Escola pública, missas e casas de banho

(Fernanda Câncio, In Diário de Notícias, 24/08/2019)

“Eu quero ter aulas sobre género.” Imagine que em Portugal uma criança de 6 anos chegava a casa da escola (pública) com uma pulseira com estes dizeres. E que antes a direção da mesma escola já tinha ligado a convocar os encarregados de educação da criança para uma reunião para perguntar porque é que não a tinham inscrito naquela disciplina opcional – seria das únicas estudantes para quem era preciso “arranjar” uma ocupação alternativa e a escola preferia não ter de o fazer.

Imagina? É certo e sabido que teríamos deputados do CDS e do PSD a rasgar as vestes denunciando “proselitismo militante” da “ideologia de género” nas “nossas escolas, com as nossas crianças”. Choveriam artigos de opinião, cada um mais tremendista, menos informado e mais desonesto do que o outro, sobre o “totalitarismo de esquerda”, exigências de demissões – da direção da escola, do ministro da tutela, sabe-se lá mais de quem -, ameaças de processos em tribunal, posts com desenhos porno japoneses pretendendo representar o que se passaria nas ditas aulas e alegações de que o objetivo seria “sexualizar as crianças” ou mesmo introduzi-las à noção de orgia.

É que nem precisa de imaginar: tudo isto sucedeu nos últimos meses. Bastou uma organização de jovens LGBT ir a uma escola secundária fazer uma palestra à qual só assistiram os alunos que se inscreveram com autorização dos pais – uma palestra como tantas outras que ocorrem nas escolas há décadas, sob os auspícios de planos estatais que visam cumprir a Constituição, tendo igualdade, género e sexualidade como tema -, ser publicada uma lei sobre identidade de género com disposições sobre proteção de crianças e jovens transgénero na escola, e um despacho que visa operacionalizar essas disposições.

E não, não é que haja uma “disciplina de género” com professores escolhidos por organizações proselitistas mas pagos pelo Estado exclusivamente para a ministrar, nem pulseiras dessa disciplina postas em crianças mais telefonemas para pressionar os pais a inscrevê-las na dita. Não; isso sucede mesmo é com as aulas de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC).

Ainda este mês, no Twitter, a propósito do facto de o partido Livre propor no seu programa o fim da disciplina de Educação Moral e Religiosa (católica ou outra qualquer) na escola pública, dois pais, de crianças diferentes, denunciaram o facto de os filhos, alunos do primeiro ciclo do ensino básico de uma determinada escola lisboeta, lhes terem aparecido em casa com pulseirinhas onde se lia “Eu quero ter EMR Católica” – pulseiras cuja existência e colocação a crianças em escolas públicas já foi denunciada algumas vezes ao longo dos anos.

E, pior, um dos miúdos foi várias vezes colocado na aula dessa disciplina apesar de o pai, no ato de inscrição, não ter escolhido essa opção. Narra este encarregado de educação, que identificou a escola em causa: “Os professores de cada turma são postos perante a circunstância de terem que ocupar as crianças que não vão a EMRC durante aquele período. Não havendo qualquer programação alternativa, não podendo as crianças ir para o recreio, são “convidadas” a ficar na sala.” Isto porque, diz, a disciplina foi colocada “no meio do horário”, e não no final, como deveria acontecer com uma disciplina facultativa. Assim, prossegue a explicação, “na reunião no início do ano letivo dos pais com a direção do agrupamento o tom é logo dado: os pais são logo pressionados com a apresentação do facto de a escola não ter alternativa e de ser uma grande perturbação o facto de haver crianças sem ocupação”.

