A morte de Israel

(Chris Hedges, in Resistir, 05/01/2024)

Israel parecerá triunfar depois de encerrar a sua campanha genocida em Gaza e na Cisjordânia. Apoiado pelos Estados Unidos, alcançará o seu objetivo insano. A ofensiva assassina e violência genocida exterminarão os palestinos ou os limparão etnicamente. O sonho de um Estado exclusivamente judeu, no qual os palestinos sobreviventes seriam despojados de seus direitos básicos, será realizado. Israel poderá deleitar-se com a sua sangrenta vitória. Celebrará seus criminosos de guerra. O seu genocídio será apagado da consciência pública e atirado no enorme buraco negro da amnésia histórica de Israel. Os israelenses com consciência serão silenciados e perseguidos.

Mas quando Israel conseguir dizimar Gaza – Israel fala em meses de guerra – terá assinado a sua própria sentença de morte. A fachada de civilidade, suposto respeito ao Estado de Direito e à democracia, a história mítica de um corajoso exército israelense e a génese milagrosa da nação judaica, serão reduzidos a cinzas.

O capital social de Israel será consumido. Será revelado como um regime de apartheid repressivo e carregado de ódio, alienando as gerações mais jovens de judeus americanos. O seu protetor, os Estados Unidos, à medida que novas gerações chegarem ao poder, irá distanciar-se de Israel, como atualmente se distanciam da Ucrânia. O apoio popular, já corroído nos Estados Unidos, virá de fascistas cristianizados que veem o domínio de Israel sobre antigas terras bíblicas como um prenúncio da Segunda Vinda e veem a escravização dos árabes como uma forma de racismo e supremacia branca.

O sangue e o sofrimento dos palestinos – dez vezes mais crianças foram mortas em Gaza do que em dois anos de guerra na Ucrânia – abrirão caminho para que Israel seja esquecido. As dezenas, senão centenas de milhares, de fantasmas se vingarão. Israel se tornará sinónimo de suas vítimas como os turcos com os arménios, os alemães com os namibianos e mais tarde com os judeus, os sérvios com os bósnios. A vida cultural, artística, jornalística e intelectual de Israel será aniquilada. Israel será uma nação estagnada onde fanáticos religiosos, sectários e extremistas judeus dominarão o discurso público. Encontrará aliados entre outros regimes despóticos. A repugnante supremacia racial e religiosa de Israel será a sua principal característica, explicando por que os supremacistas brancos mais retrógrados dos Estados Unidos e da Europa, incluindo filosemitas como John HageePaul Gosar e Marjorie Taylor Greene, apoiam fervorosamente Israel. A chamada luta contra o antissemitismo é uma celebração mal disfarçada do poder branco.

Os despotismos podem sobreviver por muito tempo ao seu declínio. Mas são doentes terminais. Não é preciso ser um estudioso bíblico para ver que a sede de sangue de Israel é contrária aos valores fundamentais do judaísmo. A instrumentalização cínica do Holocausto, inclusive fazendo os palestinos parecerem nazistas, é de pouca utilidade quando se trata de perpetrar genocídio contra 2,3 milhões de pessoas presas num campo de concentração.

As nações precisam de mais do que força para sobreviver. Precisam de uma dimensão mística. Esta última dá um propósito, um senso de responsabilidade cívica e até mesmo uma nobreza que inspira os cidadãos a se sacrificarem pela nação. A dimensão mística é um farol de esperança para o futuro. Dá sentido e é fonte de identidade nacional.

Quando as místicas implodem, quando suas mentiras são reveladas, o próprio fundamento do poder estatal entra em colapso. Relatei a morte de místicas comunistas em 1989 durante as revoluções [NR] na Alemanha Oriental, Checoslováquia e Roménia. A polícia e o exército decidiram que não havia mais nada a defender. A decadência de Israel gerará a mesma sensação de cansaço e apatia. Não será capaz de recrutar cúmplices locais, como Mahmoud Abbas e a Autoridade Palestina – desprezada pela maioria dos palestinos – para fazer o trabalho dos colonizadores. O historiador Ronald Robinson menciona o fracasso do Império Britânico em recrutar aliados indígenas para reverter a não-cooperação, um momento decisivo para o início da descolonização. Uma vez que a não cooperação das elites nativas se transformou em oposição ativa, explicou Robinson, o “recuo acelerado” do Império estava assegurado.

