As raízes nazis da NATO

(GABRIEL ROCKHILL, in Observatoriocrisis, 28/12/2024, Trad. da Estátua)

Que a NATO seja na verdade NAFO, a Organização Fascista do Atlântico Norte, não é brincadeira. É uma realidade mortalmente séria e precisa de ser mudada. A luta contra a NAFO é uma parte essencial da luta contra o fascismo e o imperialismo.


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Os historiadores burgueses descrevem frequentemente o nascimento da NATO como uma organização de defesa do Atlântico Norte necessária para conter a chamada ameaça soviética. O que os historiadores burgueses não mencionam é que a ideia de uma aliança militar anticomunista entre a Europa Ocidental e os EUA foi fortemente apoiada por uma figura importante na política alemã e que a NATO tem sido por vezes considerada uma criação sua. Este homem era Heinrich Himmler, famoso pelo seu papel como líder das SS e um dos principais arquitetos do Holocausto nazi.

O coração da Segunda Guerra Mundial estava no Leste, onde Hitler, com o apoio financeiro dos principais capitalistas ocidentais, prometeu destruir o que catorze estados capitalistas não conseguiram erradicar na sequência de 1917: o socialismo realmente existente.

Assim que se tornou claro para Himmler que esta guerra tinha falhado, começando com a Batalha de Estalinegrado em 1943, ele começou a fazer propostas secretas ao Ocidente para formar uma aliança que lhes permitisse, coletivamente, fazer o que os nazis (bem como os fascistas japoneses) eram incapazes de fazer sozinhos.

Esta ideia atraiu sectores da elite ocidental e figuras poderosas dos principais países imperialistas partilharam a opinião de Himmler. Allen Dulles, o futuro diretor da CIA, queixou-se de que o seu país estava a combater o inimigo errado porque os nazis eram cristãos arianos pró-capitalistas, enquanto o verdadeiro adversário era o comunismo ateu.

Dulles, que trabalhava na altura na instituição antecessora da CIA, o Gabinete de Serviços Estratégicos, foi um dos interlocutores de Himmler para a planeada aliança anticomunista do Atlântico Norte. O general Karl Wolff, antigo braço direito de Himmler, ofereceu a Dulles, em troca de uma amnistia pós-guerra, o desenvolvimento, com os seus aliados nazis, de uma rede de inteligência contra Estaline.

Foi exatamente isso que aconteceu, e Dulles integrou muitos outros nazis e fascistas nas fileiras de uma internacional anticomunista. Isto incluiu o chefe dos serviços de inteligência nazis centrados na URSS, Reinhard Gehlen, que foi nomeado pela CIA para chefiar a inteligência da Alemanha Ocidental após a guerra, onde passou a contratar muitos dos seus colaboradores nazis.

Também incluiu, como parte da Operação Italian Dawn, Valerio Borghese, o homem conhecido como o Príncipe Negro e um dos principais líderes do fascismo do pós-guerra, que foi salvo de cair nas mãos soviéticas pelo OSS e mais tarde trabalhou para a CIA.

O oficial japonês que assinou a declaração de guerra contra os Estados Unidos, Nobusuke Kishi, conhecido como o “Diabo de Shōwa” pelo seu governo brutal de uma colónia japonesa no nordeste da China, também foi reabilitado pela infame Agência, que financiou a sua ascensão a Primeiro-ministro do Japão. Contudo, estes exemplos são apenas a ponta do iceberg, uma vez que um número incontável de fascistas foi reabilitado após a Segunda Guerra Mundial, sendo que, pelo menos 10.000 foram trazidos diretamente para os Estados Unidos.

Quando a NATO foi oficialmente criada em 1949, Portugal foi um dos seus membros fundadores. Naquela altura, Portugal era uma ditadura fascista, o que só prova o facto: a NATO foi, desde a sua fundação, uma aliança militar das potências imperialistas (fossem democracias burguesas ou estados fascistas) contra o comunismo, que era precisamente o que Himmler tinha em mente. .

