Ventura e Garcia: teste de paternidade

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 31/03/2021)

Daniel Oliveira

Rui Rio tem um talento único para destruir o que de bom pensávamos dele. Julgávamos que não surfava na espuma dos dias, preservando-se para o longo prazo. Até que abriu uma conta no Twitter e percebemos que a sua circunspeção resultava de infoexclusão. Sabíamos que era corajoso perante o poder imenso do futebol. Até que convidou o maior acionista particular do Futebol Clube do Porto para se candidatar à terceira maior autarquia do país, onde esse clube tem o centro de estágios. Explicando que não havia problema, porque ao contrário do seu adversário não era conselheiro cultural do clube. Sabíamos que não era o rei da tática, mas tinha um rumo de que não se desviava ao primeiro susto. Até que, depois de passar meses a defender que o PSD estava ao centro, fez um acordo com a extrema-direita, nos Açores. O que parecia convicção era mera reação aos seus opositores internos. É isso que move Rui Rio: os seus opositores, sejam no partido, na imprensa ou no futebol.

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O convite das estruturas locais para Suzana Garcia liderar a lista do PSD à Câmara Municipal da Amadora mostra que, neste momento, PSD e Chega andam a pescar nas mesmas águas. A pré-candidata teve lugar cativo num programa da manhã de Manuel Luís Goucha – não sei se alguma vez se cruzou com Mário Machado – e sabemos como pensa. Divide o mundo entre as pessoas de bem e as minorias protegidas pelo politicamente correto. Sem desprimor para os chauffeurs de praça, que há muito foram ultrapassados pelos entertainers que desaguam na política, imagino que a TVI lhe pagasse à bandeirada.

Falava-se desta advogada para liderar a lista do Chega em Lisboa. Não deve ter aceitado e Ventura teve de se contentar com um senhor que tem como principal marco da sua longa vida cívica o comentário a uma transmissão em direto de um velório de uma menina de três anos morta pela sua mãe. Na Amadora, Suzana Garcia enfrentaria o candidato do Chega, dirigente de um dos 17 sindicatos de polícia. Para a direita, um dos concelhos mais multiculturais do país é um caso criminal. Já em Oeiras, convivem bem com quem foi condenado e cumpriu pena. É uma questão de estatuto.

A direção do PSD está a avaliar a proposta pública de candidatura – não deixa de ser estranho que primeiro se conheça o candidato, depois a opinião do partido. Terá ficado espantada ao conhecer as posições políticas da advogada. Prefiro pensar que estão apenas a avaliar as reações públicas ao anúncio para saber se não metem a pata na poça de novo. É aborrecido, mas menos preocupante, que a direção do maior partido da oposição seja calculista e sonsa do que tenha vivido num buraco nos últimos anos e desconheça as posições de uma das figuras mais mediáticas do país. E que se tornou mediática por causa dessas posições. Bem sei que Suzana Garcia falava num espaço pouco visto pelas “elites de Lisboa”, como diria Rui Rio. Mas há limites para o alheamento em relação ao país. E o país também são os programas da manhã, que lamentavelmente fazem opinião.

Antes Rui Rio anunciava candidatos que não sabiam que já o eram, agora anunciam-se candidatos que Rui Rio não sabe quem são. E André Ventura, que percebe que Suzana Garcia lhe rouba votos, aproveitou mais um momento de descoordenação no PSD para, num tweet, elogiar Rio pela evolução que esta escolha revela. Uma forma de condicionar a direção do PSD, levando-a a recusar uma candidata que associa os social-democratas ao Chega. Mas mesmo recuando, o mal está feito num partido desnorteado.

Ao contrário do que já ouvi de alguns antigos dirigentes do PSD, como Miguel Morgado, o André Ventura que concorreu à Câmara de Loures não era diferente deste. Seria virgem nas barbaridades racistas, quando o convidaram. Mas as suas primeiras declarações públicas contra toda a etnia cigana foram antes das eleições autárquicas. A tempo de o CDS ter desfeito a coligação para se demarcar do que antes era considerado inaceitável pela direita democrática. A tempo de o PSD manter o candidato e de Passos Coelho fazer questão de ir ao comício de Loures para lhe dar apoio pessoal e direto.

O Ventura que Pedro Passos Coelho laçou era este e é este que está desestruturar a direita portuguesa. Da mesma forma, se Rui Rio der asas e legitimidade a Suzana Garcia – que, não por acaso, prefere ir pelo PSD a um concelho menos relevante do que à capital pelo Chega –, ela não revelará nada que não se saiba já. Ventura não é filho de pai incógnito, Garcia também não o será. Se o PSD lançar mais um político de extrema-direita, já não faz sentido falar de crise da direita. É um suicídio.


A causa real do actual ataque à Maçonaria

(Amadeu Homem, in Facebook, 18/03/2021)

(No contexto deste artigo ver as recentes acusações de Rui Rio ao PS e à Maçonaria,  aqui).


