A segunda pele: o telemóvel

(António Guerreiro, in Público, 21/09/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

O Liceu San Benedetto, da cidade italiana de Piacenza decidiu fazer uma experiência radical: banir os telemóveis do início ao fim de cada dia de aulas, incluindo os intervalos. À entrada da primeira aula de cada dia, os alunos são obrigados a introduzir os seus telemóveis numa bolsa que os bloqueia completamente. Nenhuma utilização clandestina é possível porque nenhum aluno detém o código de abertura da bolsa.

Entrevistados por uma televisão italiana, alguns alunos mais condescendentes falam da experiência como um castigo benévolo que lhes é infligido e que consiste, diz um deles, “em fazê-los sentir fora do mundo”. Mas outros há que parecem ecoar as palavras de Kurtz, em O Coração das Trevas: “The horror, the horror”. É o caso de uma rapariga que diz que é “uma das piores torturas”, uma coisa “terrificante” que não deseja a ninguém. 

Devemos salientar: estamos em Itália, o paraíso do telefonino. Mas hoje, para onde quer que orientemos o radar, só uma pequena minoria consegue não se sentir fortemente afectada pela privação do telemóvel. Já não é um aparelho que se tem ou não se tem: é um “instrumento absoluto” que, na sua ausência, nos faz sentir em estado de privação.

Quem, nos anos 90 do século passado, experimentou viajar de comboio de Munique para o Norte da Itália, ficava pasmado com um contraste gritante: após a paragem na primeira estação italiana, em Bolzano, acabava-se a tranquilidade e instaurava-se o casino italiano. Na altura, grande parte dos alemães ou ainda não tinha telemóvel ou achava que tal objecto não era para ser usado despudoradamente, diante dos outros passageiros da carruagem.

Hoje, quer se entre em Itália pelos Alpes suíços, quer se entre pelos Alpes austríacos, as fronteiras já são muito menos marcadas. E certamente que do outro lado há pedagogos e directores de escolas a olhar muito interessados para a experiência italiana.

Logo após o aparecimento do telefonino, Umberto Eco escreveu uma das suas crónicas a desvalorizá-lo, a mostrar que a comunicação instantânea permitida pelo telemóvel servia motivos fúteis e nenhuma questão de vida ou de morte estava aí em jogo. Alguns anos depois, reviu e corrigiu essa crónica e formulava deste modo a questão: “Podemos ainda viver sem telemóvel”? Podemos, claro, mas entretanto muita coisa mudou na nossa vida e sentimos que se abre um abismo aos nossos pés quando colocamos a hipótese de voltar à era antes do telemóvel.

Quando reescreveu essa crónica, já outro italiano, um filósofo bem conhecido, Maurizio Ferraris, tinha escrito o seu tratado de Ontologia del telefonino. Assim reza o subtítulo de um livro de 2011, que se chama Dove sei? (onde estás?) e é ilustrado com a foto de um judeu a pôr um telemóvel colado ao muro das lamentações.

Para Ferraris (que entretanto se tornou um dos filósofos mais polémicos em Itália por causa de um “manifesto do novo realismo”), o telemóvel é um objecto filosoficamente interessante, ao ponto de suscitar uma ontologia, na medida em que a pergunta pertinente para o telefone fixo, “Quem é?” passou a ser, para o telemóvel, “onde estás?”.

Do outro lado, sabemos sempre quem é, a não ser que o telemóvel tenha sido roubado, porque o aparelho é quase como uma impressão digital. O que não sabemos é onde está: pode estar em qualquer parte do mundo, inclusivamente a poucos metros de nós, tão acessível por via vocal como pelas ondas que dão instantaneamente a volta ao mundo para regressarem quase ao ponto de partida.

Outra transformação radical: não podemos ignorar que alguém nos telefonou, deixou de ser possível dizer que não sabíamos de nada. Agora, se não respondemos, temos de arcar com a responsabilidade do nosso silêncio.

A propósito do fim do Diário de Notícias

(Pacheco Pereira, in Sábado, 01/07/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Os jornais vivem obcecados com os jovens que não lêem jornais e se os lêem é quando deixam de o ser. Enganam-se com a ilusão de que assim estão a conquistar os leitores do futuro, o que é a coisa menos certa que há. No entretanto, perdem os do presente


1. Existe para aí um lugar-comum, muito repetido pelos deslumbrados da tecnologia, que um jornal migrar do papel para os ecrãs é um processo de “modernização” desse órgão de comunicação. Não é. É um empobrecimento, e uma mudança qualitativa que não é líquido que seja para melhor. As vantagens do online surgem noutras áreas, mas não substituem a necessidade do papel.

