Porque Israel não pode derrotar o Hamas

(Eduardo Vasco, in Sakerlatam.org, 24/12/2023, trad. Estátua de Sal)

Benjamin Netanyahu, o Hitler israelita, afirmou inúmeras vezes que o principal objetivo de Israel nestes últimos dois meses é erradicar o Hamas da Faixa de Gaza. O genocídio promovido pelo seu exército, que já deixou mais de 20 mil palestinos mortos, resultado de bombardeios e ataques quase ininterruptos contra tudo o que se move em Gaza, indica que o primeiro-ministro sionista está disposto a tudo para destruir o movimento de resistência palestino.

Contudo, a história e a realidade atual da Palestina mostram que o Hamas não será erradicado. E Israel e seus comparsas sabem disso. Emmanuel Macron teve um raro momento de lucidez quando declarou: “Penso que chegámos a um momento em que as autoridades israelitas terão de definir mais claramente qual é o seu objetivo final. A destruição total do Hamas? Alguém acredita que isso é possível? Se assim for, a guerra durará dez anos.”

Recentemente, o Ministro da “Defesa” de Israel reconheceu a dura realidade. “O Hamas é uma organização terrorista que foi construída ao longo de uma década para combater Israel e construiu infraestruturas subterrâneas e no terreno, e não é fácil destruí-la”, disse Yoav Galant. E acrescentou: “vai demorar um pouco, vai durar mais do que muitos meses, mas vamos derrotá-los e destruí-los”.

O porta-voz do exército israelense, Daniel Hagari, disse em 21 de dezembro que as forças de ocupação mataram mais de 2.000 militantes desde 7 de outubro. Isso representa dez por cento de todas as mortes. Por outras palavras, morrem nove civis por cada combatente – ou “terrorista”, como dizem os israelitas – eliminado em Gaza. Para matar um “terrorista”, Israel precisa matar mais de quatro crianças.

De acordo com o Centro Nacional de Contra terrorismo da Direção Nacional de Inteligência do Governo dos EUA, em Setembro de 2022 o Hamas tinha entre 20.000 e 25.000 membros. Analistas consultados pela BBC acreditam que o número de combatentes é atualmente de 30 mil, enquanto uma reportagem do Washington Post de 5 de dezembro estima-o em até 40 mil e com recrutamento recorrente. Se tanto os dados do governo americano como os destes meios de comunicação estiverem mais ou menos corretos, pode-se considerar que o número de militantes do Hamas aumentou consideravelmente ao longo de um ano.

Estes seriam dados essenciais para analisar a correlação de forças na atual fase do conflito na Palestina. E está em linha com as revelações expostas pelas recentes sondagens de opinião. Um relatório de Dahlia Scheindlin publicado em 22 de novembro no Haaretz relata que um estudo do grupo de Pesquisa e Desenvolvimento do Mundo Árabe descobriu que:

1) quase 60 por cento dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia apoiam totalmente e 16 por cento apoiam 100% moderadamente o Hamas que iiderou a operação em 7 de outubro; 

2) apenas 13 por cento (21 por cento em Gaza) se opõem a essa operação militar; 

3) para 76 por cento, o Hamas desempenha um papel positivo; 

4) pelo menos metade dos inquiridos acredita que o Hamas luta pela liberdade dos palestinianos.

O mesmo relatório cita outra sondagem de opinião, realizada pelo Barómetro Árabe, que revela que antes de 7 de Outubro, a maioria dos palestinianos criticava o Hamas por não fazer o suficiente contra a ocupação. Esta sondagem foi apoiada pelo National Endowment for Democracy (NED) dos EUA, pelo que é provavelmente tendenciosa para reduzir o apoio real ao Hamas. O Instituto de Washington, que não é suspeito de apoiar os palestinianos, também realizou uma sondagem em Julho deste ano, que concluiu que 57 por cento dos habitantes de Gaza expressam sentimentos positivos em relação ao Hamas, um pouco menos na Cisjordânia (52 por cento) e mais na Cisjordânia. Jerusalém (64 por cento) – e três quartos da população de Gaza apoiam a Jihad Islâmica Palestina e a Cova dos Leões, outra organização militante.

A maioria das análises dos números das sondagens interpreta mal o sentimento palestiniano, incluindo a análise publicada a 25 de Outubro no Foreign Affairs por Amaney A. Jamal e Michael Robbins, os dois principais investigadores do Barómetro Árabe. O que estas sondagens demonstram é:

1) o Hamas tem um grande apoio popular e

2) o movimento foi forçado a realizar a operação de 7 de Outubro devido à pressão popular para tomar algumas medidas em reação à opressão imposta pelos ocupantes sionistas. A operação liderada pelo Hamas foi o resultado lógico do sentimento de indignação dos palestinianos relativamente à sua condição de opressão, e uma parte significativa de palestinianos furiosos juntou-se às fileiras do Hamas no ano passado para combater eficazmente esta opressão.

