Com Tomás Correia é limpinho, limpinho

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/02/2019)

Daniel Oliveira

Todos os administradores do Montepio que foram acusados em 2017 foram condenados pelo Banco de Portugal. A lista de ilícitos, entre 2009 e 2014, é generosa: violações do sistema de controlo interno do banco no âmbito da gestão do risco de crédito, ausência de constituição de provisões para risco específico de crédito, concessão de créditos a sociedades de que os administradores eram gestores, incumprimento nos deveres de implementação de controlo interno na verificação da origem do dinheiro dos subscritores das unidades de participação e financiamentos a entidades relacionadas que ultrapassaram o limite legal. Todos os administradores foram condenados por alguma destas acusações, Tomás Correia foi por todas. E por isso foi condenado a pagar 1,25 milhões de euros. A Caixa Económica Montepio Geral foi também condenada a uma coima de 2,5 milhões de euros por parte do supervisor. Entre administradores e banco, a multa foi quase de cinco milhões.

De uma certa forma, o Montepio é um segundo Espírito Santo. Não na gravidade ou nas consequências, pelo menos do que se sabe, mas no que revela do país. Toda a gente medianamente informada sabe há muito tempo quem é Tomás Correia. Toda a gente sabe o que ele anda a fazer há anos na maior mutualista nacional e o que antes andava a fazer no seu banco. Isso é dito e escrito sem sequer haver uma reação indignada do visado. Mesmo assim, o homem vai a votos e ganha. Mesmo assim, antes de ir a votos, consegue o apoio de uma lista impressionante de políticos, intelectuais e artistas que criaram uma relação de dependência com o Montepio e acham que isso os coloca em dívida com o seu presidente.

Não foi um apoio qualquer: sabendo tudo o que sabemos hoje, porque Tomás Correia já estava acusadíssimo, integraram a sua lista Maria de Belém, Jorge Coelho, Luís Patrão, Idália Serrão e Vítor Melícias. E apoiaram a sua candidatura Carlos Zorrinho, Lacerda Machado, João Soares, João Matos Correia e Edmundo Martinho. Como escrevi depois das eleições internas, o BPN era um negócio do PSD com um cheirinho de PS, o Montepio é um negócio do PS com um cheirinho de PSD.

E até Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal, do PCP, se juntou à festa – no que, diga-se com justiça, se distanciou dos restantes membros do seu partido que se envolveram nas eleições do Montepio e estiveram com a oposição.

A razão por que tanta gente esteve disposta a manchar o seu nome em listas de apoio a Tomás Correia só tem uma explicação: a estratégia de concentrar as baixas da derrocada do BES em Ricardo Salgado, José Sócrates, Armando Vara e pouco mais, e do BPN em Oliveira Costa e mais ninguém, correu muitíssimo bem. Todos perceberam que basta escolher dois ou três maus da fita para que eles funcionam como tira-nódoas. Tudo assim pode continuar como sempre foi. Limpinho, limpinho. Como se vê no Montepio, continua

Nenhuma destas pessoas foi enganada ou deu o beneficio da dúvida. Sabiam tudo o que soubemos na semana passada, porque tudo já estava nas acusações e tinha sido publicado. Nada foi conhecido depois das eleições. E mesmo assim Tomás Correia contou com uma cumplicidade só não explicitada do Governo, deixada clara pelo apoio de Edmundo Martinho, presidente da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e da ex-secretária de Estado de Vieira da Silva, Idália Serrão.

A razão por que tanta gente esteve disposta a manchar o seu nome em listas de apoio a uma figura que tem tudo para acabar bem pior do que esta multa, e que pôs em perigo uma das principais instituições bancárias do país – com um impacto social muito mais significativo do que o BES –, só tem uma explicação: a estratégia de concentrar as baixas da derrocada do BES em Ricardo Salgado, José Sócrates, Armando Vara e pouco mais, e do BPN em Oliveira Costa e mais ninguém, correu muitíssimo bem. Todos perceberam que basta escolher dois ou três maus da fita para que eles funcionem como um autêntico tira-nódoas. Tudo assim pode continuar como sempre foi. Limpinho, limpinho. Como se vê no Montepio, continua.