Resta a Israel uma escalada de violência, incluindo a tortura, para acelerar o seu declínio. Essa violência generalizada funciona no curto prazo, como foi o caso da guerra da França na Argélia, a “guerra suja” da ditadura militar argentina e o conflito britânico na Irlanda do Norte. Mas, a longo prazo, ela é suicida.

“Pode-se dizer que a batalha de Argel foi vencida com o uso da tortura”, observou o historiador britânico Alistair Horne, “mas a guerra, a guerra da Argélia, foi perdida”.

O genocídio em Gaza tornou os combatentes do Hamas heróis no mundo muçulmano e no Sul Global. Israel pode eliminar a liderança do Hamas. Mas assassinatos passados e atuais de um grande número de líderes palestinos pouco fizeram para diminuir a resistência. O bloqueio e o genocídio de Gaza geraram uma nova geração de jovens profundamente traumatizados e enfurecidos, cujas famílias foram mortas e comunidades destruídas. Eles estão prontos para tomar o lugar dos líderes caídos. Israel empurrou as ações de seus adversários para a estratosfera.

Israel já estava em guerra consigo mesmo antes de 7 de outubro. Os israelenses manifestavam-se para impedir que o primeiro-ministro Netanyahu abolisse a independência do Sistema Judiciário. Os fanáticos religiosos e extremistas, atualmente no poder, haviam lançado um ataque determinado ao laicismo israelense. A unidade de Israel tem sido precária desde o ataque. É negativa. Baseia-se apenas no ódio. E nem mesmo esse ódio é suficiente para impedir que os manifestantes denunciem o abandono pelo governo dos reféns israelenses em Gaza.

O ódio é uma mercadoria política perigosa. Uma vez terminado um inimigo, aqueles que atiçam o ódio partem em busca do próximo. Os “animais” palestinos, uma vez erradicados ou subjugados, serão substituídos por apóstatas e traidores judeus. O grupo demonizado nunca pode ser redimido ou curado. Uma política de ódio cria instabilidade permanente que é explorada por aqueles que procuram destruir a sociedade civil.

Em 7 de outubro, Israel embarcou nesse caminho ao promulgar uma série de leis que discriminam os não-judeus semelhantes às Leis racistas de Nuremberg que privavam os judeus de direitos na Alemanha nazi. A Lei de Reconhecimento das Comunidades permite que povoações exclusivamente judaicas excluam outros requerentes de residência com base na “adequação com os princípios fundamentais da comunidade”.

Muitos jovens israelenses mais qualificados deixaram o país para países como Canadá, Austrália e Reino Unido, um milhão deles partiu para os Estados Unidos. A Alemanha viu um influxo de cerca de 20 mil israelenses nas duas primeiras décadas deste século. Cerca de 470 mil israelenses deixaram o país desde o 7 de outubro. Em Israel, defensores dos direitos humanos, intelectuais e jornalistas – tanto israelenses como palestinos – são taxados de traidores em campanhas de difamação patrocinadas pelo governo, colocados sob vigilância do Estado e submetidos a prisões arbitrárias. O sistema educacional de Israel é uma máquina de doutrinação para o exército.

O professor universitário israelense Yeshayahu Leibowitz alertou que, se Israel não separar Igreja e Estado e acabar com a ocupação dos palestinos, dará origem a um rabinato corrupto que transformará o judaísmo em num culto fascista. “Israel não merecerá mais existir e não fará sentido preservá-lo”, disse.

