Caos no governo de Trump – a queda de um populista

(João Gomes, in Facebook, 03/04/2026)


Há um momento em que as grandes potências deixam de conseguir ocultar a fragilidade estrutural do seu poder. É isso que se está a passar nos Estados Unidos com uma administração Trump que começa a “desfazer-se” – a retórica do discurso deixa de sustentar a realidade, e a liderança revela a sua natureza improvisada, errática e perigosa.

A administração de Trump entra agora numa fase que já não pode ser descrita apenas como turbulenta. O que se observa é um padrão de desagregação interna: demissão de responsáveis judiciais, substituições forçadas na hierarquia militar e sinais evidentes de conflito dentro das próprias estruturas do Estado, militares e civis. E, quando um governo começa a perder os seus quadros estratégicos em plena crise internacional, não se trata apenas de gestão política – trata-se de perda de controlo.

A frente externa agrava esse diagnóstico. A escalada militar contra o Irão, longe de produzir um efeito de dissuasão, abriu um teatro de operações difuso, assimétrico e altamente volátil. O encerramento de facto do Estreito de Ormuz para determinados fluxos marítimos, a resposta contínua através de mísseis e drones, e a incapacidade de neutralizar alvos estratégicos iranianos demonstram uma falha fundamental de cálculo: subestimou-se o adversário, sobrestimou-se a capacidade de imposição.

Mais grave ainda é a natureza dos ataques conduzidos. A destruição de infraestruturas civis – escolas, hospitais, redes básicas – não só não enfraqueceu decisivamente o aparelho militar iraniano, como contribuiu para um isolamento político crescente dos Estados Unidos. Em vez de consolidar alianças, Washington está a dissipá-las.

Esse isolamento já é visível na principal arena internacional. No Conselho de Segurança das Nações Unidas, potências com interesses divergentes convergiram numa rejeição clara de uma escalada forçada no Estreito de Ormuz. Na NATO, o cenário é ainda mais revelador: aliados históricos recusam-se a seguir uma estratégia que consideram imprudente, desproporcional e potencialmente desastrosa.

A reação de Trump – ameaçando uma saída da NATO – não é apenas impulsiva; é sintomática. Revela uma incompreensão profunda da arquitetura de poder que sustentou a primazia americana durante décadas. A NATO não é apenas uma aliança militar; é um instrumento de projeção geopolítica, de coordenação estratégica e de “legitimidade internacional” dos próprios EUA. Romper com ela não é um gesto de força – é um ato de autossabotagem. É tornar os EUA um ator secundário no Mundo.

Entretanto, no plano interno, os sinais de desgaste acumulam-se. A dívida pública cresce a um ritmo que limita a margem de manobra futura, enquanto os custos de uma guerra prolongada tendem a amplificar tensões económicas e sociais. A ocultação de baixas militares – prática recorrente em conflitos impopulares – sugere que a administração já reconhece o risco político de uma escalada sem resultados claros.

Tudo isto converge para uma conclusão inquietante: os Estados Unidos, sob esta liderança, caminham para uma erosão acelerada da sua estratégia global. O que durante décadas foi um sistema relativamente coerente de alianças, influência e poder está a fragmentar-se. Não por pressão externa isolada, mas por decisões internas que minam a própria consistência do projeto.

No plano simbólico, a perda de credibilidade é talvez o dano mais profundo. O respeito internacional não se impõe apenas pela força militar – constrói-se pela previsibilidade, pela racionalidade estratégica e pela capacidade de liderança. Quando essas qualidades desaparecem, o vazio é rapidamente preenchido por desconfiança e distanciamento. Hoje, esse respeito parece em queda livre. Entre líderes ocidentais, cresce a prudência – ou mesmo a rejeição – face a uma administração considerada volátil. Entre as populações globais, a imagem dos Estados Unidos sofre um desgaste que nunca aconteceu e não será revertido no curto prazo.