Será que este abuso de poder e esta inaceitável pressão incomodam os mesmos que destrambelham com uma sessão opcional e sem custos para o Estado de uma conversa sobre igualdade numa escola secundária ou com a possibilidade de crianças e jovens transgénero poderem ter acesso a casas de banho em que se sintam protegidos? Não será o caso, já que nunca mostraram incómodo com a celebração periodicamente denunciada de missas católicas nas escolas públicas, em óbvia violação da Lei de Liberdade Religiosa – que estabelece não poder a escola ser confessional nem alguém ser obrigado a assistir a atos de culto – e da Constituição, que interdita o questionamento das pessoas sobre a sua religião, a não ser para efeitos estatísticos e com garantia de anonimato, princípio claramente violado quando um encarregado de educação é perguntado sobre se permite que um aluno assista à missa ou, caso não seja questionado, se vê obrigado a comunicar à escola que não quer que tal suceda.

Se a existência de disciplinas de religião na escola pública, ministradas por pessoas que a legislação especifica serem contratadas pelo Estado mas escolhidas pelas igrejas cujo culto vão “ensinar” – a partir de um programa da exclusiva responsabilidade dessas mesmas igrejas – já surge como um atentado à neutralidade religiosa do Estado e um financiamento direto das igrejas, sobretudo da católica, o que, como se vê, sucede na prática é uma repugnante utilização do ensino público como meio de evangelização e de acesso das igrejas a todas as crianças, numa efetiva e aqui sim totalitária imposição de ideologia.

Aliás, mesmo no que respeita às crianças cujos pais as inscrevem na disciplina religiosa cabe perguntar se os programas previstos para as mesmas são apropriados ao seu livre e saudável desenvolvimento pessoal e os conteúdos apropriados para a respetiva idade.

Não é claro que assim seja: uma consulta ao programa de EMR católica no site da Direção- Geral da Educação descobre que este prevê que se fale a crianças do segundo ano do ensino básico, com 7 anos, do nascimento de Jesus explicando que a sua mãe era casada com José mas teve um filho que não era dele porque “Deus amava Maria e escolheu-a para ser a mãe de Jesus”, assim como de crucificação e portanto de tortura, de morte e de ressurreição, prevendo-se que estas vejam imagens alusivas. Havendo tanto deputado nervoso com falar-se de sexo e orientação sexual nas escolas, custa a perceber que não incomode gente tão conservadora e ciosa da “inocência” saber que miúdos de 7 anos são, a expensas do Estado, confrontados com a ideia de que é bom e louvável uma mulher casada ou numa relação “de compromisso” ter um filho que não do marido/companheiro e por meios não naturais, que é natural o marido achar bem e que esse filho, depois de torturado e morto de forma atroz, pôde voltar à vida.

Já a parte sobre “diversidade” correspondente ao quarto ano de escolaridade deve deixar felizes esses deputados, quando, embora estabelecendo que “todos são iguais em dignidade e direitos” e “discriminação é inaceitável”, adverte que “nem tudo o que é diferente é necessariamente bom”, perguntando: “A diferença não se quer impor a ninguém?”, “a diferença não se isola, não cria guetos, não exerce violência sobre os outros?” Que exemplos destas diferenças “más” devem ser dados a crianças de 8 anos e sobretudo que noção de norma está subjacente à diferença o programa não diz. É perguntar aos deputados.

As praxes e as Universidades

(Carlos Esperança, 05/06/2019)

Neste antigo reino, onde a clerezia era influente, foi criada a Universidade que os padres dominavam. A teologia era a ciência oculta que a engrandecia, a única sem método nem objeto. Os padres, geralmente cultos, dominavam o conhecimento, que divulgavam com a superstição, à mistura, vigiando as heresias e proscrevendo os réprobos.

Durante séculos foi única, os hereges eram banidos e tinha lugar de relevo a fé. Depois de numerosas vicissitudes foi arejada pelos ventos do liberalismo e a laicidade penetrou naquele antro com odor a sacristia.

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O reino passou a República e a laicidade, que era a prática, a obrigação. Veio a ditadura depois e, mais tarde, uma democracia moderna. No eterno retorno, as vestes talares dos docentes e discentes foram o veículo da recuperação das piores tradições e da criação de outras que contaminaram numerosas escolas, às vezes em vãos de escada, com cursos exóticos e diplomas por equivalência, sem dispensarem as praxes.