2. Comecemos por uma evidência que é preciso estar sempre a repetir: não lemos da mesma maneira no papel e no ecrã. Há um valor na dimensão física do espaço em que lemos, em particular para a maioria da população que não vê bem a partir de uma certa idade, porque os nossos sentidos têm limites objectivos, mesmo nos que têm olhos de águia. Não lemos certas coisas, não ouvimos certas coisas, não cheiramos certas coisas e por aí adiante. Há muitos mecanismos de manipulação deste espaço físico que respira melhor com as limitações dos nossos sentidos, como o folhear que o ecrã não reproduz de forma satisfatória, mas há também um tempo de leitura lento que se perde, assim como um encolhimento do espaço visual da página, logo do texto e da sua fluidez.

3. Não é preciso recitar o mantra habitual sobre o modelo de negócios, as mudanças no financiamento pela publicidade, e a crise nas vendas das bancas, porque ela é enganadora ao sugerir-nos apenas estas causas. A crise dos jornais em papel é em primeiro lugar uma crise do tipo e da qualidade do jornalismo, que já vem de antes do aparecimento do mundo da Internet, que vai das direcções aos editores (talvez o elo mais frágil das redacções) e por fim aos jornalistas, em que a precariedade do trabalho faz cobrar um preço em termos de preparação, mas acima de tudo de condição profissional e ética.

4. Esta crise que já vinha antes, mais nítida no jornalismo das rádios e das televisões, com o crescendo do entretenimento, existe também nos jornais e agrava-se com a própria incapacidade de fazer jornais complementares do online, com outros temas, outros mecanismos, outra escrita, com redacções mais pequenas mas mais especializadas e acima de tudo servindo os leitores reais e não os imaginários. Por exemplo, os leitores reais são mais velhos, os jornais vivem obcecados com os jovens que não lêem jornais e se os lêem é quando deixam de o ser. Enganam-se com a ilusão de que assim estão a conquistar os leitores do futuro, o que é a coisa menos certa que há. No entretanto, perdem os do presente.
5. A perda de contacto do actual jornalismo com a realidade é vasta. Há um enorme reducionismo social ao mundo urbano, e, no mundo urbano, a certos fenómenos muito acantonados etária e socialmente. O resto do mundo fica de fora, isso inclui, por exemplo, o mundo do trabalho, dos transportes, da habitação, da educação, da insegurança urbana, do crime. Depois admiram-se que o Correio da Manhã se aguente muito melhor em banca.

6. É muito mais provável que um jornal se dedique a falar do casamento homossexual do que do divórcio, do que se passa nas lojas da moda de arquitectura e nos restaurantes de culto do que do papel dos padres nas aldeias, ou da condição operária ou camponesa. O mundo de Pedrógão foi descoberto por via da tragédia, mas já lá estava antes. Quando os jornais tratam de assuntos não urbanos, nem da agenda restrita da política, da sociedade, da comida ou das festas, a aproximação tende a ser folclórica e “típica” no pior sentido. Há claramente um excesso de espaço para determinadas formas de cultura demasiado na moda e pouco substantiva, sem peso, nem lastro, com um tom muito acrítico nas páginas culturais, cheias de “revelações” e “novidades”, que passado um ano ou dois desapareceram. É como com as startups. Devia haver um escrutínio regular do que se apresentou um ou dois anos antes, e aí percebe-se muito bem o critério muito superficial e nalguns casos grupal e de amiguismo das escolhas.

7. O papel e o online devem ser genuinamente complementares e não competitivos. Na verdade, há até uma vantagem no online de “libertar” do papel tudo aquilo em que ele é melhor, como, por exemplo, o diferente tempo das notícias, beneficiando e muito aquilo em que o papel é melhor. Mas para isso devia haver redacções complementares trabalhando as notícias de forma diferente. A crise de qualidade do jornalismo é aliás comum aos jornais em papel e ao online, afectando a função e a necessidade dos jornais e dos jornalistas num processo de deterioração dos mecanismos fundamentais de formação da opinião pública numa democracia.
Essa crise é, aliás, um dos aspectos centrais da deterioração dos mecanismos democráticos e por isso é de maior importância cívica, em particular se não queremos ser mandados por governantes autoritários e prepotentes, mesmo que eleitos por esmagadoras maiorias. Por uma razão muito simples, é que a democracia não é apenas o voto, mas o primado da lei e o exercício da opinião, no seu estado mais importante, o da crítica. E sem jornais e jornalismo, sem liberdade académica, sem direitos sociais, sem autonomia pessoal e liberdade, coisas que costumam entrar em crise juntas, a democracia perde-se ou estraga-se muito.