O populismo que levou Trump ao poder assentava numa promessa de força, de controlo e de restauração de grandeza. O paradoxo é evidente: ao tentar afirmar essa força de forma unilateral e impulsiva, acabou por expor fragilidades profundas e acelerar um processo de declínio relativo. Se este percurso continuar, não estaremos perante o fracasso de uma administração. Estaremos diante de um ponto de inflexão histórico – um momento em que a principal potência mundial perde não apenas influência, mas coerência estratégica.

E quando uma potência deixa de compreender os limites do seu próprio poder, o risco deixa de ser apenas o da derrota. Passa a ser o da desordem.

Quando os depravados se tornam heróis

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 30/03/2026, revisão da Estátua)


Enquanto os degenerados heróis se dedicam ao que melhor sabem fazer – a guerra, o desprezo e o assassínio de pessoas inocentes – o Ocidente, hipócrita e com duas caras, vai culpando Trump pela situação, enquanto continua a apoiá-lo como se o Irão fosse o inimigo que não é.


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E de súbito saiu de cena a podridão trazida parcialmente à superfície pelo muito pouco que ainda se conhece sobre os chamados «documentos Epstein». Os depravados, corruptos e predadores sexuais que neles constam assumiram agora a sua faceta de heróis salvadores da humanidade numa nova cruzada para tentar erradicar os hereges do planeta e fazer valer os inquestionáveis «valores ocidentais». Se possível, sobretudo, para tentar garantir a posse eterna e plena das terras e das riquezas mundiais que nos foram ofertadas por mandato divino. 

A trama criada por um obscuro professor do ensino médio pedófilo, não muito inteligente mas com uma esperteza imensa e o dom inato da chantagem, é algo de tenebroso muito diferente do que já se conhecia. Não é uma sociedade secreta, uma máfia organizada, um culto, uma clique em busca de poder, uma fraternidade, uma entidade conspirativa ou golpista guiada por padrões comuns.

Tal como é possível apurar até agora, momento em que as malhas censórias tecidas pelo capitalismo clandestino dominante apertam cada vez mais a divulgação substancial da teia, os documentos Epstein põem a nu as alienações entranhadas na superestrutura globalista do sistema transnacional da «democracia liberal». Revelam os desvios comportamentais e a insensibilidade da elite mundial governante, corrupta, sem princípios e que abusa, sem pudor nem limites, sexual e socialmente, dos mais fracos, discordantes e indefesos. Os factos conhecidos demonstram que as âncoras deste sistema de poder absoluto, desde os regimes políticos, militares e financeiros dos Estados Unidos, Reino Unido e Israel a extractos das cliques governantes e diplomáticas de países da União Europeia e da NATO, se alimentam da guerra, do roubo indiscriminado de fundos nacionais, depósitos bancários e matérias-primas, do terrorismo, das mega fraudes fiscais, com desprezo absoluto pela vida humana, a lei e as instâncias internacionais. Façamos uma excepção para a Espanha de Pedro Sánchez, que dá uma lição de independência a todas as marionetas de Washington e Telavive.

Epstein tinha um enorme talento, neste ambiente marcado pelos atropelos neoliberais, para trabalhar os egos imensos, a gula, a ganância e a amoralidade das minorias influentes e determinantes, para quem o dinheiro e o poder valem tudo, sob a cobertura do conceito aberrante de mercado livre. E para manipular e tirar proveito desta ambição desmedida, organizava convívios de conluio e decisão nos quais os ilustres convidados podiam também refastelar-se em orgias sexuais, sobretudo de carácter pedófilo, que lhes permitiam dar largas às depravações e à impunidade de cada um e cada uma.

Neste quadro, as agências de inteligência faziam os seus jogos recorrendo aos eficazes instrumentos de que dispõem, desde escutas, filmagens, espionagem directa, criando um acervo de material de chantagem para que o sistema se alimentasse a si mesmo num doentio ciclo vicioso. Aliás, alguns dos documentos e o «Livro Negro» agora expostos, contra a vontade de Trump, estavam em poder do FBI há oito anos.