Em 13 de dezembro, foi divulgada uma nova pesquisa de opinião realizada pelo Centro Palestino para Pesquisa de Política e Opinião, publicada pela Associated Press. Ela é enfática: 57 por cento dos habitantes de Gaza (e 82 por cento na Cisjordânia) apoiam a Operação Tempestade Al-Aqsa. É fundamental referir que o inquérito foi realizado durante o cessar-fogo, quando Gaza já estava destruída e milhares de pessoas já tinham morrido (481 pessoas responderam ao questionário em Gaza). Ou seja, apesar de sofrerem represálias criminais por parte de Israel, a maioria dos entrevistados defende a acção da Resistência. Não lamentam a operação levada a cabo pelo Hamas.

E o Hamas não está sozinho na luta armada contra os ocupantes. Aos cerca de 40.000 militantes do Hamas juntam-se diretamente milhares de combatentes da Jihad Islâmica, da Frente Popular para a Libertação da Palestina, da Frente Popular para a Libertação da Palestina – Comando Geral, da Frente Democrática para a Libertação da Palestina e de muitas outras organizações. envolvidas na luta contra o ocupante, que formam a Resistência Palestiniana. Assim, segundo números revelados pelo exército israelita, a sua operação não eliminou nem cinco por cento dos combatentes.

O governo israelita tratou os civis palestinianos como membros ou cúmplices do Hamas. Ao assassiná-los, ele comete crimes de guerra, ignorados pelas organizações internacionais “sagradas”, todas elas corrompidas pelos patrocinadores de Israel. Contudo, a conceção israelita não é totalmente incorreta: o povo palestiniano como um todo está em guerra contra os ocupantes e, em vez de ser simplesmente uma guerra entre Israel e o Hamas, é uma guerra de todo o povo palestiniano liderado principalmente pelo Hamas contra os agressores israelenses. Uma grande parte dos cidadãos comuns constitui uma rede de apoio logístico e material à Resistência Palestiniana.

Na verdade, muitos dos atuais membros do Hamas eram crianças inocentes quando Israel devastou Gaza no início da década anterior e muitas crianças que sobreviverem ao atual genocídio seguirão o mesmo caminho, porque a tendência natural de um povo que vive esmagado e massacrado é uma revolta radical e armada.

A Resistência Palestiniana é apenas um dos inúmeros movimentos de libertação nacional que surgem necessariamente em países oprimidos, como o Vietcongue, os Taliban ou a resistência xiita no Iraque pós-2003. E, tal como eles, o Hamas conta com grande apoio popular. Neste caso, apoio urbano, dadas as características da Faixa de Gaza, o que significa também que a tática de resistência é a da guerrilha urbana face à atual invasão. O Centro Nacional de Contra terrorismo dos EUA admite a natureza popular do movimento ao relatar que o Hamas utiliza “dispositivos explosivos improvisados”, “armas ligeiras” e “sistemas de defesa aérea portáteis”, reconhecendo assim que a guerra de Israel é completamente assimétrica.

Tal como os seus antecessores vietnamitas, afegãos e iraquianos, o Hamas utiliza redes de milhares de túneis subterrâneos para transportar armas e combatentes e surpreender os seus ocupantes com emboscadas mortais. Numa guerra irregular como a travada pela Resistência Palestiniana (seguindo o exemplo da resistência vietnamita, afegã e iraquiana), os túneis servem também de refúgio para os civis se protegerem dos bombardeamentos mortíferos dos invasores. Portanto, é total a responsabilidade e culpa de Israel pelas mortes de civis causadas pelos bombardeamentos de hospitais, escolas, edifícios residenciais e campos de refugiados, mesmo que alberguem “terroristas”.

As características da militância de organizações como o Hamas e a Jihad Islâmica, bem como do Vietcongue e do Talibã, que envolvem o abandono abnegado de todo o tipo de conforto e a entrega ao martírio, são a prova de que o movimento só será derrotado se todos os seus membros e apoiantes (atuais e futuros) forem mortos. Isto é, se toda a população palestina for exterminada. Caso contrário, os palestinianos continuarão a luta pela força até à vitória. O grupo de Investigação e Desenvolvimento do Mundo Árabe revelou, no seu inquérito, que três quartos dos palestinianos acreditam na vitória e, mesmo na Cisjordânia, onde o Hamas não governa, apenas 10 por cento acreditam que o Movimento de Resistência Islâmica será derrotado. Isto significa que o moral dos palestinianos está muito elevado e isso é uma condição essencial para a vitória em qualquer guerra, especialmente numa guerra de libertação nacional de todo o povo contra um ocupante.

Esta vontade de lutar também é demonstrada pelo facto de, mesmo depois de dois meses de martírio em massa, as armas tradicionalmente inferiores do Hamas (em comparação com as de um exército regular como Israel), muitas das quais são produzidas internamente, derrotaram a propagandeada Cúpula de Ferro. e os israelitas reconhecem que seria muito difícil destruir completamente estes foguetes. O Haaretz revelou que não apenas 1.593 soldados israelenses ficaram feridos (como Israel relatou), mas 4.591. Até 13 de Dezembro, 115 soldados israelitas também tinham sido mortos durante os combates em Gaza. A Resistência Palestiniana continua a contra-atacar, e continuará a contra-atacar, mesmo com paus e pedras (como tantas vezes fez), a agressão das forças de ocupação, para alcançar a vitória.