Jogos infantis: uns inúteis, outros perigosos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 23/02/2019)

mst

Miguel Sousa Tavares

1  Como diz o cartaz do CDS para as eleições europeias, “A Europa é Aqui”. Comecemos então por aqui, visto que o resto não parece interessar-nos por aí além. Ora, aqui, como toda a gente concordou, a moção de censura do CDS cumpriu o seu único objectivo, que era o de embaraçar o PSD no seu putativo papel de principal partido da oposição. Não pelo brilhantismo da estratégia centrista ou, menos ainda, pela contundência dos argumentos em que se fundava a sua moção de censura, mas por uma razão bem mais embaraçosa para o PSD: porque, nos quatro dias anteriores à votação, não foi possível reunir o seu grupo parlamentar para decidir o que fazer — sábado e domingo porque era fim-de-semana e segunda e terça porque os deputados estavam a gozar as folgas das jornadas parlamentares… do PCP.

Foi assim um PSD reduzido ao mutismo que votou, cabisbaixo, uma moção de censura do vizinho da direita a um Governo de esquerda apoiado pela extrema-esquerda, moção essa que conseguiu a proeza de evitar cautelosamente qualquer razão ou fundamento que pudesse indispor o eleitorado do povo de esquerda — designadamente os funcionários públicos, que todos os dias estão em greve e que em Outubro estarão nas urnas. E a cautela chegou a tal ponto que houve mesmo um momento de ternura, quando Assunção Cristas convidou o PCP e o BE a juntarem-se à moção de censura do CDS ou, em alternativa, a apresentarem eles uma à qual o CDS se juntaria, independentemente dos respectivos considerandos! É verdade que já vimos isto antes, com o PEC 4. Mas já sabemos o que acontece quando a história se repete: ou é comédia ou é tragédia. Desta vez foi comédia.

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Exemplar entrevista de José Gomes Ferreira a Carlos Costa. Exemplar, da parte do jornalista; exemplar de desfaçatez, da parte do governador. Da sua passagem pela administração da Caixa, é simples: não participou em nenhuma reunião de concessão de crédito, a não ser para compor quórum; não se envolveu em áreas de risco; não acompanhou clientes; e, presume-se (não o disse) nunca olhou para as contas das imparidades. Que terá ele estado lá a fazer?

Uma coisa fez: comprou, por acaso através dos serviços comerciais da Caixa, um monte alentejano que, por acaso também, estava à venda através desses serviços, e que, por acaso, pertencia ao também administrador Armando Vara, mas de quem, por acaso, não é amigo. Quanto ao Novo Banco, que anunciou que começava do zero, sem uma imparidade (todas chutadas para o “banco mau”) e com 4 mil milhões dos contribuintes lá metidos, se a conta hoje já vai em 8700 milhões e não se vê o fim é porque “não é num fim-de-semana que se toma consciência de toda a situação existente”. Também não percebeu que a Caixa precisava de ser recapitalizada porque “isso era da competência do accionista” e “todos os anos todos os bancos constituem imparidades adicionais” — é assim uma espécie de imposto-surpresa e tendencialmente perpétuo para os contribuintes. Afável, sorridente, de consciência perfeitamente tranquila, terminou o governador, com esta declaração: “Conseguimos um feito enorme: evitar que houvesse uma perda de confiança no sistema bancário. Os depósitos continuaram a entrar.” Ó senhor governador, queria que puséssemos o dinheiro debaixo dos colchões?

3 Num dia, sem consultar os seus aliados europeus ou da NATO, Donald Trump denuncia unilateralmente o Tratado INF, celebrado com a Rússia em 1987, e destinado a conter a proliferação de mísseis nucleares de médio alcance (entre 300 e 3400 milhas), cujo teatro de operação por excelência é a Europa. No outro dia, declara que a exportação de BMW para os Estados Unidos é uma ameaça à segurança nacional e anuncia a subida em 40% das suas taxas de importação, apesar de a maior fábrica da BMW se situar nos Estados Unidos. Depois, na segunda-feira, convoca uma conferência sobre segurança europeia para Munique, onde envia o seu vice, Mike Pence (em si mesmo, a única razão válida para duvidar da utilidade de um impeachment de Trump). Na véspera de visitar Munique, Pence tinha estado em Auschwitz, acompanhado de Netanyahu. E, enquanto o premier israelita arranjou maneira de se meter num sarilho diplomático declarando que os polacos tinham sido cúmplices e ocultadores dos crimes nazis (por acaso, uma triste verdade), o americano, aproveitando o entusiasmo do momento, declarava por seu lado que também eram anti-sionistas os europeus que não se juntassem aos Estados Unidos na denúncia do Tratado de desarmamento nuclear do Irão (que Trump também denunciou unilateralmente sem querer saber dos protestos dos aliados europeus). E, chegado a Munique — acompanhado por uma luzidia delegação composta pela filha de Trump, Ivanka, essa sumidade de política externa, e o marido Jared Kushnner, “enviado especial para o Médio Oriente” — Mike Pence gastou toda a sua intervenção a atacar os europeus que não abandonassem o tratado que levou anos a negociar entre Europa, Estados Unidos e Rússia e que tem garantido que o Irão não se torne uma potência nuclear. Justamente a ameaça que os americanos dizem querer enfrentar com a reinstalação das armas nucleares de médio alcance na Europa, uma vez mais sem consultar os europeus. Ou seja: Trump quer ver os europeus abandonar o tratado com o Irão para depois poder dizer, sem ser contestado, que o Irão é livre de fabricar armas nucleares. E verificada essa ameaça potencial e a ameaça russa de responder ao rearmamento americano (pois consideram, e com razão, as armas de médio alcance americanas um perigo real para o seu território), Trump virar-se-á então para a Europa e dirá: “Querem as nossas armas nucleares para vos protegerem ou preferem ficar desarmados à mercê de russos e iranianos?”.