Epstein funcionava assim como um mestre de cerimónias de um convívio global onde se cruzavam os altos e poderosos de todas as áreas de actuação – políticos, banqueiros, banksters, os ricos dos ricos, de Musk, Branson ao «benfeitor» Gates; congressistas, senadores, deputados, reitores de universidades da Ivy League, presidentes, ministros, príncipes, princesas, sheiks e emires; velhas famílias do establishment, CEO’s, administradores, escritores, pivots de TV, comentadores, ideólogos, directores de jornais e jornalistas afamados; donos dos principais fundos abutres, celebridades do jet set, finórios da moda, vedetas de Hollywood, sem esquecer os gangues Rothschild, Rockefeller e Maxwell; e ainda os serviços secretos e dirigentes de Israel, até ao cargo de primeiro-ministro. Enfim, a nata da governação, da comunicação e da «cultura» do Ocidente. 

Ehud Barak, o último chefe do sionismo trabalhista, um dos exterminadores do «processo de paz» e carrasco de Gaza, tinha «escritório» numa mansão de Epstein em Manhattan, Nova York. Barak solicitou ao anfitrião que lhe desse pareceres sobre os seus escritos públicos, incluindo o livro de memórias intitulado Meu País, Minha Vida: Lutando por Israel, Buscando a Paz. A «paz» que está à vista de todos.

Quanto a Robert Maxwell, imperador da imprensa/propaganda anglo-saxónica, tinha laços directos a Epstein através de uma filha, Ghislaine Maxwel, alcoviteira de luxo associada a este obscuro ex-professor. Está detida e viva, por enquanto. Maxwell era também um financiador directo do regime sionista; morreu prematuramente, e em condições misteriosas, em consequência do suspeito naufrágio do seu iate. No funeral, realizado em Jerusalém Ocidental, compareceram Shimon Peres, que foi primeiro-ministro e presidente de Israel, e dois ex-directores da Mossad.

Uma das figuras centrais dos documentos divulgados até ao momento é Peter Mandelson, também conhecido como «príncipe das trevas», por ter sido o principal conselheiro do vigarista e criminoso de guerra Anthony Blair na transformação do Partido Trabalhista britânico no novo «Partido Trabalhista» neoliberal. Mandelson idealizou e montou a campanha de calúnias contra o dirigente trabalhista de esquerda Jeremy Corbyn, que o forçou a abandonar a direcção do partido e o próprio partido.

No quadro da ligação íntima e directa que cultivavam, Mandelson informou Epstein cinco horas antes de a União Europeia anunciar, em plena crise de 2010, que iria desbloquear 500 mil milhões de euros para «salvar» a Zona Euro, mergulhada em crise existencial. Foi o maior delito de iniciados de que há memória.

Victoria Harvey, companheira nestas andanças de André, irmão do rei de Inglaterra, declarou um dia: «Quem não estiver nos documentos Epstein é porque é um looser» (fraco, incapaz, perdedor).

Epstein não era um frequentador entusiasta do Fórum de Davos, o cenáculo neoliberal globalista, onde «se perde muito tempo» mas, no entanto, «se encontram pessoas fascinantes».

Entre essas pessoas «fascinantes» e frequentadoras do Fórum Económico Mundial estavam o diplomata norueguês Roed-Larsen, um dos mediadores iniciais do Acordo de Oslo entre israelitas e palestinianos, e Børge Brend, que em Fevereiro renunciou ao cargo de presidente daquela instituição. Em tais ocasiões, de acordo com documentos tornados públicos, os convivas concluíram que «a ONU não serve para nada» e o direito internacional é «um entrave». O Fórum de Davos deve substituí-la e permitir que a elite mundial dite a sua lei, uma espécie de privatização dos mecanismos de gestão da legalidade internacional.

O primeiro ensaio desta «solução» é o chamado «Conselho de Paz» para Gaza, inventado por Trump e no qual os países que pretendam aderir serão obrigados a pagar mil milhões de dólares.