O Hamas e os seus aliados são um resultado direto da opressão sionista e da insurgência natural contra os ocupantes. São também o resultado de erros, capitulações e traições por parte da liderança maioritária da OLP. Tal como no Vietname, no Afeganistão e no Iraque, a única forma de os palestinianos alcançarem a independência é a rebelião armada. O abandono da luta radical contra os opressores foi a sentença de morte para o que se tornou a Autoridade Palestiniana, tal como o é para a esmagadora maioria dos regimes na Ásia Ocidental e no Norte de África. A sondagem publicada pela Associated Press é uma prova da impopularidade da Autoridade Palestiniana: 92 por cento dos residentes da Cisjordânia querem a demissão de Mahmoud Abbas e 60 por cento querem a dissolução da Autoridade Palestiniana; Por outro lado, 44 ​​por cento apoiam o Hamas.

O povo da região não pode mais suportar a opressão que sofre por parte de Israel e dos Estados Unidos e, enquanto essa opressão existir (isto é, enquanto existir a ocupação da Palestina e a presença militar e económica do imperialismo norte-americano), a resistência nunca cessará.


(*) Eduardo Vasco é jornalista brasileiro especializado em política internacional, correspondente de guerra e autor dos livros “O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass” e “Bloqueio: uma guerra silenciosa contra Cuba”.

Fonte aqui.


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As atrocidades em Gaza são “valores ocidentais”

(Caitlin Johnstone, in Resistir, 21/12/2023)

Quando o presidente israelense Isaac Herzog descreveu o ataque a Gaza como uma guerra “para salvar a civilização ocidental, para salvar os valores da civilização ocidental”, não estava a mentir. Estava a dizer a verdade – mas talvez não exatamente do modo como queria dizer.

A demolição de Gaza está, de facto, a ser levada a cabo em defesa dos valores ocidentais e é, ela própria, uma perfeita personificação dos valores ocidentais. Não os valores ocidentais que nos ensinam na escola, mas os valores ocultos que não querem que vejamos. Não a embalagem atractiva com os slogans publicitários no rótulo, mas o produto que está realmente dentro da caixa.

Durante séculos, a civilização ocidental dependeu fortemente da guerra, do genocídio, do roubo, do colonialismo e do imperialismo, que justificou através de narrativas baseadas na religião, no racismo e na supremacia étnica – tudo isto a que estamos a assistir hoje na incineração de Gaza.

O que estamos a ver em Gaza é uma representação muito melhor daquilo que é realmente a civilização ocidental do que todas as tretas sobre liberdade e democracia que aprendemos na escola.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que toda a arte e literatura pelas quais nos temos orgulhosamente felicitado ao longo dos séculos.

Uma representação muito melhor da civilização ocidental do que o amor e a compaixão que gostamos de fingir que são os nossos valores judaico-cristãos.

Tem sido surreal ver a direita ocidental a balbuciar sobre o quão selvagem e bárbara é a cultura muçulmana no meio da ressurreição zombie de 2023 da islamofobia da era Bush, mesmo quando a dita civilização ocidental acumula uma montanha de 10 mil cadáveres de crianças.

Essa montanha de cadáveres de crianças é uma representação muito melhor da cultura ocidental do que qualquer coisa que Mozart, da Vinci ou Shakespeare tenham produzido.

Esta é a civilização ocidental. É assim que ela se parece.

A civilização ocidental, onde Julian Assange aguarda o seu último recurso, em fevereiro, contra a extradição para os EUA pelo jornalismo que expôs crimes de guerra dos EUA.

Onde somos alimentados por um dilúvio ininterrupto de propaganda dos media para fabricar o nosso consentimento para guerras e agressões que mataram milhões e deslocaram dezenas de milhões só no século XXI.

Onde somos distraídos por entretenimento insípido e guerras culturais artificiais para não pensarmos demasiado no que é esta civilização e em quem está a matar e mutilar, a passar fome e a explorar.

Onde os ciclos de notícias são dominados mais pelos mexericos das celebridades e pelos últimos peidos da boca de Donald Trump do que pelas atrocidades em massa que estão a ser ativamente facilitadas pelos governos ocidentais.

Onde os liberais se felicitam por terem pontos de vista progressistas sobre raça e género, enquanto os funcionários que elegem ajudam a despedaçar os corpos de crianças com explosivos militares.

Onde os judeus sionistas se centram em si próprios e nas suas emoções porque a oposição a um genocídio ativo os faz sentir que estão a ser perseguidos, e onde os apoiantes de Israel que não são judeus continuam a sentir que também estão a ser perseguidos.

Onde um império gigantesco que se estende por todo o globo, alimentado pelo militarismo, imperialismo, capitalismo e autoritarismo, devora a carne humana com um apetite insaciável, enquanto nos felicitamos por sermos muito melhores do que nações como o Irão ou a China.