Trump virar-se-á então para a Europa e dirá: “Querem as nossas armas nucleares para vos protegerem ou preferem ficar desarmados à mercê de russos e iranianos?”

Mas o jogo do clã Trump vai mais além ainda: envolve Israel e a Arábia Saudita, cuja improvável aliança é o grande plano estratégico de Jared Kushner. Mas aqui junta-se um incendiário plano geopolítico com um ganancioso objectivo pessoal de negócios, coisa que na família Trump parece andar sempre a par. Depois de ter fechado em Riade o maior negócio de venda de armamento convencional de que há memória, “The Washington Post” conta agora como o genro de Trump, na esteira do seu antigo conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, estará a negociar a venda encapotada de capacidade nuclear à Arábia Saudita, através da cobertura clássica que é a venda de centrais nucleares (os israelitas, depois, ensinariam rapidamente como se faz o resto). Não por acaso, as centrais seriam vendidas pela Westinghouse Electric, pertencente à Brookfield Asset Management, financiadora da família de Kushner em tempos de dificuldades. Juntando tudo isto — o pacote de armas convencionais comprado por Riade (e abundantemente utilizado na Guerra do Iémen), as centrais nucleares a comprar e os novos mísseis de médio alcance para a Europa — há milhares de milhões a ganhar pela indústria militar americana, grandes aliados políticos e parceiros de negócios de Trump. Parece um pesadelo inacreditável e é.

4Em Munique, ao falar da segurança europeia e mundial, Angela Merkel expôs os dados mais recentes sobre o aquecimento global, perante a esperada indiferença do vice-presidente americano, cuja Administração também denunciou unilateralmente o Acordo de Paris, assinado por Obama, sobre o combate às alterações climáticas. Um longo editorial de “The New York Times” desta terça-feira, significativamente intitulado “Time to panic”, resumia a situação assim: “Com o planeta a aquecer de forma catastrófica, talvez o medo seja a única coisa capaz de nos salvar”. Mas será que os idiotas têm medo? No mesmo dia, “Le Monde” dava notícia de um plano europeu, reunindo já centenas de adesões de gente que vai da direita francesa à extrema-esquerda espanhola, para a criação de um banco europeu financiado com 300 mil milhões de euros, retirados dos fundos de coesão e de impostos sobre as grandes empresas, e exclusivamente dedicado à construção de uma “economia verde” na Europa. Sem passar pelo sistema financeiro e abrangendo os sectores dos transportes, habitação, indústria, energia e serviços, podendo criar até seis milhões de empregos na UE. Uma economia dirigida para salvar o ambiente e não mais deixada entregue a si mesma e às suas escolhas. Felizmente, ainda há alguém que pensa: há uma esperança, afinal a Europa não é aqui.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Sobre a próxima queda da Venezuela

(Júlio Marques Mota, 22/02/2019)

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A Venezuela irá cair, disso não tenhamos dúvidas. Irá cair , abalada pelos fortes ventos de um enorme furacão que tem como ponto de formação Washington.

Quando se acena com a bandeira da fome, ou melhor de alimentos e onde a sua necessidade impera, está tudo dito quanto ao que se vai seguir.

Num outro continente, lembremo-nos do que a União Europeia e Mario Draghi fizeram à Grécia no início de Julho de 2015. E o Syriza que se conhecia até aí, esse simplesmente morreu, com o referendo da sua revolta. E um dia destes, quando começarmos a editar uma série de textos dedicados à Europa em ano de eleições sob o título A União Europeia um espaço económico em decomposição, voltaremos a falar da Grécia, uma vez que o que agora e aqui nos importa é a Venezuela.