A mística global dos Estados Unidos, após duas décadas de guerras desastrosas no Médio Oriente e a invasão do Capitólio em 6 de janeiro, está tão contaminada quanto a de Israel. O governo Biden, no seu fervor em apoiar incondicionalmente Israel e apaziguar o poderoso lobby israelense, contornou o processo de verificação do Congresso com o Departamento de Estado para aprovar a transferência de 14 mil obuses para Israel. O secretário de Estado, Antony Blinken, argumentou que “circunstâncias de emergência exigem a transferência imediata dessas munições”. Ao mesmo tempo, cinicamente pediu a Israel que minimizasse as baixas civis.

Israel não tem intenção de minimizar as baixas civis. Já matou 18 800 palestinos, ou 0,82% [NT] da população de Gaza – o equivalente a cerca de 2,7 milhões de americanos. Outros 51 mil ficaram feridos. Metade da população de Gaza está passando fome, de acordo com as Nações Unidas. Todas as instituições e serviços palestinos essenciais à vida – hospitais (apenas 11 dos 36 hospitais de Gaza ainda estão “parcialmente” operacionais), estações de tratamento de esgoto, redes elétricas, sistemas de esgoto, habitação, escolas, edifícios governamentais, centros culturais, sistemas de telecomunicações, mesquitas, igrejas, pontos de distribuição de alimentos da ONU – foram destruídos. Israel assassinou pelo menos 80 jornalistas palestinos, bem como dezenas de seus familiares e mais de 130 trabalhadores humanitários da ONU com familiares. As vítimas civis são o principal. Esta não é uma guerra contra o Hamas. Esta é uma guerra contra os palestinos. O objetivo é matar ou expulsar 2,3 milhões de palestinos de Gaza.

morte de três reféns israelenses que aparentemente escaparam de seus captores e foram mortos a tiro depois de se aproximarem das forças israelenses de peito nu, agitando uma bandeira branca e pedindo ajuda em hebraico não é apenas trágica, fornece informações sobre as regras da intervenção de Israel em Gaza. Essas regras são: matar tudo o que se move.

Como escreveu o major-general aposentado israelense Giora Eiland, que chefiou o Conselho de Segurança Nacional de Israel, no Yedioth Ahronoth

“O Estado de Israel não tem escolha a não ser transformar Gaza num território temporária ou permanentemente impróprio para viver (…) Criar uma grave crise humanitária em Gaza é um meio necessário para alcançar esse objetivo”.
“Gaza irá tornar-se num lugar onde nenhum ser humano pode existir”.
“Não haverá eletricidade nem água, apenas destruição. Queriam o inferno, vão consegui-lo”, acrescentou.

A presidência Biden, que, ironicamente, pode ter assinado seu próprio atestado de óbito político, está enraizada no genocídio israelense. Tentará distanciar-se retoricamente, mas, ao mesmo tempo, fornece milhões de dólares em armas solicitados por Israel – incluindo 14,3 mil milhões de dólares em ajuda militar adicional para complementar os 3,8 mil milhões em ajuda anual – para “terminar o trabalho”. É um parceiro de pleno direito no projeto de genocídio israelense.

Israel é um Estado pária. Isso foi exibido publicamente em 12 de dezembro, quando 153 Estados-membros da Assembleia Geral da ONU votaram a favor de um cessar-fogo, com apenas 10 Estados – incluindo Estados Unidos e Israel – opondo-se e 23 abstenções. A política de “terra arrasada” de Israel em Gaza significa que a paz não será alcançada. Não haverá solução de dois Estados. O apartheid e o genocídio caracterizarão Israel. Isso prenuncia um longo conflito, que o Estado judeu não será capaz de vencer a longo prazo.


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Porque Israel não pode derrotar o Hamas

(Eduardo Vasco, in Sakerlatam.org, 24/12/2023, trad. Estátua de Sal)

Benjamin Netanyahu, o Hitler israelita, afirmou inúmeras vezes que o principal objetivo de Israel nestes últimos dois meses é erradicar o Hamas da Faixa de Gaza. O genocídio promovido pelo seu exército, que já deixou mais de 20 mil palestinos mortos, resultado de bombardeios e ataques quase ininterruptos contra tudo o que se move em Gaza, indica que o primeiro-ministro sionista está disposto a tudo para destruir o movimento de resistência palestino.