Estes são os valores ocidentais. Esta é a civilização ocidental.

Peça a alguém que lhe diga quais são os seus valores e essa pessoa dir-lhe-á um monte de palavras agradáveis sobre família, amor, carinho ou o que quer que seja. Observe as suas acções para ver quais são os seus valores reais e obterá frequentemente uma história muito diferente.

Isso somos nós. Essa é a civilização ocidental. Dizemos que valorizamos a liberdade, a justiça, a verdade, a paz e a liberdade de expressão, mas as nossas acções pintam um quadro muito diferente. Os verdadeiros valores ocidentais, o produto real dentro da caixa por baixo do rótulo atrativo, são os que se vêem hoje em Gaza.

[*] Jornalista. O trabalho de Caitlin Johnstone é inteiramente apoiado pelos leitores, por isso, se gostou deste artigo, considere partilhá-lo, ou deite algum dinheiro na sua jarra de gorjetas no Patreon ou Paypal. Se quiser ler mais, pode comprar os livros dela. A melhor forma de ter a certeza de que vê o que ela publica é subscrever a lista de correio no seu sítio Web, que lhe dará uma notificação por correio eletrónico de tudo o que ela publica. Para mais informações sobre quem ela é, qual a sua posição e o que está a tentar fazer com a sua plataforma, clique aqui. Todos os trabalhos são escritos em coautoria com o seu marido americano Tim Foley.

O original encontra-se em consortiumnews.com/2023/12/21/caitlin-johnstone-gaza-atrocities-are-western-values/

Fonte aqui.


Ações desesperadas!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 30/01/2023)

Alguma coisa está em mudança no monte Olimpo e está a deixar em retalhos a união de tendências ligadas à falcoaria estado-unidense. Perceber e prever as acções da elite política que comanda, através dos seus mandatários transnacionais, os nossos destinos, implica conhecer o que reflecte e publica o mais importante think thank de defesa dos EUA.  Esta pesquisa leva-nos a uma entidade que muito raramente surge nos momentos “informativos” da imprensa do atlântico norte: trata-se da RAND Corporation.

O momento mais conhecido da RAND, no que respeita ao conflito no leste europeu, é sinalizado pela publicação do relatório “Extending Russia – Competing from Advantageous Ground” (estender a Rússia – competir por uma posição vantajosa no terreno). Este relatório contém todo o cardápio de malfeitorias que, nas pretensões tornadas públicas, publicadas e assaz repetidas pela cúpula do poder dos EUA, levaria a uma fulminante derrota do poder político, económico e militar da Federação Russa.

A análise manifestada publicamente, pelos diversos intervenientes políticos, dizia que a Federação Russa não passava de “uma bomba de gasolina com armas nucleares”, um “tigre de papel” com um PIB equiparado ao da Holanda e um povo amordaçado por um “ditador louco” que, apenas pelo “autoritarismo” e “repressão”, se mantinha no poder.

Partindo de uma análise cuja informação parecia consubstanciar tais posicionamentos políticos, o relatório da RAND preconizava um tipo de intervenções, algumas das quais bem reportadas – outras nem por isso – na imprensa oficial. Foi o caso da tentativa de revoluções “coloridas” made in CIA na Bielorrússia, no Cazaquistão e nos países da Ásia central, os quais, em conjunto com a Geórgia e a Moldávia, seriam provavelmente “promovidos” e “apoiados” à condição de uma Ucrânia actual. A Federação Russa, tendo de acorrer a todos os fogos – uns porque se transformavam em exércitos por procuração (como a Ucrânia), outros em bases de operações de desestabilização interna lançadas pela CIA -, acabaria por se “estender” até se partir em bocados e colapsar, colocando um fim à ameaça atual. Mesmo sem esta partição, sempre se poderia chegar a um ponto em que, após a destruição do poder político vigente, seria instalado um “regime” mais dócil, apontando a uma “posição mais vantajosa no terreno”.

Dado a conhecer apenas em 2019, somos forçados a constatar que esta estratégia já estava em preparação há muito, principalmente a partir do momento em que o presidente russo perdeu a esperança de poder contar com uma “parceria” ocidental e anunciar o fim do mundo unipolar. Facto é que, o relatório tem uma ligação lógica com a National Defense Strategy de 2018 (estratégia nacional de defesa dos EUA).

Fosse quando fosse, esta estratégia entronca na estratégia de “jugoslavização” da Federação Russa. A verdade é que o itinerário constante desse trabalho foi cumprido quase escrupulosamente pela cúpula de segurança e defesa dos EUA: revoluções “coloridas”; estados transformados em exércitos por procuração; campanha de comunicação e desinformação; operações de desestabilização e sabotagem; sanções e embargos económicos. Um cardápio de fulminantes actividades “democráticas” em crescendo!

