensar sobre a direcção que este mundo leva…

Mas isso angustia-me e, para mim, já não basta o simples enumerar dos acontecimentos, a constatação destes últimos e significativos retrocessos na História e as malfadadas maledicências que consigo aportam… É preciso mais, muito mais e eu, perdoem-me, não consigo remediar, nem consertar…

O “imperialismo” aguça as suas garras e travestindo-se de “democracia”, utiliza todos as suas capacidades e meios para impor o seu mando… sobre quem? Sobre os ímpios, os insubmissos, os que ousam contrariar a ordem estabelecida e quem se digna afrontar os  benévolos e altruístas, é claro, legítimos e legais interesses dos EUA, o patrão e dono de tudo, para além de todos os mares onde, para que saibam se ainda não sabem, mantêm as sua frotas para zelar pelos seus interesses, que no fundo são os interesses de todos, e para evitar que alguém os confronte ou, muito simplesmente, lhes desobedeça.

Depois de todos as guerras por ele desencadeadas, sempre pelo supremo motivo da defesa dos seus interesses, desde a da Coreia ao Vietnam, dos conflitos Africanos aos Balcãs, do corno de África ao Sudão, da guerra dos 6 dias ao Iraque, a do Afeganistão etc…e baseadas sempre em factos indesmentíveis como a do Iraque, verifica-se que aquela ideia da deposição dos “tiranos” déspotas e sustentados em “ditaduras”, já não colhe mas, mesmo assim, todo o mundo cala e aceita que sim…que são ditaduras!

Agora vem mais uma tremenda subtileza: a propagação da ajuda humanitária, pela fome provocada pelo governo da Venezuela, o exemplo mais recente, mas não pelo embargo imposto pelos mesmos EUA! O cinismo no seu esplendor!

A um Presidente eleito que não segue os seus ditames eles, em nome da democracia, decretam um bloqueio económico, tal como a Cuba, Irão etc…impõem um auto proclamado presidente e a quem seres ignóbeis, pequenos e sem um resquício de dignidade vêm prestar tributo, um tributo que nada mais significa que um inequívoco ajoelhar perante o seu patrono, líder e guia, o deus Trump…e vêm depois acenar com a “ajuda humanitária”…

Que falar de substantivo se não daquilo que todos os que me lêem estão fartos de saber?  Que fazer se não como todos os outros enumerar os nossos desencantos e raivas? Que mais  fazer?

É isso que me deprime e que o simples florear das queixas não resolve. Saber o que escrever! Mais: o saber como, escrevendo, conseguir chegar às consciências. Como conseguir demonstrar que, à semelhança de tantas e tantas situações que a História retrata, tudo não passa do eterno logro em que muitos de deixam cair…

A História da América Latina merecia maior estudo por parte de muitos dos que se deixam enlear pelo pormenor e pela situação precisa e que não conseguem,  certamente porque nunca ouviram, nunca leram e não sabem, discernir que tudo isto é já mais que repetido e que muitos dos actores que, mesmo hoje, são endeusados porque vêm substituir os “tiranos” ditadores, mesmo que eleitos mas nunca alinhados, não passam de joguetes nas mãos dos imperadores do tempo e, de seguida, tiranetes às mãos dos supremos interesses do seu amo…

Eu estaria a delirar se isto na História não fosse repetido, repetido e repetido! Se na História da América Latina e por todos os continentes e mares isto não fosse mais que sabido.

Mas fica-me uma última e perplexa pergunta: qual o porquê desta abstrusa posição da Europa, das suas instituições, de completo ajoelhar perante Trump? Eu custa-me muito entender quanto mais compreender…

Ou talvez compreenda… Estadistas? Estamos reduzidos ao do Luxemburgo, esse grande país da Europa, o Junckers!

E leiam, por favor, “LAS VIENAS ABIERTAS DE LA AMERICA LATINA” de Eduardo Galeano! Leiam! Se não quiserem comprar o Livro vão ao Google e até um resumo por capítulos existe…

E nunca mais chamem “ditador” a quem governa para o POVO!

Sobre a próxima queda da Venezuela

(Júlio Marques Mota, 22/02/2019)

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A Venezuela irá cair, disso não tenhamos dúvidas. Irá cair , abalada pelos fortes ventos de um enorme furacão que tem como ponto de formação Washington.

Quando se acena com a bandeira da fome, ou melhor de alimentos e onde a sua necessidade impera, está tudo dito quanto ao que se vai seguir.

Num outro continente, lembremo-nos do que a União Europeia e Mario Draghi fizeram à Grécia no início de Julho de 2015. E o Syriza que se conhecia até aí, esse simplesmente morreu, com o referendo da sua revolta. E um dia destes, quando começarmos a editar uma série de textos dedicados à Europa em ano de eleições sob o título A União Europeia um espaço económico em decomposição, voltaremos a falar da Grécia, uma vez que o que agora e aqui nos importa é a Venezuela.