Contudo, a história e a realidade atual da Palestina mostram que o Hamas não será erradicado. E Israel e seus comparsas sabem disso. Emmanuel Macron teve um raro momento de lucidez quando declarou: “Penso que chegámos a um momento em que as autoridades israelitas terão de definir mais claramente qual é o seu objetivo final. A destruição total do Hamas? Alguém acredita que isso é possível? Se assim for, a guerra durará dez anos.”

Recentemente, o Ministro da “Defesa” de Israel reconheceu a dura realidade. “O Hamas é uma organização terrorista que foi construída ao longo de uma década para combater Israel e construiu infraestruturas subterrâneas e no terreno, e não é fácil destruí-la”, disse Yoav Galant. E acrescentou: “vai demorar um pouco, vai durar mais do que muitos meses, mas vamos derrotá-los e destruí-los”.

O porta-voz do exército israelense, Daniel Hagari, disse em 21 de dezembro que as forças de ocupação mataram mais de 2.000 militantes desde 7 de outubro. Isso representa dez por cento de todas as mortes. Por outras palavras, morrem nove civis por cada combatente – ou “terrorista”, como dizem os israelitas – eliminado em Gaza. Para matar um “terrorista”, Israel precisa matar mais de quatro crianças.

De acordo com o Centro Nacional de Contra terrorismo da Direção Nacional de Inteligência do Governo dos EUA, em Setembro de 2022 o Hamas tinha entre 20.000 e 25.000 membros. Analistas consultados pela BBC acreditam que o número de combatentes é atualmente de 30 mil, enquanto uma reportagem do Washington Post de 5 de dezembro estima-o em até 40 mil e com recrutamento recorrente. Se tanto os dados do governo americano como os destes meios de comunicação estiverem mais ou menos corretos, pode-se considerar que o número de militantes do Hamas aumentou consideravelmente ao longo de um ano.

Estes seriam dados essenciais para analisar a correlação de forças na atual fase do conflito na Palestina. E está em linha com as revelações expostas pelas recentes sondagens de opinião. Um relatório de Dahlia Scheindlin publicado em 22 de novembro no Haaretz relata que um estudo do grupo de Pesquisa e Desenvolvimento do Mundo Árabe descobriu que:

1) quase 60 por cento dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia apoiam totalmente e 16 por cento apoiam 100% moderadamente o Hamas que iiderou a operação em 7 de outubro; 

2) apenas 13 por cento (21 por cento em Gaza) se opõem a essa operação militar; 

3) para 76 por cento, o Hamas desempenha um papel positivo; 

4) pelo menos metade dos inquiridos acredita que o Hamas luta pela liberdade dos palestinianos.

O mesmo relatório cita outra sondagem de opinião, realizada pelo Barómetro Árabe, que revela que antes de 7 de Outubro, a maioria dos palestinianos criticava o Hamas por não fazer o suficiente contra a ocupação. Esta sondagem foi apoiada pelo National Endowment for Democracy (NED) dos EUA, pelo que é provavelmente tendenciosa para reduzir o apoio real ao Hamas. O Instituto de Washington, que não é suspeito de apoiar os palestinianos, também realizou uma sondagem em Julho deste ano, que concluiu que 57 por cento dos habitantes de Gaza expressam sentimentos positivos em relação ao Hamas, um pouco menos na Cisjordânia (52 por cento) e mais na Cisjordânia. Jerusalém (64 por cento) – e três quartos da população de Gaza apoiam a Jihad Islâmica Palestina e a Cova dos Leões, outra organização militante.

A maioria das análises dos números das sondagens interpreta mal o sentimento palestiniano, incluindo a análise publicada a 25 de Outubro no Foreign Affairs por Amaney A. Jamal e Michael Robbins, os dois principais investigadores do Barómetro Árabe. O que estas sondagens demonstram é:

1) o Hamas tem um grande apoio popular e

2) o movimento foi forçado a realizar a operação de 7 de Outubro devido à pressão popular para tomar algumas medidas em reação à opressão imposta pelos ocupantes sionistas. A operação liderada pelo Hamas foi o resultado lógico do sentimento de indignação dos palestinianos relativamente à sua condição de opressão, e uma parte significativa de palestinianos furiosos juntou-se às fileiras do Hamas no ano passado para combater eficazmente esta opressão.