E porque é que é importante falar disto hoje? É importante porque nos últimos dias foi publicado um novo documento da RAND Corporation, mas desta feita em sentido inverso, um estudo intitulado “Avoiding a Long War U.S. Policy and the Trajectory of the Russia-Ukraine Conflict” (evitar um conflito de longa duração – a política dos EUA e a trajectória do conflito russo-ucraniano).

Se os trabalhos anteriores apontavam para os objectivos que tão propalados foram por Anthony Blinken, Biden, Nuland ou Kirby, e que passavam por um conflito duradouro que esgotasse as energias russas, de forma a permitir a remoção do obstáculo, pela força, se necessário fosse, o estudo publicado, desta feita, aponta para a realização de uma análise custo-benefício entre os custos e riscos resultantes de uma guerra longa com Moscovo e os benefícios que os EUA podem retirar de uma trajetória, que se prevê de escalada e que pode resultar numa confrontação directa.

Algo mudou e de que maneira. Primeiro era o triunfalismo e a destruição da ameaça, agora, um conflito longo traz riscos e custos que impedem os EUA de se focarem em prioridades mais prementes. Como ficamos? No início pretendia-se, precisamente, um conflito duradouro… Agora, não apenas comporta custos e riscos, como parece ser a própria Rússia que está mais confortável com a previsível extensão do conflito no tempo, ao ponto de designar Gerasimov como comandante-chefe das forças armadas, prevendo mais do que um teatro de operações em simultâneo (a RAND apontava para a possibilidade bilateral polaca).

Segundo o site Moon of Alabama, uma das melhores fontes sobre política externa dos EUA, a publicação deste estudo não surge por acaso, surgindo após uma tentativa por parte do chefe de gabinete dos EUA, Mark Milley, em promover um debate interno sobre possíveis negociações de paz com a Rússia. Perdida a batalha na Casa Branca, não conseguindo demover Biden – pois este só ouve Nuland, Blinken e Sulivan (falcões de serviço) -, optou pela exposição pública da sua pretensão, vindo apelar ao início das negociações primeiro e, talvez, suscitar a publicação deste estudo, depois.

O problema é, como escreve Tyler Durden, num dos melhores sites de opinião da actualidade que é o ZeroHedge, no seu artigo “The most Egregious Mistake” (o erro mais egrégio), recuar e inverter a direcção da política dos EUA, nesta matéria, não é, simplesmente, uma opção. A Casa Branca levou todo o Ocidente numa direção e velocidade tal, em matéria de triunfalismo, arrogância e “egrégia” imbecilidade, que não existe retorno ou inversão possíveis, sem uma total derrota da narrativa oficial e a consequente vergonha eterna. Daí que, estes esforços de Mark Miller devam resultar em muito pouco, a não ser no aprofundamento das fracturas internas, o que pode ser positivo. O facto é que, já existe gente a pretender destoar deste caminho para o abismo.

Agora, ao contrário dos diversos escritos sobre a matéria – segundo os quais, inicialmente, esta estratégia não resultava propriamente de uma necessidade mas de uma escolha, traduzida no tal “erro egrégio” -, que tendem a explicar a impossibilidade de inversão na direção da estratégia suicida actual, com o sectarismo da narrativa oficial – que só oferece certezas e resultados inequívocos -, eu, pessoalmente, tendo a considerar que não se tratou de um “erro”, nem tão pouco de uma escolha, mas sim, de um acto de desespero.

Diz a narrativa – americana – alternativa à corrente oficial, que a estratégia delineada representava uma ameaça existencial para a Rússia, mas não para os EUA. Para os EUA seria possível enveredar por outros caminhos que não os da criação deste conflito.

A meu ver, esta é uma posição condescendente e que desvaloriza os sentimentos de urgência que resultaram da análise catastrófica (nunca tornada pública) que, provavelmente, muitos terão feito quanto à situação da hegemonia estado-unidense. O facto é que, enquanto os EUA gastaram 8 triliões de dólares na guerra ao terror, canalizando para aí todos os seus esforços diplomáticos, económicos e militares… o que fizeram Rússia e China?

Enquanto os EUA usavam o pretexto do terrorismo (que eles próprios tantas vezes fomentaram e instrumentalizaram como arma de arremesso contra adversários políticos – Síria, por exemplo) para dominarem as maiores reservas mundiais de petróleo (no Médio Oriente), secundarizando outros recursos naturais, hoje com importância (como o lítio, por exemplo), a China desenvolveu as suas infraestruturas, industria, exercito e, sobretudo, a sua plataforma internacional de trocas comerciais, hoje conhecida como Belt and Road Initiative (Novas Rotas da Seda). Neste período, o Sul Global pôde experimentar uma nova forma de “soft power”, que em vez de exigir privatizações, dolarização da economia e reformulação do sistema político à moda do que dava mais jeito, tendo o FMI e o Banco Mundial como os procuradores de serviço, a integração na BRI apenas exige que os projectos facilitem as trocas entre os países (daí as infraestruturas). Em troca de recursos naturais, estes países – ao invés de corporações ocidentais e “investimento” traduzido na compra das empresas publicas -, recebem escolas, hospitais, redes 4G e 5G, portos, aeroportos, pontes, e quanto maiores e mais desafiantes melhor.

Nem a propaganda da “armadilha da dívida”, bem conhecida do FMI e dos tratados de associação com os EUA, impediu mais de 120 países de aderirem a esta rede. Entretanto e no mesmo período de tempo, a Rússia pôde reerguer-se do pesadelo neoliberal dos anos 90, recuperando a sua indústria e, acima de tudo, a sua autoestima e orgulho nacional. Um pecado mortal aos olhos da Casa Branca. Foram feitos projectos de integração euroasiática (EUEA), de cooperação internacional (BRICS) e de infraestruturas (INSTC) que contornam a influência dos EUA através dos mares, o que ajuda a blindar a economia dos países envolvidos.

Enquanto este mundo multipolar nascia nas barbas dos falcões mais arrogantes e sectários, o complexo militar industrial centrava as suas atenções na guerra ao terror. Os nossos noticiários, à data, em vez de Ucrânia, começavam e fechavam com atentados suicidas e bombas-relógio. Até que…

Quando começaram a surgir as informações sobre este mundo, sob a forma de dados concretos, o pânico começou a instalar-se. Foi por alturas de 2017/18. É claro que, na minha perspectiva, este pânico não pode confessar-se. A sua exteriorização começou a surgir através do Euromaidan, da pressão e desestabilização sobre nações da América Latina menos alinhadas, com a prisão de Lula da Silva e de outros líderes nacionais, promotores de políticas com as quais a Casa Branca não estava confortável. Aos poucos fomos vendo a política externa dos EUA dirigir-se novamente para o domínio dos recursos naturais e dos mercados e menos para o terrorismo. Chegaram mesmo a “abandonar” o Médio Oriente, deixando aí apenas os cães de guarda sionista e curdo. Era o tempo dos noticiários que abriam e fechavam com a Venezuela.

Contudo, esta inversão de rumo já denunciava, a meu ver, uma espécie de corrida contra o tempo. Tempo que tinha que ser ganho.

Perante a contínua perda de terreno, lá chegámos ao tempo do Covid (que segundo muitos é uma “cartada” da Casa Branca, provocada ou oportunista, logo veremos, a seu tempo) e à construção de uma estratégia militar que terá sido eleita como, o último dos meios – longe de ser remoto –, para “conter” a China, recém classificada como “ameaça existencial”.  O confronto no Pacífico passaria pela criação de uma NATO oriental, baptizada de AUKUS. Nessa estratégia havia que remover os obstáculos que poderiam fazer pender a balança para o lado do inimigo. Esse obstáculo era a Federação Russa. A celebração de uma verdadeira aliança estratégica entre a Federação Russa e a China demonstra que as lideranças destes dois países deixaram de ter qualquer ilusão sobre as reais intenções dos EUA. Quanto mais juntos estiverem, maior a sua protecção e maior a ameaça para os EUA.

É aqui que surge a opção “ucraniana”! A estratégia de estender a Rússia até que partisse não foi uma opção. Foi uma acção desesperada. Absolutamente! E porquê?

Não o digo apenas por causa do que antes referi e da urgência que os dirigentes da elite das Corporações Transnacionais (a espinha dorsal do Império estado-unidense) deverão ter sentido perante a informação que lhes foi chegando. Nesta fase, convém dizer que o “falhanço” da estratégia chinesa teve a sua importância nesse desespero. Para a elite corporativa que controla o poder político dos EUA, a “abertura” económica da China levaria de certeza (não sei em que ciência se basearam) à destruição do poder do Partido Comunista e à instalação de um governo de tipo neoliberal. Hong-Kong já terá sido uma etapa forçada, pois esta gente acreditava que o processo seria mais ou menos “natural”, resultando num colapso de tipo “URSS”, desta feita, na China. Mas não… Em 2015 já se dizia na Casa Branca que teriam de aprender a viver com a China como ela era. Não haveria um novo “Tiananmen” à vista.

Para a elite corporativa transnacional não existe cooperação. Existe domínio. Afinal é esse o combustível e a adrenalina do império. De qualquer um. Mas, voltando ao leste europeu, porque digo que a opção ucraniana foi desesperada?

Primeiro, foi forçada. E foi forçada porque resultou do fracasso de gente como Navalny e outros fantoches neoliberais, que deveriam ter conseguido produzir um desgaste do poder do Rússia Unida. A opção preferencial é sempre a que passa pela desconstrução e submissão interna do adversário. Não o conseguindo, sobrou apenas a militar. A militar é a componente em que os EUA ainda se consideram superiores.

O relatório da RAND apontava para um conjunto de “tarefas” que deveriam ser cumpridas para atingir-se o objectivo de “estender a Rússia” e assim conseguir uma “posição mais vantajosa no terreno”. Foi atingido esse desiderato? Não, nem por sombras.

Primeiro, falharam as revoluções “coloridas” na Bielorrússia e Cazaquistão. Não apenas não removeram os respectivos governantes como pioraram a sua situação no terreno, reforçando o poder da Rússia sobre esses países (os respetivos governos por ela “salvos”). Segundo, falharam as sanções de 2014 em diante, ao não destruírem a economia russa. Pior, deram ao país uma capacidade de viver com as sanções do Ocidente. As sanções foram “a” oportunidade de desenvolvimento, o pretexto que faltava para passar de uma economia apenas baseada na extracção de recursos, para uma economia industrial, em alguns casos de ponta e de ciclo completo, ou seja, com setores-chave soberanos e blindados contra manobras de sabotagem, a partir do exterior. Terceiro, a Geórgia não mordeu o isco e não se armou em exército por procuração, falhando o plano de criação de várias frentes de batalha. De tudo isto a Federação Russa saiu mais forte.

Enquanto o discurso para fora, por motivos ideológicos e estratégicos, continuava a ser o da “bomba de gasolina”, as acções denunciavam apenas desespero. A própria instrumentalização dos acordos de Minsk, acordos sancionados pela ONU, como forma de ganhar tempo para armar a Ucrânia, descredibilizou totalmente o Ocidente aos olhos do Sul Global. Quem engana assim, um país como a Rússia, apoiando-se num processo como o de Minsk, é capaz de tudo.

O facto de conseguirem “convencer” um país ao sacrifício por causa do poder de outro, fazendo assentar esse “convencimento” na instauração de uma doutrina neonazi, que recupera Bandera (responsável direto pela morte de milhões de polacos, ucranianos e judeus), assente na xenofobia, no ódio racial e cultural, conduzindo esse país a um golpe de estado perpetrado por forças comparáveis às SS, e fazerem esta gente toda passar por mártires e heróis, chegando mesmo a retirar o batalhão Azov da lista de organizações extremistas… Tratou-se de outra facada na confiança, por parte de um mundo composto por nações a quem ainda não foi apagada a memória e conhecem o que de mal o fascismo e o nazismo lhes trouxe. Esse mesmo mundo também sabe a contribuição decisiva que a URSS – e a Rússia, por maioria de razões – deram, no século XX, para a derrota do colonialismo e para a libertação nacional da maioria da Humanidade.

Tratou-se, também, da libertação das garras do imperialismo e colonialismo ocidentais. Do mesmo Ocidente que usou a pilhagem como momento de apropriação primitiva de riqueza, que lhe permitiu chegar primeiro ao desenvolvimento e que depois o usou para submeter, ainda mais, os pilhados. Não, este mundo já não confia no Ocidente. Este mundo não é o mesmo mundo que a média corporativa diz estar com Zelinsky.

O discurso oficial negou toda esta realidade e vendeu uma “banha da cobra”, segundo a qual, a Ucrânia, com a ajuda da poderosa NATO, venceria, sem apelo nem agravo, uma guerra de atrito contra a Rússia. Claro, a vitória seria tão retumbante que o atrito nem se iniciaria, pois, às primeiras sanções, o poder cairia na rua. Nem os milhares de agentes russos que a CIA tem no seu bolso foram capazes de o conseguir. O poder não só não caiu como se reforçou, demonstrando que ainda está por nascer a nação orgulhosa que, sendo acossada a partir de fora, se volta contra si própria. Os pressupostos da RAND continuavam a estar cada vez mais longe de se verificarem.

Segundo a imbecilidade resultante do complexo de superioridade das elites ocidentais, um país com 3% do PIB global não teria hipótese contra o poderoso G7/NATO/EU. O que diz muito da metodologia de mensuração do PIB e do uso deste enquanto forma de caracterização de uma economia. Como explicou o “velhinho” Marx, só o trabalho produz riqueza e só a transformação da matéria em algo com valor de uso traduz essa riqueza. É isso a “economia real” de que tanto fala Martyanov. Ao contrário da economia especulativa e ultra-financeirizada do Ocidente, a Rússia tem uma economia real, que produz coisas com valor de uso. Com valor “real” de uso, sem as quais não vivemos, ao contrário de um Iphone ou de um perfume Chanel. Aliás, o Sul Global tem vindo, paulatinamente, a descobrir que tem os recursos, a tecnologia e a riqueza para possuir uma economia real. E não precisa do Ocidente para isso. É o Ocidente que não vive sem o Sul Global e não o contrário. O Sul Global já o percebeu, e os EUA também.

Ao constatá-lo, e ao assistir ao espectáculo deplorável que é o constante confisco de quantias soberanas depositadas em dólares ou euros, que o Ocidente, a mando dos EUA, tanto rouba, hoje assistimos a um movimento de fuga ao dólar…

Também nisto temos muito desespero, como o processo que levou à “instauração” de um Guaidó na Venezuela ou as sucessivas tentativas de revolução “colorida” no Irão. Em ambos os casos, os dois países viram “congelados” as suas reservas no espaço G7/NATO/EU. Se este movimento, por si, já tinha colocado em sobreaviso muitos países – pois já não eram apenas os “comunistas” Cuba e República Popular da Coreia -, desta feita, o congelamento e intenção de confisco das reservas russas fez, claramente, apertar o botão de pânico. Qualquer país, independentemente da dimensão, se não aceitar a submissão, é alvo de confisco de tudo o que tenha em moedas do Ocidente colectivo.