As cerimónias iniciáticas substituíram o vinho pela cerveja na consagração académica, e o sexo, simulado ou explícito, saiu à rua. Há escolas onde uma caloira exibe um mamilo por um copo de cerveja, os dois por outra bebida, com a saciedade a privar do êxtase a turba gulosa, enquanto um colega exibe o traseiro, de borla, perante o fastio geral, antes de cair de bêbedo.

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A entrada faz-se com carros roubados a supermercados, desfilando de pijama e cartazes vexatórios pelas ruas das cidades, e a saída com a bênção das pastas. Da cerveja à água benta, em três anos de Bolonha, ficam fotos que comprometem e desatinos que pontuam a futilidade de atos embaraçosos, na ausência de causas para quem se presta a humilhar e a ser humilhado num percurso onde a ciência devia ser o objetivo e a genuflexão uma postura a evitar.

Mas há coisa mais bonita do que ver estudantes em coma alcoólico ou enlevados com a aspersão da água benta na cabeça, na batina e na pasta?

Ámen.


Este “Don” Clemente não tem jeito mesmo!

(Joaquim Vassalo Abreu, 18/05/2019)

Don Clemente

Este título fui-o buscar àquela célebre canção do Adoniran Barbosa acerca do Nicola e do Bairro da Bexiga! É que, tal como o Nicola, não leva jeito mesmo!

É que o “Don” não acerta uma! Se fala da sexualidade o seu chefe de imediato o contradiz! Se fala das mães solteiras idem, idem aspas! Se fala da sua ausência de compaixão, lá vem o Francisco que até é Jesuíta pô-lo na linha! E não aprende…

Quer dizer: não aprende ou não obedece?

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Devo referir que apesar de não me considerar Católico, e de facto não sou, considero-me, tanto pela educação que levei, como com o que ouvi, li e aprendi, um Cristão ( enquanto seguidor dos ensinamentos de Jesus Cristo) nada alinhado e, desejo sublinhar, não sou anti clerical! Respeito muito quem acredita mas eu, como dizia Atahualpa Yupanki, também sou “ dudoso”!

Não me vou alongar com esta nova diatribe do “Don”, que talvez por assim ser apelidado pensará ser imune à crítica e, pior ainda, ter direito ao disparate e à agressão intelectual a todos os que pensam e assumidamente sabem o que é isso da democracia e da cidadania, ao contrário dele que, sabemos lá porque cargas de água, considera o “ Basta” do tal Ventura uma referência!

E porque a memória escrita é a única que nunca se apaga, eu vou reproduzir um texto que acerca do dito “Don” publiquei nos inícios de 2018! Para quem leu para rememorar e quem não leu para apreciar! Aqui vai: Carta Aberta ao Cidadão Manuel Clemente – 09/02/2018!

“…Pois que isso de “Don” e “Sir” é mais para Espanhóis e Ingleses!

Quero, antes de mais, contar-lhe uma coisa da qual, eu presumo, deve ter ouvido falar: quando eu era pequenino e mesmo já jovem, lá da minha aldeia ouvia as pessoas dizerem que os Comunistas comiam criancinhas, mas pior ainda, logo ao pequeno almoço! Tem lembrança?

É que a verdade é que eu nunca ouvi ninguém, ou ligada ao regime da altura ou da própria Igreja Católica, isso desmentirem. Mas eu também desde pequeno sabia que tal não era verdade. Porquê? Porque o meu Pai, que era Guarda Fiscal, foi para o Alentejo profundo em princípios dos anos cinquenta, e nós ainda pequeninos com ele, e tal não verificou! O que constatou foi precisamente o contrário: dificilmente comiam…e eram Comunistas!

