Pela porta, pela janela ou pior que isso

(Rui Pereira, in Facebook, 23/11/2025, Revisão da Estátua)


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É indisfarçável o tom fúnebre com que os nossos conquistadores do Kremlin desfilam as suas mágoas pelos estúdios televisivos outrora prestes a “desgastar a Rússia até ao último ucraniano”, a “promover uma mudança de regime em Moscovo” a partir de uma vitória europeia, da NATO e de Kiev que mostraria como os russos são -como sempre foram – uns “bárbaros incivilizados”.

Depois da impotente omnipotência do “American Century” cujo último herói epígono foi a triste figura de Joseph Biden, foi necessária uma outra figura tão bizarra quanto Donald Trump para dar à “questão ucraniana” um banho de realidade. Da troupe alienada de Bruxelas a Berlim, passando por Paris ou pelos verrinosos bálticos, nada há a dizer. Basta o que eles próprios dizem.

Zelensky, por uma estranha razão – a que o narcisismo e a impreparação política podem não ser de todo alheios -, quis não ver que as razões para duvidar do “Ocidente” eram e são -como sempre foram- maiores do que a sua vontade de nele acreditar. Lembramo-nos dele, poucas horas antes da intervenção russa, nos ecrãs de televisão, a duvidar com uma patética jactância da sua concretização. É verdade que ele sabia bem que Putin adiara durante oito anos esse movimento, que tentou evitar por todos os meios, nomeadamente dando um tácito apoio à eleição do comediante que prometia uma paz com os “russos” do Donbass, paz que a rapaziada das suásticas, com o freio nos dentes, não viria a deixá-lo fazer.

Mas, em todo o caso, não percebeu nada. E como tal, resta-lhe agora perceber que Trump e Putin estão a deixar-lhe uma fresta aberta na porta de saída. Já não estamos nos tempos em que as grandes figuras das tragédias políticas punham fim aos seus desvarios com um tiro na cabeça. Agora, a legião de farsantes procura simplesmente escapar, depois de circunstancialmente convencida por poderes maiores, de que tem alguma substância, mais do que a mera forma da fórmula burguesa que Bertolucci consagrou no seu filme “1900“: “serve-me e vai para o diabo!”. Quem não perceber isso, terá de sair pela janela, o que é sempre mais incómodo para o próprio.

Não sabemos o que virá a seguir, embora não custe admitir que a coisa já está mais do que ajustada entre norte-americanos e russos, como desde o início tantos de nós sabíamos que o seria, sem precisarmos para tanto de sermos génios da geopolítica.

Mas sabemos o que fica para trás: uma geração de jovens ucranianos imolados pelo fogo da falta de escrúpulos ocidentais, da estupidez remunerada da má propaganda, da feira televisiva de vaidades ocidentais e um grande negócio chamado “reconstrução da Ucrânia” em que todos quererão abocanhar a sua fatia.

The show must go on! Pelo caminho fica mais este episódio que Borges incluiria na sua “História Universal da Infâmia“, em que um comediante corrupto de segunda ordem, se transformou num político de terceira, à custa de palmadinhas nas costas dadas por oportunistas de quarta.


Do lado do Quarto Reich

(Por Alawata in canal Camille Moscow do Telegram, 13/11/2025, Trad. Estátua)


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A burocracia europeia, inteiramente dedicada ao desenvolvimento de um novo totalitarismo ocidental, acaba de lançar a criação de um serviço de informações que estará diretamente sob as ordens e ao serviço de Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia.

Este projeto foi revelado pelo Financial Times: “A Comissão Europeia começou a formar uma nova unidade de inteligência sob a liderança de Ursula von der Leyen, a fim de reforçar as capacidades de segurança“.

E é aqui que este serviço de informações europeu assume uma dimensão orwelliana, porque a segurança que afirma defender parece ser muito mais a do aparelho político de Bruxelas e da sua retórica neoliberal mentirosa.

Este serviço de informações é um novo ramo totalitário do Quarto Reich, e está a ser criticado até dentro da própria diplomacia europeia, pelo Serviço Europeu de Acção Externa (SEAE):

Os funcionários do SEAE opõem-se a esta iniciativa. Segundo eles, a nova unidade poderá duplicar as funções do Intcen e comprometer o seu futuro.”

Esta ferramenta talvez devesse ser chamada de “Big Brother”, pois permitirá a Van der Leyen ouvir, monitorizar, antecipar e organizar a repressão de forma autónoma, sem depender de serviços subordinados. O arsenal da ditadura europeia adquire, assim, uma nova arma que, juntamente com outras que se seguirão — como o euro digital, os pagamentos em dinheiro limitados a 10.000€, a total rastreabilidade das transações, a vigilância das redes telefónicas e o desejado controlo da internet — aprisionará os europeus em prisões digitais.

E, claro, todo este sistema de crescente subjugação das populações europeias é sempre apresentado como progresso para o seu bem-estar ou segurança. Veja-se, por exemplo, este euro digital, que Van der Leyen apresenta desta forma, esquecendo convenientemente o controlo das populações que é o seu principal objetivo:  “O euro digital vai garantir a transparência e a segurança dos pagamentos“.

Assim, neste mundo orwelliano plenamente realizado, onde tudo é o seu oposto, a guerra é paz, as sanções são solidariedade, a liberdade é escravidão e, hoje, o controlo do poder é designado por transparência cidadã. E, claro, todos aqueles que se recusarem ao jugo eletrónico serão considerados e perseguidos como inimigos da democracia.