A pergunta-chave que aqui nos interessa é saber que caminhos sinuosos tomaram os políticos neoliberais, seja Trump, sejam os dirigentes europeus, ou as instituições que direta ou indiretamente estão sob a sua alçada, para que a degradação a que se assiste na Venezuela tenha desembocado na situação em que este país se encontra agora.

Aqui somos levados a relembrar um texto de Harold James que nos diz que “Quando se trata de falhas de caráter e de incompetência dos líderes, 2019 é um ano tão preocupante quanto o foi 1919.” Sabemos as consequências a prazo do que aconteceu em 1919, sabemos o que tem sido a pratica política destes últimos anos, e estamos em 2019, um século depois e o ano em que o Euro comemora o seu vigésimo aniversário.

Quanto às incompetências e à falta de caráter dos dirigentes políticos e financeiros em 2019, relembro aqui um texto que o meu amigo Francisco Tavares editou no blog A Viagem dos Argonautas, sobre a Venezuela (ver texto aqui). Com a sua leitura, tudo se torna claro. Vejamo-lo então:

“O extrato que a seguir se apresenta consta do relatório As consequências económicas do boicote à Venezuela, de 08/02/2019, do – Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica, e é uma demonstração, que mais clara não pode ser, sobre os inescrutáveis caminhos dos “paladinos” da democracia e dos direitos humanos, comandados pelos Estados Unidos e seus aliados da União Europeia e da América Latina, quando falam sobre a necessidade e a urgência de ajuda humanitária à Venezuela. Será possível ser-se mais hipócrita?”

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” (…) Segue-se uma lista cronológica de obstáculos específicos enfrentados pela Venezuela:

* Abril de 2016: Instituições financeiras começam a deixar de receber pagamentos em dólares de instituições venezuelanas.

* Maio de 2016: Commerzbank Bank (Alemanha) fecha contas bancárias venezuelanas e da PDVSA.

* Julho de 2016: o Citibank fecha contas correspondentes de instituições e bancos venezuelanos, incluindo o Banco Central da Venezuela. O fecho das contas correspondentes reduz a capacidade de efetuar pagamentos em dólares, impondo custos adicionais para realizar transações em outras moedas.

* Agosto 2016: o Novo Banco de Portugal proíbe transações com bancos e instituições venezuelanas.

* Julho de 2017: a empresa Delaware, agente de pagamento da PDVSA, recusa-se a receber fundos da companhia petrolífera venezuelana.

* Julho 2017: o Citibank recusa-se a receber fundos venezuelanos para importar 300.000 doses de insulina.

* Maio de 2017: empresas de origem russa, empreiteiras encarregadas de elaborar a cadeia de blocos Petro utilizando o código NEM, desistem de continuar com o contrato argumentando razões de força maior após terem sido pressionadas pela Security Exchange Commission dos Estados Unidos.

* Agosto 2017: Os bancos chineses informam que não podem realizar operações em moeda estrangeira em favor da Venezuela devido à pressão do Departamento do Tesouro dos EUA, e a Rússia relata a impossibilidade de realizar transações com bancos venezuelanos devido à restrição dos bancos correspondentes dos EUA.

* Agosto de 2017: o banco correspondente do banco chinês BDC Shandong paralisa durante três semanas uma transação de 200 milhões de dólares sacados pela China.

* Agosto de 2017: devido à pressão da OFAC, a empresa Euroclear retém 1.200 milhões de dólares sem possibilidade de mobilização.

* Outubro 2017: o Deutsche Bank fecha as contas correspondentes do Citic Bank chinês para processar pagamentos da PDVSA, o que demonstra a pressão sobre a banca internacional.

* Outubro 2017: A entrada de vacinas no país é adiada por quatro meses porque o bloqueio dos EUA torna impossível fazer pagamentos ao banco suíço UBS.

* Novembro 2017: a Venezuela faz pagamento para comprar primaquina e cloroquina (para tratamento antimalárico), solicitado ao laboratório médico da BSN na Colômbia. O governo colombiano bloqueia a entrega de medicamentos.

* Novembro 2017: o Deutsche Bank, principal correspondente do BCV, encerra definitivamente as contas correspondentes desta instituição.

* Dezembro de 2017: foram devolvidos 29,7 milhões de dólares de bancos na Europa para pagamento a fornecedores de alimentos através do programa alimentar CLAP. Também nesse mês, as autoridades colombianas impediram a transferência para a Venezuela de mais de 1.700 toneladas de perna de porco.

* Maio de 2018: o pagamento de 9 milhões de dólares para a compra de material de diálise foi bloqueado.

* Novembro 2018: A partir deste mês, o Banco da Inglaterra reteve 1,2 bilhão de dólares que o governo venezuelano havia depositado nessa entidade.”