A pergunta-chave que aqui nos interessa é saber que caminhos sinuosos tomaram os políticos neoliberais, seja Trump, sejam os dirigentes europeus, ou as instituições que direta ou indiretamente estão sob a sua alçada, para que a degradação a que se assiste na Venezuela tenha desembocado na situação em que este país se encontra agora.

Aqui somos levados a relembrar um texto de Harold James que nos diz que “Quando se trata de falhas de caráter e de incompetência dos líderes, 2019 é um ano tão preocupante quanto o foi 1919.” Sabemos as consequências a prazo do que aconteceu em 1919, sabemos o que tem sido a pratica política destes últimos anos, e estamos em 2019, um século depois e o ano em que o Euro comemora o seu vigésimo aniversário.

Quanto às incompetências e à falta de caráter dos dirigentes políticos e financeiros em 2019, relembro aqui um texto que o meu amigo Francisco Tavares editou no blog A Viagem dos Argonautas, sobre a Venezuela (ver texto aqui). Com a sua leitura, tudo se torna claro. Vejamo-lo então:

“O extrato que a seguir se apresenta consta do relatório As consequências económicas do boicote à Venezuela, de 08/02/2019, do – Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica, e é uma demonstração, que mais clara não pode ser, sobre os inescrutáveis caminhos dos “paladinos” da democracia e dos direitos humanos, comandados pelos Estados Unidos e seus aliados da União Europeia e da América Latina, quando falam sobre a necessidade e a urgência de ajuda humanitária à Venezuela. Será possível ser-se mais hipócrita?”

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” (…) Segue-se uma lista cronológica de obstáculos específicos enfrentados pela Venezuela:

* Abril de 2016: Instituições financeiras começam a deixar de receber pagamentos em dólares de instituições venezuelanas.

* Maio de 2016: Commerzbank Bank (Alemanha) fecha contas bancárias venezuelanas e da PDVSA.

* Julho de 2016: o Citibank fecha contas correspondentes de instituições e bancos venezuelanos, incluindo o Banco Central da Venezuela. O fecho das contas correspondentes reduz a capacidade de efetuar pagamentos em dólares, impondo custos adicionais para realizar transações em outras moedas.

* Agosto 2016: o Novo Banco de Portugal proíbe transações com bancos e instituições venezuelanas.

* Julho de 2017: a empresa Delaware, agente de pagamento da PDVSA, recusa-se a receber fundos da companhia petrolífera venezuelana.

* Julho 2017: o Citibank recusa-se a receber fundos venezuelanos para importar 300.000 doses de insulina.

* Maio de 2017: empresas de origem russa, empreiteiras encarregadas de elaborar a cadeia de blocos Petro utilizando o código NEM, desistem de continuar com o contrato argumentando razões de força maior após terem sido pressionadas pela Security Exchange Commission dos Estados Unidos.

* Agosto 2017: Os bancos chineses informam que não podem realizar operações em moeda estrangeira em favor da Venezuela devido à pressão do Departamento do Tesouro dos EUA, e a Rússia relata a impossibilidade de realizar transações com bancos venezuelanos devido à restrição dos bancos correspondentes dos EUA.

* Agosto de 2017: o banco correspondente do banco chinês BDC Shandong paralisa durante três semanas uma transação de 200 milhões de dólares sacados pela China.

* Agosto de 2017: devido à pressão da OFAC, a empresa Euroclear retém 1.200 milhões de dólares sem possibilidade de mobilização.

* Outubro 2017: o Deutsche Bank fecha as contas correspondentes do Citic Bank chinês para processar pagamentos da PDVSA, o que demonstra a pressão sobre a banca internacional.

* Outubro 2017: A entrada de vacinas no país é adiada por quatro meses porque o bloqueio dos EUA torna impossível fazer pagamentos ao banco suíço UBS.

* Novembro 2017: a Venezuela faz pagamento para comprar primaquina e cloroquina (para tratamento antimalárico), solicitado ao laboratório médico da BSN na Colômbia. O governo colombiano bloqueia a entrega de medicamentos.

* Novembro 2017: o Deutsche Bank, principal correspondente do BCV, encerra definitivamente as contas correspondentes desta instituição.

* Dezembro de 2017: foram devolvidos 29,7 milhões de dólares de bancos na Europa para pagamento a fornecedores de alimentos através do programa alimentar CLAP. Também nesse mês, as autoridades colombianas impediram a transferência para a Venezuela de mais de 1.700 toneladas de perna de porco.

* Maio de 2018: o pagamento de 9 milhões de dólares para a compra de material de diálise foi bloqueado.

* Novembro 2018: A partir deste mês, o Banco da Inglaterra reteve 1,2 bilhão de dólares que o governo venezuelano havia depositado nessa entidade.”