Mas, muito mais tarde, vim e viemos a saber que afinal, pois…

Isto para lhe dizer, Senhor Manuel Clemente, que V.Exª, que parece que escreve livros e mostra ser pessoa culta e dizem que Filósofo até, quando sai do seu pequeno mundo, quando o seu pensamento extravasa para aquilo que não sabe, só diz asneiras! Sim, asneiradas surreais mesmo!E não mostra ter sentido da penitência…E eu também me lembro, quando era pequeno também, que tínhamos que ir confessar-nos por “pensamentos, por palavras, por actos e omissões”.Lembra-se? Bem prega Frei Tomás, também se dizia lá pela aldeia!

E porquê? Porque V.Exª, que parece que jurou votos de castidade, que sabe V.Exª de sexo? Ficou-se pela leitura, não foi? Porque V.Exª, que parece que jurou ser celibatário e abstencionista em relação a sexo, que sabe V.Exª de casamento, de matrimónios, de casais, de filhos, de desavenças, de incompatibilidades várias, de violências até, para acerca disso perorar e, pior ainda, aconselhar e mesmo ditar lei? Que sabe você? Que experiência tem? É que nem sequer a da “supernanni” que, tão jovem ainda, parece que queria ensinar casais a educar filhos pequenos!

Quer dizer, segundo bem percebi: uma esposa casou pela Igreja, ponto um. O marido tinha sido um grandessíssimo filho da mãe para ela e ela, não aguentando mais tanta irresponsabilidade, tanto desamor e tanta violência, mesmo física, pediu a separação, o divórcio, ponto dois. Aceite e consumado, dando um tempo de reserva e sentindo-se ainda viva para a vida, partiu para um novo matrimónio, ponto três. Pois até ele, o marido, de tão arrependido que estava, até achou a coisa mais que natural, mas a Igreja não! Porquê?

Porque o matrimónio é indissolúvel, diz a Igreja. Sendo, portanto, o mesmo indissolúvel, em terminado fica a pessoa sujeita à infelicidade! Ou, na sua tese enquanto “Don”, à abstinência! À anti- naturalidade. Faz isto algum sentido? Será Você humano?

Isto é ficção e é um exemplo apenas , mas um exemplo que, toda a gente sabe, existe por aí às carradas. Abstinência enquanto os doutos sabedores da misericórdia Divina, da vida do além e dos ensinamentos de Jesus Cristo, um Cristo que até Maria Madalena perdoou e mandou em paz? Abstinência quando até o Papa Francisco os manda ser mais contidos, caritativos e compreensivos? Faz isto algum sentido?

Eu sei que o Cidadão Manuel Clemente, embora seja cidadão, não consegue despir a farda do “Don”. É um problema seu, meu caro,. É um problema seu.

Como é um problema seu o de, enquanto os Leigos da sua Igreja lutam contra a pobreza, contra a exclusão e tudo fazem para ajudar essas pessoas para quem a vida foi e é madrasta, se posicionar do lado dos poderosos e mandar palpites, políticos até, contra quem deseja um mínimo de dignidade no seu trabalho e anseia por melhores salários e particularmente o mínimo. Agente ouve e lê, meu caro “Don”.

Todos nós os que temos como sentido da Liberdade, o vivermos a vida que entendermos desde que essa nossa Liberdade não colida com a de qualquer semelhante, não aceitamos nem nunca conseguiremos entender esses vossos dogmas, dogmas anti-naturais porque agarrados a conceitos quase medievais, que apenas servem para restringir essa tal Liberdade, a Liberdade a que todos e qualquer um têm direito. E à Felicidade!

O senhor Cidadão Manuel Clemente tem direito a toda sua reacionarice, tem todo o direito e faz parte da sua Liberdade. Mas quando a sua Liberdade colide com a minha, com a nossa e de toda a gente, a de sermos Felizes ou procurarmos a nossa Felicidade, desculpe, e mais, cumprirmos a missão que nos foi destinada na passagem por este mundo, a de melhorarmos e continuarmos a vida da espécie humana, o Senhor está a mais e não pode ser levado a sério!

Ao menos, caro “Don”, siga o pensamento do Papa! É o mínimo que lhe rogamos…”

E mais não acrescento