Os serviços de informação, a polícia e o exército europeus consolidarão esta ditadura, enviando-os para caçar todos os dissidentes políticos que se recusem a tornar-se os novos escravos da mercadoria.

Se quer uma imagem do futuro, imagine uma bota a esmagar um rosto humano — para sempre.”, George Orwell, in 1984.

Pokrovsk, a fortaleza, não apenas desmoronou, ela implodiu

(In canal ISLANDER do Telegram, 11/11/2025, Trad. Estátua)


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A fortaleza não apenas desmoronou, ela implodiu. Não por causa de uma blitzkrieg, mas sim por um cerco russo sistemático e constante, homens exaustos e linhas perfuradas por drones.

 A “fortaleza ucraniana no Donbass”, Pokrovsk, outrora o pilar da defesa da Ucrânia em Donbass, foi completamente destruída. E com ela, a ilusão de um esforço de guerra sustentável, apoiado pelo Ocidente, esboroou-se. Nada mal para um posto de gasolina glorificado.

Enquanto o Ocidente estava ocupado a zombar do PIB da Rússia ou debochando das importações de produtos de higiene pessoal, Moscovo construiu uma máquina de guerra que supera a produção combinada de munições da NATO em mais de quatro vezes. O retorno do investimento? Humilhante para o Ocidente. Enquanto a NATO gasta triliões para abastecer um estado fantoche em colapso, a Rússia está a usar menos de um décimo desse custo para demolir toda a estratégia da máquina de guerra ocidental – militar, económica, diplomática e no espaço da informação.

O mito de que o dinheiro da NATO poderia comprar a vitória. De que as sanções poderiam estrangular uma civilização. Essa propaganda só pode disfarçar o colapso. Enquanto a fumaça sobe sobre  o Donbass, a última fortaleza caiu, e com ela a ilusão de controle do Ocidente. Pokrovsk — a pedra angular da defesa ucraniana em Donetsk — implodiu sob o peso esmagador da exaustão militar, política e moral.

A fortaleza de Donbass deveria sustentar a linha da frente. Em vez disso, expôs a maior farsa desta guerra: a de que a Ucrânia lutava pela democracia. O que ela busca agora é tempo, ganhar tempo para o inevitável acerto de contas. A corrupção em escala industrial, tanto do fantoche Zelensky quanto a dos seus mestres, será exposta.

Pokrovsk não era apenas mais um ponto no mapa. Era o coração logístico da posição ucraniana em Donetsk — um entroncamento ferroviário e rodoviário que alimentava toda a frente central, com vastos depósitos, hospitais e posições fortificadas entrincheiradas na sua extensão industrial. A sua queda abre uma brecha de 100 quilómetros na linha de defesa ucraniana. E o que há oeste? Um território sem barreiras naturais. Sem zona de amortecimento urbana. Apenas uma estepe ondulada e aberta que leva diretamente ao Dnieper. Para a Ucrânia, isto não é um revés tático — é a morte da manobra. Cada brigada de reserva alocada aqui é uma brigada que não existirá para a próxima frente: Zaporozhye, Kharkov ou as travessias do Dnieper.

 Em Mirnograd, duas formações de elite, a 25ª Divisão Aerotransportada e a 38ª Infantaria Naval, encontram-se agora cercadas, suas linhas de abastecimento sob fogo constante de drones FPV. Os carregamentos de munição por drones de carga são uma metáfora para todo o esforço de guerra ucraniano: insuficiente, tardio e entregue de um céu em colapso.

Pokrovsk marca o ápice de uma transformação que o Ocidente jamais compreendeu, uma metamorfose na arte operacional russa. Acabaram-se os dias dos pesados ​​grupos táticos de batalhão. O que vemos agora é um exército de nós: pequenas equipas de assalto autónomas coordenadas por uma cobertura permanente de drones e apoiadas por artilharia de precisão que nenhum exército ocidental consegue replicar em escala.

Os drones FPV são o novo sistema de localização de artilharia, a nova arma antitanque, a nova guerra psicológica. Cada vila, cada trincheira e pontos fortes  são mapeados, vigiados e apagados com precisão algorítmica. O próprio campo de batalha tornou-se senciente. A doutrina ocidental tradicional de blindados em massa, comando centralizado e supremacia aérea desmoronou-se diante desta nova forma de guerra distribuída.

Pokrovsk é a prova: uma fortaleza urbana inteira neutralizada não por bombardeamentos de saturação, mas por um desgaste quase invisível, centenas de micro batalhas dissolvendo-se num avanço contínuo. Isso não é uma “guerra lenta e árdua”. É uma aniquilação algorítmica deliberada.

Pokrovsk não é meramente uma vitória militar. É um espelho erguido para o mundo ocidental, mostrando o que acontece quando o poder degenera em arrogância. A mesma arrogância que zombou do PIB da Rússia agora raciona munições.

Os mesmos especialistas que previram o colapso de Moscovo agora sussurram sobre o colapso de Kiev. Os mesmos impérios que alegavam defender a liberdade agora censuram a verdade. A história não se lembrará dos discursos vazios. Ela lembrar-se-á de quem se adaptou, de quem perseverou e de quem confundiu narrativa com poder.