Trump e os outros

A divulgação dos documentos Epstein incidiu, sobretudo, no facto de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ser um dos participantes nos eventos proporcionados pelo «doutor financeiro para os ricos», como se intitulava o facilitador, na sua ilha privada de Little Saint-James. Nada que surpreenda: Trump tem o perfil ideal dos amigos e convivas depravados de Epstein.

Trump ficou colocado, deste modo, no epicentro do escândalo, apontado a dedo por adversários políticos que pouco ou nada diferem dele.

Vejamos o caso do casal Clinton. Ele, William, o carniceiro dos Balcãs que pulverizou a Jugoslávia a ferro, fogo e sangue, era uma espécie de convidado de honra e prestigiador dos saraus de Epstein na sua ilha, aos quais se seguiam voos em jactos privados para outros jardins de delícias. O ex-presidente democrata norte-americano era mesmo um dos amigos que sugeria nomes a convidar para os festins na ilha ou outros paradeiros. Ela, Hillary, esquartejadora da Líbia e da Síria, pertencia também ao círculo de amigos do mestre pedófilo, o qual, segundo a versão oficial, se suicidou na prisão em 10 de Agosto de 2019. Um suicídio muito conveniente.

Os Clinton continuam no escalão mais elevado da hierarquia do Partido Democrata, que agora reclama a sua superioridade moral para atacar Trump. Por muito que se esforce, esta outra face do partido Estado norte-americano nada tem de santidade em tão repelente evangelho.

Num email a Peter Thiel, chefe da empresa de corrupção e conspiração Palantir, financiada pela CIA, Epstein elogiou a «confusão no Médio Oriente», por ser tudo o que Obama queria. Por isso, acrescentou em relação ao processo sangrento que culminou com a entrega da capital da Síria à al-Qaida, «teremos de admitir que foi uma estratégia executada com brilhantismo» – obra lançada e chefiada no terreno por Hillary Clinton. Antes disso, a secretária de Estado de Obama tinha conduzido pessoalmente a criminosa implantação da anarquia terrorista na Líbia – transformado num país falhado.

Parece agora, no entanto, que ninguém se dava com Epstein, a não ser em encontros esporádicos, fugidios, mesmo fortuitos; ou, pelo menos, os seus amigos simulam que desconheciam as actividades de pedófilo e de proxeneta de luxo para as elites. 

No entanto, é difícil acreditar que um qualquer frequentador das actividades deste facilitador das elites, que na sua ilha ajudava os ricos e os advogados de grandes fortunas a manter milhões e milhões de dólares à margem das leis fiscais, não conhecesse o seu comportamento pedófilo. Não era possível que ignorasse o facto de Epstein ter cumprido pena de prisão por abuso sexual de crianças e pornografia infantil entre 2009 e 2010.

«Como vai a tua vida afortunada e dissoluta?», perguntou-lhe, em 2017, o democrata e antigo secretário do Tesouro da Administração Clinton, Larry Summers. Ao que Epstein respondeu: «Quando nos encontrarmos vou esforçar-me por te fascinar com histórias loucas de Washington».

Ariane de Rothschild, chefe do grupo bancário francês Edmond de Rothschild, mantinha amigáveis conversas com Epstein. «A turbulência na Ucrânia deve proporcionar-nos muitas oportunidades», dizia. E, por outro lado, depois do golpe em Tripoli, quando «os líbios passaram a ser “legítimos”», haveria de ter atenção especial aos milhões dos seus activos congelados. Epstein confessou-lhe então que «estava a trabalhar» com o MID, a direcção de inteligência militar de Israel, e também com a Mossad, para «identificar activos roubados e recuperá-los». Os serviços secretos israelitas, claro, negam que tivessem qualquer relação com Epstein. Sem dúvida um credível desmentido. Tudo isto se passava durante a administração democrata de Barak Obama.