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Tenho mais de quinze anos de exercício maçónico. No decurso desses quinze anos houve várias tentativas de ataque à Maçonaria. Que me lembre, nunca esses ataques foram desferidos num tempo em que o Poder fosse exercido pela Direita política. Tais ataques – e isto NÃO É UMA COINCIDÊNCIA – só surgiram quando o Partido Socialista exerceu o Poder.

Compreende-se! Tanto quanto me apercebo, a Maçonaria é maioritariamente constituída por republicanos e por defensores das soluções políticas que fazem gravitar o seu eixo ideológico em torno de um ideário de explícita Democracia Social, em todas as suas vertentes. São pouco expressivos numericamente os maçons que podem ser identificados como agentes de uma Direita política irrestrita. Ora, isto responde à questão do tempo e do modo.

A Direita ataca a Maçonaria porque quer atacar tudo o que, em seu entender, se mobiliza na defesa da atual solução governativa, interpretada por António Costa. Este é, pois, o tempo certo para atacar a Maçonaria.

Quanto ao modo, vai aproximadamente pelo mesmo caminho. Vem mesmo a calhar a redação de uma lei que sirva de ferrete aos mais decididos defensores da Democracia económica , social e ética. Esta lei vinha mesmo a calhar. Estabelecia a discriminação entre os maléficos servidores do Demo e os impolutos paladinos do Bem Público.

Claro que a lei não poderia colocar este opróbrio, vagamente antissemita, no “judaísmo maçónico” sem que o mesmo fosse feito à Opus Dei – que ficará parificada a uma espécie de Ku Klux Klan de má entranha, mas agora ao serviço de um projeto de domínio teocrático.

De tudo isto emergiria Rio como o grande campeão da política “descomprometida”. É a natural sequência do seu empenho contra o mundo do futebol! Rio é uma espécie de político que se julga bem comportado, inodoro, incolor e insípido relativamente a tudo o que possa ser militantemente passional. Rio concordaria com a Lei Seca se vivesse no tempo de Al Capone, só para dizer que é abstémio.

Rio é a versão mansa do portuense sem Futebol Clube do Porto e do putanheiro sem puta declarada. Rio é uma espécie de contra-menino-Reboredo, por se supor demasiadamente Harry Potter. Claro que quando o Poder se escancara, Rio toma calores, ganha tesão e mete-se com a tal puta que diz repudiar: foi o que aconteceu nos Açores, quando meteu na cama dele o Chega! E então o Harry Potter converte-se na reciclagem infantil do ladrão de ninhos…

Dir-me-ão que serão outras as motivações do gajo do PAN. Mas com esse nem vou perder tempo. É apenas um idiota.


A alegria de Rui Rio

(In Blog O Jumento, 27/11/2020)

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Rui Rio dá ares de quem ganhou um brinquedo novo, parece uma criança a quem ofereceram a primeira bicicleta, finalmente sente-se feliz porque consegue dar ares de líder do PSD. Não lhe importa que tenha conseguido dar ares de líder porque a Catarina Martins lhe emprestou a prancha de bodyboard (surf é demais para as suas capacidades) enquanto do outro lado o André Ventura o segurava para aparecer minimamente equilibrado para a fotografia. 

Não lhe importou que tenha sido uma figura secundária no debate do Novo Banco, não se incomodou de a sua cambalhota ter sido sincronizada com a do Ventura, o que o levou a pensar que afinal o espelho estava enganado, foi o momento de glória proporcionado pelo Novo Banco. O outro andava de chanatas enquanto pôs fim ao BES, este anda de botas cardadas quando dá o pontapé no Novo Banco. 

Mas o mais curioso é ver um ecrã cheio de gente engalfinhada para aparecer ao lado do líder. É a abordagem pacóvia muito típica, uns querem dizer na terra que são importantes porque têm direito a estar atrás do líder, outros aproveitam a foto para meter no Facebook do PSD da sua aldeia. À frente deles um líder excitado berra e como acha que o seu sorriso é lindo não usa máscara, porque deve achar que os portugueses preferem ler nos lábios. 

Este é o senhor que revelou não ter classe nenhuma ao abordar a questão do congresso do PCP. Mas no mesmo telejornal vejo imagens do congresso do PCP, um controlo rigoroso nas entradas, distanciamento social, micros desinfetados após todas as intervenções, todas as cadeiras desinfetadas no intervalo para o jantar. 

Pessoalmente achei que a realização da Festa do Avante revelou alguma falta de bom senso e que o congresso tem muita teimosia ideológica. Mas recuso condenar a realização do congresso, como não condenei outro congresso e manifestações em tempos de pandemia e organizados sem um mínimo de seriedade. O PCP tem direito a fazer o uso dos seus direitos constitucionais e questioná-los, ainda que com os truques pacóvios do Rui Rio, só merece uma condenação. 

Mas depois de ver este Rui Rio acompanhado de um rebanho de gente em menos de dois metros quadrados acho que este palerma deveria pensar um pouco antes de abrir a boca.