Temos a certeza de que não temos população a mais?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 05/06/2018)

tadeu

No domingo à noite o atual comentador do regime, doutor Marques Mendes, protestava na SIC contra o líder do seu partido, o PSD: “Rui Rio não tem causas próprias, não tem uma agenda alternativa, não tem propostas diferentes das do governo”, disse, no Jornal da Noite. “Parece uma muleta de António Costa”, protestou.

Pois logo no dia seguinte a esta acusação, “bam!”, o presidente do Partido Social-Democrata respondeu à crítica do antigo líder do mesmo partido e mandou cá para fora um slogan de campanha estrepitoso: o PSD propõe que, a partir de agora, os pais portugueses recebam dez mil euros por filho.

Lendo as letras miudinhas do documento elaborado por um conselho de sábios (explicado ontem pela jornalista Paula Sá, no Diário de Notícias) percebe-se que, afinal, estes dez mil euros seriam pagos faseadamente até a criança fazer 18 anos, o que diminui um bocado o entusiasmo inicial da ideia…

Ah!, também fui fazer as contas e como, afinal, Rui Rio pretende acabar com o abono de família, a conclusão é que as famílias mais pobres com direito a esse subsídio, se esta proposta fosse para a frente, passariam a receber, ao fim de 18 anos, menos seis mil e 700 euros pelo primeiro filho do que agora recebem, enquanto as mais ricas receberão mais 5200 euros… e isto já é um verdadeiro balde de água fria despejado sobre a bondade do articulado tricotado pelo “Conselho Estratégico do PSD”, dirigido por David Justino.

Mas o projeto tem outros detalhes, relevantes, que incluem apoios ao aumento de creches em empresas, um pagamento de 429 euros às grávidas, aumento da licença de maternidade para 26 semanas e algumas outras ideias avulsas.

O pressuposto é este: combater o que Rui Rio define como “hemorragia demográfica”.

Não podemos dizer que o tema da demografia seja propriamente inovador: todos os partidos portugueses, há anos, abordam o assunto e ainda há poucos dias o primeiro-ministro António Costa veio defender um aumento de imigração para ajudar a resolver a questão.

Sendo assim, e aplicando os critérios de boa oposição definidos por Marques Mendes, estas propostas não podem ser catalogadas como “causas próprias” do PSD, não definem uma “agenda alternativa” às dos outros partidos mas podem ser consideradas “diferentes” das do governo. Rui Rio acerta, portanto, um em três.

Mas mais importante do que validar as estratégias da politicazinha cá de casa ou mesmo da apreciação do mérito de cada uma das propostas partidárias que venham a existir para combater a “hemorragia demográfica”, gostava de perceber melhor a dimensão e a previsão de consequências que essa diminuição e envelhecimento da população podem trazer.

Não me parece rigoroso ver o que se passou na última meia dúzia de anos. Para perceber com rigor o que se passa, temos de analisar ciclos maiores. Vamos ver os últimos 30 anos.

É totalmente verdade que cada vez nascem menos crianças em Portugal: em 1987 foram 123 mil, em 2007 102 mil e no ano passado 86 mil. Mas a população não diminuiu: em 1987 éramos dez milhões, em 1997 dez milhões e cem mil e em 2017 serão dez milhões e 300 mil.

Já lemos uma explicação para isto: o aumento da esperança de vida justifica a subida populacional. Há mais idosos, muitos deles reformados e pensionistas e, como diminuem os jovens, a sustentabilidade da Segurança Social e a pressão financeira sobre o Serviço Nacional de Saúde fazem temer uma rutura desses sistemas.

Mas isto não é ver, apenas, uma parcela do problema? Não estamos a analisar o futuro com pressupostos do passado?

Por exemplo: num mundo revolucionado pela Inteligência Artificial (IA) e pela automação, que aí vêm a toda a velocidade e que vão comer milhões de empregos, de forma imediata, a motoristas, caixas de supermercado, maquinistas, bancários ou, até, cirurgiões, será melhor ter exércitos de desempregados de longa duração, muitos deles jovens, do que uma legião de idosos reformados? A contração demográfica não pode ser uma ajuda para solucionar estes novos problemas? O aumento de riqueza e do PIB que essas novas tecnologias proporcionarão não deveriam ajudar a pagar as reformas dos mais velhos, em vez de pagar a inatividade dos mais novos? Não será isso, do ponto de vista das relações sociais entre gerações, entre classes, muito mais suportável?

Imaginemos, otimistas, que essa mudança no mercado de trabalho é compensada por um aumento de qualificação da juventude de tal forma sofisticada que permite arranjar novos empregos onde a IA não atua. Esse mundo, quase ideal, será, à luz dos critérios dos nossos dias, um mundo de produtividade superlativa.

Será que, neste caso, a equação sobre a demografia portuguesa muda? Ou será que o problema da Segurança Social e da Saúde deixa de se colocar porque as contribuições e os impostos destes trabalhadores e das suas empresas, numa economia superacelerada, superprodutiva, super-rentável, pagará com facilidade esse custo, mesmo que o número de reformados suba exponencialmente?

O que vamos enfrentar no futuro não se trata, antes, de um problema clássico de divisão da riqueza criada, em vez de uma tragédia social suscitada por uma “hemorragia demográfica”? Não estamos aqui a iludir o verdadeiro problema?

Voltemos a olhar para o ciclo de 30 anos: acontece que a população ativa portuguesa, a que pode fazer descontos para a Segurança Social e pagar impostos para a Saúde, subiu, de 1987 até agora, 419 mil pessoas, enquanto a idosa, a que recebe pensões e reformas, subiu 917 mil. A diferença, numa população média de dez milhões, é de apenas 498 mil pessoas.

É assim uma diferença tão dramática que uma gestão assisada dos recursos existentes não possa acomodar?

Afinal, o PIB per capita em 1987 era de 3318 euros e agora é de 17 964 euros, quase cinco vezes e meia mais… Isto não conta para a análise do problema?

Em média as mulheres portuguesas têm 1,23 filhos. As angolanas 6,2. Prevê-se que a população portuguesa, em 2050, seja de nove milhões e cem mil pessoas, a mesma que teve em 1975. A angolana, que ronda os 30 milhões, será nessa altura de 68 milhões, um valor inimaginável na história do país. Este é um exemplo do que se passa no mundo sobre a diferença demográfica entre países ditos “desenvolvidos” e os ditos “emergentes”.

O mundo tem atualmente 7600 milhões de habitantes e prevê-se que em 2100 chegue a 11 200 milhões. Os recursos do planeta Terra não estão a chegar para alimentar a população terrestre. Mesmo o aumento da produção agrícola previsto não evitará a fome que atinge, atualmente, 805 milhões de pessoas. E não sabemos claramente se todos terão acesso a água potável ou energia. Sabemos é que o planeta, desde o ano passado, entrou em défice e que gastamos mais recursos naturais do que a Terra é capaz de produzir.

E as alterações climáticas aumentam ainda mais a incerteza…

O mundo precisa de controlar o crescimento demográfico – querer aumentá-lo, aqui ou noutros países desenvolvidos, com população envelhecida, não pode ser um erro fatal?

Depois há outro aspeto que não vejo normalmente analisado, a não ser do lado avarento que ameaça com mais cortes de pensões ou com subidas de idade para reforma: com o aumento da esperança média de vida, um homem ou uma mulher de 67 anos têm ainda muito para dar.

O aproveitamento que a sociedade faz destas pessoas tem de ser outro: eles e elas têm todo o direito a reformar-se e a libertar-se de uma série de deveres que a organização formal do trabalho implica. Mas também muitos deles e muitas delas têm desejo de usufruir da reforma de uma forma produtiva, ativa, participativa na vida familiar e social, com uma intensidade que as gerações passadas não conseguiam oferecer.

Seja como consumidores, como excursionistas, como turistas, como voluntários, como conselheiros, como educadores, como trabalhadores em part-time, como diretores de clubes ou associações, como autarcas, seja como for, a participação ativa destes milhões de indivíduos na sociedade produz uma riqueza económica adicional e traduz um contributo para o equilíbrio da vida social que tem de entrar na conta na forma como vemos hoje a demografia e que, no passado, quando falávamos dos “mais velhos”, não tinha, de facto, a mesma equação.

Um “velho” de hoje vale economicamente e socialmente muito mais do que um “velho” do passado e, por isso, não podemos olhar para a demografia do século XXI como analisávamos a do século passado.

Portugal teve sempre uma população inferior a nove milhões de pessoas. Só em 1995 chegou aos dez milhões. Temos a certeza de que não temos população a mais?