É muito improvável que o conteúdo de milhões e milhões de documentos espalhados pelos armazéns e residências de Epstein venha a ser conhecido na sua plenitude e gere quaisquer medidas contra os predadores identificados. Os indícios de censura à documentação surgiram logo no início da divulgação, e de uma maneira que revelou o espírito doentio das próprias autoridades judiciais: muitos dos arquivos foram expostos de maneira a que seja possível identificar algumas vítimas, enquanto rostos e nomes de predadores são ocultados. Os abusadores não manifestaram qualquer piedade pelo sofrimento das crianças, ou mesmo adultos, que torturavam, meros objectos para satisfação de depravações humanas, o que corresponde à recrudescência do desprezo pelas pessoas nas deformadas sociedades modernas, como é próprio do sistema capitalista. «Sobretudo nunca peçam desculpa», era o conselho habitual de Epstein aos seus ilustres clientes.

A nova hora dos heróis

Toda esta cáfila de delinquentes que sofrem de comportamentos desviantes saltaram, num ápice, da secção de escândalos da comunicação social globalista para a dos heróis. Bastou-lhes seguir o criminoso Benjamin Netanyahu, também relacionado com Epstein e a contas com um mandado do Tribunal Penal Internacional, na injustificada e ilegal guerra contra o Irão.

Nesta transição temática existe, em comum, o desrespeito pela lei e pelo Direito Internacional – uma recomendação de Epstein aos seus ilustres hóspedes, de modo a entregar ao Fórum Económico Mundial (de Davos) a gestão dos assuntos mundiais.

Caprichando nas sevícias contra civis, entre os quais centenas de crianças, os heróis que fossavam em orgias pedófilas estão, no entanto, a sentir mais dificuldades na guerra do que aquelas a que o estatuto de impunidade os habituou.

Pela primeira vez, o Estado sionista prova a sério do veneno letal que durante quase 80 anos tem forçado outros a ingerir, sobretudo os palestinianos. O Irão independente dá sinais fortes de continuar a resistir, como conclui a própria imprensa de «referência» do regime norte-americano ao reconhecer que nenhuma das bases militares dos Estados Unidos em países do Golfo Árabe-Pérsico está habitável e funcional.

Trump, sem rumo e continuando a crer no realismo das suas próprias e voláteis ilusões, anda numa dobadoira prometendo o ataque final contra Teerão enquanto, juntamente com o aparelho sionista de agressão, vai falando em negociações e ficando com escassez de munições numa guerra de desgaste que parece não ser-lhes favorável.

Aos heróis directamente envolvidos nos ataques juntam-se os outros de sempre, com maior ou menor discrição, no apoio ao crime sangrento. Entre eles, o Governo de Portugal, cúmplice da agressão ao disponibilizar a Base das Lajes como plataforma de guerra. A vida dos portugueses corre sérios riscos em consequência da cegueira dos seus governantes, do seguidismo e do papel de capacho dos Estados Unidos e do selvático sionismo. Culpemos apenas Montenegro e os seus asseclas do «arco da governação» pelo drama que é o facto de o território português estar sob mira do Irão – por muito que tentem fazer-nos crer que isso não acontece.

Enquanto os degenerados heróis se dedicam ao que melhor sabem fazer – a guerra, o desprezo e o assassínio de pessoas inocentes – o Ocidente, hipócrita e com duas caras, vai culpando Trump pela situação, enquanto continua a apoiá-lo como se o Irão fosse o inimigo que não é. Teerão apenas tem apoiado os massacrados palestinianos e outros povos desprotegidos da região, numa estratégia que manteve Israel em respeito. 

Se levarmos Jeffrey Epstein a sério, amanhã não será a véspera do dia em que o assassino Donald Trump cai do trono, apesar das ameaças que surgem de vários azimutes e que não passam disso: ameaças verbais. Nas conversas íntimas que tinha com o confidente Peter Mandelson, o pedófilo e proxeneta de luxo gabava-se do poder que tinha sobre Trump: «sou o único que pode fazê-lo cair».

Verdade, soberba, farronca ou confiança de chantagista emérito, Epstein já cá não está; mais do que suicídio, talvez alguém o tenha «suicidado». São coisas que acontecem nos meandros da «democracia liberal».

Além disso, mesmo que Trump perca o pé, não estamos seguros de que não seja substituído por outro ou outra da mesma laia.