A Grécia aderiu à NATO em 1953, depois de os comunistas, que desempenharam um papel de liderança na libertação do país dos nazis, terem perdido uma guerra brutal contra os novos ocupantes anticomunistas: o Reino Unido e os Estados Unidos. Tendo sido reintegrado o rei pró-fascista e depois estabelecido um governo fantoche de direita, as potências imperialistas ocidentais acolheram a Grécia na NATO assim que esta se tornou num Estado cliente anticomunista fiável. Estes padrões são visíveis ao longo da longa história da NATO, e a Ucrânia é apenas uma das versões mais recentes de um Estado cliente neofascista

A Alemanha Ocidental aderiu à NATO em 1955, o mesmo ano em que o rearmamento da República Federal da Alemanha foi autorizado através dos Acordos de Paris. O governo da Alemanha Ocidental selecionou os voluntários e admitiu 61 generais e almirantes nazis da Wehrmacht no seu novo exército, bem como muitos mais em escalões inferiores.

Entre os oficiais nazis de mais alta patente que se juntaram ao exército da Alemanha Ocidental estavam Hans Speidel e Adolf Heusinger, que foram empossados ​​como os seus dois primeiros tenentes-generais. Speidel tornou-se “chefe do Departamento de Forças Combinadas do Ministério da Defesa” e serviu como um dos principais conselheiros militares do Chanceler Konrad Adenauer (posição posteriormente ocupada por Heusinger). Heusinger, a quem Hitler se referiu como “meu fiel e leal colaborador”, tornou-se o oficial militar de mais alta patente da Alemanha Ocidental, o equivalente ao presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos. Ele também atuou como avaliador-chefe da Organização Gehlen da CIA, desempenhando sua tarefa tão bem que a Agência o “considerou seriamente” para o cargo de Gehlen, de acordo com documentos internos. Heusinger, foi também como agente da CIA, que “continuou a consultar e a confiar nos representantes da CIA”, que relataram que “consideravam que as opiniões políticas de Heusinger favoreciam claramente os interesses dos EUA”. Estes dois líderes nazis foram promovidos e tornaram-se os primeiros generais de quatro estrelas da Alemanha Ocidental.

Ambos aqueles dois altos oficiais nazis desempenharam papéis importantes na NATO. Em 1954, Speidel foi nomeado o principal “negociador sobre a questão da entrada da Alemanha na NATO”. Supervisionou a integração das forças armadas da Alemanha Ocidental na NATO e foi nomeado chefe das Forças Terrestres Aliadas na Europa Central. Isto significava que Speidel era “o comandante operacional sénior de todas as divisões alemãs, americanas, francesas e britânicas atribuídas à Região Central da NATO”. E Heusinger, um oficial nazi de alta patente diretamente envolvido na guerra genocida contra a URSS, teria sido o principal comandante terrestre da NATO se a guerra eclodisse com os países do Pacto de Varsóvia. Esta figura tornou-se “oficial militar superior e principal conselheiro militar do secretário-geral” da NATO, servindo como presidente do Comité Militar da NATO, “o posto mais alto no ramo não civil da organização”.

Speidel e Heusinger, como muitos outros que aderiram à NATO, não eram nazis de baixa patente. Speidel foi promovido a tenente-general em janeiro de 1944 e condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro pelos seus serviços na guerra de eliminação antissoviética.

De acordo com um folheto informativo de 1961 do senador Wayne Morse, Heusinger tornou-se “chefe de operações do estado-maior de Hitler” em 1941 e foi “responsável pelo planeamento militar de todas as invasões nazis depois disso”. Ele chefiou os esquadrões especiais de extermínio (Einsatzgruppen) que tinham a tarefa de liquidar “todos os judeus e outros grupos”.

Heusinger explicou a sua opinião sobre estas questões com notável franqueza: “Sempre foi minha opinião pessoal que o tratamento da população civil e os métodos de guerra anti partidária (extermínio) apresentavam aos líderes políticos e militares uma oportunidade de levar a cabo os seus planos, nomeadamente, o extermínio sistemático do eslavismo e do judaísmo.”

Speidel e Heusinger não foram os únicos alemães a seguir o caminho dos nazis rumo à NATO, mas as suas posições de liderança revelam quão descarada tem sido a NATO no que diz respeito aos seus laços com o fascismo. Ambos também estiveram envolvidos na criação de exércitos “restantes”, que eram milícias fascistas secretas cujo suposto propósito original era servir como forças militares que permaneceriam atrás das linhas inimigas para realizar atos de sabotagem, espionagem, no caso de uma invasão soviética.

Na Alemanha, o coronel nazi Albert Schnez criou uma rede de cerca de 2.000 oficiais nazis e 10.000 soldados, alegando ser capaz de mobilizar 40.000 combatentes em caso de guerra. Eles tinham apoio financeiro do mundo dos negócios e compartilhavam regularmente informações com a Organização Gehlen. O próprio Gehlen era “o pai espiritual do Stay Behind na Alemanha”. A organização de Schnez também tinha contactos com duas outras redes nazis, ambas financiadas secretamente pelos EUA: o Technischer Dienst (Serviço Técnico) e a Liga da Juventude Alemã.

Os exércitos de retaguarda que estes líderes nazis estabeleceram na Alemanha Ocidental faziam parte de uma rede da Europa Ocidental de milícias fascistas secretas criadas pela CIA, MI6 e NATO.

Estas organizações recrutaram nazis, fascistas e outros anticomunistas de extrema-direita, forneceram-lhes armas e munições e equiparam-nos totalmente para travar a guerra. Foram ativados para cometer ataques terroristas de bandeira falsa contra a população civil, que foram atribuídos aos comunistas para justificar a repressão e obter apoio para os chamados governos da lei e da ordem.

Esta estratégia anticomunista de tensão foi extremamente letal: matou centenas de pessoas e feriu milhares. A NATO esteve por detrás destes ataques terroristas de bandeira falsa e os nazis da NATO estiveram, no mínimo, envolvidos na criação das organizações que os cometeram.

A conhecida piada de que a NATO é na verdade NAFO, a Organização Fascista do Atlântico Norte, não é brincadeira. É uma realidade mortalmente séria e precisa de ser mudada. A luta contra a NAFO é uma parte essencial da luta contra o fascismo e o imperialismo.

(*) O autor é professor de Filosofia na Universidade de Vilanova.

Fonte aqui.


 

A Ferra Aveia e o terrorismo

(Por Sófia Puschinka, in Facebook, 21/12/2024, revisão da Estátua)


Ah bom…. Helena Ferro Gouveia a comentar o ataque terrorista da Alemanha diz que, “os serviços secretos internacionais já tinham alertado a Alemanha para ataques terroristas em mercados de Natal”.

Ela sabe destas coisas e conhece todos os avisos da Mossad e da CIA. Diz-lhe o pivot mais à frente: “Helena, este homem não estava referenciado como perigoso; não houve uma falha dos serviços de informação?

Responde aquela alma que há milhares de pessoas e que este podia não estar a ser seguido bla bla bla  🤣. Esperem lá. Mas, os tais serviços secretos, que tinham avisado a Alemanha especificamente sobre os mercados de Natal, não o fizeram com base em informações concretas? Foi tipo bola de cristal, ou é só vicio e alucinação desta croma, referenciar os serviços de informação em tudo o que comenta para se armar em Mata Hari?

Bem… Pelo meio, e como se trata de um saudita, oriundo pois de um país que Helena Ferro Gouveia jamais criticou por ser amigo e aliado dos EUA – para ela as mulheres do Irão usarem hijab (um lenço na cabeça) é um atentado contra os direitos das mulheres mas as sauditas é perfeitamente normal usarem burka (uma manta preta pela cabeça abaixo que cobre todo o corpo) -, este homem que vivia na Alemanha desde 2006 (há quase 20 anos), médico psiquiatra que renunciou ao Islão, afinal não é terrorista, é só um desequilibrado até porque ela andou a investigar o perfil do “X” do senhor e acha que ele sofria de transtornos, estava muito confuso!  🤣 🤣 🤣 

Claro que se fosse sírio (como deram a entender as primeiras notícias), iraniano ou palestiniano já não era um desequilibrado e tratar-se-ia de um terrorista perigoso, independentemente daquilo por que pudesse ter passado. Por exemplo, se fosse um sírio que tivesse visto a sua família a ser morta, os seus filhos a serem vendidos em campos de refugiados, as suas filhas de 9 anos a serem vendidas na Turquia para casamento, etc, seria sempre um terrorista perigoso. Este, coitadinho, era só um maluquinho e a sua raiva contra os alemães era só loucura; afinal estava perfeitamente integrado na sociedade e os alemães nem são nada racistas e xenófobos, nunca foram  🙄. As políticas europeias também são muito coerentes e igualitárias são um primor…

Helena Ferro Gouveia, a rainha da hipocrisia e da indecência. A tipa que se contradiz a ela própria em 3 minutos de conversa. A tipa que se diz feminista mas que envergonha qualquer verdadeira feminista e mulher de carácter.

Como Washington e Ancara mudaram o regime de Damasco

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 17/12/2024, Trad. Estátua)

Abu Mohammed al-Joulani, antigo número 2 do Daesh, agora o novo mestre de Damasco, dá uma conferência de imprensa na grande mesquita dos Omeyyades.

Em 11 dias, a República Árabe da Síria, que desde 2011 resistiu corajosamente aos ataques dos jihadistas apoiados pela maior coligação da história, foi derrubada. O que é que aconteceu?


Com uma surpreendente desenvoltura, a imprensa internacional garante-nos que não estamos a assistir a uma mudança de regime militar na Síria, mas a uma revolução que derruba a República Árabe Síria. A presença do exército turco e das forças especiais americanas é-nos ocultada. Alimentam-nos com propaganda, repetidamente desmentida, sobre os crimes atribuídos a “Bashar”. Os assassinos canibais estão a ser transformados em revolucionários respeitáveis. Mais uma vez, a imprensa internacional mente-nos conscientemente.

Em 11 dias, a República Árabe da Síria, que desde 2011 resistiu corajosamente aos ataques dos jihadistas apoiados pela maior coligação da história, foi derrubada. O que é que aconteceu?

Em primeiro lugar, desde 15 de outubro de 2017, os Estados Unidos organizaram um cerco à Síria, proibindo-lhe todas as trocas comerciais e a participação das Nações Unidas na sua reconstrução [1]. Em 2020, esta estratégia foi alargada ao Líbano com a Lei César [2]. Nós, os membros da União Europeia, participámos todos neste crime. A maioria dos sírios estava subnutrida. A libra tinha entrado em colapso: o que valia 1 libra antes da guerra, em 2011, valia 50.000 quando Damasco caiu (a libra foi revalorizada três dias depois graças a uma injeção de dinheiro do Catar). Como as mesmas causas têm sempre os mesmos efeitos, a Síria foi derrotada como o Iraque antes dela, quando a secretária de Estado Madeleine Albright se felicitou por ter provocado a morte de meio milhão de crianças iraquianas por doença e subnutrição.

Por outro lado, se foram os jihadistas do Hayat Tahrir al-Sham (HTS) que tomaram Damasco, não foram eles que venceram militarmente. Em 27 de novembro, o HTS, armado pelo Catar e apoiado pelo exército turco disfarçado de “Exército Nacional Sírio” (SNA), tomou o controlo da autoestrada M4, que servia de linha de cessar-fogo. Além disso, o HTS e a Turquia dispunham de drones de alto desempenho manobrados por conselheiros ucranianos. Por fim, o HTS levou consigo a colónia uigure do Partido Islâmico do Turquestão (TIP) que estava entrincheirada em al-Zanbaki há 8 anos [3]. Os teatros de operações israelita, russo e chinês fundiram-se assim.

Estas forças atacaram então Alepo, até então defendida pelos Guardas da Revolução iranianos. Os guardas revolucionários iranianos retiraram-se sem dizer uma palavra, deixando uma pequena guarnição do Exército Árabe Sírio a defender a cidade. Perante a desproporção de forças, o governo sírio ordenou às suas tropas que se retirassem para Hama, o que aconteceu a 29 de novembro, após uma breve batalha.

Em 30 de novembro, o presidente sírio Bashar al-Assad deslocou-se à Rússia. Não para assistir ao exame que o seu filho Hafez estava a fazer na universidade de Moscovo onde estudava, mas para pedir ajuda. As forças russas na Síria só podiam bombardear os contingentes jihadistas, porque só são transportados por via aérea. Por isso, tentaram bloquear a rota ao HTS e à Turquia. Não podiam intervir no terreno contra eles. Alepo estava de facto perdida. Aliás, o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, seguindo a tradição do seu país [4], jamais reconheceu a perda dos territórios otomanos da Grécia (Salónica), da ilha de Chipre, da Síria (Alepo) e do Iraque (Mossul).

Com as células jihadistas adormecidas reactivadas pela Turquia, o Exército Árabe Sírio, já exausto, teve de lutar em todas as frentes ao mesmo tempo. Foi o que tentou fazer, em vão, o general Maher el-Assad (irmão do presidente).

Ali Larijani, enviado especial do aiatolá Ali Khamenei, deslocou-se a Damasco para explicar a retirada dos Guardas da Revolução de Alepo e para definir as condições da ajuda militar da República Islâmica do Irão, culturalmente espantosas para um Estado laico.

Numa conversa telefónica com o seu homólogo iraniano, Masoud Pezeshkian, o presidente Bashar al-Assad afirmou que a “escalada terrorista” tinha como objetivo

tentar dividir a região, desmoronar os seus Estados e redesenhar o mapa regional de acordo com os interesses e objectivos da América e do Ocidente.

No entanto, o comunicado de imprensa oficial não transmite o clima da conversa. O presidente sírio quis saber quem tinha dado a ordem aos Guardas da Revolução para abandonarem Alepo. Não obteve resposta. Depois, avisou o presidente Pezeskhian das consequências para o Irão se a Síria caísse. Nada aconteceu. Teerão continua a exigir que lhe sejam entregues as chaves da Síria para a defender.

A 2 de dezembro, o general Jasper Jeffers III, comandante-em-chefe das Forças Especiais dos Estados Unidos (UsSoCom), chega a Beirute. Oficialmente, vinha controlar a aplicação do cessar-fogo oral israelo-libanês. Dadas as suas funções, é evidente que esta será apenas uma parte da sua missão. Ele irá supervisionar a tomada de Damasco pela Turquia atrás do HTS.

Perante uma força desproporcionada, o governo sírio ordenou às suas tropas que se retirassem para Hama, o que aconteceu a 29 de dezembro. A 5 de dezembro, os Estados Unidos renovaram no Conselho de Segurança das Nações Unidas as suas acusações de que o presidente Bashar al-Assad estaria a utilizar armas químicas para reprimir o seu próprio povo. Ignoram as numerosas objecções, testemunhos e investigações que demonstraram que estas acusações não passam de propaganda de guerra. As armas químicas são o primeiro argumento da gigantesca máquina de persuasão anglo-saxónica. Foram as armas químicas que permitiram a Jeffrey Feltman, o número 2 das Nações Unidas, proibir a reconstrução da Síria. Foram eles que convenceram a opinião pública ocidental de que “Bashar é o carrasco de Damasco” e o responsabilizaram por todas as mortes na guerra contra o seu país.

Ao mesmo tempo, o Pentágono dizia ao HTS e ao exército turco que podiam prosseguir o seu avanço, tomar Damasco e derrubar a República Árabe Síria.

Em 6 e 7 de dezembro, realizou-se no Catar o Fórum de Doha. Participaram muitas personalidades do Médio Oriente, bem como o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov. À margem do Fórum, foi dada à Rússia, em representação do presidente al-Assad, a garantia de que os soldados do Exército Árabe Sírio não seriam perseguidos e que as bases militares da Federação Russa não seriam atacadas. Também foi dada uma garantia ao Irão de que os santuários xiitas não seriam destruídos, mas parece que Teerão já estava convencido disso.

De acordo com Hakan Fidan, ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Benjamim Netanyahu e Joe Biden consideraram que a operação deveria terminar ali. Foi o Pentágono que decidiu, com o Reino Unido, continuar até ao derrube da República Árabe Síria [5].

Em Nova Iorque, o Conselho de Segurança adoptou por unanimidade a resolução 2761 [6]. Ela autoriza que as sanções contra os jihadistas não sejam respeitadas durante as “operações humanitárias”.

As Nações Unidas, que nunca autorizaram a ajuda às populações esmagadas sob o jugo do Daesh, autorizaram subitamente o comércio com o HTS.

Esta reviravolta do Conselho de Segurança está de acordo com as instruções do conselheiro da ONU Noah Bonsey, como ele já havia sugerido em fevereiro de 2021, quando trabalhava para George Soros [7].

Abu Mohammed al-Jolani, o líder do HTS, dá uma entrevista a Jomana Karadsheh para a CNN. Ela sublinhou o facto de o sítio Rewards for Justice do Departamento de Estado continuar a oferecer 10 milhões de dólares por qualquer informação que leve à detenção do líder jihadista [8].

No dia 7 de dezembro, o HTS e a Turquia tomaram a prisão de Saïdnaya. A prisão de Saïdnaya foi um dos principais alvos da propaganda de guerra, que a apelidou de “matadouro humano”. Afirma-se que milhares de pessoas foram aí torturadas e executadas e que os seus cadáveres foram incinerados num crematório. Durante três dias, os Capacetes Brancos, uma ONG que tanto salvou vidas como participou em massacres, vasculharam a prisão e os seus arredores à procura de passagens subterrâneas secretas, câmaras de tortura e um crematório. Infelizmente, não encontraram provas dos crimes que tinham denunciado. No final, a jornalista Clarissa Ward encenou para a CNN a libertação de um prisioneiro que não via a luz do dia há três meses, mas que estava limpo, bem vestido e com as unhas aparadas [9].

As acusações de tortura e de execuções sumárias são tanto mais difíceis de suportar quanto Bashar al-Assad emitiu instruções em 2011 proibindo todas as formas de tortura, criou um Ministério da Reconciliação Nacional encarregado de reintegrar os sírios que se juntaram aos jihadistas e aplicou amnistias gerais cerca de quarenta vezes.

A 8 de dezembro, o presidente Bashar al-Assad ordenou aos seus homens que depusessem as armas. Damasco caiu sem um único golpe. Os jihadistas desfraldaram imediatamente cartazes impressos com antecedência e afixaram o símbolo do novo regime nos seus uniformes. O antigo combatente da Al-Qaeda, depois número 2 do Daesh, Abu Mohammed al-Jolani, cujo verdadeiro nome é Ahmad el-Shara, tomou o poder. Rodeado de conselheiros de comunicação britânicos, faz um discurso na Grande Mesquita Umayyad, inspirado no discurso do califa do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi, na Grande Mesquita Al-Nuri, em Mossul, em 2019.

O HTS trata atualmente os cristãos como mustamin (classificação islâmica para estrangeiros não muçulmanos que residem de forma limitada em território muçulmano), poupando-os ao pacto dhimmi (uma série de direitos e deveres reservados aos não muçulmanos) e ao pagamento do imposto jizya.

Em setembro de 2022, pela primeira vez numa década, realizou-se uma cerimónia em honra de Santa Ana na igreja arménia de al-Yacoubiyah, na zona rural de Jisr al-Shugur, a oeste de Idlib.

Três mil soldados do Exército Árabe Sírio exilam-se no Iraque. São desarmados e alojados em tendas no posto fronteiriço de Al-Qaim, sendo depois transferidos para uma base militar em Rutba. Bagdade anunciou que estava a tentar obter garantias de que poderiam regressar a casa [10].

As Forças de Defesa de Israel (FDI) lançaram uma operação para destruir os equipamentos e as fortificações do Exército Árabe Sírio. Em quatro dias, 480 bombardeamentos afundaram a frota e incendiaram os arsenais e os armazéns. Ao mesmo tempo, equipas terrestres assassinaram os principais cientistas do país.

Depois de mostrar aos jornalistas as fortificações sírias vazias ao longo da costa, Benny Kata, um comandante militar local, disse aos seus convidados: “É evidente que vamos ficar aqui durante algum tempo. Estamos preparados para isso.”

As FDI já estão a invadir a Síria um pouco mais longe, para além da linha de cessar-fogo nos Montes Golã, que ocupam. Anunciam a criação de uma nova zona tampão em território sírio, para proteger a atual zona tampão, em suma, para a anexar. Anexaram também o Monte Hermon para poderem vigiar toda a região.

A 9 de dezembro, o general Michael Kurilla, comandante-em-chefe das forças americanas no Médio Oriente Alargado (CentCom), deslocou-se a Amã para se encontrar com o general Yousef Al-H’naity, presidente do Estado-Maior jordano. Reafirmou o empenhamento dos Estados Unidos em apoiar a Jordânia caso surjam ameaças provenientes da Síria durante o atual período de transição.

No dia 10 de dezembro, o general Michael Kurilla visitou as suas tropas e as das Forças Democráticas Sírias (mercenários curdos) em várias bases na Síria. Concebeu um plano para garantir que o Daesh não saísse da zona que lhe foi atribuída pelo Pentágono e não interferisse na mudança de regime em Damasco. Os bombardeamentos intensos impediram imediatamente a aproximação do Daesh.

O HTS nomeou Mohammed al-Bashir, antigo “governador” jihadista de Idlib, como primeiro-ministro do novo regime. É membro da Irmandade Muçulmana, patrocinada pelo MI6 britânico. A França, que tinha negociado a nomeação de Riad Hijab (antigo secretário do Conselho de Ministros em 2012) com o seu enviado especial, Jean-Yves Le Drian, apercebeu-se de que tinha sido enganada.

Nessa mesma noite, já não estava em causa a possibilidade de Jean-Yves Le Drian se tornar primeiro-ministro de França. Em vez disso, o Eliseu convidou o procurador antiterrorista de Paris a aparecer no noticiário da France 2. Este pôs fim à aclamação do novo poder em Damasco e lamentou o facto de o HTS ter estado envolvido no assassinato do professor francês Samuel Patty (2020) e no massacre de Nice (86 mortos, em 2016). A imprensa francesa mudou de tom e começou a questionar o novo poder que a imprensa internacional continuava a apresentar como respeitável.

A 11 de dezembro, as principais facções palestinianas presentes na Síria (Frente de Libertação da Palestina, Frente Democrática para a Libertação da Palestina, Movimento Jihad Islâmica, Frente de Luta Popular Palestiniana e Comando Geral) reuniram-se em Yarmouk (Damasco) na presença de delegados do HTS (Departamento de Operações Militares). A Fatah e o Hamas não participaram na reunião. Foi-lhes pedido que fizessem a paz com o seu aliado israelita. Foi decidido que nenhuma fação teria um estatuto privilegiado e que todas seriam tratadas em pé de igualdade. Cada grupo comprometeu-se a depor as armas.

O general Michael Kurilla deslocou-se sucessivamente ao Líbano e a Israel durante três dias. Em Beirute, encontrou-se com o general Joseph Aoun, comandante das forças armadas libanesas, e sobretudo com o seu colega, o general americano Jasper Jeffers III. Em Telavive, encontrou-se com todos os chefes de Estado-Maior israelitas e com o ministro da Defesa, Israel Katz. Afirmou:

A minha visita a Israel, bem como à Jordânia, à Síria, ao Iraque e ao Líbano nos últimos seis dias, sublinhou a importância de ver os desafios e as oportunidades actuais através dos olhos dos nossos parceiros, dos nossos comandantes no terreno e dos nossos militares. Precisamos de manter parcerias fortes para enfrentar as ameaças actuais e futuras à região.

A 12 de dezembro, Ibrahim Kalin, diretor da Organização Nacional de Informações Turca (Millî İstihbarat Teşkilatı – MIT), é o primeiro alto funcionário estrangeiro a visitar o novo poder em Damasco. No mesmo dia, os mercenários curdos, que administram o nordeste da Síria para o exército de ocupação norte-americano, içam a nova bandeira verde, branca e preta de três estrelas do país, a do mandato francês. Kalin será seguido, a 15 de dezembro, por uma delegação do Catar.

Para validar as acusações de tortura contra o antigo regime, Clarissa Ward, definitivamente em forma, encena para a CNN cadáveres encontrados na morgue de um hospital de Damasco, tal como a mesma CNN tinha encenado os de uma morgue em Timisoara durante o derrube do regime de Ceausescu em 1989 [11].

Entretanto, de acordo com as Nações Unidas, mais de um milhão de sírios estão a tentar fugir do seu país. Não acreditam que os jihadistas do HTS se tenham tornado subitamente civilizados.

Fonte aqui.


Notas

[1] « Paramètres et principes de l’assistance des Nations Unies en Syrie », par Jeffrey D. Feltman, Réseau Voltaire, 15 octobre 2017.

[2] « Selon Hassan Nasrallah, les États-Unis veulent provoquer la famine au Liban », Réseau Voltaire, 17 juin 2020.

[3] « Les 18 000 Ouïghours d’Al-Qaïda en Syrie », Réseau Voltaire, 19 août 2018.« La CIA et les jihadistes ouïghours », Réseau Voltaire, 16 décembre 2019. « Uyghur fighters in Syria vow to come for China next », Sophia Yan, The Telegraph, Decembrer 13, 2024.

[4] « Serment national turc », Réseau Voltaire, 28 janvier 1920.

[5] « Fidan : Nous avons négocié avec la Russie et l’Iran pour qu’en Syrie, ça se passe sans effusion de sang », Anadolu Agency, 13 décembre 2024. « “Israël ne voulait pas qu’Assad tombe”, affirme le chef de la diplomatie turque », I24 News, 16 décembre 2024.

[6] « Résolution portant exemption des sanctions contre les jihadistes », Réseau Voltaire, 6 décembre 2024.

[7] « In Syria’s Idlib, Washington’s Chance to Reimagine Counter-terrorism », New Crisis Group, Noah Bonsey & Dareen Khalifa, February 2021.

[8] « Muhammad al-Jawlani », Rewards for Justice, site consulté le 14 décembre 2024.

[9] « ‘Are you serious ?’ : He spent months in a Syrian prison. CNN’s camera caught the moment he’s freed, Clarissa Ward, CNN, December 11, 2024.

[10] « خاص »
محمد عماد, 11 ديسمبر

[11] « Battered corpses show the horrors of life and death under Syria’s Assad », CNN December 12, 2024.