Em 13 de dezembro, foi divulgada uma nova pesquisa de opinião realizada pelo Centro Palestino para Pesquisa de Política e Opinião, publicada pela Associated Press. Ela é enfática: 57 por cento dos habitantes de Gaza (e 82 por cento na Cisjordânia) apoiam a Operação Tempestade Al-Aqsa. É fundamental referir que o inquérito foi realizado durante o cessar-fogo, quando Gaza já estava destruída e milhares de pessoas já tinham morrido (481 pessoas responderam ao questionário em Gaza). Ou seja, apesar de sofrerem represálias criminais por parte de Israel, a maioria dos entrevistados defende a acção da Resistência. Não lamentam a operação levada a cabo pelo Hamas.

E o Hamas não está sozinho na luta armada contra os ocupantes. Aos cerca de 40.000 militantes do Hamas juntam-se diretamente milhares de combatentes da Jihad Islâmica, da Frente Popular para a Libertação da Palestina, da Frente Popular para a Libertação da Palestina – Comando Geral, da Frente Democrática para a Libertação da Palestina e de muitas outras organizações. envolvidas na luta contra o ocupante, que formam a Resistência Palestiniana. Assim, segundo números revelados pelo exército israelita, a sua operação não eliminou nem cinco por cento dos combatentes.

O governo israelita tratou os civis palestinianos como membros ou cúmplices do Hamas. Ao assassiná-los, ele comete crimes de guerra, ignorados pelas organizações internacionais “sagradas”, todas elas corrompidas pelos patrocinadores de Israel. Contudo, a conceção israelita não é totalmente incorreta: o povo palestiniano como um todo está em guerra contra os ocupantes e, em vez de ser simplesmente uma guerra entre Israel e o Hamas, é uma guerra de todo o povo palestiniano liderado principalmente pelo Hamas contra os agressores israelenses. Uma grande parte dos cidadãos comuns constitui uma rede de apoio logístico e material à Resistência Palestiniana.

Na verdade, muitos dos atuais membros do Hamas eram crianças inocentes quando Israel devastou Gaza no início da década anterior e muitas crianças que sobreviverem ao atual genocídio seguirão o mesmo caminho, porque a tendência natural de um povo que vive esmagado e massacrado é uma revolta radical e armada.

A Resistência Palestiniana é apenas um dos inúmeros movimentos de libertação nacional que surgem necessariamente em países oprimidos, como o Vietcongue, os Taliban ou a resistência xiita no Iraque pós-2003. E, tal como eles, o Hamas conta com grande apoio popular. Neste caso, apoio urbano, dadas as características da Faixa de Gaza, o que significa também que a tática de resistência é a da guerrilha urbana face à atual invasão. O Centro Nacional de Contra terrorismo dos EUA admite a natureza popular do movimento ao relatar que o Hamas utiliza “dispositivos explosivos improvisados”, “armas ligeiras” e “sistemas de defesa aérea portáteis”, reconhecendo assim que a guerra de Israel é completamente assimétrica.

Tal como os seus antecessores vietnamitas, afegãos e iraquianos, o Hamas utiliza redes de milhares de túneis subterrâneos para transportar armas e combatentes e surpreender os seus ocupantes com emboscadas mortais. Numa guerra irregular como a travada pela Resistência Palestiniana (seguindo o exemplo da resistência vietnamita, afegã e iraquiana), os túneis servem também de refúgio para os civis se protegerem dos bombardeamentos mortíferos dos invasores. Portanto, é total a responsabilidade e culpa de Israel pelas mortes de civis causadas pelos bombardeamentos de hospitais, escolas, edifícios residenciais e campos de refugiados, mesmo que alberguem “terroristas”.

As características da militância de organizações como o Hamas e a Jihad Islâmica, bem como do Vietcongue e do Talibã, que envolvem o abandono abnegado de todo o tipo de conforto e a entrega ao martírio, são a prova de que o movimento só será derrotado se todos os seus membros e apoiantes (atuais e futuros) forem mortos. Isto é, se toda a população palestina for exterminada. Caso contrário, os palestinianos continuarão a luta pela força até à vitória. O grupo de Investigação e Desenvolvimento do Mundo Árabe revelou, no seu inquérito, que três quartos dos palestinianos acreditam na vitória e, mesmo na Cisjordânia, onde o Hamas não governa, apenas 10 por cento acreditam que o Movimento de Resistência Islâmica será derrotado. Isto significa que o moral dos palestinianos está muito elevado e isso é uma condição essencial para a vitória em qualquer guerra, especialmente numa guerra de libertação nacional de todo o povo contra um ocupante.

Esta vontade de lutar também é demonstrada pelo facto de, mesmo depois de dois meses de martírio em massa, as armas tradicionalmente inferiores do Hamas (em comparação com as de um exército regular como Israel), muitas das quais são produzidas internamente, derrotaram a propagandeada Cúpula de Ferro. e os israelitas reconhecem que seria muito difícil destruir completamente estes foguetes. O Haaretz revelou que não apenas 1.593 soldados israelenses ficaram feridos (como Israel relatou), mas 4.591. Até 13 de Dezembro, 115 soldados israelitas também tinham sido mortos durante os combates em Gaza. A Resistência Palestiniana continua a contra-atacar, e continuará a contra-atacar, mesmo com paus e pedras (como tantas vezes fez), a agressão das forças de ocupação, para alcançar a vitória.

O Hamas e os seus aliados são um resultado direto da opressão sionista e da insurgência natural contra os ocupantes. São também o resultado de erros, capitulações e traições por parte da liderança maioritária da OLP. Tal como no Vietname, no Afeganistão e no Iraque, a única forma de os palestinianos alcançarem a independência é a rebelião armada. O abandono da luta radical contra os opressores foi a sentença de morte para o que se tornou a Autoridade Palestiniana, tal como o é para a esmagadora maioria dos regimes na Ásia Ocidental e no Norte de África. A sondagem publicada pela Associated Press é uma prova da impopularidade da Autoridade Palestiniana: 92 por cento dos residentes da Cisjordânia querem a demissão de Mahmoud Abbas e 60 por cento querem a dissolução da Autoridade Palestiniana; Por outro lado, 44 ​​por cento apoiam o Hamas.

O povo da região não pode mais suportar a opressão que sofre por parte de Israel e dos Estados Unidos e, enquanto essa opressão existir (isto é, enquanto existir a ocupação da Palestina e a presença militar e económica do imperialismo norte-americano), a resistência nunca cessará.


(*) Eduardo Vasco é jornalista brasileiro especializado em política internacional, correspondente de guerra e autor dos livros “O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass” e “Bloqueio: uma guerra silenciosa contra Cuba”.

Fonte aqui.


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As atrocidades em Gaza são “valores ocidentais”

(Caitlin Johnstone, in Resistir, 21/12/2023)

Quando o presidente israelense Isaac Herzog descreveu o ataque a Gaza como uma guerra “para salvar a civilização ocidental, para salvar os valores da civilização ocidental”, não estava a mentir. Estava a dizer a verdade – mas talvez não exatamente do modo como queria dizer.

A demolição de Gaza está, de facto, a ser levada a cabo em defesa dos valores ocidentais e é, ela própria, uma perfeita personificação dos valores ocidentais. Não os valores ocidentais que nos ensinam na escola, mas os valores ocultos que não querem que vejamos. Não a embalagem atractiva com os slogans publicitários no rótulo, mas o produto que está realmente dentro da caixa.

Durante séculos, a civilização ocidental dependeu fortemente da guerra, do genocídio, do roubo, do colonialismo e do imperialismo, que justificou através de narrativas baseadas na religião, no racismo e na supremacia étnica – tudo isto a que estamos a assistir hoje na incineração de Gaza.

O que estamos a ver em Gaza é uma representação muito melhor daquilo que é realmente a civilização ocidental do que todas as tretas sobre liberdade e democracia que aprendemos na escola.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que toda a arte e literatura pelas quais nos temos orgulhosamente felicitado ao longo dos séculos.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que o amor e a compaixão que gostamos de fingir que são os nossos valores judaico-cristãos.

Tem sido surreal ver a direita ocidental a balbuciar sobre o quão selvagem e bárbara é a cultura muçulmana no meio da ressurreição zombie de 2023 da islamofobia da era Bush, mesmo quando a dita civilização ocidental acumula uma montanha de 10 mil cadáveres de crianças.

Essa montanha de cadáveres de crianças é uma representação muito melhor da cultura ocidental do que qualquer coisa que Mozart, da Vinci ou Shakespeare tenham produzido.

Esta é a civilização ocidental. É assim que ela se parece.

A civilização ocidental, onde Julian Assange aguarda o seu último recurso, em fevereiro, contra a extradição para os EUA pelo jornalismo que expôs crimes de guerra dos EUA.

Onde somos alimentados por um dilúvio ininterrupto de propaganda dos media para fabricar o nosso consentimento para guerras e agressões que mataram milhões e deslocaram dezenas de milhões só no século XXI.

Onde somos distraídos por entretenimento insípido e guerras culturais artificiais para não pensarmos demasiado no que é esta civilização e em quem está a matar e mutilar, a passar fome e a explorar.

Onde os ciclos de notícias são dominados mais pelos mexericos das celebridades e pelos últimos peidos da boca de Donald Trump do que pelas atrocidades em massa que estão a ser ativamente facilitadas pelos governos ocidentais.

Onde os liberais se felicitam por terem pontos de vista progressistas sobre raça e género, enquanto os funcionários que elegem ajudam a despedaçar os corpos de crianças com explosivos militares.

Onde os judeus sionistas se centram em si próprios e nas suas emoções porque a oposição a um genocídio ativo os faz sentir que estão a ser perseguidos, e onde os apoiantes de Israel que não são judeus continuam a sentir que também estão a ser perseguidos.

Onde um império gigantesco que se estende por todo o globo, alimentado pelo militarismo, imperialismo, capitalismo e autoritarismo, devora a carne humana com um apetite insaciável, enquanto nos felicitamos por sermos muito melhores do que nações como o Irão ou a China.

Estes são os valores ocidentais. Esta é a civilização ocidental.

Peça a alguém que lhe diga quais são os seus valores e essa pessoa dir-lhe-á um monte de palavras agradáveis sobre família, amor, carinho ou o que quer que seja. Observe as suas acções para ver quais são os seus valores reais e obterá frequentemente uma história muito diferente.

Isso somos nós. Essa é a civilização ocidental. Dizemos que valorizamos a liberdade, a justiça, a verdade, a paz e a liberdade de expressão, mas as nossas acções pintam um quadro muito diferente. Os verdadeiros valores ocidentais, o produto real dentro da caixa por baixo do rótulo atrativo, são os que se vêem hoje em Gaza.

[*] Jornalista. O trabalho de Caitlin Johnstone é inteiramente apoiado pelos leitores, por isso, se gostou deste artigo, considere partilhá-lo, ou deite algum dinheiro na sua jarra de gorjetas no Patreon ou Paypal. Se quiser ler mais, pode comprar os livros dela. A melhor forma de ter a certeza de que vê o que ela publica é subscrever a lista de correio no seu sítio Web, que lhe dará uma notificação por correio eletrónico de tudo o que ela publica. Para mais informações sobre quem ela é, qual a sua posição e o que está a tentar fazer com a sua plataforma, clique aqui. Todos os trabalhos são escritos em coautoria com o seu marido americano Tim Foley.

O original encontra-se em consortiumnews.com/2023/12/21/caitlin-johnstone-gaza-atrocities-are-western-values/

Fonte aqui.