Em boa verdade, apesar dos que gostam de espalhar ilusões para aparentar uma absurda superioridade moral e política, Trump não é apenas a pessoa de um sociopata, é o próprio sistema. O sistema de «democracia liberal» aparentada com o fascismo no qual os Epsteins desta vida podem ser mestres ou, em português anglo-saxónico, superdotados influencers globais.

O tempo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 26/03/2026)

O mundo tornou-se tão apressado e complexo que deixou de haver tempo e distância para o analisarmos conscientemente, ao mesmo tempo que a emergência 
de uma cultura de desinformação planeada e programada, tratou de destruir tudo o que tínhamos como verdade e como notícia.


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Quarta-feira à tarde, quando escrevo este texto, não sei se Trump vai desembarcar marines no Irão, se vai tomar “aquela ilha” ao largo da costa, ou se vai negociar com os iranianos, apesar de, como ele diz, já não haver ninguém vivo com quem negociar. E negociando, não sei o que vai exigir para declarar a retumbante vitória que precisa de declarar ou se, falhada a negociação, vai “levar o inferno ao Irão”, conforme promete. E depois, também não sei se a paz que agora parece pretender, apesar de disfarçada de vitória, seja aceite pelos seus parceiros de Israel e estes se contentem em abocanhar mais um bocado do Líbano e fazer mais uns milhares largos de deslocados. Eu não sei, ninguém sabe: tudo depende de como o homem acordar na sexta, no sábado ou no domingo. Ao certo sabemos só que ele, como já era de prever e se tornou evidente depois, não fazia ideia do que era o Irão — politicamente, militarmente, geograficamente; que nunca imaginou até que ponto a sua estupidez poderia conduzir toda a economia do mundo, pois que também nunca previu o óbvio: que os iranianos fechassem o estreito de Ormuz — por onde, aliás, ele também não sabia que passa 20% da energia fóssil consumida no planeta; e sabemos também que a única coisa que o pode fazer parar são as bolsas a desabar, a economia americana a patinar por conta de uma guerra que os americanos não entendem a não ser como um serviço prestado a Israel, e, em consequência, uma derrota anunciada nas eleições intercalares de Novembro, se ele não puser fim a esta loucura.

A Europa espera para ver, dependente dos achaques do louco de Washington. Espera caladinha, como convém desta vez, não vá o homem deixar de decidir pelo bom senso, sentindo-se empurrado de fora. Mas, dure a guerra quanto mais tempo durar, há coisas que a Europa aprendeu com ela e a cuja lição não se pode furtar. Primeiro, que continuar a achar que os Estados Unidos de Donald Trump — e depois provavelmente de J. D. Vance — são um aliado fiável e um parceiro de confiança, partilhando dos mesmos valores, é meio caminho andado para o suicídio, para serem apanhados numa guerra ou numa crise desencadeada pelo suposto aliado, sem aviso algum mas com consequências imediatas. Segundo, que desatar a endividar-se para comprar armas às empresas de armamento americano, sem quaisquer garantias de contrapartidas sérias, como quer o secretário-geral da NATO, é uma aventura que não faz sentido algum. Em terceiro lugar, a Europa não pode abrandar, antes intensificar, o seu esforço de apostar nas energias alternativas, libertando-se da dependência mortal dos hidrocarbonetos. E por último, deve prosseguir no caminho recentemente inaugurado de procurar outros parceiros comerciais e diplomáticos, pois que por aí também passa muito da sua independência.