O resultado? O resultado é BRICS+ e a cesta de moedas, é a proposta de moeda latino-americana entre Brasil e Argentina, é o retorno ao ouro, o criptoyuan e a multiplicação das trocas em moedas nacionais, como já sucede entre países euroasiáticos, Irão, China, India, Turquia e Rússia, a que muito recentemente se juntou o Paquistão, ou o caso da Arábia Saudita e China. O desafio parece ser simples: fugir às moedas “malditas”, mas sem parecer que se está a fazê-lo com urgência, não vá tudo cair aos trambolhões.

Este resultado era óbvio e foi tantas vezes previsto ao longo da última década. Inclusive em canais insuspeitos do ponto de vista da ideologia neoliberal como o Bloomberg ou Politico. Mas nem esses avisos demoveram a suicida arrogância e prepotência que resulta de 500 anos de supremacia racial ocidental.

Hoje, depois de Annalena Berbock nos confirmar que fomos arrastados para uma guerra, sem qualquer discussão democrática de fundo e reflexão pública, a não ser as infindáveis horas de propaganda “slava Ukraini” na média corporativa; tal guerra parte, também ela, de uma subavaliação das capacidades militares e industriais da própria federação russa.  Lêssemos o relatório feito pelo Congresso há uns dois anos sobre as capacidades militares da Federação Russa e veríamos que a conclusão geral era qualquer coisa como: muito armamento, mas pouco sofisticado, com problemas de precisão e ultrapassado em relação ao dos EUA. Ora, não é essa a história que contam os mais de 7500 tanques abatidos, os mais de 300 aviões, mais de 200 helicópteros e, mais importante que tudo, as centenas de milhares de vidas perdidas, principalmente de soldados (Zaluzhny terá dito ao Pentágono que seriam 232.000, fontes da CIA falam em 305.000 e a inteligência Chinesa já fala em 500.000 a 680.000). Seja o maior ou o mais pequeno, especialmente quando comparado com as perdas russas, dá-nos uma ideia catastrófica da desproporção de forças. Assistimos, de facto, a um processo de desmilitarização e desnazificação.

Com este pano de fundo, discutiu-se o envio de tanques, em mais um episódio de “armas maravilha”. Mas, desta feita, e depois de as outras não terem surtido o efeito desejado, os EUA já não querem atirar para a fogueira mais negócios de venda de armamento, como aconteceu com os “maravilhosos” HIMAR ou M777. Enviassem para lá os seus tanques Abrams e logo cairia o número de vendas. Assim, os alemães que mandem para lá os seus Panzer Gepard. Sholz não queria? Quando o ouvi dizer que só os enviaria se… Logo pensei: “ainda não recebeu o pedido não recusável de Biden e companhia”. Não demorou um dia a aparecerem imagens dos tanques a caminho da Polónia, ainda antes do anúncio público. É assim a Alemanha dos nossos dias: um aglomerado de cavaleiros teutónicos identitários montados em unicórnios, com armaduras rosa e com girassóis não mão, em vez de espadas. Uma tristeza!

Seja como for, lá se vai preparando uma campanha de primavera em que, para defender os EUA, mais 100.000 militares ucranianos, recrutados à força, serão sacrificados em nome de Bandera (multiplicam-se a velocidade alucinante os vídeos de gente a ser apanhada nas ruas, nos centros comerciais, a esconder-se da polícia…)!

Podendo já garantir-se a derrota da ofensiva (vá lá… um país como a Rússia prefere sacrificar milhões dos seus melhores filhos a submeter-se a um qualquer império ocidental), os EUA preparam-se já para a próxima manobra desesperada. A jogar em Taiwan, Japão e Coreia do Sul. Entretanto seguem-se as tentativas de revolução “colorida”, até agora frustradas (os outros estão a aprender a desarmar o exército de ONG’s da CIA), para arranjar mais candidatos a “Ucrânia” no Pacífico.

O estudo da RAND aponta precisamente para essa “prioridade”. Mais uma que levará a acções cujos requisitos prévios não se verificam e, por isso mesmo, condenadas ao fracasso. Mas como alguém, dos EUA, disse há algum tempo: “já não existem opções boas”. Só as desesperadas. Faz lembrar os últimos tempos do Reich com a sua procura pelas “armas maravilha”.

Mas se o resto do mundo já viu as cenas dos próximos capítulos, aqui no território da NATO, a média corporativa ainda anda em modo ilusório, segundo o qual, o mundo é um quintal dos EUA e o Ocidente coletivo é a referência civilizacional… É como o chavão “a Ucrânia está a ganhar a guerra”.

Será com prazer que assistirei a toda a uma multidão de jornaleiros, analistas, politólogos e outros charlatães a fazer o pino… e a dizer “ninguém previa isto”!

Não é o que fazem sempre? Em sinal de desespero?

E ainda há quem acredite neles!

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