O tempo
Hugo Pinto

2 Olhada à luz do desarranjo do mundo, a cena política portuguesa oscila entre o surreal e o patético. Andar a discutir o novo estatuto dos transexuais, a inultrapassável escolha de juízes para o Tribunal Constitucional, indicados pelos partidos mas supostamente independentes, ou os almoços de Isaltino Morais em Oeiras, enquanto o mundo conhecido desaba à nossa volta, oscila entre a inconsciência e a irrelevância. E se olharmos para o lado, para a grande Espanha, e virmos que têm combustíveis mais baratos, electricidade mais barata, verdadeiras medidas de apoio à economia sustentadas com uma diminuição real da receita fiscal, e, em cima de tudo isso e para desespero da direita espanhola e dos seus admiradores lusos, uma política externa que a torna admirada em todo o lado, deveríamos corar, se não de vergonha, pelo menos de inveja. Mas continuaremos assim, o Governo propagandeando a inércia, a incapacidade de pensar para a frente e de agir, como se estivesse ocupado em grandes reformas, a oposição armadilhada na vontade de propor diferente e o medo de ter de enfrentar eleições antes de ter convencido alguém de que faria diferente e melhor, e o Chega afogado em sucessivos escândalos escabrosos, como era de prever assim que começasse a ter os tais “tachos” e que com eles viesse o respectivo escrutínio. A ideia que dá é que nada, nem as notícias do mundo, abala o inabalável sono pátrio. E que é isso que o povo quer.

3 Comecei a ler jornais diariamente aos 12 anos, numa época em que, só em Lisboa, tínhamos uns cinco diários matutinos e três vespertinos. Ao longo da vida, nunca perdi o hábito de ler jornais todos os dias, quatro ou cinco por dia e de preferência em papel: sou um confesso dinossauro da imprensa. Depois, e ao longo dos meus mais de 40 anos de jornalismo, a leitura de jornais passou a ser, mais do que um vício, uma obrigação. E mesmo depois de deixar o jornalismo, poucos anos atrás, a actividade de articulista ou comentador continuou a exigir-me a consulta diária de jornais, portugueses e estrangeiros, acrescida dos jornais televisivos e noticiários da rádio — que, por sinal, acho péssimos. A informação confunde-se com o meu dia-a-dia, como uma segunda pele ou a roupa que visto para sair à rua. Mas com o tempo, este doce Nirvana, pessoal e profissional, foi-se alterando e, em algumas situações mesmo, adulterando, deixando de serem consideradas “All the News That’s Fit to Print”, conforme reza o cabeçalho do “The New York Times”, numa das mais certeiras definições do que é informação que conheço. O triunfo ululante da ignorância, associado ao desvario das redes sociais e dos seus algoritmos programados para conduzir os incautos aos abismos de desinformação e manipulação a que os Bezos e os Zuckerbergs deste tempo os querem conduzir docilmente, como carneiros ao redil, inaugurou uma época de nova luta de classes. Só que desta vez não é entre o capital e o trabalho, mas entre o que chamam a “elite” informada e desprezada e a grande massa de ignorantes felizes. E se alguém podia imaginar, como eu imaginei em tempos, que nesta nova luta de classes os vencedores seriam os que se deram ao trabalho de tentar saber, aprender, distinguir a verdade da mentira, tentar ver claro o que não é nítido, enganaram-se redondamente: os vencedores são os ignorantes e os que tiram partido dessa ignorância, servindo, pronto-a-vestir, um simplismo opinativo que se torna irresistível para os crentes. Donald Trump é, obviamente, o exemplo consumado deste mundo assustador, cuja história não vejo como possa não acabar mal.

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E então, chegado àquilo que consta ser a idade da sabedoria, dei-me conta de que talvez saiba mais do que percebo — uma armadilha muito comum. Parece-me que, incapaz de continuar a acompanhar eternamente a urgência e a abundância dos acontecimentos, a menos que nada mais de jeito faça, e mesmo já desinteressado de tanta espuma noticiosa, é chegado o tempo de me deter e recuar — como fazemos diante de um quadro, para melhor o fixarmos, melhor o decifrarmos. Quero tentar entender em vez de saber, olhar em vez de contar, escutar em vez de declarar, pensar em vez de concluir. Quero um dia novo, com menos notícias, menos ruído do mundo e das gentes. A partir de hoje, a minha colaboração com o Expresso passa a quinzenal — um pedido meu que a direcção do jornal teve a delicadeza de compreender e aceitar. Quem sabe se assim mais desprendido desta voragem em que vivemos, não ficarei mais lúcido ou, pelo menos, mais esclarecido!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia